Nos artigos 17 e 18 da Lei de Execução Penal, observa-se que a assistência educacional engloba o estudo e a formação profissional, sendo obrigatório o ensino fundamental. Os itens 40, 77 e 78 das Regras Mínimas para o Tratamento dos Reclusos denotam a mesma preocupação, semelhantemente ao que dispõe a Constituição Federal, precisamente no artigo 208, inciso I.
A Lei nº 12.433/11, vigente desde o dia 30 de junho de 2011, alterou a Lei de Execução Penal quanto à remição da pena do Sentenciado pela via do trabalho e/ou do estudo. Quanto ao trabalho, por existir anteriormente previsão legal para sua oferta, esta questão já era pacificada.
A novidade, que a nosso ver cumpre com o atendimento da segunda finalidade da pena – ressocializar, foi o de facultar que, por meio do estudo, também se garanta a remição aos Sentenciados, o que, salvo melhor juízo, permitirá que estejam capacitados verdadeiramente para, além de se ressocializarem, serem reinseridos na sociedade a que retornarão em momento oportuno.
165 Disponível em: http://bd.camara.gov.br/bd/bitstream/handle/bdcamara/2701/cpi_sistema_carcerario.pdf. Acessado em 02 de abril de 2012, p. 64.
A única forma de transformar o contexto prisional brasileiro contemporâneo, como esta tese vem procurando demonstrar, é por meio do estudo e da qualificação profissional.
Poucos teriam opinião contrária sobre o estudo como agente transformador de grandes sociedades, ainda mais quando seriamente direcionado às pessoas que dele efetivamente necessitam.
Reiterar o objetivo da pena como sendo a transformação do transgressor em um ser social e integrado à sociedade a que pertence é, em outras palavras, afirmar o dever que tem o Estado de propiciar os meios necessários para que essa transformação seja minimamente possível.
Se é quase impensável conceber um sistema em que a pena privativa de liberdade não possa, ou melhor, não “queira” ser suprimida do ordenamento jurídico em vigor, mister se faz criar alternativas para que esta privação de liberdade não se torne a tão famosa “escola do crime”.
Só há uma maneira de interromper esse ciclo vicioso: conceder ao Sentenciado, como um dever, a formação educacional (ensino fundamental, médio e superior) e, consequentemente, uma profissão. Não divisamos outra solução, senão a combinação de formação educacional e profissional que garanta ao ser humano, inclusive, sua dignidade.
A falta de seriedade na condução desse processo de ensino traz, especialmente, duas implicações diretas: a população carcerária se mantém em níveis vergonhosos de instrução e, em decorrência, deixando de se instruir, passa a representar perigo à sociedade à qual estará sendo devolvida, sobretudo se se levar em conta a ineficácia do Poder Público em garantir a segurança pública. Portanto urge que se repensem as medidas com vistas à efetiva ressocialização do preso.
O artigo 205, da Constituição Federal de 1988, preceitua a educação como direito de todos e dever do Estado e da família, com o objetivo de se possibilitar o desenvolvimento da pessoa, buscando o exercício da cidadania.
Como demonstrado anteriormente, a massa carcerária é composta por pessoas de pouca instrução, constituindo-se os presos por práticas de crimes do colarinho branco, como apontado pela CPI do Sistema Carcerário, uma exceção em nosso sistema.
Assim, salvo melhor juízo, parece-nos que a falta de instrução deva ser observada e tratada socialmente pelo Estado, ainda mais quando se leva em conta que parte da população carente desse investimento encontra-se encarcerada.
A dificuldade reside em fazer com que a educação, não obstante o atual contexto de universalização do acesso a ela, seja garantida e efetivada, com vistas à inserção social daquele que se lhe submete.
Com efeito, sem educação não há cidadania, e sem cidadania não se permite ao indivíduo uma participação política efetiva nos contextos em que está inserido. É o que atesta Dalmo de Abreu Dallari:
A cidadania expressa um conjunto de direitos que dá à pessoa a possibilidade de participar ativamente da vida e do governo de seu povo. Quem não tem cidadania está marginalizado ou excluído da vida social e da tomada de deciões, ficando numa posição de inferioridade dentro do grupo social.166
É dever do Estado, como dito anteriormente, a educação. Todos os entes públicos, isto é, União, Estados, Distrito Federal e municípios, são responsáveis pelo sistema de ensino, de forma colaborativa.
