Atitudes desonestas são cada vez mais comuns nos meios educativos, em seus diversos níveis e, no meio universitário, têm se destacado. Segundo Cavalcanti (2008, p.6), a desonestidade acadêmica àu àte aà s io,àpoisàdeleàseàdese ola àdi e sosàfato esà ueà acabam por definir que tipo de profissionais e cidadãos estão sendo formados pelas [instituiç esà deà e si oà supe io ]à IE“. . Os valores éticos e morais são esquecidos, normalmente, pelo desejo de resultados ótimos, mesmo que eticamente incoerentes.
O conceito de desonestidade acadêmica consiste em as ações ou tentativas de ações fraudulentas realizadas por um membro da comunidade universitária ao fazer uso de meio ilegais, não autorizados ou inaceitáveis na realidade da acadêmica (LAMBERT; HOGAN, BARTON apud OLIVEIRA et al., 2014). Cavalcanti (2008) pontua que a desonestidade pode ser caracterizada como a ruptura de normas acadêmicas de determinada instituição educacional que adota regras de conduta e comportamento para todos os membros de sua comunidade. As instituições que adotam essas normas a descrevem por meio de documentos normativos e/ou códigos de ética, delimitando quais são as ações consideradas inaceitáveis, como, por exemplo: a cola em avaliações, o plágio e a falsificações de documentos e fontes, a compra de trabalhos e a apresentação de feitos por terceiros.
Oliveira et al. (2014) destacam que houve um aumento no número de publicações que tratam sobre o aspecto de desonestidade acadêmica, tanto no Brasil quanto no exterior. Muitas publicações refletem acerca da questão do desenvolvimento e as facilidades geradas pelas tecnologias, como um dos motivos de aumento desses problemas.
Cavalcanti (2008) reforça essa visão, dividindo os atos fraudulentos em quatro categorias: intencionais, não-intencionais, individuais e coletivas. A classificação do autor revela que indivíduos e/ou grupos de pessoas que realizam atos desonestos podem fazê-los de maneira premeditada, como também o fazem por desconhecimento e/ ou por falta de habilidades. Já Pavela (1978), citado na revisão de Oliveira et al. (2014), define quatro grandes pontos que compõe a desonestidade acadêmica:
1. Uso de materiais não autorizados em atividades acadêmicas de diversas naturezas;
2. Invenção e/ou fabricação de informações, referências ou resultados; 3. Os diversos tipos de plágio;
4. Contribuir, direta e/ou indiretamente, com a desonestidade de outros acadêmicos.
Outro termo usado, na área, à aà e p ess oà i teg idadeà daà pes uisa à research
integrity). Um documento publicado pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São
Paulo (Fapesp), na sua página de boas práticas científicas, detalha este assunto de uma maneira muito sensata e direta para atender as comunidades científicas. O texto, de autoria de Luiz Henrique Lopes dos Santos (2011), apresenta que o termo vem sendo utilizado para delimitar os deveres éticos dos cientistas em suas atividades. O autor destaca que a integridade da pesquisa é um campo da ética profissional do pesquisador e que deve, ao e e e à suasà ati idades,à [...]à contribuir para a construção coletiva da ciência como um patrimônio coletivo, deve abster-se de agir, intencionalmente ou por negligência, de modo a impedir ou prejudicar o trabalho coletivo de construção da ciência e a apropriação coletiva de seus esultados.à
Witter (2010) pontua, de uma maneira simplificada e direta, os principais aspectos éticos que devem estar presentes no comportamento do pesquisador ao fazer ciência (ver o Quadro 8). Além destes aspectos, a autora informa que outras questões éticas, como a autoria, o plágio, as análises inadequadas, as generalizações acríticas e sem suporte evidenciais, também devem fazer parte da discussão de gestores e responsáveis no desenvolvimento de ações que estimulem à integridade da pesquisa, pois podem constituir grandes prejuízos para a sociedade, para o indivíduo, para a universidade e para a própria ciência (DINIZ, 2008). Para Witter (2010, p.19), h àaà ti aàdoàfaze à i ia e a ética do usar a
i ia àeào estudante universitário deve ser preparado nos dois sentidos, pela universidade, por docentes e por órgãos específicos, como o Comitê de Ética.
