• Sonuç bulunamadı

1.3. ÇALIġMANIN ÖNEMĠ

2.1.9. Yıldırmanın Nedenleri

Estudos que buscavam suporte nos saberes da biologia, da medicina e da higiene ganham espaço no país e seus defensores comprometiam-se a fornecer orientações aos poderes públicos responsáveis pelos encaminhamentos pertinentes aos assuntos da educação e da saúde, por meio de um discurso que associava a importância da higiene social na determinação do grau de civilização de um povo. Os representantes da “educação para o povo”, que se empenhavam, na administração pública, para estabelecer mecanismos que possibilitassem alçar o país a patamares elevados de civilização, entendiam ser de fundamental importância o investimento no preparo para o futuro de “gerações cultas, sadias e vigorosas, a fim de que possam melhor servir à Pátria”.

86

No Ministério da Educação e nas Secretarias de Educação, de diversos Estados, foram implantadas comissões, com a participação de profissionais de diferentes áreas (educação, arquitetura, medicina e engenharia), para realizar estudos, formular propostas e sugerir encaminhamentos relativos às construções escolares.

O preparo das futuras gerações, concebido em estreita relação com as condições de saúde dos indivíduos, demandava, entre outras providências, que se cuidasse do espaço escolar e daqueles que o freqüentavam cotidianamente. Um exemplo desse tipo de discurso, demonstrando preocupação nesse sentido, pode ser observado no texto de Cesário de Andrade, da Faculdade de Medicina da Bahia e do Conselho Nacional de Educação, publicado pela RBEP, no qual apresenta um estudo pormenorizado e direcionado sobre a preservação do órgão da visão87, particularmente no período escolar. O autor, por diversas vezes e de diferentes maneiras, enfatiza a importância de se examinar as condições necessárias ao perfeito funcionamento do órgão, uma vez que o comprometimento da sua função normal, certamente, poderia interferir desfavoravelmente no processo educacional do aluno. Esclarecia sobre os possíveis defeitos causados por fatores congênitos (intrínsecos) e as providências necessárias para atenuar ou sanar o problema e chamava a atenção para o fato de que nas escolas poderiam estar presentes determinados fatores ambientais (extrínsecos) que, com o decorrer do tempo, atuariam prejudicando a integridade funcional do órgão. Por outro lado, as explicações não se restringiam somente aos esclarecimentos, pois deixavam transparecer que a escola poderia atuar sobre as deficiências dos alunos, leia-se também brasileiros, aplicando os conhecimentos da área médica e da higiene social de modo racional, por meio da assistência médico-social.

É enfatizada a necessidade da presença nas escolas de profissionais habilitados para identificar os fatores responsáveis por “determinar ou simplesmente predispor o órgão visual para distúrbios que acarretam a sua precariedade funcional [...] no sentido de corrigir as falhas médico-pedagógicas” (ANDRADE, 1944, p. 341).

A proteção constante contra uma série de efeitos e outras providências pertinentes à proteção da visão das crianças em idade escolar, segundo Andrade (1944), faziam parte de “uma nova concepção que destacou

87

ANDRADE, Cesário de. A proteção da visão dos escolares. Revista Brasileira de Estudos Pedagógicos, Rio de Janeiro, v. I, n. 3, p. 341-360, set./ 1944.

o papel do médico higienista escolar”, dentro da qual aparece a ação do “oftalmólogo-higienista” na escola. Sua função, segundo a moderna Pedagogia, seria “ativa e vigilante” com o objetivo de “corrigir as falhas ou prevenir males para o órgão da visão das crianças”.

Considerando os fatores originários das influências externas, para a higiene visual eram apontadas como importantes as questões que se referiam à iluminação, cuja deficiência provocaria efeito danoso à visão.

A i l u mi n a ç ã o d a s e s c o l a s , d o s l o c a i s d e d i v e r s õ e s p a r a a s c r i a n ç a s , e t c . , é p r o b l e ma q u e e s t á d e n t r o d a c o mp e t ê n c i a d o s o f t a l mó l o g o s - h i g i e n i s t a s ; e n t r e t a n t o , a o me n o s e n t r e n ó s , e s s a s q u e s t õ e s e s t ã o e n t r e g u e s q u a s e e x c l u s i v a me n t e a o s c o n s t r u t o r e s c i v i s . N ã o b a s t a s a b e r q u e a d e f i c i ê n c i a d e i l u mi n a ç ã o a c a r r e t a b o m n ú me r o d e d i s t ú r b i o s o c u l a r e s , é n e c e s s á r i o c o n h e c e r q u a i s e s s a s d e s o r d e n s , a s u a n a t u r e z a e o s me i o s d e e v i t á - l a s e c u r á - l a s ( A N D R A D E , 1 9 4 4 , p . 3 4 9 ) .