A educação mostra-se como condição fundamental para a formação do homem. Por isso, entende-se, data venia, que a omissão do Estado no cumprimento do seu dever ensejará responsabilização por dano moral e, inclusive, material, de acordo com o que preceitua o artigo 37, parágrafo 6º, da Constituição Federal. Corroboramos nosso posicionamento com a apresentação do de Regina Maria Fonseca Muniz:
Se é correto dizer que o Poder Público incumbe garantir a todos uma educação que, de acordo com o art. 205 da CF/1988, visa ao desenvolvimento integral da pessoa, também não podemos deixar de reconhecer que a ele cabe o dever de preservar e proteger, de maneira efetiva, os que se acharem sob sua guarda, devendo empregar todos os meios necessários para bem cumprir esse encargo jurídico. Na maioria das vezes, os eventos lesivos são consequência da omissão, da inércia ou da displicência de seus funcionários.167
A autora continua:
166 DALLARI, Dalmo de Abreu. Direitos humanos e cidadania. 2ª ed. São Paulo: Moderna, 2004, p. 22. 167 MUNIZ, Regina Maria Fonseca. O direito à educação. Dissertação de mestrado. São Paulo: PUC, 2001, p. 184.
O Estado existe para que o homem se realize como vida, como pensamento, como matéria, como espírito, como pessoa e como comunidade. Entretanto, só será possível se o Estado estabelecer como prioridade absoluta a questão educacional. Diz-se que a primeira educação do indivíduo se deve ao ambiente familiar e que o Estado deve intervir tão somente quando a família não está em condições de assumir tal responsabilidade. Porém, a ação do Estado não deve ficar assim tão limitada ou negativa. Ora, a educação, como essência da personalidade, inserida no direito à vida, deveria ser considerada com mais seriedade pelos agentes administrativos. Embora se saiba que a influência doméstica é da mais alta importância nos primeiros anos de vida do homem e que a educação estatal seja incapaz de alterar o fato de que o caráter se forma no seio da família desde a tenra idade, sua atuação é fundamental para formação da personalidade humana. Não devemos esquecer que o homem se educa em primeiro lugar para superar a si mesmo, para se tornar melhor a cada dia e, em seguida, para conviver em sociedade. Se o Estado , por meio de seus agentes públicos, desinteressa-se por esse trabalho, as consequências maléficas de sua omissão serão sentidas por toda a sociedade.168
A educação está inserida na “Ordem Social” – Título VIII, de acordo com o artigo 6º da Constituição Federal, e se revela como direito social.
Entendem-se como direito social os oponíveis contra o Estado. Particularmente quanto ao direito à educação, a Constituição Federal também a ele se refere no capítulo dos “Direitos e Garantias Fundamentais”, caracterizando-o como cláusula pétrea.
Como bem apontou a pesquisa “Tecer Justiça: presos e presas provisórios da cidade de São Paulo”, a escolaridade dos presos é “bastante baixa: as categorias analfabeto, Ensino Fundamental incompleto e Ensino Fundamental completo somam 81,4% dos casos.”169 A
pesquisa ressalta “que se trata de pessoas marcadas pela fragilidade social, com pouco ou nenhum acesso à escassa rede de serviços e equipamentos públicos”170.
Com respeito a opiniões em contrário, entende-se, não como forma de justificar a prática de crimes, mas de compreender o contexto prisional, que a falta de assistência do Estado, no que se relaciona à garantia aos direitos fundamentais, enseja o cometimento dos crimes.
A pesquisa “Tecer Justiça” comprova que “o dado sobre a escolaridade também sofre uma inversão: entre as vítimas, a faixa de escolaridade mais representativa é a que abrange o
168 MUNIZ, Regina Maria Fonseca. O direito à educação. Dissertação de mestrado. São Paulo: PUC, 2001, p. 185.
169 Documento constante dos anexos. Disponível em: http://www.ittc.org.br/web/rel_tecer_justica_net.pdf. Acessado em 25 de julho de 2013.
