As formas pelas quais a sexualidade humana é experimentada são construídas socialmente e constituem traços culturais: códigos de comportamento são desenvolvidos e existe uma negociação entre os indivíduos para a fruição dessa experiência, da qual faz parte a prostituição.
A relação entre a experiência da sexualidade e prostituição abrange uma série de fatores. Não só a maneira como as pessoas prostituídas desenvolvem os usos de seus corpos chama a atenção, mas as razões que a levaram a exercer a profissão, as pulsões sexuais daqueles que consomem a prostituição, os motivos desse consumo e a existência de pessoas que agenciam e tiram proveito da prática também possuem relevância porque revelam muito a respeito da percepção social acerca da atividade.
O ato de trocar sexo por dinheiro é considerado indecente e indigno, uma vez que ceder o corpo para satisfazer prazeres alheios (prazeres esses que deveriam ser controlados e restritos ao âmbito privado, de acordo com a cultura ocidental, sobretudo desde a consolidação dos valores burgueses) é condição desviante, mormente para mulheres.
Nesse contexto, a (o) prostituta (a) é um ser cuja moralidade é maculada, tendo sucumbido à promiscuidade. Mesmo assim, a existência da zona de meretrício e das casas de prostituição é um fato amplamente conhecido e tolerado pela sociedade.
Trata-se de uma realidade que todos conhecem e igualmente ignoram. À pessoa prostituída restam o estigma, a violência, o abuso policial. É como se houvesse um pacto coletivo, no qual a todos é permitido julgar, a muitos é dado explorar, tantos outros vitimizam a pessoa prostituída, mas ninguém se propõe a pensar nos problemas intrínsecos e extrínsecos da ocupação, nem nas peculiaridades da prática.
O trabalho do Estado brasileiro para o enfrentamento da questão também se mostra insatisfatório, pois a prostituição é vista ou como um problema de saúde pública, no que concerne a doenças sexualmente transmissíveis, ou como uma questão policial, pois todo o seu entorno é considerado delituoso. O abolicionismo vigente em nosso país é ineficaz no combate da exploração sexual, na diminuição do contingente de profissionais do sexo e do crime correlato à prostituição. Além disso, apesar de não ser proibida penalmente, existe uma marca de delinquência criminal na prostituição, haja vista funcionar quase sempre numa rede de ilegalidade.
A criminalização do lenocínio opera como um dos fatores que mantém a atividade e seus agentes principais invisíveis ao Direito, porque, muito embora a prostituição tenha sido
reconhecida enquanto ocupação pelo MTE, o acesso à justiça, à seguridade social e a melhores condições de trabalho encontram óbice no fato de que o local de trabalho da pessoa prostituída e seus possíveis empregadores ou agentes intermediadores existem no âmbito da ilegalidade.
Sob este contexto, o Projeto de Lei Gabriela Leite ganha bastante importância, uma vez que pretende combater os efeitos negativos da prostituição, diferenciando-a da exploração sexual, a fim de promover a descriminalização do lenocínio, quando a prostituição for exercida por pessoas maiores de idade, com pleno discernimento, ausentes violência e grave ameaça nas condutas de favorecimento e agenciamento, mesmo havendo finalidade de lucro.
Com efeito, a manutenção dos tipos penais correspondentes ao lenocínio, tendo como fundamento a defesa da moralidade pública não encontra razão de ser, uma vez que, em primeiro lugar, para que um bem jurídico receba o manto protetor do Direito Penal, é preciso que isso ocorra apenas em situações excepcionais, realmente necessárias para o convívio saudável da comunidade social, e que haja dano ou perigo a terceiros, em atendimento aos princípios da intervenção mínima, da fragmentariedade e da lesividade. Em segundo lugar, não é permitido ao Estado estabelecer uma moral a ser adotada pela sociedade.
Além disso, a adequação social desses tipos penais dá sinais de que a atividade não afeta a vida em sociedade a ponto de legitimar a sua criminalização. Para a propositura, a manutenção dos delitos acessórios à prostituição contribui para colocar o trabalhador do sexo em situação de clandestinidade, motivo pelo qual é sugerida uma regulamentação, cujo instrumento principal é a descriminalização dessas condutas.
Os objetivos são a desestigmatização da profissão, o reconhecimento dos direitos da pessoa prostituída enquanto trabalhadora, a garantia do acesso à saúde e à seguridade social, a mitigação da prática de outros delitos, da violência dos agenciadores e da polícia, a diminuição da exploração sexual e do tráfico de seres humanos.
Entretanto, essa não é uma tarefa fácil. Na realidade, exige-se, para a regulamentação, o esforço conjunto de muitas áreas, para além da penal. A experiência de outros países que efetivaram a regulamentação demonstra que houve benefícios, mas que ainda há conquistas no porvir.
Países como a Alemanha e Holanda enfrentam problemas com relação ao tráfico de pessoas e o oligopólio dos empresários do sexo, além de ainda persistir um grande preconceito com relação à prostituição, mas há registro de um aumento nos ganhos das
profissionais, na diminuição de casos de vício em drogas e redução na transmissão de doenças sexualmente transmissíveis.
Vale ressaltar que a prostituição de que trata o Projeto de Lei Gabriela Leite é uma atividade tomada como profissão. Sabe-se que há pessoas em situação de desespero, viciadas em droga ou extremamente pobres, por exemplo, cuja necessidade de sobrevivência é a única motivação para a decisão de trocar sexo por dinheiro. A prostituição, nesses casos, é meio para uma sobrevida e não um meio de vida. Não faz sentido advogar pela prostituição como uma forma de alcançar a própria dignidade humana em situações como essas, uma vez que essa prática, ao lado da fome, do vício e do desespero, é justamente o que retira a dignidade das pessoas que a ela se submetem.
Todavia, não é o ato sexual praticado pela troca de vantagens que desumaniza a pessoa, mas a toda a sua situação precária de vida, que a leva a realizar esse ato. É preciso separar essa circunstância da prostituição profissional, que deve ser afastada da exploração sexual de uma maneira geral, pois há diferenças substanciais entre as duas práticas. Em uma, há exercício de autonomia; noutra, há um ser humano incapaz de pronunciar seu consentimento, seja em função de violência, grave ameaça, fraude, incapacidade civil ou vulnerabilidade social.
O Projeto de Lei Gabriela Leite, ao propor a revogação do tipo penais do lenocínio, como um dos instrumentos de regulamentação, atenta para o do fato de que o Direito Penal nem sempre soluciona problemas de alçada social, que atingem ao sistema penal. Ignorar a existência da prostituição dentro de uma rede de suporte é virar as costas para o trabalhador do sexo, que deveria ser o centro da proteção jurídica, sendo visto não como uma vítima, mas como um ser autônomo que tem direito ao pleno exercício de sua profissão.