Os efeitos nocivos de certas radiações presentes nas fontes de iluminação artificial estariam diretamente relacionados com a integridade visual, podendo causar efeitos mais ou menos nocivos sobre a visão, dependendo da sua natureza, incidência, duração, etc. Uma medida importante consistia em calcular a intensidade luminosa de forma a assegurar o limite mínimo necessário ao desempenho sem prejuízos das atividades escolares, bem como atentar para a distribuição e difusão da luz.

A l o c a l i z a ç ã o d a f o n t e l u mi n o s a d e v e s e r a o a l t o , d e ma n e i r a q u e a i l u mi n a ç ã o s e f a ç a d e c i ma p a r a b a i x o , p o r q u e a s s i m a s s o b r a n c e l h a s e a s p á l p e b r a s q u e c o n s t i t u e m o s ó r g ã o s d e p r o t e ç ã o , c o r r i g e m, e m p a r t e , a d e ma s i a d e l u z . T e m r e a l i mp o r t â n c i a a a l t u r a d o f o c o l u mi n o s o , p o i s q u a n t o me n o r f o r o â n g u l o f o r ma d o p e l a s l i n h a s d o ó r g ã o v i s u a l o b j e t o e d o ó r g ã o v i s u a l f o n t e l u mi n o s a , ma i o r s e r á o d e s p e r d í c i o d e l u z e a d i f i c u l d a d e d e n i t i d e z d a i ma g e m, c o m p r e j u í z o d a v i s ã o ( I d e m, p . 3 5 0 ) .

O indicador de que as condições de iluminação são satisfatórias reside na seguinte situação: a criança deve ler sem esforço em qualquer ponto da sala de aula. A orientação da luz também é considerada um fator de relevância, por exemplo, na produção da escrita quando se leva em conta que “costumamos escrever da esquerda para a direita e, que, portanto, para evitar- se a sombra que se projeta sobre o papel, faz-se mister, que na iluminação unilateral, a luz venha da esquerda para a direita e de cima para baixo”(Idem,

p. 345). A iluminação bilateral é recomendada para outras atividades como a pintura ou a escultura.

Um outro aspecto diz respeito às condições favoráveis de iluminação natural presentes nos trópicos. O aproveitamento adequado implica que se atente para a orientação das construções escolares em função dessas características climáticas e para certos tipos de prédios inadequados à realidade de país tropical.

[ . . . ] u m d o s i n c o n v e n i e n t e s d a s c o n s t r u ç õ e s e s c o l a r e s t i p o P l a t o o n88, a d o t a d o e n t r e n ó s , é o o f u s c a me n t o p r o d u z i d o e m c e r t a s h o r a s d o d i a p e l a l u z r e f l e t i d a s o b r e a s e x t e n s a s v i d r a ç a s q u e c o n t o r n a m g r a n d e s á r e a s d e s s e s e d i f í c i o s . N o s p a í s e s t r o p i c a i s c o mo o n o s s o , o n d e h á v e r d a d e i r a o r g i a d e l u z , p e r d u r a n d o q u a s e t o d o o a n o , é p r e c i s o n ã o d e s p r e z a r e s s e f a t o r d e i mp o r t â n c i a má x i ma p a r a a h i g i e n e v i s u a l d o s e s c o l a r e s ( I d e m, p . 3 5 1 ) .

Em função das variações climáticas que ocorrem no Brasil, há especificidades que não permitem a adoção de um critério único para a orientação das construções escolares, quanto à penetração do sol. Dessa maneira, recomendava-se que fossem realizados estudos para contemplar as diferentes condições de iluminação solar a cada necessidade de construir edifícios escolares. O b e d e c i d a s a s e x i g ê n c i a s d e o r d e m g e o g r á f i c a , d e mo d o g e r a l o me l h o r c r i t é r i o a s e g u i r e m ma t é r i a d e o r i e n t a ç ã o d o e i x o d o e d i f í c i o e s c o l a r s e r á o q u e p e r mi t a ma i s p e r f e i t o i l u mi n a me n t o d a s s a l a s d e a u l a s e m u m m a i o r n ú m e r o d e c o m p a r t i m e n t o s e e m m a i o r e s p a ç o d e t e mp o p o s s í v e l . [ . . . ] n ã o r e s i s t e à c r í t i c a s e n s a t a a s i t u a ç ã o l o c a l d e v á r i a s e s c o l a s d o D i s t r i t o F e d e r a l , o n d e a s c o n d i ç õ e s d e i l u mi n a ç ã o n a t u r a l e m c e r t a s h o r a s d o d i a s ã o e v i d e n t e me n t e má s . O r a a l u z n ã o p e n e t r a p e l a c i r c u n s t â n c i a d e e x i s t i r a p o u c o s p a s s o s d e d i s t â n c i a g r a n d e s c o n s t r u ç õ e s q u e l h e s e r v e m d e o b s t á c u l o , o r a e l a s e p r o j e t a d i r e t a me n t e s o b r e p a r e d e s l i s a s o u g r a n d e s e n v i d r a ç a me n t o s t r a n s p a r e n t e s , p r o d u z i n d o o f u s c a m e n t o r e f l e t i d o , s e m d ú v i d a a l g u ma d e g r a n d e s i n c o n v e n i e n t e s p a r a o c o n f o r t o v i s u a l d a s c r i a n ç a s ( I d e m, p . 3 5 2 ) .