Ensino Médio e o Ensino Superior (mais de 66%), ao passo que a escolaridade dos réus concentra-se na faixa até o Ensino Fundamental completo (mais de 80%)”171.
A partir dessa análise, é temerário não dar efetividade à Lei de Execução Penal. Embora a finalidade da pena – ressocializar – não seja pacífica entre a doutrina, é difícil não visualizá-la e não buscá-la num contexto prisional em que a maioria dos presos não tem formação educacional.
O que transformará a sociedade, salvo melhor juízo, é a educação. Apenas por meio dela é possível o ser humano ter sua dignidade preservada, bem como alcançar níveis profissionais que o afastem da realidade criminal.
O Estado busca medidas temporárias, entre as quais aumento das penas, permanência dos presos no cárcere além do período em que seria possível conceder progressões de regime. No entanto, segue mantendo os encarcerados sem qualquer infraestrutura capaz de modificar a sua formação.
Assim, o Sentenciado, quando deixa o sistema prisional, terá duas dificuldades inicialmente percebidas: o fato de ser ex-presidiário e a falta da formação educacional.
Em razão disso, não há como afastar a responsabilidade objetiva do Estado quando deixa de oferecer ressocialização. Aliás, educação de qualidade, segundo os dados abaixo, não parece ser o caso desta que é oferecida no ensino básico brasileiro contemporâneo.
O Brasil ocupa o 53º lugar em educação, entre 65 países avaliados (PISA). Mesmo com o programa social que incentivou a matrícula de 98% de crianças entre 6 e 12 anos, 731 mil crianças ainda estão fora da escola (IBGE). O analfabetismo funcional de pessoas entre 15 e 64 anos foi registrado em 28% no ano de 2009 (IBOPE); 34% dos alunos que chegam ao 5º ano de escolarização ainda não conseguem ler (Todos pela Educação); 20% dos jovens que concluem o ensino fundamental, e que moram nas grandes cidades, não dominam o uso da leitura e da escrita (Todos pela Educação). Professores recebem menos que o piso salarial (et. al., na mídia).172
Naquilo que diz especificamente respeito às preocupações deste trabalho, não há dúvida, data venia, que a educação – nós o reafirmamos – seja direito fundamental e social de todos, inclusive e especialmente do Sentenciado.
171 Documento constante dos anexos. Disponível em: http://www.ittc.org.br/web/rel_tecer_justica_net.pdf. Acessado em 25 de julho de 2013.
172 Disponível em: http://www.brasilescola.com/educacao/educacao-no-brasil.htm. Acessado em 20 de julho de 2013.
A própria Lei de Diretrizes e Bases para a Educação Nacional afirma: “É direito de todo ser humano o acesso à educação básica.”
Se isso não fosse suficiente, poderíamos recorrer à Declaração Universal dos Direitos Humanos, que estabelece: “Toda pessoa tem direito à educação.”
Diante das inúmeras inovações no âmbito educacional – ensino a distância, por exemplo –, fica nítido que um dos grandes problemas enfrentados pelo Brasil é a falta de investimento na área educacional.
E em que pesem as opiniões em contrário, parece-nos inadmissível conviver com situações como a exposta por Luciano Silva, em seu depoimento, que convém repetir:
[...] A dificuldade é tanta que eu tentei fazer um curso por correspondência, e a unidade prisional onde me encontro não autorizou este curso. Aí eu pergunto: como que as autoridades querem que um preso se ressocialize se não dá as mínimas condições possíveis para que isto aconteça? [...].
A mesma perspectiva se demonstrou na pesquisa “Tecer Justiça”:
Mais da metade dos réus, em geral, declarou exercer atividade remunerada, sendo bastante expressivo o número de desempregados (40,3% do total). Entre as atividades registradas pela polícia, prevalecem aquelas que prescindem de qualificação profissional e que usualmente são desempenhadas no mercado informal de trabalho, como “ajudante”, “ambulante”, “carroceiro” e “pedreiro”, no caso dos homens, e “do lar”, “diarista”, “doméstica” e “ambulante”, no caso das mulheres, o que pode ser em grande medida explicado pelo dado da escolaridade [...]
Em face dessas considerações e levando em conta o futuro retorno dos Sentenciados à sociedade, posicionamo-nos entre aqueles para quem sua ressocialização é fundamental.