I. BÖLÜM
2.3. Yaşam Doyumu Kavramı
FERNANDO CAMPOS*
E
m curto prazo, sem apoio documental e com uma má memória, é-nos difícil dissertar sobre quaisquer aspectos da passada vida dos estudantes ultramarinos residentes em Coimbra. Mesmo as- sim atrevemo-nos a rebuscar sobre as suas preocu- pações políticas no tempo anterior aos anos 50.A Delegação de Coimbra da Casa dos Estu- dantes do Império teve por base um núcleo de es- tudantes provindos de Moçambique e que forma- ram uma Casa dos Estudantes de Moçambique, e um núcleo de estudantes de Angola e que forma- ram uma efémera Casa dos Estudantes de Angola. Em virtude de existirem grupos de estudantes pro- vindos de outras antigas colónias, principalmente de Cabo Verde, Índia e Macau, foi correcta a pre- tensão de todos se congregarem numa única insti- tuição que seria em Coimbra uma Delegação da CEI já sediada em Lisboa.
Os estudantes provindos do Ultramar eram constituídos por gente da mais diversa formação social e ideológica. A maior parte fora gerada por colonos abastados ou altos funcionários que ti- nham capacidade para manter em Portugal os es- tudos superiores dos seus filhos. A despeito de vi- rem anualmente centenas de jovens estudar nas Universidades Portuguesas, o Governo vigente de Salazar não sentia a necessidade de criar Universi- dades nas colónias. Ele seguia a política de impo- sição de limitações de ordem social aos próprios naturais das colónias, de modo a inibir que os seus filhos pudessem prosseguir os seus estudos supe- riores. Por isso era escasso o número de estudan- tes de origem africana. Se de Angola ainda apare-
cia um pequeno lote, de Moçambique não aparecia quase nenhum estudante africano, porquanto era incomportável o preço de uma passagem de barco. No gregarismo dos filhos do antigo Império residentes em Coimbra, imperou uma activa com- ponente político-cultural que logo se firmou e se desenvolveu. Vivia-se então em Portugal sob o re- gime da ditadura do Estado Novo, de cariz fascis- ta, com falta das liberdades fundamentais, com uma forte censura à liberdade de expressão e aos noticiários jornalísticos e radiofónicos, e com uma ostensiva actuação da polícia política que, da ante- rior sigla PVDE, o vulgo lhe chamava Pevide, de- signação que perdurou por muito tempo mesmo após a mudança de sigla para PIDE. No combate aos oposicionistas ao regime, essa polícia era res- ponsável pela demissão compulsiva de funcioná- rios públicos, pelo impedimento de obtenção de postos de trabalho na função pública e em empre- sas privadas, na prisão e na manutenção ilegal nas cadeias, de muitos democratas, provocando a mi- séria e a fome entre muitas famílias. Naquele tem- po era vulgar os jornais noticiarem a prisão de di- versos democratas, sendo muitos deles jovens e estudantes, bem como a demissão e prisão de professores e intelectuais (vários deles de renome mundial), e o julgamento em tribunais plenários de trabalhadores, de estudantes e de intelectuais.
A chama da luta do Povo Português contra o regime fascista estava acesa. Os operários, os camponeses e os marítimos arriscavam fazer greves pontuais. Os estudantes de algumas Faculdades não lhes ficavam atrás, vindo também a ser vítimas da
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repressão. Embora a grande imprensa estivesse sub- metida à acção da censura e aos cortes da própria chefia, a par da imprensa moderada e permitida, existia outra imprensa, clandestina, principalmente dirigida pelo Partido Comunista Português. As suas folhinhas coloridas e transparentes, bem como os manifestos do Movimento de Unidade Democrático — MUD, e do MUD Juvenil, eram distribuídos à revelia dos agentes da polícia e seus informado- res, e circulavam de mão em mão.
Em Coimbra tal actividade se desenrolava en- tre os estudantes democratas e os sectores mais progressistas da população, pondo a todos no co- nhecimento das lutas e actividades da clandestini- dade e também dos desaires que sofriam os com- batentes da Liberdade. Era assim em Coimbra, onde um dos sectores mais vigiado, provocado e supostamente controlado era o núcleo dos estu- dantes ultramarinos. Funcionando a sede da Dele- gação da CEI nos andares cimeiros de um prédio de dois andares situado na Rua Ayres de Campos, perto do Penedo da Saudade, essa instituição esta- va organizada em termos democráticos, pois entre os seus associados estava já arraigado um espírito combativo, baseado na democracia e na liberdade. Quaisquer pruridos de diferenciação social prove- niente de anterior estatuto social privilegiado, ou então de diferenciação em outro aspecto como o religioso, o étnico, o filosófico, o racial, eram eficazmente eliminados. Não se pode afirmar que todos os estudantes ultramarinos professassem uma mesma ideologia política, mas era notado o seu comportamento político-social dentro do convívio académico local.
