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Yıkama Sistemleri

1. YIKAMA

1.6. Yıkama Sistemleri

seu pai/patrão; à mulher, devido à sua fraqueza física; e ao operário, que teria seus  passos  dirigidos  pelo  pai/patrão,  pois  é  imprevidente  e  dependente.  Essas  assimilações,  como  define  o  autor,  contribuíram  para  justificar  a  autoridade  do  adulto sobre a criança e, conseqüentemente, a rigidez disciplinar na sua educação,  além,  obviamente,  de  ferir  moralmente  tanto  a  criança  como  os  que  a  ela  são  comparados.  Cabe  destacar  a  falta  de  verbetes  femininos,  configurando  uma  desvalorização, ainda maior, com as meninas.    “O vosso sexo não existe senão para ser dependente:  Todo o poder está do lado da barba.  Embora sejamos duas metades da sociedade,  Estas duas metades não são, de modo nenhum, iguais:  Uma é a metade suprema, e a outra subalterna;  Uma é em tudo submetida à outra, que governa;  E aquilo que o soldado, conhecer do seu dever,  Revela de obediência para com o chefe que o conduz,  O criado para com o senhor, um filho para com seu pai,   O frade mais inferior para com o superior,  Não se aproxima ainda em nada da docilidade,  E da obediência, e da humildade,  E do profundo respeito que a mulher deve ter,  Para com seu marido, seu chefe, seu senhor e seu mestre”  (Molière‐L’École dês femmes, acte III, sc.II apud Snyders, 1917/1984: 73)   

1.2. A criança como ator sócio-histórico-cultural

 

A discussão histórica sobre a criança apresentada na seção anterior refere‐se  a  um  período  específico,  sem  descartar  ou  desvalorizar  muitas  outras  representações construídas e veiculadas ao longo da história, como por exemplo,  as  idéias  românticas  de  Jean‐Jacques  Rousseau  (1712‐1778)  ou  a  tabula  rasa  difundida por John Locke (1632‐1704), entre outras. No entanto, as representações  focadas  na  seção  anterior  são  importantes  para  esta  pesquisa  tendo  em  vista  as  discussões sobre a criança configurada nos textos analisados.    

Todavia,  como  se  percebe,  todas  essas  representações  apontam  para  uma  lacuna deixada por anos de desconhecimento: Quem é de fato a criança? Quais as 

suas capacidades, vontades, potencialidades? Essas respostas indicam o caminho  para se responder uma pergunta maior: Quais as necessidades dessa faixa etária?  

Essa  resposta  indicaria  um  caminho  certo  para  a  elaboração  de  um  Currículo  para  crianças  pequenas,  no  entanto,  respondê‐la  não  é  uma  tarefa  simples e nem é o foco desta pesquisa, mas acredito ser necessário esclarecer como  entendo  a  criança,  ou  seja,  o  significado  de  criança  como  “ator  sócio‐histórico‐ cultural”. 

Um ator7 social faz parte de uma sociedade e com ela se relaciona (Quintino, 

2006) e por meio dela transforma em intrapsicológico o que só foi possível realizar,  anteriormente,  no  plano  interpsicológico.  O  termo  cultural  se  refere  aos  recursos  materiais e intelectuais por meio dos quais a sociedade organiza os tipos de tarefas  e  instrumentos8  para  dominar  as  respectivas  tarefas,  sendo  a  linguagem  um  dos 

primeiros  instrumentos  psicológicos  pelo  qual  a  criança  se  constitui  e  organiza  cognitivamente  a  realização  de  suas  atividades.  O  termo  histórico  funde‐se  ao  cultural, mas relaciona‐se com a sua historicidade, com os instrumentos culturais  que foram inventados e aperfeiçoados ao longo da história do homem e que são  transmitidos para a criança (Cf. Vygotsky, Luria, & Leontiev, 2001:26).  

Entendo  por  ator  aquele  que  é  emancipado,  não  pela  mão  do  outro,  mas  com  o  outro,  assumindo  sua  condição  libertadora  de  ser  humano  de  direitos  e  deveres  (Cf.  Freire,  1970).  Para  a  criança  pequena,  essa  condição  corresponde  ao  entendimento  das  capacidades  e  limitações  próprias  da  faixa  etária,  da  sua  condição de ser humano singular e indivisível (sem a dicotomia corpo e mente),  vivendo em uma etapa única de sua vida, sem vistas ao desenvolvimento futuro,  ou a necessidade de adestramento.  Utilizo, neste estudo, a designação criança nessa perspectiva, não de forma  pueril, não como um aluno a ser ensinado, e tampouco como alguém que necessita  do adulto somente para se ajustar aos padrões sociais. E sim, como um ator, que  traz uma história individual e social, que pertence a uma cultura e a ela se liga; que 

7 Ator corresponde a um termo utilizado por Bronckart (2006) que denota o sujeito que se configura, em um

determinado texto (oral ou escrito), como dotado de capacidades e intenções. E essa noção será aprofundada nas discussões sobre o Interacionismo Sociodiscursivo.

