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Yıllık Kalkınma Planı geride kaldı. Ekonomik büyüme ağırlıklı planlı kalkınma yaklaşımı miadını doldurduğu hâlde 2014-2018 yıllarını

O conceito de potencialidade – que diz respeito às possibilidades de funcionamento do Eu ao termino da infância, levando em conta suas posições identificatórias –, está diretamente relacionado à resposta e às defesas que o Eu pode dar diante do encontro com os Eus dos outros. Será no tempo para

compreender, período correspondente ao complexo de castração freudiano, que o

Eu será convocado a fazer uso de suas defesas no enfrentamento do conflito identificatório. E, será no tempo para concluir, que se refere à assunção da castração simbólica, que o Eu poderá assumir um compromisso com a realidade. Aulagnier define a partir desse compromisso, o que vem a ser a potencialidade: ―O conceito de potencialidade engloba os ‗possíveis‘ do funcionamento do eu e de suas posições identificatórias, uma vez terminada a infância‖70.

O funcionamento do Eu será determinado pela potencialidade: neurótica, psicótica ou polimorfa, cuja perversão é uma de suas manifestações. Cada potencialidade está comprometida com um conflito identificatório particular, vejamos:

70 AULAGNIER, P. (1984) O Aprendiz de Historiador e o Mestre-Feiticeiro: Do Discurso Identificante ao

Recalque Histeria

Neurótica da Obsessão

sexualidade infantil Fobia

Recusa Esquizofrenia

Psicótica da Paranoia

castração

Perversão

Polimorfa Recusa e Relações passionais ou alienantes

reconhecimento (toxicomania, jogo, paixão e alienação)

da castração Certas formas de somatização Certas formas de anorexia

Estados limites

Manifestações

Entre o Eu e seus ideais.

No interior do Eu, entre as dimensões identificada e identificante.

Conflito misto. Tanto no interior do Eu como entre o Eu e seus ideais.

Potencialidade Conflito Defesa

Tabela 171

Uma vez estabelecida a potencialidade do sujeito, Aulagnier admite que o Eu é capaz de ―inventar respostas frente às mudanças do ‗meio‘ psíquico e físico que o envolve‖72, entretanto, com relação às defesas, Aulagnier é categórica ao dizer que

―não está em seu poder inventar novas defesas, se certas condições (externas ou internas), necessárias para o seu funcionamento, lhe faltarem.‖73. Assim, há um

determinismo quanto à posição identificatória, ou seja, uma vez estabelecida a potencialidade, não há retorno; no entanto, tais defesas serão erigidas com maior ou menor intensidade dependendo dos encontros que a história pessoal e libidinal do sujeito lhe reserva.

Aulagnier adverte que as potencialidades psicótica e polimorfa estão mais sujeitas ao risco de passar ao estado manifesto em comparação à potencialidade neurótica: ―[...] a passagem do potencial ao manifesto pode dever-se também ao poder ‗desvelador‘ de certos encontros [...]‖74.

Neste sentido, o encontro pode trazer à tona um conflito que mobilize defesas ―polimorfas‖, que, segundo a autora, culmina numa escolha defensiva. Defesas essas que são compreensíveis numa criança, mas que num tempo posterior se revelarão inaceitáveis.

Mas, assim como as pulsões deverão, ou deveriam, se submeter à ‗primazia do genital‘, tornarem-se prazeres preliminares a

71 AULAGNIER, P. (1984) O Aprendiz de Historiador e o Mestre-Feiticeiro: Do Discurso Identificante ao

Discurso Delirante, p. 231 et seq.