Estudos estatísticos, realizados com o objetivo de estabelecer a relação entre a miopia dos escolares e a deficiência de iluminação, identificaram nas escolas com valores fotométricos baixos um índice maior de míopes. A evolução da miopia é favorecida pelo trabalho de leitura e escrita.

88

Uma outra questão, relacionada com a iluminação, é a do material escolar. O mobiliário não deveria comprometer o funcionamento normal do corpo humano, assim, para que ocorra esse, as suas características deveriam estar assentadas em bases fisiológicas. Alertava-se para o fato de que determinados tipos de carteira escolar ocasionavam numerosos casos de escoliose e contribuíam para o agravamento da miopia em outros. Para solucionar esse problema, foram estabelecidas as dimensões da mesa escolar de modo que a criança pudesse ter livre movimentação e não fosse forçada a adotar posições inadequadas. Para uma criança de cerca de 1,30 m de altura, indicava-se uma mesa de pelo menos 0,60 m de largura, com uma inclinação de 15 a 20º, para facilitar a leitura e possibilitar um campo aberto ao iluminamento. Sugeria-se, ainda, cuidar da arrumação apropriada da sala de aula para não comprometer o deslocamento da criança e a execução adequada de qualquer trabalho de leitura e escrita. Constavam, também, recomendações acerca da localização e distância do quadro negro e mapas, assim como, de outros materiais didáticos, para que o seu posicionamento na sala de aula fosse realizado de tal maneira que pudessem ser vistos sem dificuldade pelos alunos.

Para os médicos higienistas, tudo devia estar respaldado pelas bases fisiológicas do corpo humano, de forma que os alunos não se vissem obrigados, em função de uma melhor acomodação frente ao material escolar inadequado (mesa escolar, quadro negro, livros, mapas, etc.), a adotar posições desaconselhadas do ponto de vista do conforto e funcionamento dos órgãos. O s a n t i g o s t i p o s d e m e s a e s c o l a r p a r a mu i t o s a l u n o s a c a r r e t a v a n u me r o s o s c a s o s d e e s c o l i o s e e a g r a v a v a m m a n i f e s t a m e n t e a mi o p i a i n c i p i e n t e d e i n ú me r o s o u t r o s . D e ma s i a d a me n t e a f a s t a d o s o s b a n c o s d a s me s i n h a s d e e s c r e v e r , o s a l u n o s me n o r e s v i a m- s e o b r i g a d o s a u ma c u r v a t u r a d o r s a l p r o n u n c i a d a , a l é m d a c o mp r e s s ã o d o s ó r g ã o s a b d o mi n a i s , o q u e d e t e r mi n a v a c e r t o e mb a r a ç o d a c i r c u l a ç ã o c o m r e p e r c u s s ã o n o t r a b a l h o c e r e b r a l . O d i s t ú r b i o l e v a d o à c i r c u l a ç ã o c e n t r a l t r a z i a , p o r s u a v e z , c e r t a s c o n s e q ü ê n c i a s má s , e n t r e a s q u a i s a f a d i g a n e r v o s a e v i s u a l . A l é m d i s s o , a n e c e s s i d a d e d e o s a l u n o s i n c l i n a r e m o c o r p o e a c a b e ç a p a r a d i a n t e , n e s s a s me s a s e s c o l a r e s d e f e i t u o s a s , a f i m d e a p r o x i ma r o s o l h o s d o l i v r o e d o c a d e r n o d e e s c r i t a , p e r t u r b a , n ã o r a r o , o b o m i l u mi n a me n t o d o c a mp o d e t r a b a l h o . A d i s p o s i ç ã o d a s me s a s d e v e s e r t a l q u e p e r mi t a u m i l u mi n a me n t o s e m o f u s c a me n t o d i r e t o o u r e f l e t i d o e s u f i c i e n t e p a r a q u a l q u e r

t r a b a l h o d e l e i t u r a e e s c r i t a , a t é c o m c e r t a l i b e r d a d e d e d e s l o c a me n t o d o c o r p o d a c r i a n ç a . O q u a d r o n e g r o d e s p o l i d o e o s ma p a s mu r a i s d e v e m e s t a r c o l o c a d o s e m p o s i ç ã o q u e p o s s a m s e r v i s t o s f a c i l me n t e p e l o s a l u n o s à d i s t â n c i a d e 4 me t r o s , p a r a o q u e o s d i z e r e s e x p l i c a t i v o s d e v e m s e r p e r f e i t a me n t e l e g í v e i s a e s s a d i s t â n c i a ( I d e m, p . 3 5 6 - 3 5 7 ) .