Quadro 8 – Ética do pesquisador no fazer ciência Fase da pesquisa Aspectos ético a considerar
Escolha do tema/problema ética quanto à necessidade social, científica, institucional e do pesquisador
Elaboração do projeto ética do consumidor de ciência
ética no verificar o já pesquisado/assimilação do conhecimento
ética na escolha do título
ética em relação aos participantes - Termo de Consentimento Livre e Esclarecido
ética em relação ao delineamento/desenho da pesquisa
ética na escolha dos instrumentos
ética em relação à competência do pesquisador Apresentação ao Comitê de Ética
(CEP)
ética em relação ao patrocinador, se houver ética em atenção ao parecer do CEP
ética na revisão de aspectos do projeto, se for o caso Apresentação em evento
(pré-publicação)
ética no título
ética na elaboração do resumo
ética em relação ao patrocinador, se houver ética na apresentação oral/painel
ética na assimilação de sugestões
Encaminhamento ética em relação à editoração para publicação ética ao atender a pareceres de pareceristas ética quanto aos créditos do patrocinador Após a publicação ética no uso do material publicado
ética em relação ao Comitê de Ética ética em relação ao patrocinador
Também preocupado com a boa conduta na pesquisa científica e tecnológica, o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq, 2011) constituiu a Comissão de Integridade Científica do CNPq. A Comissão elaborou um relatório no qual reafirmava a preocupação da agência de fomento com más condutas na pesquisa e a necessidade de instituir mecanismos para identificar, desestimular práticas fraudulentas e estimular a integridade da pesquisa.
A Comissão recomenda que as ações sigam dois aportes: 1) ações preventivas e pedagógicas e 2) ações de desestímulo a má conduta, incluindo medidas punitivas. Com relação às ações educativas, a Comissão destaca a importância de estimular disciplinas com conteúdo ético e de integridade de pesquisa nos cursos de graduação e pós-graduação, a produção de materiais com esses conteúdos (com destaque para os aspectos metodológicos). Com relação às ações de desestímulo, recomenda-se a constituição de uma Comissão Permanente para avaliar situações, examinar fatos, indicar especialistas e determinar desdobramentos adequados a cada caso, além de avaliar o material sobre ética e de integridade de pesquisa produzidos e disponibilizados pelo CNPq.
A Comissão apresenta, no documento, 21 diretrizes referentes ao tema Ética e Integridade na Prática Científica, a saber:
1: O autor deve sempre dar crédito a todas as fontes que fundamentam diretamente seu trabalho; 2: Toda citação in verbis de outro autor deve ser colocada entre aspas; 3: Quando se resume um texto alheio, o autor deve procurar reproduzir o significado exato das ideias; ou fatos apresentados pelo autor original, que deve ser citado; 4: Quando em dúvida se um conceito ou fato é de conhecimento comum, não se deve deixar de fazer as citações adequadas; 5: Quando se submete um manuscrito para publicação contendo informações, conclusões ou dados que já foram disseminados de forma significativa (p.ex. apresentado em conferência, divulgado na internet), o autor deve indicar claramente aos editores e leitores a existência da divulgação prévia da informação; 6: se os resultados de um estudo único complexo podem ser apresentados como um todo coesivo, não é considerado ético que eles sejam fragmentados em manuscritos individuais; 7: Para evitar qualquer caracterização de autoplágio, o uso de textos e trabalhos anteriores do próprio autor deve ser assinalado, com as devidas referências e citações; 8: O autor deve assegurar-se da correção de cada citação e que cada citação na bibliografia corresponda a uma citação no texto do manuscrito. O autor deve dar crédito também aos autores que primeiro relataram a observação ou ideia que está sendo apresentada; 9: Quando estiver descrevendo o trabalho de outros, o autor não deve confiar em resumo secundário desse trabalho, o que pode levar a uma descrição
