A jurisprudência católica produzida entre os séculos XVI e XVIII foi um dos meios mais efeti- vos com que se tocar essas finalidades. Entre tantas matérias específicas, ela regulava sobre aspectos fundamentais da aparência e da conservação de igrejas, tudo em nome do decoro e da decência da Casa do Senhor. Sob a autoridade ética e artística desses preceitos, procu- rava-se garantir a dignidade devida ao templo, não sendo permitido na arquitetura religiosa nada que comprometesse a representação e o caráter de um lugar sagrado, a estar sempre decente, limpo e perfeito.
Regulações desse tipo, como as Constituições Sinodais e Provinciais, estiveram subordina- das ao Direito Canônico e, após 1563, estritamente conformadas aos decretos do Sagrado
Concílio Tridentino; confirmam, em muitas passagens relativas à fábrica eclesiástica, a prin-
cipal normativa arquitetônica descendente do Concílio, as autorizadíssimas Instrucciones de Carlos Borromeu.
Apesar de logo terem sido aprovados pela Coroa portuguesa83, não foi fácil aplicar imedia- tamente em Portugal os decretos tridentinos. Houve resistência interna nos Bispados por-
83 O Breve “Sacri Tridentini Concilii” foi dirigido a D. Sebastião pelo sumo pontífice, acompanhado de um
exemplar dos decretos do concílio. Em 3 de junho de 1564, foi emitida a Bula “Benedictus Deus”, pelo Papa Pio IV, que confirmava todas as matérias conciliares e decretava seu cumprimento. Em Portugal, vária legislação foi redigida com fins a efetivar os decretos: “20 de Junho de 1564: alvará régio que concede ao impressor Francisco Correia o privilégio de imprimir e vender em Portugal os textos do con- cílio de Trento, tanto em latim como em português; 29 de Agosto de 1564: carta patente do cardeal D. Henrique estabelecendo que fosse dado conhecimento aos fiéis, em todo o reino, das determinações conciliares, para tal efeito impressas em Português; 12 de Setembro de 1564: alvará de D. Sebastião (ainda sob a regência do cardeal D. Henrique), ordenando às justiças régias que dessem todo o favor e ajuda ao cumprimento dos decretos do concílio tridentino; 13 de Setembro de 1564: carta do regente (cardeal D. Henrique) a todos os prelados do reino e império comunicando a recepção dos decretos conciliares e recomendando a sua publicação, logo que tivessem em seu poder a versão portuguesa”. Cf. VALLE, Teresa Leonor M. Da Igreja Combatente à Igreja Triunfante. Broteria, Cristianismo e Cultura, Lisboa, v. 157, n. 5, nov. 2003, p. 329-330. Sobre aceitação dos decretos tridentinos, e a posterior publi- cação de várias constituições sinodais que os difundiam, cf. também GONÇALVES, Flávio. A legislação sinodal portuguesa da contra-reforma e a arte religiosa. In: ___. História da arte, iconografia e crítica. Lisboa: Imprensa Nacional/ Casa da Moeda, 1990, p. 111-114. (Artes e Artistas).
tugueses e, para vencer este desafio, foi decisiva a participação de Frei Bartolomeu dos Mártires, Arcebispo e Senhor de Braga, Primaz das Espanhas, alcunhado como o “Borromeu português”84. O renomado Frei participou ativamente do Concílio e, para além de ter sido reconhecido durante as reuniões em Trento como um dos mais brilhantes conciliantes (elo- giado na ocasião pelas virtudes da eloqüência e da prudência), era amigo pessoal de Carlos Borromeu. O santo milanês teria sido um imitador de Frei Bartolomeu dos Mártires, como confessou em carta de 1565: “[…] tenho-vos continuamente diante dos meus olhos, e tomei como modelo da minha vida, virtuosa e louvável sob todos os aspectos”. Conforme a biografia do santo, Carlos Borromeu tinha sempre em mãos o Stymulus pastorum, uma das obras mais significativas escritas pelo Arcebispo bracarense85
.