8 Utilizo instrumento entendido como um conceito utilizado por Vygotsky de forma análoga e não

interpretado pelo senso comum, nem confundido com as definições de instrumento oriundas da lingüística estruturalista, nem da teoria da informação, nem da teoria pragmática de Dewey, como discutido por Machado (2007- Comunicação Pessoal).

aprende  através  das  relações  que  estabelece  com  os  seus  pares  (adultos  e  outras  crianças) e com o meio em que vive.  A seguir, discuto as questões curriculares.   

2. Currículo

  Nesta seção discuto o conceito de currículo, o desenvolvimento dos estudos  sobre o currículo no Brasil, a relação entre currículo e conteúdos, e as formas de  poder  que  incidem  sobre  a  seleção  desses  conteúdos.    Em  seguida,  discuto  brevemente o currículo especificamente voltado para a educação infantil.  

Dando  continuidade  às  discussões,  apresento  três  modelos  de  currículo:  o 

Currículo Baseado no Treinamento, apresentando, inicialmente, os preceitos da escola 

comportamental  ou  behaviorista;  o  Currículo  Centrado  na  Criança,  discutindo  as  bases da teoria Piagetiana; e o Currículo Baseado na Interação, investigando a teoria  sócio‐histórica‐cultural de Vygotsky (1924,1926,1930,1934), a contribuição de seus  colaboradores Luria e Leontiev,  e de pesquisadores que rediscutiram e avançaram  as pesquisas sobre o desenvolvimento da criança, enfocando, a mediação, a zona  proximal de desenvolvimento, a relação entre aprendizagem e desenvolvimento, a  imitação, a brincadeira, a afetividade, a relação entre pensamento e linguagem e o  desenvolvimento  da  linguagem  escrita9.  Encerrando  esta  parte  do  trabalho, 

relaciono os pressupostos teóricos com o currículo. 

No  entanto,  antes  de  iniciar  o  debate,  esclareço  que  não  é  objetivo  desta  dissertação elaborar ou propor um Currículo voltado para a educação de crianças.  O objetivo deste trabalho, como discutido na introdução, é examinar e comparar as  diferentes versões dos Currículos de Educação Infantil por meio da análise de três  diferentes  documentos;  por  esse  motivo,  é  importante  compreender  o  currículo,  suas definições e questões pertinentes ao tema, como base para a análise e para as  discussões dos resultados.   

2.1. Definições

 

9 Os temas relacionados à teoria de Vygotsky não seguem a ordem cronológica de produção do autor. Para

melhor compreensão, optei pelo agrupamento por tema, no entanto, todas as referências são identificadas com a data da produção e ano da edição que utilizo.

Nesta  seção  defino  currículo.  Inicio  o  debate  discutindo  a  fluidez  do  conceito currículo e as diferentes posições assumidas para esse termo.  

Muitos  pesquisadores  (eg.  Sacristán,  2000;  Winggers,  2000;  Kramer,  1997)  definem o conceito de currículo de forma diferente. Sacristán (2000b) aponta que  currículo  provém  da  palavra  latina  currere  que  significa  carreira  e  refere‐se  ao  percurso,  sendo  a  escolaridade  esse  percurso  e  o  currículo  o  recheio.  O  autor  afirma,  ainda,  que  além  de  estabelecer  os  conteúdos,  o  currículo  também  determina  a  sua  distribuição.  Em  outro  estudo,  Sacristán  (2000),  sintetiza  suas  idéias comparando currículo como uma ponte entre a teoria e a prática. 

Diferentemente,  Wiggers  (2000)  discute  a  etimologia  do  termo  currículo,  apresentando  uma  definição  a  partir  das  discussões  de  Kishimoto  (1996)10,  que 

aponta  o  termo  como  derivação  da  palavra  currus  com  significado  de  carro  ou  carruagem,  que  determinaria  uma  definição  equivalente  a  um  lugar  no  qual  se  corre, ou metaforicamente, a busca de um caminho, uma orientação.  Seguindo o  mesmo critério, Kramer (1997) afirma que currículo é um caminho a ser percorrido.  