Ainda a respeito do material escolar, os livros mereciam atenção especial, constituindo-se alvo de estudos dos “higienistas pedagogos”, que observavam desde a cor do papel, a dimensão dos caracteres da escrita e da tipografia até a tinta de impressão. A cor do papel indicada para os livros e os cadernos de escrita “é a branca e sem brilho, para evitar-se os reflexos fatigantes que determina”.

Embora possa parecer demasiado o cuidado com a visão dos escolares, o motivo da preocupação apresentado residia no fato de que, para os especialistas em medicina social, esse problema estava diretamente relacionado com a instrução e a influência que ela exercia nos aspectos sociais, políticos e econômicos da nação o que “impõe uma ação constante e eficiente por parte dos responsáveis pela preparação dos nossos homens de amanhã” (ANDRADE, 1944, p. 359). N ã o p r e c i s a s e r - s e [ s i c ] s o c i ó l o g o , h i g i e n i s t a e p e d a g o g o p a r a c o mp r e e n d e r q u e n o s p a í s e s o n d e a e s c o l a n ã o e v o l v e e n ã o s e i n t e g r a n o d e s t i n o d a n a c i o n a l i d a d e , e m f u n ç ã o d e s u a s ma i s s a g r a d a s a s p i r a ç õ e s , s o b e j a m r a z õ e s e t e m o r e s p a r a a s u a d e s o r g a n i z a ç ã o e d e c l í n i o i n e v i t á v e l . N o d e s e n v o l v i me n t o d a a ç ã o c o n j u n t a d o s h i g i e n i s t a s e p e d a g o g o s c a s a m- s e n u ma p e r f e i t a h a r mo n i a o s p r o b l e ma s d a s a ú d e e d a i n s t r u ç ã o , e n c o n t r a n d o , a s s i m o s q u e a b n e g a d a me n t e s e e mp e n h a m e m t o r n a r a P á t r i a g r a n d e e f e l i z , u m c a mp o s a d i o o n d e f l o r e s c e m t o d a s a s v i r t u d e s c í v i c a s e mo r a i s . P r o t e g e n d o a c r i a n ç a n o q u e e l a p o s s u i d e me l h o r n a v i d a – a v i s ã o – s u p r e mo e i n c o mp a r á v e l b e m q u e n o s d á a a l e g r i a d e v i v e r – p r e p a r a mo - l a p a r a b e m s e r v i r à S o c i e d a d e e à P á t r i a , n a f o r ç a i ma r c e s c í v e l d o s s e u s g r a n d e d e s t i n o s ( I d e m, p . 3 5 9 - 3 6 0 ) .

As orientações técnicas para a construção de prédios escolares, bem como aquelas relacionadas com os outros aspectos que participavam do cotidiano dos alunos, pautavam-se nas recomendações médico-higienistas, como exposto anteriormente, visando uma aplicação extensiva, que abrangia, inclusive, as crianças em idade pré-escolar (2 a 5 anos), isto é, aquelas que

freqüentavam o Jardim de Infância. Para Massillon Sabóia (1946)89, não era mais admitido, naqueles dias, “uma boa organização escolar sem o concurso da higiene”. Considerando a obtenção de resultados mais proveitosos no futuro, era partidário de que se dedicasse o máximo de cuidado à idade pré- escolar “construindo-se então os alicerces para obra de maior envergadura”. Afirmava ser consenso entre aqueles que se debruçavam sobre estudos de pediatria a influência que, nos primeiros tempos do desenvolvimento da criança, exercem as condições do ambiente, podendo, em maior ou menor escala, se refletir na sua existência. Em face disso, apresentava algumas premissas, sob responsabilidade da família, em primeira instância, e, em seguida, das instituições públicas e privadas prestadoras desse tipo de serviço, que, na sua opinião, contribuiriam para o desenvolvimento normal da criança: a ) a r l i v r e e e s p a ç o s u f i c i e n t e p a r a a c r i a n ç a s e l o c o m o v e r ; b ) mo r a d i a h i g i ê n i c a ; c ) a l i m e n t a ç ã o a p r o p r i a d a e m q u a l i d a d e e q u a n t i d a d e ; d ) f a c i l i d a d e p a r a a d q u i r i r b o n s h á b i t o s d e h i g i e n e e a s s e i o p e s s o a l , n ã o e s q u e c e n d o o a mb i e n t e d e b o a h i g i e n e me n t a l ; e ) o b s e r v a ç ã o r e g u l a r , c u i d a d o s a e p e r f e i t a a f i m d e q u e a s i n f e c ç õ e s e o u t r o s d e s v i o s d a s c o n d i ç õ e s n o r ma i s p o s s a m s e r e v i t a d a s e , s e e x i s t e n t e s , d e s c o b e r t a s e t r a t a d a s , e m s e u i n í c i o ( S A B Ó I A , 1 9 4 6 , p . 6 4 - 6 5 ) .