Fr. Bartolomeu cultivava as virtudes artísticas. Para além das obras reformadas ou levantadas pelo Frei, como a Igreja e o Colégio de São Paulo, em Braga, ou o Convento da Ordem de
São Domingos, em Viana do Castelo, onde está sepultado, Frei Bartolomeu esperava que
durante o Concílio de Trento fossem ajuizados preceitos excelentes não apenas para reformar a doutrina, mas também a fábrica artística e edilícia. Ficou entusiasmado com os resultados das últimas reuniões do Concílio, dentre as quais aquela que decretou a famosa normativa a respeito das imagens:
Efectivamente chegou a hora da misericórdia e o Senhor derramou os seus te- souros sobre o Concílio. Pois, nas três últimas sessões, celebradas de 15 de julho a 4 de Dezembro, promulgaram-se mais e melhores decretos de reforma do que se haviam publicado durante todo o resto do Concílio. Por isso, o Concílio encerrou-se a 4 de dezembro por entre uma indescritível alegria e concórdia86
.
84 Agradeço as referências sobre Frei Bartolomeu dos Mártires feitas por Vitor Serrão e Caio Boschi.
Bartolomeu dos Mártires nasceu em maio de 1514, filho de Maria Correa e Domingos Fernandes, na comarca de São Vicente, Lisboa, durante o reinado de D. Manuel, e faleceu em 1590. Tomou o hábito de São Domingos, e foi lente de Artes, Teologia e Gramática. Estudou no Colégio de Artes de S. Do- mingos de Lisboa, onde também foi graduado Mestre. Foi pregador apostólico. Tomou a divisa “ardere
et lucere”, de João 5: 35, como lema de vida, com o que Cristo significou as obrigações do verdadeiro
pregador evangélico. Foi Prior do Convento de S. Domingos em Benfica, Arcebispo de Braga e Primaz das Espanhas, a principal figura portuguesa no Concílio de Trento. Celebrou sínodos em Braga logo após o Concílio, como Borromeu em Milão, o maior modelo de aplicação dos decretos tridentinos. Cf.
VITA DI SAN CARLO BORROMEO. Prete Cardinale del titolo di Santa Maria Prassede Arciuescouo di
Milano. Scritta dal Dottore Gio. Pietro Giussano Nobile Milanese. Et dalla Congregatione delli Oblati di S. Ambrogio dedicata alla santità di N. S. Papa Paolo Qvinto. In Roma Nella Stamperia della Camera Apostolica. 1610. Com Privilegi, & Autorità de’ SS. Superiori. Libro Secondo, Cap. VI, “Dal progresso nel gouerno della sua Chiesa”, p. 73; e também Libro Primo, Cap. VIII, “Di quello, ch’egli fece dopò la conchiusione del sacro Concilio, e de suoi progessi nella vita spirituale”, e também ROLO, Raul de Almeida. Venerável D. Fr. Bartolomeu dos Mártires; o arcebispo santo. Torres Novas: Almondina, 1957.
85 Cf. ROLO, Raul de Almeida. Venerável D. Fr. Bartolomeu dos Mártires; o arcebispo santo, p. 18-19. 86 BARTOLOMEU DE MARTYR. Collecta. In: Opera Omnia (ed. Inguimbert), II, 437, apud ROLO, Raul
Um pouco antes, ainda no último ano do Concílio, mais precisamente em 20 de fevereiro de 1563, Frei Bartolomeu redigiu de Trento uma carta bastante interessante endereçada ao Vi- gário do Convento de São Domingos de Viana, o D. Fr. Jerônimo Borges, pela qual se verifica o discurso ponderado sobre as “habilidades para o edifício de pedra e cal”. Frei Bartolomeu elogiou o “engenho” de Frei Jerônimo, e fez alusão ao engenho edificativo como Dom Divino, ou Natural, o primeiro dos três tipos definidos por Emanuele Tesauro:
Vossa Reverência até agora não me quis fazer caridade de me mandar novas suas e de Viana [da Foz do Lima, atual Viana do Castelo]. Por isso justo é que eu comece, pois sou o que ganhei em Vossa Reverência vir pera essa terra, com saber certo quanto há-de-ganhar as almas dessa comarca com sua doutrina e conversação. E, além dos interesses no edifício espiritual, que é o principal, dizem-me que também Vossa Reverência tem particular habili- dade pera o edificio de pedra e cal. E por particular mercê de Deus tenho que os princípios dessa casa se entregassem a pessoa que, juntamente com o espírito e zelo de Deus, tenha engenho pera obras, porque daqui nacerá que o espírito de Deus temperará o engenho edificativo e não permitirá que seja supérfluo, mas que se edifique u[m]a casa que em algú[m]a maneira cheire à santa probreza […]87.
