Nos séculos XVIII e XIX, a viagem, dentro do contexto europeu, aparece como uma forma de conhecer, de experienciar o mundo, reflexo da difusão do ideal do conhecimento “par l’expérience, la collete des faits et l’enquête sur les hommes et les choses; cet idéal se substitue à l’autorité des auteurs et aux subtilités des raisonneurs” 98. A experiência era o meio de se chegar ao conhecimento. Era preciso viver, ver e comparar para somente a partir daí elaborar uma narrativa, um enunciado sobre o mundo, sobre determinado lugar ou objeto. A partir das viagens empreendidas pelos intelectuais, produzia-se um conhecimento real. O conhecimento só poderia ser alcançado por meio do deslocamento. O movimento parece levar à reflexão, “Le mouvement invite a réfléchir à la course, à la trajectoire” 99.
96 Para compreender a relação conflituosa entre tradição e modernidade em Nilo Pereira ver: MORAIS, Helicarla.
Três rios dentro de um homem: Nilo Pereira em Imagens do Ceará-Mirim, p. 59-18 (Cap. 2: Tradição, saudade e modernidade).
97PEREIRA, Nilo. Imagens do Ceará-Mirim, p. 20.
98 ROCHE, Daniel. Humeurs vagabondes: de la circulation des hommes et de l’utilité des voyages. France: Fayard, p.
12. « Pela experiência, a coleta dos fatos e a pesquisa sobre os homens e as coisas ; esse ideal se substitui à autoridade dos autores e às sutilezas dos argumentadores ».
As viagens de retorno de Nilo ao vale do Ceará-Mirim fizeram-no pensar na vida que passou, tanto para ele, o homem que havia enterrado o menino nas ruas daquela cidade, como para a própria Ceará-Mirim, que já não era mais o lugar habitado por senhores e escravos, mas carregava ainda os vestígios do passado de tradição que precisavam ser vistos, enunciados e anunciados. Esse é o papel assumido por ele. É a partir da viagem de retorno que a cidade de Ceará-Mirim ressurge aos olhos do autor como o paraíso da infância, o lugar da tradição, objeto central das suas rememorações, o que nos faz pensar na “mobilité comme déplacement non seulement dans l’espace, mais aussi dans le temps” 100, já que desperta no viajante memórias de outros tempos, como no caso do cearamirinense, que, ao rever Ceará-Mirim, é levado de volta à infância, sendo capaz mesmo de tomar a estrada dos tempos dos engenhos, do barão, o bisavô que não conheceu.
Para Nilo, “Um homem é sempre a vida que passou, assim como um navegante [...] é sempre a viagem que ele fez” 101. Ele nos lembra sempre que “Cada qual faz a sua
viagem interior ao redor do seu quarto, como Xavier de Maistre” 102. A viagem interior
de Nilo o leva sempre de volta ao Ceará-Mirim. Ele viaja também “no espaço físico, deslumbrado, na sua paisagem exterior e tangível, que os olhos não esquecem” 103. A escrita do cearamirinense surge do entrecruzamento dessas viagens que ele realiza no tempo, no espaço e na imaginação em busca de si mesmo, em busca do menino que ficou nas terras do vale. A viagem é um percurso em busca de si mesmo, mas o que ele encontra, na verdade, é o outro, aquilo que foi, que já passou, confrontado com o que somos. O Nilo que reencontra o Ceará-Mirim dos tempos de infância é um homem que já passou por diversas experiências, inclusive, a de deixar o lugar onde nasceu, a família em busca de um lugar no mundo.
Sabemos então que ele só volta ao Ceará-Mirim quando esse já não é mais o seu lugar, quando a vida que construiu em lugar distante deu novo sentido à terra da infância. A viagem permite a descoberta de novos horizontes. O viajante cria, elabora seus próprios conceitos sobre aquilo que vê. A visão de novos mundos o leva a refletir. O exercício da escrita permite que vejamos como o velho e o novo mundo se misturam, se reelaboram. A cidade da infância acaba sendo reelaborada como um novo mundo,
100 Idem, p. 12. « mobilidade não somente como deslocamento no espaço, mas também no tempo. » 101 PEREIRA, Nilo. Imagens do Ceará-Mirim, p. 20.