Como as condições vigentes não permitiam que a família assumisse a total responsabilidade dessa tarefa, caberia às instituições citadas no parágrafo acima, ( . . . ) c o m p l e t á - l a e s e r v i r d e t r a ç o d e u n i ã o , a p l i c a n d o o s me l h o r e s mé t o d o s p a r a c r i a r e e d u c a r o s p e t i z e s d e 2 a 5 a n o s e p r o mo v e n d o a v i g i l â n c i a mé d i c o - h i g i ê n i c a s i s t e má t i c a a n t e s d e s u a a d mi s s ã o n a E s c o l a , p r i me i r o , a j u d a n d o a f o r ma r h á b i t o s s a d i o s e m r e l a ç ã o à a l i me n t a ç ã o e à h i g i e n e , s e g u n d o , c o r r i g i n d o o s d e f e i t o s r e me d i á v e i s , t e r c e i r o , i mu n i z a n d o c o n t r a a s d o e n ç a s e v i t á v e i s ( I d e m, p . 6 5 ) .

Além das vantagens apresentadas, autor enfatizava o valor educativo do serviço prestado pelo Jardim de Infância para os pais, uma vez

89

Massillon Sabóia, autor do texto Princípios de higiene pedagógica aplicados às construções escolares e ao material escolar, era médico pediatra, membro da Associação Brasileira de Educação (ABE) e da comissão designada pelo Prefeito do Distrito Federal, a qual foi constituída para estabelecer as normas a serem observadas na construção de prédios escolares.

que a sua ação, ao introduzir os cuidados higiênicos e os hábitos diários de saúde, fechava o ciclo entre a higiene infantil e a higiene escolar.

As construções dessas unidades deveriam privilegiar prédios que comportariam, em média, de 30 a 40 crianças acomodadas em uma ampla sala para brincar, bem iluminada e arejada, com acesso para o jardim. Sugeria uma rampa com inclinação leve no lugar de escada e, para o caso dessa existir, que os degraus fossem largos e de pequena altura (0,10 x 0,15 m), ladeados por corrimão.

O mobiliário utilizado deveria estar em consonância com a estatura e as necessidades das crianças, assim como os lavatórios e aparelhos sanitários instalados próximos a sala de brincar. A cada grupo de cinco crianças seria destinado um lavatório com altura que poderia variar de 0,35 a 0,60 m do chão. Os vasos sanitários, assim como os lavatórios, disporiam de altura variável entre 0,15 e 0,25 m. Os banheiros, na proporção de um para cada seis crianças, possuiriam portas baixas com abertura na parte inferior para permitir a fiscalização.

Todos os elementos componentes desse espaço destinado às crianças pequenas estariam devidamente adequados às suas características de desenvolvimento físico e mental, obedecendo “todas as regras de boa higiene, pois a formação de hábitos sadios depende da prática regular e constante da higiene pessoal”.

As recomendações, de natureza médica ou pedagógica, abrangiam algumas características estruturais do prédio, os espaços internos que ele comportava, os componentes desses ambientes e da área externa, como pátio, varanda, jardim, relacionando esse conjunto com a saúde, o desenvolvimento, a comodidade e a segurança da criança, acompanhados da formação de hábitos de higiene. A i n f l u ê n c i a d a a t i t u d e f í s i c a n o d e s e n v o l v i me n t o d o s o s s o s e d o s mú s c u l o s , s o b r e a s f u n ç õ e s r e s p i r a t ó r i a s e d i g e s t i v a s e s o b r e a s a ú d e g e r a l , é d e g r a n d e i mp o r t â n c i a , p r i n c i p a l me n t e q u a n d o o e s q u e l e t o a i n d a n ã o s e a c h a c o mp l e t a me n t e o s s i f i c a d o . A s c a d e i r a s d e v e m s e r c o n s t r u í d a s d e ma n e i r a a p e r mi t i r q u e a s c r i a n ç a s