Fr. Bartolomeu foi um dos Arcebispos mais empenhados em acionar de pronto os decretos tridentinos, mas, como se disse, encontrou resistência em Portugal88
. O próprio Papa Pio V foi levado a escrever uma Carta endereçada ao Cardeal lusitano, D. Henrique, em 29 de maio de 1570, em que nela conferia livres poderes a Fr. Bartolomeu para, apesar das insubordi- nações locais, “proceder à execução do Concílio de Trento e urgir o cumprimento das suas sentenças”:
Soubemos, com amargura de alma, que os nossos, aliás, amados filhos, De- cano, Cónegos e Capítulo e outros beneficiados e clérigos da Igreja e cidade de Braga, em parte para impedirem a execução dos decretos do Concílio de Trento, em parte para se eximirem às penas e correcção dos seus excessos, naõ se envergonharam de recusar o nosso Venerável Irmão Bartolomeu, Ar- cebispo de Braga […] Mandamos anular e destruir essas disposições e pe- las presentes letras apostólicas estatuímos e mandamos que pessoa alguma eclesiástica de qualquer estado, grau ou condição, ou Cabido, comunidade ou Colegiada que seja, da cidade e diocese de Braga […], possa alegar ou re-
de Almeida. O papado e os papas na doutrina e na vida de Fr. Bartolomeu dos Mártires. Separata de
Didaskalia, vol. XI, 1981, p. 270.
87 SOUSA, (Frei) Luís de. A Vida de D. Frei Bartolomeu dos Mártires [1619]. Lisboa: Imprensa Nacional/
Casa da Moeda, 1984. L. II, Cap. XIV, “Que contem úa carta que o Arcebispo escreveu ao vigário do seu Convento novo de Santa Cruz de Viana”, Trento, 20 fev. 1563, p. 205-207.
88 Já nas primeiras visitas que desempenhou em sua Diocese, a mando do Sagrado Concílio para re-
cusar o Arcebispo como suspeito e eximir-se à sua jurisdição, de forma que, não obstante todas as recusas e suspeitas, ele possa livre e licitamente, por si ou pelos seus oficiais, proceder à execução do Concílio de Trento e urgir o cumprimento das suas sentenças89
.
O âmbito, e também a ambição, dos poderes eclesiásticos era delicado, e o labor de caráter militante contra as resistências internas da Igreja portuguesa foi fundamental para conduzir a consolidação das regras novamente estabelecidas90. Nas matérias da fábrica religiosa, elas seriam mais evidentes, entretanto, na redação e na aplicação das novas Constituições Sino-
dais, publicadas ainda no século XVI mas também depois, em várias Dioceses91, assim como nas Visitas Pastorais que cotidianamente examinavam sua efetividade. Os procedimentos eram determinados pelo concílio tridentino.
São inúmeras as Constituições publicadas na coroa, mas vamos nos ater à que nos foi mais próxima, as Constituições Primeiras do Arcebispado da Bahia, repetidamente citada nas Visi-
tas Pastorais da capitania de Minas Gerais92. Celebradas em 1707, as Constituições Primeiras foram compiladas e acomodadas à colônia por Sebastião Monteiro da Vide, quinto arcebispo
89 Carta do Papa Pio V ao Cardeal D. Henrique, em 29 de maio de 1570, apud ROLO, Raul de Almeida.
O papado e os papas na doutrina e na vida de Fr. Bartolomeu dos Mártires, p. 275.