A propaganda governamental apodava de co- munista toda a gente que se encontrasse no outro lado da barricada. Mesmo aqueles democratas por- tugueses a quem não seria legítimo apontar qual- quer convivência com comunistas, eram impiedo- samente maltratados e manietados a uma falsa propaganda de conluio com elementos comunistas ou com núcleos de oposicionistas afins. Após o término da 2.a Guerra Mundial, quando se espe-
rava que o chamado Mundo Livre movesse apoios que forçassem o estabelecimento da liberdade e da democracia em Portugal, verificou-se uma falta de empenhamento, a ponto de serem os próprios na- cionais a pôr em marcha uma resistência aberta através da acção clandestina de núcleos de intelec- tuais, de trabalhadores e de estudantes. Quando Salazar anunciara que as próximas eleições presi- denciais seriam tão livres como na Grã-Bretanha,
todo o povo democrata, ansioso pela liberdade so- cial, teve grande esperança na constituição do MUD e na anunciada candidatura do General Nor- ton de Matos contra a do Presidente General Fra- goso Carmona.
Em Coimbra, tal como noutras partes do País, multiplicavam-se as comissões e núcleos de apoio à candidatura de Norton. Na Academia Coimbrã era forte o movimento a favor de essa candidatura. A maioria dos estudantes ultramarinos era-lhe não só favorável, mas actuante em prol da libertação do Povo de Portugal e com vista a uma futura mo- dificação do quadro político nas colónias. Nesse tempo se falava já dentro dos muros da CEI no problema da libertação das colónias, embora com motivações diferentes. A par dos que sonhavam com uma independência institucional de Angola e Moçambique, apadrinhada pelos colonos, havia um sector progressista que aspirava a independên- cia das colónias para toda a gente, e punha os olhos na actividade dos movimentos de libertação das colónias de outros países. O sentimento de li- bertação não havia ainda atingido os estudantes das outras colónias. Entre os estudantes angolanos que perfilhavam a libertação de Portugal como primeiro passo para a libertação das colónias, fi- guravam nomes como Agostinho Neto, Ivo Loio, Carlos Veiga Pereira, Lúcio Lara, Antero Abreu. Entre os estudantes moçambicanos, João Bernardo Dias, Orlando de Albuquerque, os irmãos Virgílio Moreira e Fernando Moreira. (É-nos penoso omitir outros nomes).
As forças académicas que apoiavam o Gover- no concentravam-se em organismos como o Cen- tro Universitário da Mocidade Portuguesa, o CADC (Centro Académico de Democracia Cristã) apoiado pelo Clero, e espalhavam-se também por entre a própria Academia. Nesse tempo os estu- dantes ultramarinos estavam a ser enredados numa teia de bloqueio que os levasse a não combater o fascismo e dar mesmo apoio ao Governo de par- tido único. Assim havia estudantes de proveniên- cia ultramarina que se encontravam no seio dos referidos organismos. Mas tal não era de espantar, porquanto se comentava que, sendo eles prove- nientes da alta burguesia residente principalmente em Macau e em Goa, fosse natural que não ousas- sem criar problemas a quem de tão longe lhes mantinha os estudos. Mesmo assim era acintoso o namoro que no seio dos problemas internos da Academia era feito aos estudantes ultramarinos. Todavia, assim que se verificasse não estarem es-
tes interessados ou dispostos a pactuar com forças consideradas retrógradas e reaccionárias, os estu- dantes ultramarinos eram logo rotulados de comu- nistas, e o seu organismo CEI, considerado como alfobre a vigiar permanentemente. E na realidade era mesmo vigiado. Constava que um seu empre- gado era informador da polícia política. Todos os associados revolucionários da CEI tomavam as suas próprias precauções. Aliás precauções idênti- cas eram tomadas sempre que, após as refeições, fossem à Baixa tomar café e conviver no antigo Café Montanha (situado ao lado da Delegação do Banco de Portugal e anos depois desaparecido), onde se reunia toda a “malta das colónias”.
No escasso número de páginas que nos são concedidas, não é possível referirmos alguns epi- sódios ligados às lutas políticas travadas em Coimbra pelos estudantes ultramarinos. Todavia aproveitamos salientar a unidade de acção contra o fascismo existente entre os estudantes progres- sistas da CEI e um núcleo de progressistas do ope- rariado coimbrão, o qual se concentrava no Ate-
neu de Coimbra, uma agremiação recreativa de características populares. O Ateneu de Coimbra, principal alfobre dos revolucionários conimbricen- ses, além de ter sido um grande obreiro na forma- ção e militância do operariado coimbrão, serviu também de base política para diversos estudantes ultramarinos. Ficou sólida a amizade e a solidarie- dade entre os operários revolucionários do Ateneu de Coimbra e os estudantes ultramarinos progres- sistas da CEI.
Outras fornadas de estudantes ultramarinos iriam anualmente chegar a Coimbra, para engros- sar o núcleo dos estudantes progressistas, muitos dos quais faziam o seu baptismo de activistas polí- ticos no combate pela liberdade e pela indepen- dência dos seus países. Novos nomes iriam ser os continuadores nas grandes lutas académico- -ultramarinas que iriam travar-se na formação e consolidação da mentalidade independentista dos estudantes ultramarinos.