102 Idem. 103 Idem.
marcado por novos significados. O cearamirinense precisou se afastar da sua cidade de origem para entender que ela fazia parte de um mundo de tradição, do mundo dos engenhos, da sociedade do açúcar.
Voltar, para ele, “é um ato de poesia pura. Um ato de reintegração espiritual”
104. Sendo poesia, permite o sonho, o devaneio, a liberdade de escrever e lembrar a
cidade como um milagre da evocação, “que põe na terra a perpetuidade do sonho”. “E essa terra quase encantada – uma cidade quase morta, de tão quieta e romântica”, torna- se “um refúgio das horas que vão passando em outra dimensão” 105. A cidade reencontrada e reconstruída é a cidade do sonho, a cidade imobilizada no tempo, que ganha vida na escrita, reescrevendo-se a cada novo encontro.
A viagem, o deslocamento do homem no tempo e no espaço, é colocada desde o século XVIII como essencial para a observação e entendimento do comportamento humano. Ela gera um tipo de conhecimento peculiar. A tensão entre permanecer e partir, segundo Daniel Roche, é determinante na civilização ocidental. Os reflexos dessa tensão podem ser percebidos, aqui, na trajetória de muitos dos intelectuais brasileiros do século XIX e início do século XX. Mas existe uma outra corrente, orientada pelo pensamento de Pascal, para quem “tout le malheur de l'homme vient d'une seule chose qui est de ne savoir demeurer au repos dans une chambre” 106. Supomos que o equilíbrio entre essas duas correntes seria o modo ideal para os intelectuais que se formavam aqui nas primeiras décadas do século XX, principalmente, aqueles que se reconheceram nas teses regionalistas-tradicionalistas de Gilberto Freyre, que buscava o conhecimento da essência do lugar onde tinham sido plantadas suas raízes por meio do diálogo entre o local e o universal. Ou seja, era necessário um período de afastamento, no qual o indivíduo enriqueceria o espírito e o intelecto e um retorno para que a partir de então pudesse ver e compreender melhor a realidade que o circundava. Desse modo, o Recife de Freyre, após sua temporada de estudos nos Estados Unidos, tornou-se o centro social, cultural e econômico em torno do qual girava o Nordeste açucareiro, o Nordeste da tradição.
104 Idem.
105 PEREIRA, Nilo. Imagens do Ceará-Mirim, p. 21.
106 ROCHE, Daniel. Humeurs vagabondes: de la circulation des hommes et de l’utilité des voyages, p. 10. “Toda a
A viagem, a saída do lugar de origem, colocava-se, então, como uma necessidade para os homens que buscavam o conhecimento e um lugar no mundo. Em se tratando dos jovens nordestinos, filhos da antiga aristocracia açucareira, o deslocamento rumo aos centros hegemônicos, como o Recife, Salvador e Rio de Janeiro, onde estavam localizadas as faculdades de Direito e Medicina e os grandes jornais, significava a oportunidade de crescimento intelectual e social também. Nesses centros estava o poder econômico e cultural, era oferecido um horizonte mais amplo a esses jovens que aspiravam ao mundo das letras, ao bacharelado, à medicina, ao reconhecimento intelectual e social, por isso ser tão comum a saída dos pequenos centros. Podemos citar aqui Joaquim Nabuco, no século XIX, e o já mencionado Gilberto Freyre, que no final dos anos 1910 partiu para os Estados Unidos para cumprir a sua formação, passando depois pela Europa para completar o ciclo de aprendizagem do outro e de si mesmo – exemplos de trajetória que expressam o “empobrecimento” regional, empobrecimento econômico e intelectual, já que esses homens do Nordeste do açúcar, homens que faziam parte da elite econômica e intelectual dessa sociedade, precisaram partir para centros maiores com o objetivo de cumprir sua formação e de obter o reconhecimento desejado.
