2.4.6 ATAK SIKLIĞ
2.5. YAĞ DOKUSU VE YAĞ HÜCRESİ
A peça Gota d´água de Chico e Pontes contou com a direção geral de Gianni Ratto.219 A 29ª edição do livro, pela Civilização Brasileira,220 datada de 1998, fonte de nosso estudo, concerne à montagem paulista de Gota, em abril de 1977. Nessa,
216 Cf. VIANNA, Deocélia. Companheiros de viagem. São Paulo: Brasiliense, 1984.
217 VIEIRA, P. Paulo Pontes: A arte das coisas sabidas. Dissertação (mestrado) – USP, Escola de
Comunicações e Artes, 1989, f. 139.
218 BUARQUE, C.; PONTES, P. Gota d´água. 29. ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1998, p. 9. 219 O italiano Gianni Ratto veio para o Brasil em 1954, para trabalhar na Companhia Maria Della Costa.
Participou, posteriormente, do Teatro Brasileiro de Comédia (TBC) como diretor e cenógrafo. (CF. MOSTAÇO, E. Teatro e Política: Arena, Oficina e Opinião. São Paulo: Proposta Editorial, 1982, p. 26).
diferentemente das apresentações no Rio de Janeiro, a direção musical foi de Paulo Herculano, e não de Dori Caymmi. O elenco também sofreu mudanças em São Paulo, pois, com exceção de Bibi Ferreira, que continuou como a protagonista Joana, a Medeia euripidiana, os demais atores e atrizes foram: Francisco Milani (Jasão), Renato Consorte (Creonte), Xandó Batista (Egeu), Bethy Caruso (Alma), Liana Duval (Corina), Sônia Guedes (Zaíra), Aldo Bueno (Cacetão), Dirce Militello (Estela), Maria Helena Stainer (Maria), Zélia Silva (Nenê), Cuberos Neto (Galego), Geraldo Rosa (Xulé), Sergio Ropperto (Boca Pequena) e Cilas Gregorio (Amorim).
A direção musical, de Dori Caymmi nas apresentações do Rio e de Paulo Herculano em São Paulo, contou com orquestra e bailarinos, dos quais são citados apenas os pré-nomes na 29ª edição. Os responsáveis pela produção foram Max Haus e Moysés Ajhaenblat, por meio do Teatro Casa Grande.
Curiosamente, nessa mesma edição de 1998, são destacadas na primeira folha de rosto as demais obras literárias somente de um dos autores da peça, Chico Buarque. Ou seja, o nome de Paulo Pontes foi omitido como se ele nem figurasse na capa da edição. Uma omissão injustificável da editora Civilização Brasileira, e parece resultar de uma idolatria cultivada em torno da imagem de Chico, construída ao longo de sua carreira, na qual recebeu rótulos, desde o de maior expressão dos festivais musicais no circuito universitário até porta-voz da resistência militar pela esquerda. Entendemos que as trajetórias artístico-intelectuais de Chico e Pontes se aproximam muito, mas esse último, desde o início de sua carreira nos anos 1960, destacou-se como dramaturgo, o que valoriza mais seu trabalho em termos de quantidade de produção e, portanto, experiência. O próprio Chico afirmou ter sido Pontes quem lhe ensinou a carpintaria de escrever teatro.221 Há, portanto, uma grande incoerência na edição do livro pela Civilização Brasileira, que ignorou a questão da coautoria, ao listar a obra escrita somente de um deles.
Voltemos à peça. Quanto ao cenário e aos figurinos de Gota, cabe destacar o trabalho do responsável, Walter Bacci. A montagem do cenógrafo seguiu as premissas do tema central do texto escrito: a exclusão social operada nos centros urbanos. Dividiu- se o palco em dois polos: um andar destinado ao poderoso Creonte, proprietário do conjunto habitacional; e o térreo, onde residia a comunidade do conjunto. O contraste
221 Cf. HERMETO, M. Olha a Gota que falta: um evento no campo artístico-intelectual brasileiro
(1975-1980). Tese (doutorado) – UFMG / FAFICH / DH / Programa de Pós-graduação em História, 2010, f. 162.
entre o ambiente suburbano e o espaço da elite deveria ocupar todo o palco em extensão e altura. E assim foi feito nas montagens do espetáculo entre 1975 e 1977,222 no Rio de Janeiro e em São Paulo. O figurino também procurou evidenciar um contraste, dessa vez emocional, com a protagonista Joana, interpretada por Bibi Ferreira, vestindo-se de preto, uma cor que sublinhava seu isolamento e perturbação, enquanto as demais personagens usavam ternos e vestidos claros.
No dvd Bastidores,223 temos essa imagem de Bibi de preto, interpretando o monólogo sobre a comida preparada com tempero e veneno, prato da vingança a ser concretizada. Podemos, aí, entender a grande repercussão da performance da atriz no espetáculo, dados os relatos da imprensa da época,224 bem como do próprio Chico Buarque, nesse mesmo dvd, no qual denomina o espetáculo como sendo o brilho de Bibi,225 nos textos e canções. Miriam Hermeto, com razão, define ter sido Gota D’Água um projeto centrado não somente em Bibi Ferreira, “mas central para a (re)definição de sua carreira. Na mesma medida em que ela, Ferreira, foi central para a definição das feições do texto de Gota. Para o texto escrito, como musa inspiradora [...]”.226
Em que pese a intenção de Pontes e a montagem terem focado bastante a “estrela”, julgamos o teor político como o cerne da encenação, a qual deve ser analisada considerando os propósitos dos autores esboçados no Prefácio do livro. Nele, três preocupações centrais norteiam o desejo de Chico e Pontes na confecção de Gota: a primeira se relaciona aos efeitos trágicos produzidos pelo “milagre econômico”,227 nos
222 Optamos por nos limitar, aqui, a essas montagens, das quais tivemos acesso a fotografias, cartazes e
imagens de vídeo. O espetáculo de estreia, em 1975, ocorreu no Teatro Tereza Rachel do Rio de Janeiro. Já entre 1976 a 1977, houve uma temporada no Teatro Carlos Gomes, também, do Rio. E entre 1977 e 1978, deu-se uma encenação no Teatro Aquarius de São Paulo, com elenco paulista.