90 Cf. ROLO, Raul. Bartolomeu dos Mártires, obra social e educativa. Porto: Biblioteca Verdade e Vida,
1979. Dificuldades foram generalizadas, para o próprio Papa Pio V e Carlos Borromeu, em Milão. Sobre as dificuldades encontradas por Fr. Bartolomeu não apenas em Braga, mas em “todo o Reino”, cf. tam- bém o expoente e coevo relato do Fr. Luis de Sousa, seu biógrafo: “Não se pode crer as marulhadas de litígios, de queixas, de dúvidas e controvérsias que por todo o Reino se moveram contra o Arcebispo. Por cada igreja destas em que entrava ganhava um enemigo (sic) no que a tinha à sua conta, e muitos enemigos nos parentes e aliados deste. Logo seguiam protestos, requerimentos e demandas pera diante dos conservadores de cada Ordem. Ele desabafadamente respondia e acudia a tudo; e quando de fora se lhe tinha lástima, não faltando quem cuidava que estaria afogado com a máquina de tantos negócios, vivia em tanto repouso que de nenhum de seus acostumados exercícios perdia úa hora […]”. In: SOUSA, Frei Luís de. A vida de D. Frei Bartolomeu dos Mártires [1619]. Cap. VIII, “Das grandes contradições e contendas que se levantaram contra o Arcebispo por rezão destas visitas, e como se houve nelas”, p. 351-355.
91 Cf. GONÇALVES, Flávio. A legislação sinodal portuguesa da contra-reforma e a arte religiosa, p. 111-
114. Logo em 1565, aconteceram Sínodos em Évora, Abrantes, Lamego e Lisboa; no ano seguinte em Braga e assim por diante.
92 Leia-se esta recomendação, dentre as inúmeras, feita em 1781 pelo Visitador da capitania, Fr. Do-
mingos da Encarnação Pontevel: “Emfim (sic) que todos os Parochos e por consequencia os mais que, executando Cura de Almas, substituem por elles nas suas respectivas Capellas e Aplicaçoens, estudem e meditem de continuo e com o maior cuidado o Livro das Const(ituiçoens) da Bahia,/ tão res- peitaveis pela universal prática e aceitação dos Bispados Ultramarinos e deste nosso que por ellas se tem regido e queremos e mandamos que se reja/ para nelle observarem e aprenderem destintam.te o como devem haver no seu Officio as obrigaçoens que devem intimar a seus Parochianos e Applicados e as penas em que incorrerraõ sendo transgressores”. Cf. RODRIGUES, Flávio Carneiro. As Visitas
Pastorais do século XVIII no Bispado de Mariana. In: Cadernos históricos do Arquivo Eclesiástico de Mariana, n. 1, “Visita Pastoral de Dom Fr. Domingos da Incarnação Pontevel à Freguezia da Borda do
da Bahia a partir de 1702, outrora iniciado na Companhia de Jesus e capitão durante a Guerra
de Restauração93. Em muitas passagens, essas constituições imitam literalmente as Consti- tuições dos Sínodos portugueses, celebrados na metrópole sobretudo na segunda metade do século XVII, aos quais farei correspondência.
Conforme as Constituições, todo empenho de edificação ou reforma de igrejas deveria ser noticiado antes ao Bispado, que concederia “licença especial” para a fábrica. A consagração para o rito demandava ainda uma nova permissão, condicionada ao fato de estarem, os al- tares, em forma “conveniente”, e com o “necessário para se poder dizer missa neles”94
. As visitas deveriam se manter freqüentes a partir de então, destinadas à confirmação constante da decência das igrejas, adros, lugares e “ornatos delas”, bem como da postura decorosa dos fiéis em relação à Igreja e suas partes, sobretudo os altares.
Capítulo especial foi dedicado ao sítio conveniente para ereção das Igrejas paroquiais, o que de fato acabou sendo estendido, por autoridade e costume, às capelas. Esta e outras passagens das Constituições Primeiras da Bahia seguem ipsis litteris várias passagens das Constituições do Bispado do Porto, editadas em 1690.