72 Ibid., p. 228. 73 Ibid., loc. cit. 74 Ibid., p. 233.

serviço de um prazer que se torna gozo, também o leque das defesas se submeterá à primazia de uma ‗escolha defensiva‘.75

Assim, o Eu faz uma elaboração das formas que irá assumir os perigos que ameaçam seu trabalho de identificação, adotando o que Aulagnier chama de ―escolha defensiva‖. A referida autora, assim, conclui que:

[...] a passagem do estado potencial de um conflito identificatório para o estado manifesto pode ser o efeito de um encontro que se dê bem depois da infância: encontro entre o sujeito e um outro, ao qual atribui o mesmo poder que, na infância, detinham os representantes na realidade de uma instância não internalizada.76

O encontro, portanto, o remeterá a algo que possivelmente tem fundamento em suas experiências reais. Aulagnier postula o conceito de realidade histórica como sendo ―o relato, feito pelo próprio sujeito ou por um terceiro, através do qual tomamos conhecimento dos acontecimentos que, efetivamente, marcaram a infância do sujeito‖.77. A autora identifica, especialmente na psicose, a repetição de certos

acontecimentos traumáticos relacionados a um discurso inaceitável ou à ausência de discurso da mãe, frente àquela vivência da criança. Para Aulagnier, um acontecimento que venha materializar em ato uma representação fantasmática pode impossibilitar o processo de repressão e a reelaboração da fantasia.78. A autora destaca ainda a fragilidade e o risco das potencialidades psicóticas e polimorfas ao passarem para o estado manifesto, assim, tal como na psicose, é possível que se reconheça na potencialidade polimorfa, situações reais que obstaculizaram os processos de repressão e reelaboração da fantasia.

A fim de seguir nosso propósito devo enfocar apenas a potencialidade polimorfa. Aulagnier definiu o conflito identificatório misto como uma característica da potencialidade polimorfa. Esse conflito é misto porque ocorre tanto no interior do Eu, entre suas dimensões identificada e identificante - tal como acontece na psicose -, como também entre o Eu e seus ideais - como na neurose.79.

75 AULAGNIER, P. (1984) O Aprendiz de Historiador e o Mestre-Feiticeiro: Do Discurso Identificante ao

Discurso Delirante, p. 238.

76 Ibid., p. 248.

77 Idem. A Violência da Interpretação: Do Pictograma ao Enunciado, p. 216. 78 Ibid., p. 217.

Para Aulagnier, os fenômenos psicopatológicos desta potencialidade manifestam-se entre as categorias da necessidade e a do prazer. Assim, postula Aulagnier: ―A experiência do prazer e o objeto que é sua fonte fazem então parte do que é obrigado, imposto, necessário, do não-escolhido, desta problemática específica e que defino pelo termo de relação passional.‖80

Por relação passional Aulagnier define ―uma relação na qual um objeto tornou-se para o Eu de um outro fonte exclusiva de todo prazer, tendo sido por ele deslocado para o registro das necessidades.‖81. Para exemplificar esse tipo de

investimento passional, a autora elege três protótipos:

1) A relação do toxicômano com o objeto droga.

2) A relação que liga o jogador à atividade particular que é o jogo. 3) A relação do Eu com o Eu de um outro, ou seja, a paixão dita

‗amorosa‘. 82

Na relação com os objetos droga e jogo, o sujeito tende, segundo Aulagnier, a reduzir tanto a atividade sexual – ―Para o toxicômano e o jogador é a demanda de um prazer sexual dirigida ao Eu do outro que é silenciada, [...]‖83 –, quanto à

atividade de pensar – ―a toxicomania é um compromisso entre o desejo de preservar e o desejo de reduzir ao silêncio a atividade de pensamento do Eu.‖84.

