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OLGULARDAN ÖRNEKLER

OLGU 4. 56 yaşında erkek, Prostat adenokarsinom

Como observa J. M. Latino Coelho, o gaiato, de tão típico, poderia ser apresentado como uma modalidade nacional. Vagueia todas as horas pelas ruas de grandes centros ou talvez até dos pequenos aglomerados urbanos. Ocioso, não faz caso para o trabalho nem para o estudo. Peca pelos maus modos e por hábitos que são, aos olhos da sociedade, repugnantes. A vida social aparentemente desliza a seus olhos e ele, vendo a civilização passar, não parece dar atenção a ela. O gaiato praticamente nasce sem vínculos e não há ninguém que se preocupe em velar por ele. É quase o homem de natureza, lidando com obstáculos que a vida teria delegado ao homem adulto, mas que para ele talvez houvessem vindo mais cedo. O gaiato é protagonista de uma história que não parece se desenrolar, porque, adepto das rudezas de uma vida sem destino, despreza e desvia-se dos perigos da multidão da qual, ao fim e ao cabo, faz parte. O gaiato, quando crescer será um malandro; o malandro da cidade. Será contra essa cultura do gaiato que luta a nossa escola portuguesa?105 Invariavelmente, a escolarização pretende estruturar-se como aquilo que possibilita tirar a criança da rua. Seja pelo tempo que ocupa na vida da infância, seja pela culpabilidade que incute através de um conjunto articulado de saberes que contam do mundo, a escola põe a criança eternamente em dívida: dívida para com Deus, para com seus pais, mestres e superiores. Através dessa culpabilidade imposta sob o signo do medo, julga-se que a criança mais facilmente se subordinaria aos ditames da vida social. Através da culpabilização da juventude e da infância, a instituição escolar produz a prática da obediência e da aceitação, como dado de natureza, de toda a ordenação social. A escola convém à família, na medida em que é à família que o culpado-criança irá servir. Ocorre que a própria dinâmica da escolarização perpassa algumas contradições que devem estar postas na análise do objeto. Voltemo-nos a elas...

“Pelo fim do mês passado, fui informado de que o estudante Francisco Silva Ramos, da Aula dos Princípios de Gramática Latina do Estabelecimentos de Estudos de Alfama, Professor o Padre Manuel Joaquim Pires Ramos, se comportava muito mal; e particularmente que em pontos de Religião, e sobre o culto devido às imagens, falava com o maior desprezo, e até com indecência, tendo chegado a dizer por vezes a diversos condiscípulos seus, que, se as imagens eram estampas de papel, só serviam para limpar o ___ (nem posso explicar-me como ele se explicou, nem é preciso para que me entendam), e que, sendo de pau, o uso que delas se deveria fazer, era melhor

104 Coleção de Manuscritos da Biblioteca Geral da Universidade de Coimbra, códice 2532, documento nº22.

105 “O gaiato é um ser privilegiado dentro da família humana. Quase que nasce livre. Quase que veio ao mundo já herói e protagonista de cem dramas grandiosos. Afeito às durezas da vida, experimentado a todas as intempéries, pode dizer que é o homem da natureza, livre como ela, ligeiro como o vento, sagaz como a raposa, bravo como o leão das selvas. O gaiato realiza todos os dias, à nossa vista, o mito de Aquiles heróico, gastando a puerícia pelos bosques, e robustecendo o corpo com o exercício do arco, com medula de leões, sob os auspícios do centauro Chiron. O gaiato é Aquiles no meio de uma cidade populosa, enlameada, nas vielas estreitas e infectas de um bairro excuso. Não come as medulas dos leões porque a civilização, abrandando os costumes universais, lhe dá por mesa lauta o chão inteiro da cidade, e por iguarias os sobejos de tênues refeições. Não tem bosques onde vaguear, mas todas as praças lhe servem de circo. O centauro que o vigia é apenas algum municipal prosaico, ou algum cabo de segurança, que vem por vezes perturbar os graves ofícios em que o gaiato exerce frutuosamente a sua missão” (J. M. LATINO COELHO, Typos nacionaes, p. 25-6).