Conforme o direito Canonico, as Igrejas se devem fundar, e edificar em lu- gares decentes, e acommodados, pelo que mandamos, que havendo-se de edificar de novo alguma Igreja Parochial em nosso Arcebispado, se edifique em sitio alto, e lugar decente, livre da humidade, e desviado, quanto for pos- sivel, de lugares immundos, e sordidos, e de casas particulares, e de outras paredes, em distancia que possão andar as Procissões ao redor dellas, e que se faça em tal proporção, que não sómente seja capaz dos freguezes todos, mas ainda de mais gente de fora, quando concorrer ás festas, e se edifique em lugar povoado, onde estiver o maior numero de freguezes. E quando se houver de fazer, será com licença nossa: e feita vistoria, iremos primeiro, ou outra pessoa de nosso mando, levantar Cruz no lugar, aonde houver de estar a Capella mayor, e demarcará o âmbito da Igreja, e adro della95.
93 Cf. FERREIRA, Ildefonso Xavier. Prólogo. In: CONSTITUIÇÕES PRIMEIRAS DO ARCEBISPADO DA
BAHIA, feitas e ordenadas pelo illustrissimo, e reverendissimo senhor Sebastião Monteiro da Vide, bis-
po do dito arcebispado, e do conselho de sua magestade: propostas e aceitas em o synodo diocesano, que o dito senhor celebrou em 12 de junho do anno de 1707. São Paulo: Tipographia 2 de Dezembro/ Antonio Louzada Antunes, 1853, p. XV-XVI.
94 CONSTITUIÇÕES PRIMEIRAS DO ARCEBISPADO DA BAHIA, L. 4, XVI: “Das Igrejas, Capellas, e
Mosteiros. Que neste Arcebispado se não edifique Igreja, Capella, ou Mosteiro sem licença nossa”, § 683-686, p. 251-252 (grifo nosso).
95 CONSTITUIÇÕES PRIMEIRAS DO ARCEBISPADO DA BAHIA, L. 4, XVII, “Da Edificação, e repara-
ção das Igrejas Parochiaes”, § 687-689, p. 252-253. Cf. também CONSTITUIÇÕES SYNODAES DO
BISPADO DO PORTO, novamente feitas, e ordenadas pelo lustrissimo, e reverendissimo senhor Dom
Joam de Sousa Bispo do dito Bispado, do Conselho de Sua Magestade, e seu Sumilher de Cortina. Propostas e aceitas em o Synodo diecesano, que o dito Senhor celebrou em 18 de Mayo do Anno de 1687. De Mandado do mesmo Senhor Bispo Impressas na cidade do Porto, em o Anno de 1690. Por
A elevação do terreno e da edificação, como preconizava Borromeu, obedecia a uma intenção de “majestade” e destaque visual. Mas, nas Constituições, para além destes, a elevação era uma garantia de que a igreja não fosse implantada em lugares “úmidos” e “sórdidos”, arriscada a sofrer “indecências”. Dever-se-ia guardar o decoro, a decência do lugar onde havia de se implantar a casa de Deus. A elevação era uma propriedade condigna, estendida aos elementos sagrados e ornatos mais eloqüentes. Nenhuma imagem ou cruz poderia ser colocada “no chão, aonde [sic] se lhe possão por os pés, nem também debaixo de alguma janela, nem aos pés das paredes em lugares immundos, e indecentes”96.