f i q u e m s e n t a d a s c o mo d a me n t e , c o m o s p é s a p o i a d o s n o s o l o . O a s s e n t o d e v e s e r l i g e i r a me n t e i n c l i n a d o d e d i a n t e p a r a t r á s , a p r e s e n t a n d o n o c e n t r o u ma l e v e s a l i ê n c i a , q u e p e r mi t e ma i s c o mo d i d a d e . O e n c o s t o d e v e e v i t a r q u e h a j a p r e s s ã o e x a g e r a d a . N ã o h á v a n t a g e n s e m c a d e i r a s d e b r a ç o s . A s me s a s p o d e m c o mp o r t a r d e 2 a 8 c r i a n ç a s e d e v e m s e r d e p r e f e r ê n c i a d e f o r ma o v a l , i mp e d i n d o q u e a s c r i a n ç a s me n o r e s e ma i s d e s c u i d a d as p o s s a m s e mo l e s t a r d e e n c o n t r o a o s â n g u l o s s a l i e n t e s . E s s e mo b i l i á r i o é g e r a l me n t e p i n t a d o d e c o r e s c l a r a s , t i n t a s e m b r i l h o , e f a c i l me n t e l a v á v e l . D a s c a ma s p a r a r e p o u s o , o t i p o q u e me p a r e c e ma i s a c o n s e l h á v e l é o q u e t r o u x e e m 1 9 2 8 d e V i e n a , o n d e e r a u s a d o n o s K i n d e r g a r t e n . E s s a s c a ma s s ã o d e p a l h a l i g e i r a me n t e f l e x í v e i s e p r ó p r i a s a o n o s s o c l i ma . O ma t e r i a l d e b r i n q u e d o d e v e s e r e s c o l h i d o p a r a p r e e n c h e r o s e u f i m e d u c a t i v o e p s i c o l ó g i c o , e n ã o a p e n a s p a r a d i s t r a i r . D e v e s e r r e s i s t e n t e , s e m a s p e r e z a s , p a r a e v i t a r a c i d e n t e s , s i mp l e s , f a c i l me n t e l a v á v e i s e q u a n d o p i n t a d o a s c o r e s d e v e m s e r d i s c r e t a s e d e b o m g o s t o . ( . . . ) a g a n g o r r a , a s c a i x a s d e a r e i a , o s d e s l i z a d o r e s , o j u n g l e g y m e f i n a l me n t e o t a n q u e d e v a d e a r e me s mo a p i s c i n a r a s a e m r a mp a s u a v e d e s d e q u e s e j a m r e s p e i t a d a s a s c o n d i ç õ e s p e r f e i t a s d e h i g i e n e , e f i n a l me n t e o s c h u v e i r o s , q u e c o n t r i b u e m p a r a e s t a b e l e c e r o h á b i t o d o b a n h o d i á r i o e a s s e i o p e s s o a l ( I d e m, p . 6 7 - 6 8 ) .

Outros detalhes sobre as normas técnicas que deveriam ser observadas na construção do prédio, dos espaços que lhe são complementares e do material escolar (mesas, cadeiras, quadro, material didático...) buscavam contemplar os requisitos básicos que possibilitassem um espaço adequado às atividades escolares, o desenvolvimento físico, mental e intelectual do aluno. Para Sabóia os principais problemas a serem solucionados no projeto de uma escola tratavam justamente daqueles relacionados com a higiene.

As escolas de internato destinadas aos alunos considerados de “educabilidade difícil”, ou seja, aqueles que necessitavam da assi stência de especialistas (médicos, psiquiatras e pedagogos), abrigavam indivíduos que apresentavam um dos três graus de oligofrenia (débil mental, imbecil e idiota), deficiências sensoriais (cegos, surdos, mudos e surdos-mudos) e defeitos físicos (hereditários, congênitos ou adquiridos) que os impediam de receber uma educação escolar comum. Para esses casos, o planejamento dos prédios escolares estabeleceria, além das instalações de praxe, com adequações específicas, outros ambientes onde seriam acomodados os técnicos e os equipamentos necessários.

Na classificação proposta para os prédios de internato, os graus de diferenciação aplicados (educação difícil; educação ultradifícil) sinalizavam para uma situação em que o indivíduo fosse pertencente a um corpo social homogêneo (normal), corpo esse que forneceu os elementos necessários para a elaboração da própria norma que discrimina. De certa maneira, o poder que instituiu a regulamentação traz em si um direcionamento para a homogeneidade, mas ao mesmo tempo individualiza, permitindo estabelecer os níveis dos desvios e os necessários ajustamentos (FOUCAULT, 2001).