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metendo-as no lume. É certo que, falando com tal desprezo da imagens, expressamente compreendia entre elas as de Nossa Senhora; pois que uma vez, depois de sair da aula, indo com outros condiscípulos passando pela Sé, em cujo largo se estão vendendo estampas de Nossa Senhora da Conceição, vulgarmente chamada da Rocha, que naquele tempo se venera com um concurso assim de Povo, como de Nobreza cada vez maior; então, referindo-se às ditas estampas, e apontando para elas, se exprimiu, ou se desbocou do seu modo costumado. Além disto consta- me, e com igual certeza, que ele dissera coisa a qual, posto que não ofenda direta e imediatamente a Deus nem aos Santos nem às suas imagens, ofende todavia pessoa tão respeitável que, não podendo lembrar-me de semelhante calúnia sem horror, não posso absolutamente atrever-me a

referi-la.”106

Nessa carta dirigida ao Rei, em 17 de julho de 1823, o Comissário dos Estudos de Lisboa António de Castro declara na seqüência que todos os estudantes que ouviram tais absurdos se teriam escandalizado e reprenderam então o companheiro por falar daquela maneira. O menino, porém, não lhes dava qualquer atenção e continuava com aquele desenrolar de disparates e de ofensas. A insistência do colega motivou, segundo constava do documento, os demais rapazes do grupo a relatarem o que ouviam ao porteiro da escola, queixando-se daquela atitude que lhes “parecia intolerável”. O porteiro, por sua vez, relatou o caso diretamente ao Comissário dos Estudos, que alegou nada poder fazer antes de averiguar o que de fato poderia estar ocorrendo. Nessa medida, o Comissário dirige um ofício ao Padre Ramos, onde solicita informações quanto ao aproveitamento pedagógico do menino Francisco Silva Ramos, bem como quanto à sua conduta em termos de comportamento e costumes. O Comissário destacava, no referido ofício, que, se o professor não tivesse os elementos necessários para fornecer um relato fiel e confiável, que os procurasse, como fosse possível, para participar às instâncias superiores.

O professor então responde - em ofício dirigido em 3/7/1823 ao Comissário António de Castro - que nada existia para desabonar a conduta de seu discípulo, tanto em sua frente como fora dela; o aluno Silva Ramos tinha poucas faltas e não apresentava quaisquer problemas em termos de comportamento. Por outro lado, o professor assegurava que tirara informações junto à vizinhança onde ele morava, ao que fora informado que o menino era bem quisto e que se comportava bem. Finalmente, o mestre frisa que: “por isso, como eu só posso conhecer a conduta dos meus Discípulos, que praticam na minha ausência, sendo má, pelas queixas que se me fazem, e estas ainda não chegaram, só posso informar na verdade o que acabo de dizer.”107 Pelo texto, há veladamente a sugestão de que o Padre Ramos sabia já

do que se tratava, sem, entretanto, tocar no assunto, posto que o Comissário também ainda não o havia feito. Este último, entretanto, não parece acreditar na palavra do professor e levanta dúvidas quanto à veracidade das supostas informações que, sobre o comportamento do estudante, haviam sido obtidas. Nitidamente, o Comissário declara duvidar das informações prestadas pelo docente, ilustrando nesse caso a complexa teia da microfísica do poder escolar. A hierarquia aqui perpassava nitidamente relações pessoais e de confiança,

106 António de CASTRO, Coleção de Manuscritos da Biblioteca Geral da Universidade de Coimbra, códice

1339, folhas 77-80.

107 A resposta do Padre Ramos, professor da referida turma de alunos, vem nos seguintes termos, datada de

Lisboa, 3 de Julho de 1823: “ Em cumprimento da Ordem de Vossa Senhoria em que me determina que informe tanto a respeito do comportamento como do aproveitamento literário do meu discípulo Francisco Silva Ramos, o que posso informar a Vossa Senhoria é: que o seu comportamento na minha presença tanto na aula como fora tem sido excelente: a sua frequência com poucas faltas e não pouca aplicação e aproveitamento; e ontem mesmo, tirando informações na vizinhança onde ele mora, me disseram que se comportava bem; por isso, como eu só posso conhecer a conduta dos meus discípulos, que praticam na minha ausência, sendo má, pelas queixas que se me fazem, e estas ainda me não chegaram, só posso informar na verdade o que acabo de dizer.” (Manoel Joaquim Pires RAMOS, Coleção de Manuscritos da Biblioteca Geral da Universidade de Coimbra, códice 1339, folha 81).