223 BASTIDORES. Direção: Roberto de Oliveira. Direção de Produção: Celso Tavares. Produção: André
Arraes, Jorge Machado e Jorge Saad Jafet. Direção de fotografia: João Wainer. Documentação e Pesquisa: Sueli Valente. Música: Canções de Chico Buarque. EMI Music Brasil Ltda. (sob licença exclusiva da R.W.R.), c2005 1 DVD (73 min.), color.
224 A recepção do espetáculo é discutida no Capítulo IV desta Tese.
225 Gota D’Água, em abril de 1976, foi contemplada com dois prêmios Molière, concernentes a 1975:
Bibi Ferreira ficou com o de “melhor atriz”, e Chico Buarque e Paulo Pontes, o de “melhor autor”. A propósito, os autores se recusaram a comparecer à premiação, contestando o direito de Gota d´água ter sido premiada, no mesmo ano em que outras peças como Rasga Coração de Oduvaldo Vianna Filho, e Abajur lilás de Plínio Marcos não concorreram.
226 HERMETO, M. Olha a Gota que falta: um evento no campo artístico-intelectual brasileiro (1975-
1980). Tese (doutorado) – UFMG / FAFICH / DH / Programa de Pós-graduação em História, 2010, f. 113.
227 “Milagre econômico” foi o nome dado pelos capitalistas do exterior para denominar o crescimento
econômico brasileiro à taxa média ao ano de 10%, na primeira metade da década de 1970, sob o governo do general Médici. O setor de bens de consumo duráveis foi o que mais se expandiu, tendo criado um clima de consumismo nas camadas médias da sociedade, seduzidas pela facilidade do crédito a juros baixos. O então ministro Delfim Netto utilizou-se de duas estratégicas básicas para alcançar a expansão
anos 1970, traduzidos na concentração de renda e no paroxismo da alta produção de bens duráveis destinados a uma minoria privilegiada. Na crítica à acumulação do capital num grau, conforme eles, inédito até aquele momento, a classe média não é poupada, por haver legitimado o regime, com a adesão de seus “melhores quadros” às atividades desse tipo de economia. A segunda preocupação se liga a uma espécie de obstinação dos dramaturgos engajados (mas não só eles), desde sua configuração enquanto esquerda, no Brasil dos anos 1950: o projeto de ida ao povo a partir da produção cultural, como tantos outros grupos e trabalhos já o tinham feito: o Arena, o Opinião, o Oficina, o Cinema Novo, a MPB. Havia, então, novamente que representar esse povo, em específico nos palcos, não de forma “exótica, pitoresca ou marginal”, imagens essas próprias da imprensa da época, mas percebendo-o como sujeito, cujas aspirações, passado, experiência e sentidos deveriam ser tematizados. Por fim, a terceira preocupação diz respeito à estrutura formal da peça. Havia, nesse período, segundo os autores, uma sensação de “crise expressiva” do teatro. Aliás, sobre isso, Chico declarou em entrevista à Rádio do Centro Cultural São Paulo:
Na época em que o Paulo Pontes me chamou pra escrever a "Gota d'água" com ele, a palavra no teatro estava relegada a um ultíssimo plano, por mil motivos óbvios – a situação que se vivia e tal. O que se fazia mais era expressão corporal, e o texto nacional não era quase encenado no Brasil. E o Paulo Pontes teve a intenção de, com a peça, ressuscitar o teatro nacional como texto, e me chamou pra essa parceria exatamente por isso. Ele queria que eu desse um polimento poético ao texto que ele ia escrever. [...].228 Transpor a tragédia de Eurípedes para os palcos brasileiros – algo, conforme dissemos anteriormente, proposto por Vianinha –, com ênfase na palavra, e não na cenografia do corpo ou de adereços e luz, situando o diretor no “primeiríssimo plano da hierarquia da criação teatral”229 era o modo encontrado para a retomada de debates, do ponto de vista político, da sociedade de então.
Mas, ainda que forma e conteúdo sejam trágicos, os autores não prescindiram do humor na caracterização das personagens, recorrendo ao método de Bertolt Brecht de um teatro que conscientizasse na mesma medida em que cumprisse sua função primeira,
da economia: o arrocho salarial e o endividamento. As contradições desse modelo acentuaram-se já a partir de 1974, com a crescente desigualdade de renda e o aumento de produção industrial – às custas de uma mão de obra barata –, destinada a uma reduzida parcela do mercado consumidor. Cf. NAPOLITANO, M. O regime militar brasileiro: 1964-1985. 4. ed. São Paulo: Atual, 2009, p. 40.
228 Entrevista a Angélica Sampaio, Radio do Centro Cultural São Paulo, 10/12/85. Disponível em:
www.chicobuarque.com.br. Acesso em: dez. 2012.
divertir.230 Esse aspecto e o dado de Gota ser um musical também a diferenciam das obras de Vianna e Eurípedes.