Como criar seus cinco filhos Maria?
Na angústia de saber que Pedro, pai, provedor,
Fora tiranizado pela lei da ditadura,
A lei que ditou tão dura, martírio e morte,
Do Pedro que honra e paz proclamava,
Sim! Por causa desta lutava, vida, paz e honradez,
Aos amigos, companheiros camponeses,
Torturados, humilhados, indefesos,
Por algozes e covardes capatazes.
Náugia Fazendeiro
142.
Aqui continuaremos a parte das oitivas promovidas pelo Grupo de Trabalho Repressão
do Estado e das milícias privadas aos camponeses. Este capítulo será composto por
depoimentos dos quatro filhos vivos de Pedro Inácio Araújo (Pedro Fazendeiro) e da irmã de
João Alfredo Dias (Nego Fuba), falecida poucos meses após ter prestado este depoimento.
Esses duas lideranças camponesas figuram, oficialmente, como os primeiros desaparecidos
políticos após o golpe de 1964.
4.1 – Depoimento sobre Nego Fuba
João Alfredo Dias, que ficou conhecido popularmente como Nego Fuba, foi um dos
destacados porta-vozes das Ligas Camponesas. Era sapateiro e camponês. Foi organizador das
Ligas de Sapé e chegou a ser perseguido em vários momentos devido o seu trabalho político
com os camponeses. Militante do PCB, foi eleito em 1963 como o vereador mais votado de
Sapé. Logo após o golpe, foi preso, torturado e ficou detido, juntamente com Pedro
Fazendeiro, até setembro de 1964, ocasião em que foram simuladas suas solturas, na
madrugada do dia 7, o que é considerado por muitos a emboscada que lhes tirou a vida
143.
Adiante, abordaremos o depoimento concedido por Marina Dias, sua irmã.
142 Trecho do poema de Náugia Maria de Araújo. 143 Ver: NUNES, 2014, p.99.
Ouvida: Marina Dias
Depoimento de Marina Dias (centro), irmã de Nego Fuba.
Marina Dias, irmã de João Alfredo, vivia no Rio de Janeiro. Em sua oitiva estiveram
presentes integrantes dos grupos de trabalho: 1- Repressão do Estado e das milícias privadas
aos camponeses; 2- Gênero e ditadura e 3- Mortos e desaparecidos políticos, todos da
CEVPM/PB. Vale ressaltar que esta não é o primeiro depoimento concedido por Marina Dias,
pois, anteriormente, ela já havia prestado algumas entrevistas, como foi o caso de um
seminário sobre as Ligas Camponesas realizado na cidade de João Pessoa-PB entre os dias 28
e 29 de abril de 2006, promovido pela Assembleia Legislativa da Paraíba e pelo Instituto
Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra)
144.
A depoente lembrou bem que os militares disseram que haviam soltado seu irmão no
dia 27 de agosto de 1964 (era um dia de sábado), mas, segundo ela, os presos que estiveram
com ele disseram que foi solto apenas no dia 28 (domingo), às 21h. Em conversa com o
Coronel Macário, no 15
º
RI, apesar de o mesmo confirmar o alegado pelos militares, Marina
retruca e diz ter certeza que o dia da liberação de seu irmão ocorreu no domingo, dia 28. Não
disse ao coronel de onde recebera essa informação para não prejudicar ninguém. A reação do
coronel foi desconcertante, ficou sem saber o que lhe dizer.
Assim, a depoente diz que esse episódio foi marcante para ela e que todo dia 28 de
agosto ela costuma refletir sobre o acontecido.
Aí quer dizer, todo dia 28, gente, me machuca muito. E por incrível que pareça eu vim essa semana em João Pessoa, na casa de uma amiga, o nome da rua era o que? Macário não sei de quê. E eu falei: meu Deus do céu... no Domingo.