316 não apenas entre o mestre e seus discípulos, mas entre o porteiro e os alunos, e, finalmente - ou talvez principalmente - entre o porteiro e o Comissário dos Estudos responsável pela supervisão daquela escola, o qual, por sua vez, arrematava com o seguinte:

“Mas duvido que seja assim: porque afirma o porteiro que apenas soube as expressões escandalosas do estudante, lhe dera conta delas, e do como as sabia; e que ele, ouvindo-as com desprezo, lhe respondera que o estudante na sua presença sempre se portara bem e que não devia fazer caso do que diziam rapazes. Fazendo ao mesmo tempo mais alguma averiguação, falei com dois estudantes daquela aula e que conhecia por mais fidedignos; e também falei com o pai de um deles, e com o tio do outro; e o que por este modo alcancei, me confirmou o que me tinha referido, e achei em tudo conforme o que soube dos estudantes, com o que eles contaram em suas próprias casas, mostrando-se os mencionados pai e tio inquietos, considerando, um que seu filho, o outro que seu sobrinho andasse numa aula que também frequentava semelhante indivíduo. E como ao mesmo tempo vi que o que me dizia o Professor não justificava o Estudante, nem me podia fazer duvidar sobre o que acerca dele se me referia; pois que só o abonava no modo com que se portava na sua presença e no mais se dava por ignorante: não pude deixar de acreditar o

que me constava; e assentei que devia d’alguma sorte proceder.”108

Sucede que - continua o relato do Comissário - quando o estudante Silva Ramos teve notícias de que as autoridades poderiam vir a ser informadas pelo porteiro sobre sua conduta, tratou logo de pedir desculpas, dizendo-se arrependido e prometendo não mais dizer “semelhantes coisas”, o que - nas palavras do Comissário - era um sinal comprobatório do delito, porque, assegurando que não mais falaria tais coisas, o estudante traía-se; “por conseguinte, reconhecendo tê-las dito”109. Entretanto, o menino solicitou encarecidamente ao

porteiro que nada relatasse sobre o ocorrido. Imediatamente depois, mal se fechavam as aulas, o porteiro dirige-se ao Comissário para denunciar o que acabara de ouvir. O Comissário remete o caso à Real Junta, com a nítida sugestão de que providências pudessem ser tomadas para proceder ao castigo do trangressor, o que ao menos serviria como exemplo para aqueles que eventualmente pudessem vir a tomar tais atitudes por modelo. O Comissário declara, de antemão, que não se satisfazia com os arrependimentos e com as promessas de emenda, posto que o estudante agia daquele modo exclusivamente por medo do castigo e não por verdadeira convicção. Além disso, enquanto aguardavam a resposta final da Junta da Diretoria Geral dos Estudos, o menino deveria ser “despedido interinamente” da aula, o que foi exigido em ofícios datados de 8/7/1823 e dirigidos ao professor e ao porteiro, para que não mais consentissem na entrada daquele rapaz no estabelecimento.

108 António de CASTRO, Coleção de Manuscritos da Biblioteca Geral da Universidade de Coimbra, códice

1339, folhas 77-80.

109 “Mas antes de fazer coisa alguma, tendo provavelmente o estudante alguma notícia de que eu poderia ser

informado pelo porteiro acerca do seu comportamento, e temendo algum resultado; foi-se ter com o porteiro e, dizendo-lhe que não soubera o que dissera; protestando estar mui arrependido, e prometendo nunca mais dizer semelhantes coisas ( por conseguinte, reconhecendo tê-las dito ); pediu-lhe encarecidamente me não referisse nada. Apenas se fecharam as aulas, vejo imediatamente o porteiro dar-me conta disto mesmo. Refletindo porém sobre o caso, pareceu-me mui grave e melindroso para o tomar sobre mim e decidi-lo por mim mesmo. E não me satisfazendo semelhantes mostras de arrependimento e promessas de emenda, que o medo do castigo maior provavelmente extorquia a um rapaz de 14 anos; julguei que nem devia tomar sobre mim o perigo que resultaria aos condiscípulos de o terem consigo, entretanto que eu desse conta e baixasse da Real Junta a Decisão. Por isso me resolvi a fazê-lo despedir interinamente da aula, por ofício, que enviei ao professor na data de 8 do corrente, e outro na mesma data ao porteiro, para que o não consentisse no estabelecimento, declarando em ambos que assim se executaria enquanto a Junta da Diretoria Geral dos Estudos, a quem dava conta, não tivesse decidido a seu respeito.” (António de CASTRO, Coleção de Manuscritos da Biblioteca Geral da Universidade de Coimbra, códice 1339, folhas 77-80).

