A divulgação realizada pela ONA e a disponibilização do Manual de Acreditação aos hospitais via Ministério da Saúde, possibilita uma rápida disseminação dos conceitos e princípios da Acreditação Nacional. O apelo educacional deste processo tem como conseqüências futuras o mau uso da sistemática e interpretações inadequadas pelos hospitais interessados em participar da Acreditação (SCHIESARI; KISIL, 2003).
Nesse cenário, a solução foi intensificar, via Agências Acreditadoras, a administração de cursos preparatórios de formação dos profissionais envolvidos nos serviços hospitalares em auditores internos em uma estratégia para homogeneizar os conhecimentos sobre a sistemática de Acreditação. Porém, tal estratégia que, inicialmente, revelou-se benéfica para a evolução da Acreditação, deu margem à realização de consultorias o que corrompe o propósito inicial da ação (QUINTO NETO, 2004).
Tal situação pode gerar dúvidas quanto à observância das normas reguladoras que proíbem a concomitância de consultoria pela Agência Acreditadora durante o processo de avaliação. O caráter voluntário da Acreditação brasileira tende a atrair Organizações com maior grau de comprometimento. Mas, a não vinculação a programas de estímulo, seja por pagamento diferenciado, seja por outros tipos de vantagem, limita a participação de hospitais devotados à GQ e aos princípios da Acreditação (LA FORGIA; COUTTOLENC, 2009).
Ao contrário de outros países, o processo brasileiro é contestado por fontes pagadoras e pelo público. Ambos questionam o princípio da Confidencialidade, que garante o sigilo das informações das Organizações participantes. Dessa forma há um movimento incipiente de busca pelo acesso aos resultados das avaliações. Em outros países, o sigilo das avaliações foi quebrado em nome do interesse público (BORBA; KLIEMANN NETO, 2008).
Apesar dos esforços de diferentes atores do processo nacional de Acreditação (ONA, Agências Acreditadoras, hospitais), o mesmo ainda é incipiente. Por isso, cada um desses atores tende a enfrentar dificuldades. As Agências Acreditadoras que utilizam modelos externos de avaliação tendem, eventualmente, a misturar padrões e práticas em um primeiro momento. Já profissionais ligados à certificação ISO ou a prêmios de GQ, podem ter dificuldade na clara separação de suas funções (BORBA; KLIEMANN NETO, 2008).
Apesar da dificuldade no cumprimento dos padrões, estes começam a orientar as práticas de diversos hospitais como instrumentos de avaliação e de gestão. Dessa forma, as perspectivas para a segunda década dos anos 2000 são de que a Acreditação altere os rumos das práticas associadas aos serviços hospitalares (LA FORGIA; COUTTOLENC, 2009).
Sinais claros dessa tendência de assimilação de padrões e mudança de práticas são: estímulo à formação de comissões de avaliação e melhoria da assistência, formação de auditores internos ONA, conhecimento dos padrões, utilização do Manual de Acreditação para o planejamento estratégico institucional, etc (MACHADO; KUCHENBECKER, 2007).
Apesar dos esforços, há falta de incentivos governamentais e dos compradores privados para que um hospital adote tal certificação. Tal fato se deve a falta de casos que comprovem a melhoria dos resultados da assistência hospitalar por meio das práticas propostas pela Acreditação (QUINTO NETO, 2004).
Outros desafios a serem enfrentados demandam a necessidade de visão de longo prazo. Em geral, são desafios relacionados à busca pelo controle eficaz de custos e melhoria da eficiência dos processos e atividades dos hospitais. Isto implica uma nova disposição gerencial que utilize informações e ferramentas que auxiliem na redução de custos, erros médicos e elevem o desempenho (CAMPOS, GASTAL E COUTO, 2008).
A implantação do Seis Sigma é uma alternativa de destaque no enfrentamento de tal desafio. A disseminação de aplicação desta ferramenta em hospitais configura-se como tendência, especialmente em hospitais do setor privado (BOARIN PINTO et al., 2010).
O Seis Sigma é uma estratégia gerencial disciplinada e quantitativa baseada em técnicas estatísticas que busca aumentar a lucratividade das Organizações, sejam elas do setor de serviços ou bens de consumo, por meio da melhoria da qualidade dos processos e da redução do nível de defeitos/erros em produtos ou serviços (BOARIN PINTO et al., 2010).
O uso do Seis Sigma, tem gerado, aos hospitais, as seguintes melhorias de aumento da lucratividade, redução dos desperdícios, redução de erros em faturas, aumento da eficiência e redução do tempo de internação dos usuários (BOARIN PINTO et al., 2010).
O cumprimento de requisitos legais e a garantia de acesso e de integralidade na assistência apresentam-se como desafios de longo prazo para os hospitais. Assim, a criação de sistemas regulatórios surge como importante tema a ser futuramente avaliado. No setor privado, a preocupação regulatória é anterior e sua regulamentação gerou melhorias na eficiência e no controle de acesso (MACHADO; KUCHENBECKER, 2007).
Quanto à garantia da integralidade da assistência hospitalar, não há integração entre os componentes do setor (hospitais, Unidades Básicas de Saúde, Unidades de Pronto- Atendimento, etc.). O Estado não tem atuado para promover a integração entre os envolvidos, nem para incentivar relacionamentos que produzam retorno financeiro às partes. Para isto, seria fundamental identificar todos os atores envolvidos, as insuficiências na remuneração de cada um e o aporte financeiro que necessitam (MACHADO; KUCHENBECKER, 2007).
Essa desfragmentação e a omissão do Estado favorecem a busca por novas formas de financiamento na medida em que todos os atores do setor estão insatisfeitos. Terceirizações, alianças e parcerias surgem como novas formas de relacionamento e devem ganhar destaque a médio e longo prazo, podendo reverter o cenário insatisfatório e gerar ganhos administrativos e financeiros aos envolvidos (VECINA NETO; MALIK, 2007).
Com o distanciamento entre o setor privado e o SUS, há o fechamento de leitos hospitalares, o que representa não só um redimensionamento da demanda de usuários, mas também, a incapacidade de se construir uma visão realista e coerente de futuro durante toda a primeira década do século XXI (LA FORGIA; COUTTOLENC, 2009).
Para a segunda década do século, hospitais privados que dispõem de tecnologias sofisticadas e as operadoras da assistência médica supletiva ligadas à medicina de grupo deverão buscar a implementação de práticas como a atenção gerenciada e gestão de casos (VECINA NETO; MALIK, 2007).
3. DESEMPENHO HOSPITALAR: CONCEITUAÇÃO E DIMENSÕES
Este capítulo focaliza a revisão bibliográfica do constructo de pesquisa desempenho hospitalar. Inicialmente, são realizadas conceituações de desempenho focalizadas, especificamente, para os serviços hospitalares, explorando definições e modelos de desempenho hospitalar. Na seção 4.2, o desempenho hospitalar é explicado ao longo das dimensões que o compõem, segundo diferentes trabalhos publicados na literatura, de forma a mostrar a complexidade envolvida na delimitação de tal constructo.
O capítulo apresenta, ainda, fatores intrínsecos (intervenientes) que, segundo a literatura, afetam o desempenho hospitalar e que devem ser considerados na medição e avaliação do desempenho hospitalar. Ao final do capítulo, são abordados métodos de medição e monitoramento do desempenho hospitalar, com ênfase para os indicadores hospitalares.