O terceiro tipo de relação passional descrita por Aulagnier refere-se à situação na qual o Eu de um outro torna-se, como mencionado, objeto de necessidade. Aulagnier deixa bem claro que a paixão não diz respeito, em nada, a um excesso de amor: ―Entre o estado amoroso e o estado passional a diferença não é quantitativa mas qualitativa.‖85

O sujeito que mantém uma paixão, tal como definida por Aulagnier, acredita em seu poder de proporcionar prazer ao objeto dessa paixão, entretanto, não se vê capaz de causar sofrimento, uma vez que, sabe de sua insignificância para o mesmo objeto. Para Aulagnier ―esta é uma das razões da dependência passional e do sofrimento que ela [a paixão] comporta‖.86

80 AULAGNIER, P. (1979) Os Destinos do Prazer: Alienação – Amor – Paixão, p. 138. 81 Ibid., p. 150, grifo da autora.

82 Ibid., p. loc. cit. 83 Ibid., p. 158.

84 AULAGNIER, P., (1975) A Violência da Interpretação: Do Pictograma ao Enunciado, p. 152. 85 Ibid., p. 154.

Ainda sobre a relação passional, o Eu do apaixonado atribui ao outro um poder exclusivo de satisfazer, quando lhe aprouver, o que se tornou para ele uma

necessidade de prazer. Para Aulagnier ―este mesmo Eu tem um poder igualmente desmedido no registro do sofrimento, já que este poder pode chegar a induzir o primeiro a preferir a morte à ausência ou à rejeição do outro.‖87

Há também na paixão, segundo a referida autora, uma fusão entre as pulsões de vida e de morte: a primeira no prazer decorrente do encontro sexual e também na espera do mesmo; e a pulsão de morte, por sua vez, presente no risco de morte e, até mesmo, de assassinato que acompanha esse outro. Mas é preciso salientar que essa fusão pulsional não é característica exclusiva da paixão, mas das três formas descritas de relações passionais. Para Aulagnier, o objeto da relação passional tem ―a estranha capacidade [...] de satisfazer concomitantemente Eros e Tanatos [...]‖88.

A perversão é mais uma das manifestações da potencialidade polimorfa. A compreensão da perversão como uma posição identificatória bem definida, que se sobrepõe à concepção que privilegia os desvios sexuais como característica suficiente para configurar tal patologia; é o que me fez lançar mão do conceito de potencialidade polimorfa de Piera Aulagnier, que também se apoia na teoria freudiana, para ampliar o entendimento acerca da perversão.

A perversão é – e nisso parece-me que permaneço muito próxima das opiniões de Freud – uma perversão no nível do gozo, pouco importando a parte do corpo acionada para obtê-lo. Partilho da desconfiança de Lacan sobre o que se chama de genitalidade: é muito perigoso fazer análise anatômica. O coito anatomicamente mais normal pode ser tão neurótico ou tão perverso quanto o que se chama pulsão pré-genital: o que marca a normalidade, a neurose ou a perversão só pode ser visto no nível da relação entre o ego e sua identificação, a qual permite ou não o gozo. 89

De fato, a autora alinha-se ao pensamento de Freud ao tratar o desvio sexual e o comportamento como questões secundárias da problemática perversa, em oposição, portanto, ao pensamento psiquiátrico. Freud, ao propor a hipótese de homossexualidade de Leonardo da Vinci, não o fez baseado em seu comportamento ou na fama que o artista tinha por viver rodeado de jovens e belos rapazes. Nesse trabalho Freud afirmou: ―O que nos leva a classificar alguém como sendo um

87 AULAGNIER, P. (1979) Os Destinos do Prazer: Alienação – Amor - Paixão, p. 155. 88 Ibid., p. 159.

invertido [homossexual] não é o seu comportamento real porém a sua atitude emocional.‖90

Para Aulagnier a relação do perverso com o registro simbólico é bastante particular: ―[...] sua inserção ou sua aparência de inserção na ordem simbólica só se preserva porque acreditou e continua a acreditar que ela pode vir junto com sua recusa de uma parte das conseqüências que ela traria consigo.‖91

A idealização da imagem materna é outra característica comum entre os perversos: manter a mãe nesta posição privilegiada, antes ocupada por ele, parece fundamental para evitar o incesto. Aulagnier explica que ―[...] sua relação com a mãe não passa pela sublimação e ele não tem a dissolução do complexo de Édipo‖92,

essa mãe podendo funcionar como cúmplice ou protetora, garantindo-lhe assim a impunidade: ―[...] o perverso, em sua vida, encontra facilmente uma mulher que venha desempenhar esse papel de simples testemunha, de amiga ou de protetora.”