A orientação do edifício era clara: “de modo que o Sacerdote no Altar fique com o rosto no Oriente, e não podendo ser, fique para o Meio dia [Sul], mas nunca para o Norte, nem para o Occidente”97 – uma regra importante mas que escritos da arquitetura, o costume de edificar e também as circunstâncias de sítios urbanos proporcionavam variação na invenção. Veremos isto na análise da implantação da capela de São Francisco de Assis, capítulo 4º. O mesmo título XVII nominava as partes principais do templo: uma capela maior, cruzeiro, pias batismais de pedra, armários para os santos óleos, pias de água benta, um púlpito, sinos, confessionários, sacristia e, ainda no “âmbito”98 da igreja e seu adro, a construção de “cemitérios capazes”99. A “demarcação” da igreja – momento importante da implantação
Joseph Ferreyra Impressor da Universidade de Coimbra. Livro Qvarto, Titulo I Da Edificação, & repa- raçam das Igrejas, Ermidas, & Mosteiros, Constituições I e II, p. 361-363. Essas regras repousam em várias passagens das Instrucciones de BORROMEO, op. cit., 1. De situ Ecclesiae, p. 4-6.
96 CONSTITUIÇÕES PRIMEIRAS DO ARCEBISPADO DA BAHIA, L. 4, XXI, “Que a Imagem da Cruz
se não pinte, nem levante em lugares indecentes; e que as imagens envelhecidas se reformem”, § 702, p. 257.
97 CONSTITUIÇÕES PRIMEIRAS DO ARCEBISPADO DA BAHIA, L. 4, XVII, “Da Edificação, e repara-
ção das Igrejas Parochiaes”, § 688, p. 253.
98 A delimitação do âmbito pio, ou sagrado, composto também pelo adro, casas paroquiais e pelo
cemitério, era de importância fundamental. Representava implicações significativas, sob albergue do qual se poderia gozar de imunidade ou reversão de punições delituosas. Dantes seculares, poderiam recair mais brandas sob o Direito Canônico. Cf. CODIGO PHILIPPINO ou ordenações e leis do reino
de Portugal. Rio de Janeiro: Typographia do Instituto Philomathico, 1870. L. II, V, p. 424-426, e também CONSTITUIÇÕES PRIMEIRAS DO ARCEBISPADO DA BAHIA, L. 4, XXXII-XXXVI, § 747-773, p. 270-
277.
99 A construção de cemitérios externos às igrejas, nos adros, vai se transformar num costume em Mi-
nas apenas a partir do século XIX. Conforme carta régia de 14 de janeiro de 1801, ficavam proibidos os sepultamentos nas “campas” sob os pavimentos internos das igrejas. Cf. XAVIER DA VEIGA, José Pedro. Efemérides Mineiras, Belo Horizonte: Fundação João Pinheiro, 1998, v. 1 e 2, “14 de janeiro de 1801”, p. 145.
– deveria envolver necessariamente pessoas eclesiásticas, o Provisor ou Vigário geral (o que é difícil precisar se efetivamente acontecia), e seus “Autos” deveriam ser guardados nos cartórios do Arcebispado e das Igrejas. O título XIX do mesmo Livro 4 vigorava a estratégia proselitista da Igreja, na excitação dos afetos piedosos, um lugar-comum do tratado de Carlos Borromeu, recomendando, ainda, materiais nobres e de melhor solidez, como a pedra e a cal:
[…] louvavel edificarem-se capellas em honra, e louvor de Deos nosso Se- nhor, da Virgem Senhora Nossa, e dos Santos, porque com isso se exercita, e affervora a devoção dos fiéis, e se segue a utilidade de haver nas grandes e dilitadas Parochias lugares decentes, em que commodamente se possa celebrar; como convém muito que se edifiquem com tal consideração […] e que se obrigão a fazel-a (sic) de pedra, e cal, e não somente de madeira, ou de barro100.
Era estritamente proibido tê-las indecentes, arruinadas, imperfeitas. Por isso, ficava recomen- dado também não edificá-las em lugares ermos, onde não houvesse quem pudesse zelar. Caso houvesse alguma danificada ou arruinada, sem que houvesse pessoas ou recursos para repará-las, os visitadores deveriam relatar ao Bispo, que mandaria derribar e profanar101, mudando-se as imagens para a igreja paroquial do lugar. Títulos seguintes ainda resguarda- vam diretrizes decorosas para os paramentos da missa, para os lugares de guarda deles, ar- mários e mais móveis, e vários capítulos comentavam a “reverência” e a “compostura” devida