Quanto às consequências do golpe de 1964 para a vida de Marina Dias, ela conta que
sofreu bastante com o desaparecimento de seu irmão, uma das únicas pessoas que a ajudava
financeiramente durante o período em que ficou sem trabalho:
Eu sofri muita coisa lá em Sapé, fui muito humilhada, fiquei... um ano que ele tinha desaparecido, não tinha emprego, quem me ajudava não tava mais, meu marido trabalhava por conta própria e eu sofri muito em 64, 65. Quando foi em 66 eu, me apareceu uma pessoa maravilhosa, meu vizinho, que morava lá no Rio [de Janeiro] e me fez uma proposta de eu ir pro Rio, e eu tava tão humilhada naquele lugar que eu resolvi ir. E fui trabalhar, por incrível que pareça, gente, eu acho que nem nunca contei isso, por incrível que pareça, eu fui trabalhar na casa de um coronel da Marinha. Com todos os retratos, com todas coisinha dele, escondido, guardava... a filha da minha patroa pegava a carta do namorado dela, escondia dentro da minha mala, quando eu ia pegar uma carta para mandar para o Norte, pra vir pra cá, encontrava ela... eu ficava agoniada pensando que ela tinha visto aquele retrato [possivelmente o retrato de seu irmão João Alfredo]. [...] Nunca tinha trabalhado em casa de ninguém, não tava acostumada naquela casa, aí fui, saí dali e fui trabalhar em outra casa de um coronel do Exército. Aí também foi aquela coisa toda, eu escondia [as lembranças de seu irmão, como fotografias etc.] mas já não era tanto... e passei, não podia falar nada, quem eu era, tinha a maior vontade de falar quem eu era, né, tinha vontade de falar, dizer do meu irmão, mas não podia naquela época. E eu fiquei até, eu acho que é oitenta e pouco, não, foi que eu me declarei quem eu era. Sofri muito mas... a saudade é grande do meu irmão.
Marina nos diz que sua mãe morreu quando ela ainda ia fazer quatorze anos, por volta
do período anterior ao golpe de 1964. Seus pais haviam se separado quando ela tinha apenas
sete anos. Seu irmão mais velho, José Alfredo (que havia falecido três anos antes da data
desta oitiva) já era casado e tomou conta da família. João Alfredo, que era o segundo mais
velho, trabalhava como sapateiro. Conta-nos que este último era bastante carinhoso com sua
mãe e tinha o hábito de ler jornais pela manhã, enquanto deixava assando o milho. Quando
terminava, avisava a sua mãe que o milho já estava assado e que ele já ia trabalhar. Quando
sua mãe morreu, João Alfredo ficou morando e trabalhando num quartinho próximo à Igreja,
mas já estava envolvido com a política, participando de comícios.
Já Marina Dias, foi viver com seu pai, entretanto, ela afirma que queria ter ido morar
com seu irmão mais velho (José Alfredo). Seu outro irmão, Ascendino, chamado também pelo
apelido “Dino”, trabalhava num bar em Guarabira. Ou seja, eram ao todo quatro irmãos,
sendo ela a única mulher.
Ela detestou viver com seu pai, porque quando olhava para sua madrasta ela via todo
sofrimento da sua mãe, que apanhava do seu pai quase todo dia, e sua mãe dizia que era por
causa dessa mulher. Conta que sua madrasta implicava bastante com ela, inclusive com
discriminação por causa de sua cor. Vejamos esse trecho:
[...] ela [sua madrasta] criava uma menina mais nova do que eu, e era branca, e ela falava, quando meu pai falava em comprar alguma coisa pra mim, ela falava: “tem
que comprar pra minha filha, que é branca”. Se aparecia uma pessoa pra eu ser madrinha com meu pai, porque meu pai morava na terra da usina e tinha... plantava coisa, e o pessoal gostava de tomar ele pra... ai ela falava: “não! Tem que ser Maria porque ela é branca e é minha filha, e a Marina só é sua filha”. Quer dizer, foi um sofrimento pra mim, aí eu escrevi uma carta para João [Nêgo Fuba] e falei pra ele que não aguentava mais aquele sofrimento. Aí ele escreveu pra mim e falou assim, olhe... primeiro eu escrevi uma carta pro meu pai e tinha falado que ele ia vender a casa, que ele fosse pra dentro de casa. Aí, quando eu vi que o negócio tava ruim mesmo, aí eu escrevi uma carta pra ele mesmo, dizendo que não tava mais aguentando. Aí ele falou assim: “você está aí porque você quer, você venha pra aqui morar comigo, porque que um pão que eu comer você come também. Venha embora logo”. Aí eu falei com meu pai e ele disse assim: “é... eu estou vendo que o negócio está ficando feio, eu tou até capaz de fazer uma loucura aqui, uma... havia qualquer coisa, porque eu tou vendo que a mulher só é contra você. Eu acho melhor você morar com seu irmão, eu vou dar uma ajuda a ele. Aí eu fui pra dentro de casa, aí graças a Deus parou meu sofrimento, meu pai sempre ajudava e ele [Nêgo Fuba] também trabalhando. Aí depois meu irmão [possivelmente Ascendino, já que o José Alfredo era casado] voltou, também ficou dentro de casa, e ficamos nós três até quando... até quando ele... eu casei, aí depois eu casei – eu casei em 61 e ele [Nêgo Fuba] foi morar no quarto, voltou a morar no quarto. [grifos nossos]
João Alfredo Dias, pouco tempo após sua irmã casar, no ano de 1961, começou a
trabalhar como servente no SAMDU e depois fez um curso de enfermagem (possivelmente
deve equivaler ao que hoje chamamos de curso técnico de enfermagem).