93.

Aulagnier também não reconhece no perverso a capacidade de amar, uma vez que o entende como estando a serviço de um ―poder fálico anônimo‖, no qual pouco importa quem é o objeto. Assim, ―basta que seja capaz de gozar, que possa funcionar como suporte deste falo face a quem ele se identificará; identificação, é claro, com o objeto imaginado como capaz de proporcionar o gozo a este falo‖94.

A psicopatologia proposta por Aulagnier enfoca o conflito identificatório, tal como exposto na tabela 1, diferenciando-se assim da psicopatologia freudiana, a qual propõe um conflito situado entre as instâncias Id x Ego – na neurose, e Ego x realidade – na psicose. A perversão estaria, e isso é consenso entre as construções teóricas de Freud e Aulagnier, no meio, entre a neurose e a psicose. Assim, a perversão como manifestação da potencialidade polimorfa deve demonstrar um grau maior ou menor de comprometimento, à medida que, nesse posicionamento entre neurose e psicose, estiver mais acometido pelo conflito psicótico.

90 FREUD, S. (1910) “Leonardo da Vinci e uma Lembrança da sua Infância”, p. 95.

91 AULAGNIER, P. (1984) O Aprendiz de Historiador e o Mestre-Feiticeiro: Do Discurso Identificante ao

Discurso Delirante, p. 234.

92

Idem. (1967) “A Perversão como Estrutura” – Revista Latinoamericana de Psicopatologia Fundamental. Ano VI - nº 03, p. 55.

93 Ibid., p. 55.

Alguns trabalhos de Aulagnier dedicados ao estudo das perversões foram publicados antes do rompimento da autora com Lacan. A proximidade com a teoria lacaniana deste período é perceptível nestes textos, entretanto, cabe observar que eles não chegam a se chocar - embora haja diferenças - com seu constructo teórico posterior, o qual veio a definir a perversão como uma manifestação da potencialidade polimorfa.

Seu texto, ―A perversão como estrutura‖ (1967), resultado de um seminário organizado pela própria Aulagnier, traz, logo no título, a influência lacaniana ao abordar o conceito de perversão como uma estrutura clínica. Assim sendo, Aulagnier postula:

Recusa, Lei, Desafio: são estes os três marcos aos quais mais me referi para dar conta, em uma perspectiva estrutural, do sentido tomado pela resposta que o perverso forja diante do que Freud designa sob o termo ―horror‖. Horror que surge para ele no momento em que é confrontado com a realidade da diferença dos sexos.95

Foi Freud quem designou a recusa ao lado do reconhecimento da castração como a defesa específica da perversão. O pedido de renúncia que a voz paterna veicula, traz a promessa de, num tempo futuro, dar-lhe acesso ao desejo. A recusa se opõe à angústia de castração, que na fase fálica está diretamente relacionada ao medo de perder o pênis. E a angústia de castração está, segundo Aulagnier, atrelada a um duplo enunciado: ―o que desvela a realidade do desejo do pai e a realidade da diferença dos sexos.‖96

Será, ainda, o desafio a esses dois enunciados o que sustentará a verdade do perverso sobre o desejo. Há uma elaboração fantasmática que visa preservar a dominação do princípio de prazer. O contato com o desejo do Outro – que tem a mãe como primeiro representante – demonstra ―o papel fundamental que tem o desejo materno como base de toda a dimensão identificadora.‖97

