Determination of the Marketing Potential of Hot Smoked Capoeta antalyensis with a Single Presentation Test
Ayda 1 Yılda bir ya da birkaç
Não existe mar no Jardim do Édem. O horizonte líquido sobre cuja superfície o olhar se perde não pode integrar-se à paisagem fechada do paraíso. Querer penetrar os mistérios do oceano é resvalar no sacrilégio, assim como querer abarcar a insondável natureza divina. (CORBIN, 1989, p.11-12).
Na citação anterior, Corbin (1989) faz uma pequena demonstração dos variados motivos pelos quais o mar era percebido e tratado socialmente pela sociedade. O mar era o lugar das incertezas e do caos. Seria assim “o mais pavoroso espetáculo oferecido pela natureza”.
Na construção dessa percepção social em torno do mar, Corbin (1989) insere uma multiplicidade de atores, que fazem da esfera social de vivência societária uma tábula de criação dessa percepção, seja através: das formas religiosas de vida, onde as religiões incorporam, em suas obras, o mar como ente de fúria divina e de intempestividade, em contraposição, a uma ideia de paraíso calmo e sereno; das artes como música, poesia, pintura, onde estas retratam em suas produções o mar como ente alheio e oposto a uma ideia de intimidade e proximidade; ou da estrutura econômica da sociedade, onde esta produz suas formas de sobrevivência a partir de locais que excluem o mar da participação nesse contexto.
Assim como na construção deste modelo social de percepção do mar, como externo, inabitável e destituído de convívio, Corbin (1989) menciona que uma mudança nessa estrutura só foi possível graças a uma mudança nos modelos de produção dessas legitimidades sociais.
A religião passou a perceber que “a beleza da natureza atesta o poder e a bondade do criador”, bem como as produções artísticas passaram a perceber esse mar, que antes era espaço do inabitável, como campo de encontro com um retorno às origens naturais, de encontro com o criador e consigo mesmo.
Todo esse discurso, como menciona o autor Corbin (1989), coloca-se como “Hino à navegação que aproxima os homens, que permite o marinheiro admirar a terra inteira, que encoraja o comércio e, sobretudo, possibilita o desdobramento do esforço missionário”. (CORBIN, 1989, p.40). Aliado às descobertas tecnológicas na navegação marinha, esse discurso tem feito do mar uma opção às formas de obtenção de fundos e estabelecimento de comércios. Desta forma, ele se insere na lógica de apropriação do mundo, como espaço de comércio, admiração e contemplação, contexto que viria a proporcionar - através do que Corbin (1989) chama de uma “educação do olhar” - a inserção deste como um objeto dentro do qual se buscará “o prazer até então desconhecido de usufruir de um ambiente convertido em espetáculo”.
No caso de Fortaleza, segundo Dantas (2002), a cidade nasce com um imaginário interiorano, como a cidade do sertão, uma cidade litorânea, mas com alma interiorana (litorânea-interiorana), onde o mar se colocava como campo do obscuro e do desconhecido, prevalência explicada pela dominação sócio cultural e econômica do sertão. Entretanto, por processos diferenciados (de mudança na esfera de produção e exportação, de dominação cultural, de incorporação de valores exteriores) esse contexto se altera e o mar se insere numa nova problemática urbana, de interesse, valorização e busca social.
O mar passa a qualificar-se como espaço de trabalho, lazer e sociabilidade, instropectado no imaginário social como reserva de ligação entre homem e natureza, que os aproxima e estabelece uma nova maneira de produção da sociabilidade urbana.
Tem-se constatado na pesquisa que o Parque do Cocó, representado em seu mangue e rio, também percorreu o percurso anteriormente mencionado em relação ao mar.
Há algumas décadas a região que hoje ocupa o Parque do Cocó era uma região destinada a usos “periféricos” dentro da cidade, usos vinculados ao trabalho da classe economicamente desfavorecida, lugar de não passagem das principais vias urbanas da cidade
e de pouco trânsito social, tendo no centro da cidade seu local social e econômico hegemônico.
A partir do que se escolheu denominar anteriormente como mudança de percepção em relação ao meio ambiente, uma série de transformações estabeleceram novas formas de ver e pensar a produção da cidade e seus impactos ambientais.
Assim como com outras coisas e objetos, o verde passa a ser mercadoria de venda, legitimação e qualificação dos produtos. Produtos verdes foram alçados à categoria de sustentáveis, qualificando-o para o “consumo consciente” e “ecologicamente correto”.
Morar no Parque passa a ser um modo de se estar próximo à natureza, integrado a ela, estabelecendo uma distanciação do ritmo frenético urbano. O Parque do Cocó é apresentado como sendo um oásis dentro do qual fosse possível estar próximo do meio ambiente, das beneficies de morar no campo, mas integrado à cidade e seu movimento inacabável. Desse modo, o Parque passa ser uma opção que agregaria um “bem viver urbano” (Ver Figura 4).
Figura - 4: Propaganda comercial de empreendimento no entorno do Parque do Cocó.
Fonte: Folder de venda de imóveis na cidade de Fortaleza. Pesquisa direta: Gleison Maia Lopes. Assim como aos poetas mencionados por Corbin (1989) - que se inspiravam na visão tranquilizante do mar e que nele encontravam sentimentos inacessíveis em ambientes outros, tais como paz, felicidade e calma -, o meio ambiente e, nesse caso, o Parque do Cocó,
é incorporado como reserva discursiva de encontro do homem com esses sentimentos: calma, qualidade de vida, mas também conforto, como mencionado pelas construtoras de edifícios de luxo no entorno do Parque.
Esse contexto de valorização do meio ambiente e de produção daquela região como prioridade de investimentos fez desta um espaço único na cidade, local produzido para usos específicos: morar no entorno, caminhar, andar de bicicleta, fazer trilhas e atividades esportivas. Como é uma área de grandes investimentos governamentais e empresariais, há tensões diversas em torno da preservação do verde e dos dilemas do “progresso” e do “desenvolvimento”, opondo segmentos sociais aos grupos políticos/ empresariais.
Para além deste conflito de ideologias postas, existem conflitos cotidianos entre os usuários existentes nessa região. Esta pesquisa se ancora na análise dessas formas diversas de conflito dentro desse espaço: conflitos de ideologias de produção da cidade, de relação entre homem e meio ambiente e de conflitos objetivos no momento de apropriação empírica deste espaço, objeto de análise do próximo capítulo.
3 OS USOS DO PARQUE: AS AUTORIAS NO ESPAÇO PELOS SUJEITOS E AS