No quadro descrito acima, a “educabilidade difícil”, dadas as características que lhe são atribuídas, com conotações que sugerem vínculo com a saúde, não pode ser definida como uma doença, mas como uma “condição de existência” do indivíduo em relação a um conjunto (sociedade). Na situação retratada, foram registradas diferentes “condições de existência” que não são consideradas doenças, mas desvios em relação a uma norma. Esses desvios configuram a anomalia. As crianças portadoras de anomalias. No espaço escolar concebido com diferenciais espaciais, a medicina e a educação são colocadas como instâncias de definição, tratamento e controle da normalidade.

A ocorrência da normalização voltada para parâmetros que estabelecem o aceitável e o não aceitável, em termos de comportamento, remete para o coletivo, fazendo que, com o olhar focado no “normal”, se instale a comparação entre os indivíduos. Aqueles que não se enquadram dentro do padrão de normalidade estabelecido são considerados “anormais”. A norma não contempla o diferente na medida em que admite somente duas possibilidades: ”normal” ou “anormal”. A emergência do poder de normalização, a maneira como ele se formou, a maneira como se instalou, sem se apoiar numa instituição em particular, mas pelo jogo que conseguiu estabelecer em diferentes instituições, estendeu sua soberania em nossa sociedade. A norma torna-se um elemento fundamental ao exercício do poder, constituindo sua base e legitimação.

( . . . ) a n o r ma t r a z c o n s i g o a o me s mo t e m p o u m p r i n c í p i o d e q u a l i f i c a ç ã o e u m p r i n c í p i o d e c o r r e ç ã o . A n o r ma n ã o t e m p o r f u n ç ã o e x c l u i r , r e j e i t a r . A o c o n t r á r i o , e l a e s t á s e mp r e l i g a d a a u ma t é c n i c a p o s i t i v a d e i n t e r v e n ç ã o e d e t r a n s f o r ma ç ã o , a u ma e s p é c i e d e p o d e r n o r ma t i v o ( F O U C A U L T , 2 0 0 1 , p . 6 2 ) .

Uma outra modalidade, segundo o tipo de aluno, poderia ser denominada de hospitais escolas, nos quais se procederia à psiquiatrização das crianças (psicopatas e psicóticas) ou onde seriam recebidos os alunos que contraíram doenças infecto-contagiosas e os filhos de tuberculosos, etc.

4.3 “Sem espaço” para a doença

As doenças infecto-contagiosas, durante um longo período, constituíram motivo de preocupação entre os médicos sanitaristas brasileiros. A situação sanitária que predominava, na primeira metade do século XX, com o acentuado crescimento urbano industrial, ainda necessitava de esforço concentrado de vários setores da sociedade e dos órgãos de saúde. Valois Souto (1946)90, considerando os aspectos de ordem material e pedagógica de que se reveste a questão, reporta-se à tuberculose entre os escolares, em particular, esclarecendo sobre os elementos que deveriam ser observados para que a transmissão pudesse ser controlada e, igualmente, pudessem ser minimizados os efeitos maléficos sobre o organismo dos professores e escolares. A tuberculose é uma doença transmissível, que pode se propagar entre os alunos sadios, sendo maior a probabilidade de sua disseminação, e de outros males, em locais com más condições de higiene. Diante de tais dados, recomendava-se que a escola se localizasse “em meio de amplo terreno, em suave aclive” de maneira que houvesse um escoamento rápido e natural das águas das chuvas e possuísse “algumas arvores frondosas, onde as crianças pudessem se abrigar nas horas de sol mais inclemente”.

Um aspecto apontado como fundamental diz respeito à orientação da construção escolar em relação a incidência da radiação solar. O

90

Valois Souto, um dos colaboradores da RBEP, professor da Universidade do Brasil, publicou vários trabalhos sobre educação e medicina.

aproveitamento máximo da luz e do calor do sol podia ser obtido desde que o edifício escolar se localizasse “nos eixos principais, dentro do setor NNE- SSO e NNO-SSE, conforme preceitua o professor Domingos Cunha”. Souto indicava como mais conveniente a localização NNE-SSO que possibilitaria que o lado do prédio voltado para NNE(nor-nordeste) recebesse a luz do sol, nas primeiras horas da manhã até pouco depois do meio dia, conforme a variação do ângulo da luz solar, em função das estações do ano91.

Do ponto de vista da segurança, seria aconselhável que as construções fossem a mpliadas mais em superfície do que em altura, eliminando-se a necessidade das escadas por oferecem perigo às crianças. Entretanto, na impossibilidade, que se limite sua altura a, no máximo, três andares, evitando-se os inconvenientes do elevador.

