Em um contexto desenvolvimentista, de crescente tensão entre os movimentos ambientalistas e o governo federal, a política de educação ambiental na Secad foi implementada prioritariamente por meio de uma estratégia de mobilização social, destinada a fomentar e a fortalecer um campo de educação ambiental no ensino regular. A promoção das Conferências Infanto-Juvenis de Educação Ambiental, proposta como um processo de sensibilização, formação e intercâmbio sobre a educação ambiental, e o estímulo à criação de Comissões de Educação Ambiental e Qualidade de Vida, chamadas de Com-Vida, foram as principais ações.
A educação ambiental precisava entrar no MEC, precisava ganhar espaço nas escolas. As Conferências, na verdade, constituíram um pretexto para que pudéssemos chegar às escolas, romper barreiras e promover a educação ambiental, estimulando o debate contemporâneo sobre ela com base nas realidades locais. Era mais do que um evento, era um processo que envolvia mobilização, formação, desenvolvimento e intercâmbio de experiências locais, em que discutíamos não somente os documentos nacionais e internacionais de educação ambiental, mas também de outras agendas da Secad, como, por exemplo, a Plataforma de Ação da Conferência de Durban. Sempre trabalhamos em uma perspectiva socioambiental, visando construir um lugar da educação ambiental na política educacional (depoimento de Rachel Trajber, educadora ambiental, ex-coordenadora de educação ambiental da Secad/Secadi, entre 2004 e 2012).
A 1.ª Conferência Infantojuvenil pelo Meio Ambiente (Cnijma) aconteceu em 2003 e envolveu 15.452 escolas, mobilizando 5.658.877 pessoas em todo o país. A 2.ª Conferência, referente aos anos de 2005 e 2006, aconteceu em 11.475 escolas e comunidades, envolvendo 3.801.055 pessoas. A 3.ª Cnijma, realizada em 2008/2009, mobilizou 11.630 escolas e envolveu mais de 3,7 milhões de pessoas. A 4.ª edição ocorreu em 2012/2013 e alcançou 17.457 escolas e milhões de participantes nos debates das oficinas de conferência, nas conferências nas escolas e nas conferências regionais e estaduais. Em 2010, aconteceu a versão internacional da Cijma, da qual participaram mais de 47 países (MEC, 2015).
197 Na perspectiva de concretizar ações afirmativas propostas pela Secad, foram estimuladas as participações de comunidades indígenas, quilombolas e do campo nos processos das conferências. Essa participação também estava sintonizada com as diretrizes da Política Nacional de Desenvolvimento Sustentável dos Povos e Comunidades Tradicionais de 2007.
As Conferências Infantojuvenis contribuíram para a construção das Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação Ambiental pelo Conselho Nacional de Educação, tendo como base legal a Política Nacional de Educação Ambiental (1999), regulamentada pelo Decreto n. 4.281/2002, coordenada conjuntamente pelo Ministério do Meio Ambiente e pelo Ministério da Educação, e tendo como documento internacional de referência o Tratado de Educação Ambiental para as Sociedades Sustentáveis e Responsabilidade Global, resultante da Conferência Mundial do Meio Ambiente (Eco-92). A elaboração das Diretrizes teve início em 2004 por iniciativa da Coordenação de Educação Ambiental, da então Secad. As diretrizes foram homologadas pelo ministro Aloizio Mercadante somente em 2012, na ocasião dos preparativos da Conferência Mundial Rio+20.
A criação, em 2010, do Fundo Brasileiro de Educação Ambiental (Funbea), como fundo público não estatal incubado pela Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), e a criação do Programa Escolas Sustentáveis – destinado a apoiar projetos de escolas por meio do Programa Dinheiro Direto na Escola - PDDE interativo – visaram ampliar as condições de desenvolvimento e capilarização de experiências positivas no ambiente escolar e para além dele.
Nesse período, também se destacaram a oferta de cursos de formação continuada por meio da Rede de Educação e Diversidade e a elaboração da proposta de um Subsistema Nacional de Educação Ambiental, visando ampliar as bases de institucionalização da agenda no governo federal, articulado ao Sistema Nacional de Meio Ambiente e ao futuro Sistema Nacional de Educação (SORRENTINO, 2013; BRASIL, 2007).
Esses avanços ocorreram em um contexto nacional marcado por acirrados conflitos e intensas rupturas nos movimentos ambientalistas, que levaram ao debate sobre a existência de uma crise da identidade ética e política da educação ambiental (REIGOTA, 2008; TAMAIO, 2007; QUINTAS, 2013). Esses conflitos e essas acusações apontavam a contradição existente na construção de uma política de educação ambiental em um contexto marcado pelas opções desenvolvimentistas dos
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governos Lula e Dilma, sobretudo em relação à aposta na ampliação do mercado interno de consumo, na expansão do agronegócio (com intensificação da produção de commodities) e no investimento em grandes obras de infraestrutura em áreas de proteção ambiental.
Decisões como a da liberação para exportação de soja transgênica, o anúncio de uma possível retomada do programa nuclear brasileiro, a transposição do Rio São Francisco, a construção do Plano Amazônia Sustentável sem a participação do Ministério do Meio Ambiente, a forte pressão para a flexibilização do licenciamento ambiental para grandes obras de infraestrutura do governo e empreendimentos privados, entre outras, expuseram as profundas contradições existentes no governo em relação à agenda da sustentabilidade socioambiental. Somadas às ambiguidades da posição brasileira em instâncias e processos internacionais vinculados às questões ambientais, essas contradições e disputas culminaram na saída da ministra Marina Silva do governo federal em 2008 e do Partido dos Trabalhadores em 2009, revelando a grande fragilidade do lugar político do Ministério do Meio Ambiente nos anos seguintes dos governos Lula e Dilma.
Para nós, educadores ambientais que estávamos no governo – no MEC e no Ministério do Meio Ambiente – era um conflito o tempo todo, um conflito entre o nosso ideário ambientalista, que a gente nunca abandonou, e as opções desenvolvimentistas, que foram cada vez mais se acentuando no segundo mandato do governo Lula, culminando no governo Dilma. Era um conflito com os movimentos ambientalistas, especificamente com o movimento de educação ambiental, que ainda é muito segregado no próprio movimento ambientalista. Havia acusações de termos sido cooptados, mas estávamos atuando no governo por outro patamar de institucionalização da política de educação ambiental no país (depoimento de Rachel Trajber).