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A pesquisa em Ciências Sociais e em Educação tem ganhado novos contornos e objetos, a partir da evidência dada à abordagem qualitativa, enquanto metodologia de pesquisa. Sua divulgação deu-se, de forma simultânea, no cenário nacional e internacional, contribuindo para a ampliação de perspectivas teórico-metodológicas que passaram a dar sustentação a novas formas de olhar e explicar os diversos fenômenos sociais que se apresentam, no campo da educação.

Esse movimento foi influenciado, em nível nacional, por abordagens científicas, como o Interacionismo Simbólico, a Fenomenologia Social, a Sociologia do Conhecimento que, a partir de metodologias específicas, possibilitaram novas formas de investigação social, tais como a Etnografia, a Etnometodologia, a História Oral e a Pesquisa (Auto)biográfica, entre outras.

Segundo Weller e Pfaff (2010), a pesquisa qualitativa na educação iniciou-se, nas últimas décadas do século passado, marcada, a princípio, por observações etnográficas de ambientes escolares, basicamente tomando como referência estudos comparados. Desde então, vários métodos e técnicas de pesquisa foram desenvolvidos, o que minimizou o embate epistemológico sobre a cientificidade dos métodos qualitativos e quantitativos e as bases éticas da pesquisa.

A pesquisa etnográfica pode ser considerada a abordagem mais antiga empregada nas pesquisas em educação, amplamente influenciada pelos estudos antropológicos, que tratam de “mundos alheios ou estranhos, respeitando a perspectiva destes” (WELLER; PFAFF, 2010).

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Tal aspecto pode ser considerado um paradigma, pois, na condição de método de pesquisa, aponta outras maneiras de estudar o “outro”. Para Laplantine (2005, p.16), a Antropologia é a área do conhecimento que estuda “o homem por inteiro” e em sua diversidade, levando em consideração “as múltiplas dimensões do ser humano em sociedade”. Isso revela a pluralidade da humanidade em seus contextos específicos.

Nesse sentido, Laplantine afirma que “o conhecimento (antropológico) da nossa cultura passa inevitavelmente pelo conhecimento das outras culturas; e devemos especialmente reconhecer que somos uma cultura possível entre tantas outras” (2005, p. 21). Essa abordagem provoca, assim, uma mudança na forma de conhecer, de olhar seus objetos de estudos e foi sendo desenvolvida com a própria prática de investigação, no campo da pesquisa. Teve vários representantes, entretanto os pioneiros foram: Franz Boas e Bronislaw Malinowski.

Boas, um americano de origem alemã, influenciou na mudança efetiva da prática antropológica, valorizava a pesquisa de campo nos seus aspectos micros; para ele, no campo “tudo deve ser anotado [...] tudo deve ser objeto de descrição mais minuciosa, da retranscrição mais fiel [...]” (LAPLANTINE, 2005, p. 77). Além disso, mostrou que o estudo ou observação de um costume deve ser feito em relação ao seu contexto original; se não for assim, não consegue ter significação; com isso, nasce a etnografia profissional.

Malinowski é considerado um dos principais representantes dessa abordagem, em sua obra Os argonautas do pacífico ocidental, na qual reconstrói sua experiência entre os nativos das ilhas Trobriand e nos relatos detalhados do Kula. Acrescentou assim novos modos de conduzir a experiência etnográfica, principalmente em relação ao método que desenvolveu e à percepção em relação pesquisador-pesquisados, inovando a forma de coletar dados, no campo de pesquisa. Inventa e pratica em suas pesquisas a observação participante, ao propor compreender “por dentro” a cultura estudada.