As atividades pedagógicas, para sua maior vantagem, deveriam ser programadas para que fosse respeitado o bom funcionamento do corpo humano, de maneira que os estudantes pudessem se movimentar e arejar os pulmões, dentro de determinados intervalos, de acordo com as necessidades fisiológicas. A programação diária não deveria exceder mais do que seis horas para qualquer nível de estudos.

S e g u n d o C h a d w i c k , é mu i t o e s c a s s o o t e mp o e m q u e u m a c r i a n ç a m a n t é m c o n c e n t r a d a a a t e n ç ã o : 1 5 mi n u t o s a o s 6 a n o s ; 2 0 mi n u t o s d e 7 a 1 0 a n o s ; 2 5 mi n u t o s d e 1 0 a 1 2 a n o s ; 3 0 mi n u t o s d e 1 2 a 1 6 a n o s . A l é m d e s t e p e r í o d o , é i n ú t i l i n s i s t i r , p o i s o c o r r e r á u ma d a s d u as h i p ó t e s e s s e g u i n t e s : a f a d i g a , q u e s u r g e s e s e t r a t a d e e s t u d a n t e e x c e p c i o n a l me n t e a p l i c a d o , o u a a u s ê n c i a d a a t e n ç ã o , v a g a n d o o p e n s a me n t o p e l a s p a r a g e n s ma i s d i s t a n t e s ( S O U T O , 1 9 4 6 , p . 2 4 3 ) .

Assim, propunha-se, a partir de bases fisiológicas, um certo equilíbrio no horário, evitando-se aulas demasiadamente prolongadas, a fim de que a fadiga ou a dificuldade de concentração pudessem ser dribladas. Da mesma maneira, també m deveriam ser evitadas as construções em locais movimentados, haja vista os ruídos, a presença de poeira, fumaça e outros

91

As recomendações de Valois Souto estavam direcionadas para o Distrito Federal (Rio de Janeiro), onde ocorriam “nove meses de calor para três de temperatura amena, aplicando-se igualmente às regiões frias, como, por exemplo, Petrópolis, Terezópolis ou Friburgo, onde há nove meses frios para somente três de calor” (p. 242).

gases, além de “micróbios e cogumelos que, entrando janelas adentro, muito prejudicam o desenvolvimento infantil”. A disposição das janelas, um outro aspecto relacionado com a salubridade do ambiente, deveria possibilitar que, mesmo e m dias chuvosos, pudessem permanecer abertas para a renovação do ar e a passagem dos raios ultravioleta92. Muito embora, não fossem comuns casos de raquitismo, por precaução, “não devemos esquecer as medidas de defesa contra este mal, bastando lembrar que as crianças permanecem em aula entre 1/4 e 1/3 do dia”.

Considerava-se importante que fosse observada uma área mínima por aluno93, de forma que as atividades previstas para serem realizadas na sala de aula não ficassem prejudicadas. O tamanho da sala de aula, proporcional ao número de alunos, constituía-se em medida profilática necessária à manutenção da qualidade do ar (não viciado). Para o professor Afrânio Peixoto, A s s a l a s d e a u l a d e v e m s e r p r o p o r c i o n a d a s p a r a o n ú me r o má x i mo d e 3 6 a l u n o s , d a n d o 5 , 3 m p a r a c a d a u m. A s a l a n ã o d e v e s e r mu i t o l o n g a , d e ma i s d e 8 me t r o s , p a r a q u e o s a l u n o s d o s ú l t i m o s b a n c o s p o s s a m v e r d i s t i n t a me n t e l e t r a s d e 4 c e n t í me t r o s d e a l t u r a , t r a ç a d a s n o q u a d r o n e g r o , a o l a d o d o p r o f e s s o r , n e m mu i t o l a r g a , d e ma i s d e 6 me t r o s , p a r a q u e a i l u mi n a ç ã o l a t e r a l a t i n j a o s a l u n o s o p o s t o s ma i s r e c u a d o s , q u e d a í a i n d a p o s s a m v e r u m p e d a ç o d e c é u , n u ma e x t e n s ã o d e 3 0 c e n t í me t r o s ( a p u d S O U T O , 1 9 4 6 , p . 2 4 4 ) .

As medidas de prevenção e de profilaxia direcionadas aos professores e alunos eram de natureza individual. O professor deveria ser submetido a exame médico minucioso, periodicamente renovado e acompanhado de radiografia dos pulmões, antes de ser admitido no magistério público ou particular. Se fosse constatada suspeita de lesão tuberculosa, seria licenciado para melhor observação e, no caso de confirmação do diagnóstico, o professor submeter-se-ia a tratamento num sanatório, só sendo permitido o reingresso mediante exames que comprovassem a cura. Reconhecia-se que,

92

Admitindo a necessidade de fechar as janelas, alertava para que os vidros não bloqueassem os raios

Benzer Belgeler