Para Aulagnier ―o perverso é aquele que eliminou o conflito identificatório‖98. A

autora acrescenta que ―o perverso não tem e não é o falo: ele é este objeto

95 AULAGNIER, P. (1967) “A Perversão como Estrutura”, p. 44. 96 Ibid., p. 48.

97 Ibid., loc cit.

ambíguo que serve a um desejo que não é o seu.‖99. Significa dizer que o perverso

não identifica-se com o Outro, nem com o falo, mas com um objeto ou uma atividade específica que lhe permita o gozo. Daí, Aulagnier conclui que ―(...) o desejo do perverso é responder à demanda fálica.‖100. Essa resposta perversa é indissociável

da negação do outro enquanto sujeito, por essa razão é que a identificação se dá com um ―objeto cuja atividade permite o gozo a um falo do qual, em definitivo, ele ignora a quem pertence.‖101

Como não há a dissolução do complexo de Édipo, tal como ocorre na neurose, o que permitiria a assunção da castração simbólica, não há também um abandono do registro da identificação pré-genital. Por isso, a identificação com objetos parciais são, muitas vezes, perceptíveis na dinâmica da vida erótica do perverso.

Nesse sentido, a recusa de que se valeu o sujeito, quando esteve sob a ameaça de castração, manifestará seus efeitos patogênicos na dialética identificatória, na vida erótica e social do sujeito. Para Aulagnier, a perversão implica, necessariamente, em algum nível, uma violação da lei sexual, social ou ética.102. Este postulado de Aulagnier amplia o entendimento das perversões, que

não se restringem às transgressões sexuais.

Aulagnier propôs duas formulações contrastantes para demonstrar o caminho que conduz à assunção da castração: ―‗A mãe foi castrada pelo pai’ – que é sucedida por uma outra totalmente diferente: ‗A mãe é desejada pelo pai e é

desejante dele’‖.103.

Para a autora, é justamente neste ponto que falha o perverso. A diferença sexual não é, portanto, causa de desejo; ao contrário, vem lhe dar provas do horror: ―(...) a ausência de pênis na mulher vem fazer da ‗diferença‘ o equivalente de uma mutilação, de uma marca sangrenta, a causa de um horror que faz de todo desejo algo que coloca o próprio ser do sujeito em perigo‖.104

99 AULAGNIER, P. (1962) “Angústia e Identificação”, p. 10, grifo meu. 100 Ibid., loc cit.

101 Ibid., loc cit.

102 Idem. (1970) “Aspects Théoriques des Perversions”. In Sexualité Humane – Collection R.E.S. par le Centre d‟Estude laennec – Paris: Edition Aubier-Montaigne, p. 217.

103 Idem. (1967) “A Perversão como Estrutura”, p. 51. 104 Ibid., loc cit.

Diante desse horror, o sujeito pode lançar mão do fetiche para driblar o perigo que o ameaça, tal como postula Freud. Assim, o fetiche ―(...) salva o fetichista de se tornar homossexual, dotando as mulheres da característica que as torna toleráveis como objetos sexuais.‖105

Aulagnier postula ainda que uma das faces da castração simbólica implica ―reconhecer que o desejo é sempre desejo do desejo e não de um objeto e que, portanto, qualquer que se tenha a oferecer, nenhum pode garantir a adequação da resposta, (...)‖106. O perverso, porém, persegue um objeto parcial – o pênis que

supunha em sua mãe – excluindo-se, portanto, dessa lógica de desejo do desejo. Por sua vez a outra face da castração implica permitir ―que a diferença se torne significante do desejo‖107, o que, para o perverso, também não é possível, uma vez

que a diferença sexual carrega a prova da castração que insistentemente precisa ser recusada.

As duas forças contrárias que, segundo Freud, sustentam concomitantemente a recusa e o reconhecimento da castração, promove um conflito ―entre a exigência por parte do instinto e a proibição por parte da realidade‖108. O resultado desse

conflito é a divisão egoica.