Marina afirma que, nesse período em que morou com o irmão João Alfredo, ele já era
envolvido com política, mas diz que não podia dar muitos detalhes, pois seu irmão não falava
sobre isso com ela, na casa. Diz que, mesmo se perguntassem a ela naquele período, ela não
saberia dizer, pois ele não falava.
Lembra que seu irmão lia bastante, chegando a usar inclusive a luz de candeeiro como
iluminação, pois em sua casa não tinha luz. Que ele sempre quis estudar, mas o pai não
deixou. Lembra-se inclusive de uma surra que o irmão levou do pai por causa dessa
insistência para estudar. O pai argumentava que ele tinha que trabalhar, e não estudar.
Sobre o envolvimento do irmão com o Partido Comunista, ela diz que só sabia o que
ouvia de outras pessoas quando comentavam sobre o assunto. Outros indícios consistiam nas
viagens constantes que João Alfredo fazia ao Recife, além dos recebimentos de livros vindos
de fora.
Finalmente, quando ele foi para China, ela obteve a confirmação. Foi somente após o
casamento de Marina, em 18 de junho de 1961, que Nêgo Fuba viajou, o que ocorreu no final
deste mesmo ano. Marina nos conta que essa foi sua preocupação: somente viajar após deixá-
la casada. Uma das razões para isso era que ele sempre combinava um horário para que seu
irmão Ascendino estivesse em casa lhe fazendo companhia, porém, quando João Alfredo
chegava mais cedo em casa, percebia constantemente a ausência de Ascendino. Então ele
decidiu que antes de viajar precisava deixar sua irmã casada, pois a viagem seria longa, de
aproximadamente seis meses. Marina, no entanto, não explicita para onde seu irmão viajara
exatamente, fala de forma vaga que ele viajou para “Cuba, para China...”.
No que diz respeito ao movimento das Ligas Camponesas, Marina nega se lembrar de
muitos detalhes, mas afirma que os trabalhadores queriam terra para trabalhar. Ela faz uma
analogia com o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), mas diz que o MST
quer invadir. Afirma não ser contrária a esse movimento, mas lembra da posição de seu
irmão, que queria terra para todo mundo trabalhar, mas não para “invadir” as terras das
pessoas.
Quando questionada sobre quais eram os objetivos das Ligas Camponesas, Marina
responde:
Olha só, eu assim não tenho muita lembrança. É porque eu acho que eles queria... num é como esses agora... eles queria terra pra o pessoal trabalhar, mas esse outro, como é o nome... [um membro da CEVPM/PB cita o MST e ela responde afirmativamente] querem invadir. Eu não sou contra mas eu me lembro da posição do meu irmão [Nêgo Fuba], meu irmão queria terra, mas pra todo mundo trabalhar, não pra invadir as terra do pessoal. Então o pessoal dá um pouco de terra pra cada um trabalhar. O que ele falava era isso.