A etnografia é, ao mesmo tempo, um processo e um produto de pesquisa. Como processo, envolve um convívio prolongado com o grupo que se investiga, através da observação participante, na qual o pesquisador vive a experiência de uma imersão na vida cotidiana das pessoas, observando-lhes as atividades rotineiras, os eventos extraordinários e os “imponderáveis da vida” (fenômenos que não podem ser registrados, através de questionários ou de documentos estatísticos (...), como a rotina diária do trabalho, os detalhes dos cuidados corporais, o modo de comer e de preparar os alimentos, o tom das conversas, as amizades e as hostilidades), o que não pode ser esquecido, durante a pesquisa, e deve ser observado em sua

plena realidade. Observando a vida do grupo em sua plena realização, o pesquisador pode identificar traços culturais compartilhados (MALINOWSKI, 1978).

De acordo com Malinowski (1978), além dos dados referentes à vida cotidiana e ao comportamento habitual, devem ser registrados os pontos de vista, as opiniões, as palavras dos nativos, pois, em todo ato da vida tribal, existe a rotina estabelecida pela tradição e pelos costumes. Além disso, a maneira como se desenvolve essa rotina e o comentário a respeito dela, contido na mente dos nativos. Com ele, o “social deixa de ser anedótico, curiosidade exótica, descrição moralizante ou coleção exaustiva erudita” (LAPLANTINE, 2005, p. 84), pois, para compreender o homem em suas várias dimensões, é necessária a observação dos fatos sociais, em seus aspectos micros, particulares e até mesmo aparentemente insignificantes. Essa prática produziu uma ruptura metodológica que prioriza a experiência pessoal, no campo de pesquisa.

Na educação, esses estudos inicialmente se referiam à etnografia escolar. E descreviam o cotidiano escolar. Em alguns países, como a Inglaterra, foi desenvolvida pesquisa sobre os jovens de uma escola masculina. Na Alemanha, o enfoque foi a infância e a adolescência. No Brasil, esse tipo de pesquisa tem sido realizado em escolas, destacando a organização, o cotidiano escolar e a juventude, como destacam Weller e Pfaff (2010, p. 16).

Além da etnografia, podemos pontuar, como principais abordagens qualitativas usadas nas pesquisas em Educação, “as investigações no campo da história oral e da pesquisa biográfica”. Além dessas abordagens, destacam-se os “estudos que adotam perspectivas interacionistas ou a análise do discurso como método”, como pontuado por Weller e Pfaff (2010, p.16). Com base nesses tipos de pesquisa, foram desenvolvidas técnicas de coleta e construção de dados, assim como modelos de análise e interpretação específicos para essa perspectiva.

A história oral e a pesquisa (auto)biográfica trazem para o cenário das pesquisas em educação novo enfoque, voltadas mais para a construção de sentidos e significados construídos, a partir de relatos e narrativas que buscam reconstruir trajetórias de vida e de formação, tanto individual quanto coletiva. Ambas as abordagens utilizam procedimentos diversificados para coleta e construção de dados.

Em síntese, podemos dizer que as metodologias da pesquisa qualitativa são descritas, como aquelas capazes de incorporar a questão do significado e da intencionalidade, como inerentes aos atos, às relações e às estruturas sociais. As estruturas são tomadas, tanto no

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seu advento quanto na sua transformação, como construções humanas significativas (MINAYO, 2009, p.10), no propósito de compreender a complexidade e o significado da experiência humana.

Por sua vez, a pesquisa (auto)biográfica permite, através de sua variedade de métodos e técnicas, evidenciar como as pessoas, falando de si, falam da vida, do mundo. Nesse sentido, elas trazem a perspectiva compreensiva e interpretativa, tendo em vista que desenvolvem suas ações e constroem suas crenças e significados sobre a vida, o mundo e si mesmo, a partir de suas percepções, sentimentos e significações que dão às suas ações, relações e experiências. Elas precisam ser desveladas, compreendidas e interpretadas.