Exemplo desse processo de reconhecimento de si mesmo a partir do vislumbre do outro, de outras realidades, ao que se chega por meio do afastamento do lugar de origem, a experiência vivida por Freyre durante o período em que esteve fora de seu estado, do seu país, mergulhado num processo de reconhecimento e estranhamento de si mesmo e da sua pátria, do seu povo, é modelar. Durante todo o período em que esteve ausente, ele escreveu artigos em coluna intitulada “Da outra América”, no Diário de
Pernambuco, nos quais o jovem intelectual dava notícia aos de sua terra sobre suas
impressões de viagem e também procurava manter os laços com o lugar de origem. Em artigo de janeiro de 1921, Freyre escreve sobre as suas descobertas pelas ruas de Nova York. Para ele, que se sentia o “Provinciano encontrado na maior das cidades”, sua “situação é psychologicamente a mesma de menino guloso diante de enorme travessa de cangica ou de pudim; sem saber por onde começar” 107. Essa frase é reveladora desse paradoxo que diz ser necessário afastar-se para melhor compreender,
107 FREYRE, Gilberto. [Impressões sobre os primeiros onze dias em New York]. Diário de Pernambuco. Recife, jan.
1921. Coluna: Da outra América. Visto em http://bvgf.fgf.org.br/portugues/obra/artigos imprensa/2outra america.html, em julho de 2009.
para que o mundo das origens ganhe novos significados por meio da vivência com o novo, o diferente que acaba se tornando semelhante. O fato de estar numa das grandes metrópoles do mundo fez aflorar no rapaz ávido por explorar aquele mundo novo e diverso a euforia do menino guloso diante das iguarias da casa materna, tão fascinantes quanto o novo que se apresentava. Ao voltar ao Brasil em 1923, ele fecha o ciclo telúrico, retorna à sua pequena pátria e inicia o caminho de redescoberta e reafirmação da tradição, da cultura do brasileiro e do pernambucano, iniciando no Recife o movimento Regionalista-Tradicionalista. Era essa dinâmica que esses intelectuais entendiam por unir o local ao universal.
Freyre ainda viveu um segundo afastamento, o qual resultou na conclusão do seu projeto mais ambicioso, Casa Grande & Senzala, livro publicado em 1933, depois de sua passagem por África e Europa. No livro, que provoca uma espécie de revolução na maneira de entender a formação cultural do brasileiro, o sociólogo sistematiza suas idéias regionalistas e suas teses de formação da cultura e da sociedade brasileira, defendendo que a mistura de raças é o elemento principal na caracterização da sociedade patriarcal formada aqui. Assim, o Nordeste açucareiro surge como o lugar das origens do Brasil e do brasileiro, representado pelo “senhor de engenho” e pelo mundo que se construiu em torno dele.
Nesse sentido, a necessidade de partir, de conhecer novos mundos parece ter movido a escrita dos intelectuais nordestinos no início do século XX. Era preciso cumprir o périplo, dar a volta ao mundo e voltar para o lugar de origem, para a pequena pátria, num desejo de unir o universal ao local, como se para conhecer profundamente o nosso pequeno mundo, antes fosse preciso vivenciar o que há em volta dele, o que só se faz possível quando carregamos muito fortes dentro de nós as nossas raízes. Nilo Pereira também cumpriu o seu ciclo: primeiro seguiu para a capital de seu estado, onde se iniciou no jornalismo, depois para o Rio de Janeiro, onde iniciou o curso de Direito e, por último, para o Recife, onde se bacharelou e construiu toda a sua vida pública. A peculiaridade está na maneira que ele escolheu para retornar ao lugar de origem, onde jamais voltou a viver, mas viveu sempre através de sua escrita, dos seus retornos físicos temporários que alimentaram a perenidade emocional desse reencontro.
Sair pelo mundo sem se perder, parece ser essa a idéia. Podemos associar ainda esse desejo pela experiência de conhecer outros mundos às viagens empreendidas pelos
europeus nos séculos XVIII e XIX, quando saíam em busca da natureza exuberante e do exotismo do Novo Mundo. Esse deslocamento era parte importante da formação daqueles homens. E pode ser explicado como viagem “qui oriente une formation et qui impose la nécessité du départ, la contrainte des mouvements pour un devenir personnel ou pour la survie d’une groupe”(« que orienta uma formação e que impõe a necessidade da partida, a coação dos movimentos para um futuro pessoal ou para a sobrevida de um grupo ».) Conhecer novas realidades impunha ainda uma outra necessidade, a de narrar: “Elle rend alors nécessaire une forme canonique de récit pour véhiculer une expérience, pour diffuser une instruction” 108. Tornava-se necessário compartilhar as experiências vividas, transformar as impressões de viagem, impressões da vida e dos homens, em idéias aceitas, em interpretações de um grupo, de um lugar.