Questionada se ela chegou a ter contato com a família de João Pedro Teixeira, Marina
responde que não. Marina diz ter conhecido João Pedro Teixeira, mas não conheceu Elizabeth
e seus filhos. Disse que ia sim para os comícios, acompanhando todos os que o irmão
participava. Inclusive nos conta que no dia em que Juscelino Kubitschek esteve em Sapé, fora
ela a jovem que deu a sombrinha para o presidente se proteger do sol, próximo ao hotel
central de Sapé.
Durante a oitiva, Marina nos mostra uma fotografia ampliada na qual ela indica a
sombrinha que deu para o ex-presidente JK. A depoente ganhou essa fotografia ampliada do
filho de Assis Lemos. Na foto estão presentes: Ivan Figueiredo, Assis Lemos, Geraldo
Camilo
145, Juscelino Kubitschek (segurando a sombrinha dada por Marina), e Rui Carneiro.
Marina nos conta a respeito de uma vistoria que o exército deu em sua casa, ainda no
período anterior ao golpe militar, pouco após seu irmão João Alfredo ter retornado de uma
viagem a Cuba. Provavelmente, com a posse de um mandado de busca e apreensão
(possivelmente era isso, já que antes de entrarem na residência, conforme nos conta Marina,
os militares fizeram uma leitura de um documento que permitia a entrada dos militares na
145 Foi eleito prefeito de Mulungu no período de 1960 a 1964. Médico, eleito com o apoio das Ligas, Geraldo afirmou recentemente, em evento promovido pela CEVPM/PB na Assembleia Legislativa da Paraíba, em 06 de junho de 2015, que foi cassado pelos seus opositores militares, em 1964, antes de terminar seu mandato.
casa) os militares adentraram na residência à procura de armas e munições, considerando a
possibilidade de terem sido contrabandeadas de Cuba.
Vale lembrar que havia razões para essa desconfiança, já que fora descoberto pelo
exército a participação de algumas pessoas da comitiva que viajaram a Cuba em treinamentos
de guerrilha. Os militares procuraram pelas armas em toda a sua casa, mas os únicos objetos
que encontraram vindos de Cuba foram diversos livros, conforme atesta Marina:
Agora você vê, tinha tanto livro, de Fidel Castro, tinha tudo, não pegaram um livro... porque tinha muito livro, só queriam arma. Aí quando eles terminaram, olharam bem assim pra mim e falou assim: “É...não encontramos nada, só se for no telhado, mas isso a gente não vai fazer”.
Após cerca de seis meses o exército volta à casa de Marina em busca de armas
novamente. Em ambas as vezes que teve sua casa revistada, os militares nada levaram.
Quando perguntada sobre esse tipo de ação por parte da polícia militar, Marina responde que
nunca teve sua casa vistoriada por policiais, apenas pelo exército.
Sobre o seu pai, Alfredo Ulisses Dias, Marina diz que ele não trabalhava exatamente
na usina, mas numa terra que pertencia à usina. Era num lugar que o pessoal chamava por
Taboca. Plantava cana para a Usina nesse lugar e tinha uns três ou quatro moradores para
trabalhar para ele. Isso tudo no período em que a propriedade pertencia à família Ribeiro
Coutinho (Renato Ribeiro Coutinho). Estava na condição de foreiro. Marina nos conta que
quando descobriram que seu filho era João Alfredo, expulsaram-no das terras sem direito a
nada. Isso ocorreu ainda antes do golpe de 1964
146.
Nesse período o seu avô ainda era vivo, mas já não trabalhava mais. Morava próximo
de seu pai (Alfredo Ulisses). Conta que faleceu com quase 100 anos de idade
147. Sobre seu
trabalho, Marina diz que ele plantava cana e recebia em troca algum dinheiro, que seria usado
146No que se refere a esse acontecimento, é bom lembrar que muitos outros moradores foram expulsos nessa mesma condição, o que era uma tendência cada vez mais comum no período, quando as terras passaram a se valorizar a partir de meados da década de 1940, sobretudo com o pós-guerra, juntamente com os negócios oriundos da cana-de-açúcar que cresciam devido a alto dos preços do açúcar no mercado, além de maiores benefícios conferidos pelo Estado.