Imbuído dessas características, esse tipo de pesquisa enfoca, enquanto instrumental teórico-metodológico, a singularidade do indivíduo em articulação com seu contexto social, cultural e histórico. Ferrarotti (2010) chama nosso cuidado para essa articulação entre individual e coletivo, como expressão da singularidade pessoal que, ao ser vivida, expressa e significada, perfaz uma síntese individualizada do que é experienciado na vida social. Para Ferrarotti (2010, p. 35),

[...] a biografia que se torna instrumento sociológico parece poder vir a assegurar essa mediação do ato à estrutura, de uma história individual à história social. A biografia parece implicar a construção de um sistema de relações e a possibilidade de uma teoria não formal, histórica e concreta, de ação social.

Assim, é que os materiais biográficos foram considerados pelo autor fontes propiciadoras da compreensão do universal, por meio da singularidade. Ferrarotti (2010, p.33), ao relacionar “a biografia individual com as características globais da situação histórica ‘datada e vivida’”, tornou evidentes os princípios teóricos do método biográfico: a subjetividade e a historicidade.

Ao longo de seu desenvolvimento, a pesquisa (auto)biográfica tornou-se uma aposta científica: “atribui à singularidade um valor de conhecimento”, o que inaugura novas formas de interpretar a realidade e lidar com procedimentos de pesquisa qualitativa, com ênfase à construção de dados, gerados a partir de uma interação complexa entre pesquisador- pesquisado, traduzindo-se numa relação de cooperação e, por outras vezes, numa relação em

que o sujeito e o objeto são os mesmos, quando o pesquisador “se observa e se reencontra” (FERRAROTTI, 2010, p.33).

Contudo, para atingir essa perspectiva, passou por algumas transformações marcantes, indo de um esvaziamento de seu caráter heurístico, como forma de adaptação à abordagem qualitativa tradicional, ao reconhecimento de seu aspecto interpretativo, voltando- se para a importância da subjetividade e da historicidade presentes nos materiais biográficos, conforme expresso por Delory-Momberger, na obra As histórias de vida: da invenção de si ao projeto de formação. A autora destaca que esses materiais eram usados de forma justaposta, “considerados como veículo e fonte de extração de informações”, além de, muitas vezes, serem usados “como ilustração ou validação a posteriori de um modelo formal de interpretação” (grifo da autora) (DELORY-MOMBERGER, 2014, p. 285).

Podemos marcar a especificidade da pesquisa (auto)biográfica, a partir dos materiais biográficos, do potencial das narrativas autobiográficas de expressarem “a história individual como história social totalizadora”, e da forma de utilização desse instrumental, como uma ação social que exige interações e produz sociabilidade (FERRAROTTI, 2014, p. 40 a 45).

De acordo com Ferrarotti (2014, p.40), os materiais de investigação dessa abordagem podem ser divididos em materiais biográficos primários (narrativas autobiográficas) e materiais biográficos secundários (diários, fotografias, testemunhos escritos, documentos oficiais, etc.), sendo estes últimos os materiais usados de forma tradicional. A inversão dessa tendência dá-se pelo uso das fontes primárias, restabelecendo, assim, seu potencial heurístico e sua “subjetividade explosiva”.

Para tanto, faz-se necessário, conforme Ferrarotti (2014, p. 41), compreender esse princípio, a partir do entendimento de que as narrações autobiográficas são meios viabilizadores de acesso à subjetividade, pois relatam uma práxis humana que “se apropria das relações sociais (as estruturas sociais), interiorizando-as e voltando a traduzi-las em estruturas psicológicas”, através de uma atividade sintética “desestruturante-reestrurante”, que se torna uma síntese totalizadora “de todo um contexto social”. Segundo o autor, esse movimento de desestruturação e reestruturação confere ao social as formas psicológicas que são introjetadas sinteticamente formando nossa subjetividade.

Nesse sentido, podemos entender que o indivíduo, através da práxis “sintética, singulariza nos seus atos a universalidade de uma estrutura social. Pela sua atividade

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destotalizadora/retotalizadora, individualiza a generalidade de uma história social coletiva”. Dessa forma, podemos concluir que, se o indivíduo traz em sua essência o universal, podemos conhecer o universo social e histórico, a partir das especificidades do individual. Isso nos possibilita “ler uma sociedade por meio de uma biografia”, outra característica marcante da abordagem (auto)biográfica.(FERRAROTTI, 2014, p.42).