317 Constrangido o professor Padre Ramos com a possibilidade de se suspeitar ser ele quem estava a sonegar informações, antes mesmo que chegasse às suas mãos o ofício do Comissário, ele escreve outro, em que dizia que, após ter recebido e respondido aquela solicitação quanto a informações sobre o comportamento do estudante, ele havia ficado sabendo...110 Mas o Comissário não esmorece...

“Receoso, quanto me parece, o Padre Ramos, de que, apesar de nada me ter dito no seu ofício contra o estudante, eu procedesse sempre de algum modo contra ele, no seguinte dia 9 pelo meio dia, não tendo ainda recebido o meu ofício de 8 por não o ter levado o contínuo, senão na tarde de 9, dirigiu-me outro ofício (nº 2) em que com efeito disse que depois de ter respondido ao meu (do dia 2) tinha sabido por dito de alguns estudantes que Francisco Silva Ramos, estando junto com outros muitos no pátio do Estabelecimento, falara algumas coisas indecentes. Julgo que se deve logo notar aqui, 1º) que não declara que coisas indecentes fossem essas que o estudante falara, podendo-se dizer indecentes coisas mui diversas e que se possam e devam classificar mui variadamente; 2º) que não exprimindo a menor dúvida sobre a verdade do fato de ter o estudante falado coisas tais, parece que o reconhece como certo. Não parece verossímil que, sabendo o professor ter o estudante falado coisas indecentes, não soubesse quais elas tinham sido. E se o soube, por que m’o não declarou ? Não posso conjecturar outra razão mais de que querer favorecer o Estudante, dissimulando como pode a sua culpa. E, mostrando ter o fato verdadeiro, nada vale nem vem a propósito o que depois ajunta. Ajunta ele imediatamente: Mas que falariam muitos dos outros que estavam com ele? Que falaram eles, e que foi o que disseram, lhe perguntarei eu: e se d’alguma sorte o sabe, porque o não diz se lhe constou que Francisco Silva Ramos na sua culpa teve cúmplices ou conselheiros, que, ou o igualassem na culpa, ou de qualquer sorte dessem a ela causa; por que o não declara? Se considerado o caráter e costume deles, que melhor que ninguém deve conhecer quem é o seu Mestre, julga que assim se deve supor; por que não declara isso mesmo? Que falariam muitos dos outros que estavam com ele? Eu respondo francamente a esta pergunta: talvez falassem tão mal, e pior ainda que Silva Ramos; assim é possível que sucedesse. Mas não se quer saber o que é possível; quer-se saber o que foi. O caso é que, tendo feito as averiguações que disse, tenho assaz fundamento para me persuadir que a culpa foi só desse, que ele mostra proteger, e, não podendo de outro modo, querendo fazer passar por suspeitos os que foram inocentes. Não lhe concilia isto crédito de bom Professor. A outra razão que lá deu ao Porteiro, segundo acima disse, que não devia fazer caso do que diziam rapazes, absolutamente falando, tenho-a por falsa. De nada vale o testemunho de menores, nem devem ser chamados a depor, quando há homens não menores que deponham. Mas quando o caso só tiver sido presenciado por menores, creio que as mesmas Leis mandam que se chame sedução; e lá está o juiz, que vendo os seus depoimentos, não se lhes ocultando que as testemunhas são menores, verá o crédito que merecem e fará o seu juízo. Grande parte das culpas, que cometem