147 Como observou Waldir Porfírio, um dos membros da CEVPM/PB que participou desta oitiva, o avô de Marina possivelmente chegou a viver como escravo e, a partir da abolição da escravatura em 1988, teria entrado no “sistema morador”, um sistema que vigorou desde o período colonial e cresceu paulatinamente à medida que a escravidão foi se extinguindo no Brasil. Consistia num acordo, geralmente oral e sem contratos oficiais, entre um proprietário de terras e um trabalhador rural, na qual o primeiro disponibilizava uma pequena área, geralmente chamada de sítio, para o segundo e em troca recebia alguns dias de trabalho gratuito, chamado no nordeste de cambão, em sua propriedade. Esse sistema funcionou até o período anterior às Ligas Camponesas sem grandes contestações e conflitos. A partir de meados da década de 1940 e, sobretudo, nas décadas de 1950 e 1960, esse sistema começou a ficar em xeque, pois a classe dos proprietários passou a alterar este contrato secular, aumentando os dias de trabalho gratuitos de forma arbitrária e não conferiam nenhum direito aos trabalhadores quando desejavam expulsá-los do sítio cedido. Esses trabalhadores pouco a pouco começam a se organizar e passam a não aceitar passivamente este processo.
geralmente na compra de produtos vendidos no barracão
148. Marina diz que nasceu em Sapé e
que seu pai trabalhava num roçado em Boa Vista, numa localidade chamada de Açu do Mato;
quando se separou de sua mãe, foi morar em Taboca, próximo do seu avô, trabalhando para a
Usina Santa Helena.
Marina não sabe detalhar como foi que seu irmão João Alfredo começou a se envolver
na política, mas lembra-se do período em que se candidatou a vereador de Sapé, nas eleições
do ano de 1963. Lembra-se que seu irmão dizia no palanque: “me corte, me mate, me corte
em cinquenta pedaços... é cinquenta comunistas!”.
As ocupações de Nego Fuba, de acordo com sua irmã, foram: de sapateiro, depois
servente da SAMDU e depois enfermeiro (chegou a fazer um curso na SAMDU para exercer
essa profissão).
Marina diz que seu irmão não era carinhoso do tipo “de viver se declarando”, dizendo
que a amava. Ele tinha seu jeito mais reservado, porém suas atitudes mostravam isso, pois
qualquer aumento que ele recebia ele dizia que iria reservar um dinheiro para ajudar Marina.
Lembra-se que o primeiro salário que ele recebeu de enfermeiro da SAMDU ele deu a
Marina, que usou para comprar uma máquina de costura.
Sobre a viagem dele a Cuba, à China, à União das Repúblicas Soviéticas Socialistas
(URSS) e qualquer outra coisa que envolvesse política, Marina não sabe informar quase nada,
pois afirma que o irmão não conversava sobre isso dentro de casa. A respeito do apelido,
Nego Fuba, Marina acha que deve ter a ver com sua ida para Cuba, pois somente depois desse
episódio seu irmão foi assim batizado. A depoente lembrou também de uma localidade em
Sapé que era chamada de Cuba. Tinha a Cuba de baixo e a Cuba de cima.
Recorda-se que o irmão Nego Fuba sempre foi bastante calado, desde a infância.
Sobre esse período, nos conta:
Meu irmão [José Alfredo] mais velho vendia tapioca [...] aí quando Zé Alfredo ficou maior, né, já...aí disse que... botava o tabuleiro na cabeça e saia vendendo tapioca. Aí ele falou assim: “oh mãe, eu vou trabalhar, não vou mais vender tapioca. Quem vai vender tapioca é João.” E ele [João Alfredo] falou: “Eu não! Eu não vou vender tapioca” – eu me lembro dessa discussão – “eu vou trabalhar e não vou vender tapioca”. Aí o Dino [Ascendino, o irmão mais novo] foi vender tapioca.
Marina conta que a venda da tapioca era para o sustento da casa. Dava possibilidade à
mãe de sustentar seus filhos, pois o que recebiam de seu pai era muito pouco. Afirma que sua
148 Os barracões eram armazéns onde os patrões, ou alguém ligado a eles, comercializavam produtos para o consumo dos trabalhadores. Sem alternativa, dada a distância das cidades arredores, os camponeses muitas vezes se viam endividados, pelos altos preços dos produtos.