Sobre a clivagem do Eu, Aulagnier esclarece que não se pode compreendê-la como uma divisão entre o Eu-consciente e o Eu-inconsciente; o que não significa, de modo algum, dizer que o perverso recusa no inconsciente a castração feminina, e somente a reconhece no consciente. Trata-se de uma dupla afirmação. E é justamente dessa contradição que o perverso extrai a prova de verdade a respeito do gozo.109. Para Freud ―ambas as partes na disputa obtêm sua cota (...)‖110, e o

resultado desse processo é que ―as duas reações contrárias ao conflito persistem como ponto central de uma divisão (Splitting) do ego‖.111

A formação de compromisso presente na dupla afirmação é, porém, segundo Freud, realizada no inconsciente: ―No conflito entre o peso da percepção desagradável e a força de seu contradesejo, chegou-se a um compromisso, tal como

105 FREUD, S. (1937) “Fetichismo”, p. 157.

106 AULAGNIER, P. (1967) “A Perversão como Estrutura”, p. 52. 107 Ibid., p.52.

108 FREUD, S. (1940[1938]). “A Divisão do Ego no Processo de Defesa”, p. 293. 109 AULAGNIER, P. (1967) Op. cit., p. 53.

110 FREUD, S. (1940[1938]). Op. cit., p. 293. 111 Ibid., loc. cit.

só é possível sob o domínio das leis inconscientes do pensamento – os processos primários.‖112

Essa cisão também incide sobre a relação do perverso com o saber. Há, de acordo com Aulagnier, uma clivagem entre saber e desejo. Assim, o saber, na condição de objeto do desejo, pode funcionar como suporte tanto para negação da castração, como de sua assunção.113. Para Aulagnier:

O que é posto em perigo, o que se acha abalado em seu próprio fundamento, é a totalidade da relação do sujeito com o conhecimento: o que ele demandava conhecer, era a verdade sobre o objeto do desejo materno; o que desejava saber, era como tornar- se senhor dele; o que obtém em resposta à sua demanda, é o nome do Pai.114

O nome do Pai115 como resposta à demanda da criança representa o caminho

que conduz à assunção da castração simbólica. No entanto, a resposta materna àquele que se tornará perverso vem no sentido de atender ao seu desejo, o que não deixa de ser uma perversão do saber, submetendo-o assim a uma ilusão, como postula Aulagnier:

Ela [a mãe do perverso] lhe assegurou ser exatamente de seu prazer que ela era desejante. Fez-se cúmplice de uma negação da verdade da Lei que perverteu para sempre a relação do sujeito com o objeto de seu desejo, mesmo que esse desejo fosse desejo de saber.116

Desta maneira, o perverso se edifica sobre um saber do qual não pode ser questionado, ―não se interroga, afirma e afirma todo saber sobre o desejo‖117, ao

outro cabe o papel de ratificador de sua onipotência sobre o saber e o gozo. Aquilo que o perverso recusou, que nada mais é que uma ilusão onipotente infantil, deve ser confirmado pelo seu erotismo: ―seu gozo é sempre imposto em nome de uma revelação sobre o saber‖.

Portanto, na obra de Aulagnier, o conceito de perversão foi se sofisticando ao longo do tempo, a autora demonstra que o perverso dispõe de peculiaridades em

112 FREUD, S. (1927) “Fetichismo”, p. 156-7.

113 AULAGNIER, P. (1986) Um Intérprete em busca de sentido – I, p. 183. 114 Ibid., loc. cit.

115Nome do Pai é o conceito no qual a função simbólica se torna lei – a proibição do incesto; processo descrito

por Lacan através da metáfora paterna. A simbolização primordial da lei é efetuada através da substituição do significante fálico pelo significante Nome do Pai.

116 AULAGNIER, P. (1986) Um Intérprete em busca de sentido – I, p. 187. 117 Ibid., p. 186.

relação ao saber, à capacidade simbólica, ao acesso ao amor, à relação com o outro, à vida erótica, etc.

A perversão continua sendo um desafio quanto à sua conceituação, seu diagnóstico e sua prática clínica. Ao pesquisar a evolução deste conceito desde

Benzer Belgeler