De acordo com Ferrarotti (2014, p. 43), a forma como se procede à “entrevista biográfica”68 pode ser considerada como uma das especificidades desse método, pois traduz uma relação de interação entre pesquisador e interlocutor, evidenciando um conjunto de expectativas, injunções, valorizações e percepções permeadas de tensões, conflitos e estruturas de poder. Tudo isso pode variar, a depender da forma como os interlocutores interpretam o que o pesquisador sabe e, portanto, o que deve ser dito. O pesquisador tem papel ativo nessa relação, que é sempre recíproca, destituindo, assim, qualquer ideia de objetividade.

A entrevista biográfica tem uma intencionalidade comunicativa. Ao ser efetivada, através de uma narração, desestrutura e reestrutura sinteticamente um ato ou uma história individual, ao mesmo tempo em que expressa uma “história social totalizada”, enquanto práxis humana (FERRAROTTI, 2010, p.48). Assim, sujeito e objeto estão imbricados numa relação complexa, baseada na reciprocidade, em que o observador está implicado profundamente no campo de seu objeto, outro traço essencial dessa perspectiva.

Delory-Momberger (2014, p. 285) diz que a narrativa biográfica “é um espaço de uma práxis interativa (a do narrador/narratário, do informador/pesquisador)”; por conta disso, é possível entender que a narrativa, antes de contar uma vida, “ela conta uma interação presente, por intermédio de uma vida” (FERRAROTTI, 2010, p.53). Dessa interação entre “instituinte e instituído” é produzida uma narrativa como uma “atividade discursiva e pragmática”. Consequentemente, pode ser considerada como uma ação social que realiza um duplo movimento de totalização, “a partir da qual se elabora a história de vida” (DELORY- MOMBERGER, 2014, p. 286).

A autora citada elenca como características da narrativa biográfica: a forma como a narrativa é produzida, pois aponta para uma narração construída; a relação entre o narrador e o informador, que estabelece uma relação dialética e interativa; o caráter de estruturação, que revela a dimensão de reorganização e criação própria da narrativa; e a dimensão

68Denominação dada por Ferrarotti (2014, p. 40) para o instrumental de recolher as narrativas autobiográficas.

sociossimbólica, pois convida “a um procedimento de elucidação do sentido” (DELORY- MOMBERGER, 2014, p. 288).

A produção de sentido propiciada pela narrativa biográfica é revelada por “a atividade propriamente hermenêutica do narrador” que narra sua história, conforme a representação totalizante que tem de si mesmo e de sua vida, demonstrando as formas com o que “o sujeito constrói seu ser social singular” (DELORY-MOMBERGER, 2014, p.291).

Segundo Delory-Momberger (2014), Franco Ferrarotti abre as portas para o desenvolvimento e estruturação dessa abordagem. Em síntese, seus estudos são pilares a sustentar que a biografia é em si mesma uma “microrrelação social, através da qual se pode ler uma sociedade” (FERRAROTTI, 2010, p.50). Não toda a sociedade, mas uma parte dela, visto que o indivíduo é incapaz de totalizar diretamente uma sociedade global, mas apenas a mediação do seu contexto social, dado pelos grupos restritos de pertença, os grupos primários, a saber, a família, os grupos de trabalho, a vizinhança, a classe social.

Para Josso (2010), tal abordagem valoriza a singularidade da pessoa, suas vivências e experiências, enquanto elementos formadores de sua história de vida, que pode ser expressa por meio de narrativas de si. Estas, dependendo do enfoque, podem ser usadas como método ou como instrumental de construção de dados. A seguir, descrevo como utilizei o potencial dessa abordagem, na pesquisa que realizei junto às mulheres romeiras.

Benzer Belgeler