falha do trabalho citado. Sempre que possível consultar a literatura original; 10: Se um autor tiver necessidade de citar uma fonte secundária (p.ex. uma revisão) para descrever o conteúdo de uma fonte primária (p. ex. um artigo empírico de um periódico), ele deve certificar-se da sua correção e sempre indicar a fonte original da informação que está sendo relatada; 11: A inclusão intencional de referências de relevância questionável com a finalidade de manipular fatores de impacto ou aumentar a probabilidade de aceitação do manuscrito é prática eticamente inaceitável; 12: Quando for necessário utilizar informações de outra fonte, o autor deve escrever de tal modo que fique claro aos leitores quais ideias são suas e quais são oriundas das fontes consultadas; 13: O autor tem a responsabilidade ética de relatar evidências que contrariem seu ponto de vista, sempre que existirem. Ademais, as evidências usadas em apoio a suas posições devem ser metodologicamente sólidas. Quando for necessário recorrer a estudos que apresentem deficiências metodológicas, estatísticas ou outras, tais defeitos devem ser claramente apontados aos leitores; 14: O autor tem a obrigação ética de relatar todos os aspectos do estudo que possam ser importantes para a reprodutibilidade independente de sua pesquisa; 15: Qualquer alteração dos resultados iniciais obtidos, como a eliminação de discrepâncias ou o uso de métodos estatísticos alternativos, deve ser claramente descrita junto com uma justificativa racional para o emprego de tais procedimentos; 16: A inclusão de autores no manuscrito deve ser discutida antes de começar a colaboração e deve se fundamentar em orientações já estabelecidas, tais como as do International Committee of Medical Journal Editors; 17: Somente as pessoas que emprestaram contribuição significativa ao trabalho merecem autoria em um manuscrito. Por contribuição significativa entende-se realização de experimentos, participação na elaboração do planejamento experimental, análise de resultados ou elaboração do corpo do manuscrito. Empréstimo de equipamentos, obtenção de financiamento ou supervisão geral, por si só não justificam a inclusão de novos autores, que devem ser objeto de agradecimento; 18: A colaboração entre docentes e estudantes deve seguir os mesmos critérios. Os supervisores devem cuidar para que não se incluam na autoria estudantes com pequena ou nenhuma contribuição nem excluir aqueles que efetivamente participaram do trabalho. Autoria fantasma em Ciência é eticamente inaceitável; 19: Todos os autores de um trabalho são responsáveis pela veracidade e idoneidade do trabalho, cabendo ao primeiro autor e ao autor correspondente responsabilidade integral, e aos demais autores responsabilidade pelas suas contribuições individuais; 20: Os autores devem ser capazes de descrever, quando solicitados, a sua contribuição pessoal ao trabalho; 21: Todo trabalho de pesquisa deve ser conduzido dentro de padrões éticos na sua execução, seja com animais ou com seres humanos. (CNPq, 2011).
A opção das agências de fomento brasileiras de instituir diretrizes, recomendações e comissões de ética integridade segue uma tendência mundial. Estabelecer câmaras, comitês, comissões de ética e/ou integridade da pesquisa, bem como redigir códigos de ética e conduta, em muitos países, é uma condição para se conseguir investimento na pesquisa.
Acreditamos que, se bem constituídos, câmaras, comitês, comissões de ética e/ou integridade da pesquisa, são boas alternativas, mas como reflete Russo (2014, p.195), não pode osà a i ha àpa aàu àes ue aà igil iaàeàpu iç oàe t e a .à
Russo (2014) destaca que valores, como a quantificação da produção, o número de publicações exigido e o pragmatismo, são práticas que têm contribuído para a erosão da ética e da integridade na pesquisa. Para a autora, a responsabilidade deve ser o grande valor atribuído à pesquisa e deveríamos pensar em atribuir ao conceito de responsabilidade uma mensuração prática dentro do universo da pesquisa. A autora corrobora com as afirmações de Witter (2010) e Diniz (2008), ao dizer que é necessária uma responsabilidade coletiva em relação à pesquisa, pois problemas como o plágio e a fraude científica atingem a todos e não só o indivíduo que comete uma desonestidade acadêmica. Para isso, Russo (2014) evoca a necessidade de a comunidade sair de zona de conforto e retomar com maior frequência o debate sobre as questões éticas no âmbito cientifico, com todos os atores envolvidos na produção científica, refletindo sobre os pontos que permeiam essa realidade.
Portanto, a postura ética adequada, a consciência da responsabilidade, a consciência de que cada ato tem a sua consequência, o agregar valor na questão da qualidade, em detrimento da quantidade, são ações importantes na batalha pelo estímulo à ética e à integridade em uma pesquisa.