110 Nos termos do professor, sem que ele houvesse sido anteriormente avisado do ocorrido, o grande intrigante

havia sido o porteiro da escola, que além de não cumprir a ordem de deixar fechado o estabelecimento em horários em que não havia aulas, parecia dedicar-se à troca de informações. O professor não aceita a culpabilização do estudante que, aos seus olhos, era dócil e facilmente corrigível. Por sua vez, pautado exclusivamente pela informação dos colegas, como castigar o menino? O que faziam os outros antes de

proceder à delação? “Depois que respondi ao Ofício de Vossa Senhoria informando a respeito do meu

discípulo Francisco Silva Ramos, tenho sabido por dito de alguns estudantes que ele, estando junto com outros muitos dentro do pátio do estabelecimento, falara algumas coisas indecentes: mas quê falariam muitos dos outros que estavam com ele ? A prudência de Vossa Senhoria o poderia considerar. A mim não se tem feito queixa alguma que devesse levar à presença de Vossa Senhoria e isto mesmo o não sabia, se não recebesse o ofício de Vossa Senhoria e não sei de quem é a culpa. Quanto ao mais, refiro-me ao que disse no meu ofício antecedente, acrescentando que o mesmo estudante tem gênio dócil, e por isso não será incorrigível. Porém precisa-se que Vossa Senhoria mande ao Porteiro que execute rigorosamente a Ordem que tem para não abrir a porta do Estabelecimento se não cinco minutos antes de tocar, ou melhor seria abri-la só quando tocar e isto sem exceção alguma de estudante, porque as exceções sempre são odiosas, pois deste modo se evitam tais acontecimentos, não lhes sendo tão fácil a reunião, não fazendo do estabelecimento couto para se esconderem, e se fora fizerem coisa má, a vizinhança me fará queixa, e não será preciso eu esperar ofícios de Vossa Senhoria para eu saber o comportamento dos maus discípulos: e espero as Ordens de Vossa Senhoria para as executar.” (Manoel Joaquim Pires RAMOS, Coleção de Manuscritos da Biblioteca Geral da Universidade de Coimbra, códice 1339, folha 82).

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estudantes de Latim, não são jamais presenciadas senão por outros estudantes e todos serão menores: porventura dir-se-á que, embora se matem ou firam, digam heresias ou blasfêmias, não tem o Professor que embaraçar-se com isso, porque não deve fazer caso do que dizem rapazes? Dizendo depois o Professor que a primeira notícia do que dissera o estudante a não tivera se não recebesse o meu ofício, ajunta logo: Não sei de quem é a culpa. Sei que diz isto para de alguma sorte culpar o Porteiro, por dever este dar-lhe conta a ele primeiro que a ninguém. Mas assim protesta o Porteiro que fizera e que assim o sustentara já falando com ele mesmo; e que então fora que ele respondera que tendo-se o estudante havido sempre bem na sua presença, não fazia caso

do que diziam rapazes.”111

O professor, como aqui se evidencia, teria na ocasião aconselhado o porteiro a não fazer caso daquele tipo de conversa dos meninos, até para que o conflito pudesse terminar por ali. De algum modo, ao contrário do porteiro e do Comissário dos Estudos, o professor não incentiva a prática de delação entre os seus alunos, considerando-a, no mínimo, sempre suspeita. Efetivamente, o que faziam os outros enquanto aquele menino se comportava com maus modos, dizendo palavrões? Qual a verdadeira razão que os teria motivado a falar? Em que medida a palavra daqueles jovens poderia ser mesmo tomada com estatuto de verdade, se não havia nenhum adulto que estivesse lá na ocasião? Para o professor, sem dúvida nenhuma, o melhor teria sido esquecer o caso. Aconselhou assim ao porteiro, que, como pudemos constatar, agiu de modo diametralmente contrário, indo imediatamente contar ao Comissário todo o ocorrido.

Além do mais, o professor atribuía ao porteiro aquelas desordens, devido ao fato de os alunos estarem sendo, pela sua autorização, admitidos no estabelecimento antes da hora de entrada, quando a orientação dada ao mesmo porteiro era a de que a porta não fosse aberta em hipótese alguma antes dos cinco minutos que antecediam o toque. Contrariando habitualmente tal prescrição, o porteiro alegava que era necessário evitar que as crianças

Benzer Belgeler