Confundido  com  outros  termos,  cabe,  do  mesmo  modo,  distinguir  os  conceitos de currículo e de programa escolar. Schneuwly & Dolz (2004) afirmam  que no currículo os conteúdos são definidos a partir das capacidades do aprendiz,  enquanto  o  programa  escolar  é  centrado  nos  conteúdos  a  serem  ensinados.  Wiggers (2000) também discute o tema, ao reunir autoras que discutem a definição  de  currículo  e  de  proposta  pedagógica  em  documento  oficial  (Brasil.  MEC/SED,  1996): Sônia Kramer não distingue currículo e proposta pedagógica e entende que  ambos representam um caminho e não um lugar; Ana Maria Melo defende o termo 

proposta psicopedagógica para abarcar o atendimento integral da educação infantil;  

Maria  Lúcia  Machado  define  currículo  como  uma  série  de  hipóteses/pontos  de  partida; e  Zilma de Morais Ramos de Oliveira define currículo como um balizar de  ações. 

Essa  diversidade  de  definições,  nem  sempre  convergentes,  apontam  para  um processo dinâmico e em evolução sócio‐histórica, como discutido por Sacristán  (2000).  Segundo  esse  autor,  as  mudanças  semânticas  são  reflexos  das  transformações e adaptações do termo currículo aos diferentes contextos. Também  Goodson (2003:17) destaca que os conflitos em torno da definição de currículo são 

resultado  da  “luta  constante  que  envolve  as  aspirações  e  objetivos  de  escolarização”.  Desse  modo,  se  pode  afirmar,  que  o  termo  currículo  carrega  distintas  definições,  mas  se  diferencia  de  outros  termos  como  proposta  curricular, 

projeto curricular e programa curricular, entre outros.  

Portanto,  neste  estudo,  Currículo  é  definido  como  orientador  das  ações  escolares e como ponte entre as teorias sobre o desenvolvimento infantil e a prática  pedagógica  voltada  para  a  criança,  consciente  do  desafio  que  essa  articulação  representa.  Pois,  não  existe  vínculo  direto  entre  a  teoria  e  a  prática,  ou,  como  definido  por  Goodson  (2003),  a  fase  pré‐ativa  e  fase  interativa,  sendo  que  a  fase  pré‐ativa estabelece parâmetros para a execução da fase interativa em sala de aula.  O  autor  alerta  ainda  que  a  elaboração  do  currículo  deve  ser  compreendida  para  não se incorrer no erro de concebê‐lo como pressuposto imutável. É possível, em  determinadas  ocasiões,  que  a  fase  interativa  determine  e  modifique  o  que  foi  proposto na fase pré‐ativa. 

É  também  essencial  destacar  que  currículo11  no  contexto  escolar  abrange 

muito  mais  do  que  a  simples  enumeração  de  conteúdos  a  serem  ensinados.  Por  esse  motivo  sua  utilidade  e  abrangência  devem  ser  discutidas  na  escola.  Nessa  direção,  Macedo  et  alii  (2002)  fazem  uma  significativa  distinção  ao  abordar  currículo como processo em detrimento a produto. O produto é dado, está pronto,  não  requer  nenhum  tipo  de  intervenção,  ao  passo  que  processo  implica  na  participação  conjunta  das  pessoas  que  o  utilizam  e  das  a  quem  se  destina.  Na  prática escolar o currículo não pode se limitar ao papel de guia curricular sem se  remeter ao processo de produção sociocultural da escola.  

Por esse motivo, a preparação de um currículo corresponde à elaboração de  um documento formal que será, posteriormente, implementado na prática, desse  modo  sua  criação  deverá  contar  com  a  participação  dos  envolvidos,  diretos  e  indiretos, no processo. Porém, não se pode considerar o currículo como fechado ou  acabado, são necessárias constantes discussões, visando à reavaliação permanente, 

11 Autores como Sacristàn (2000), Sacristán & Pèrez Gomes (2000), Esteban (2003), entre outros, estudam

currículo e avaliação de forma integrada. Entendo que a avaliação é fundamental no processo ensino- aprendizagem como “instrumento” para a reflexão dos professores acerca do desenvolvimento das crianças, bem como para a própria avaliação do currículo, como meio de transformá-lo e direcioná-lo cada vez mais em direção ao contexto em que se insere. No entanto, neste estudo me limitei às discussões sobre currículo por acreditar que a avaliação, dada a sua complexidade, necessita de uma pesquisa aprofundada no mesmo nível

para  garantir  a  manutenção  de  sua  implementação  orientada  pelas  reais  necessidades de cada contexto. 

Do  mesmo  modo,  Sacristàn  (2000)  enfoca  currículo  como  uma  construção  social  que  preenche  a  escolaridade  com  conteúdos  e  orientações.  Para  o  autor  o  currículo se insere nos seguintes contextos: 1) sala de aula, e compreende os livros,  professores  e  crianças,  principalmente;  2)  pessoal  e  social,  que  equivalem  às  experiências pessoais; 3) histórico escolar, que corresponde à historicidade, ou seja,  ao  que  já  foi  realizado;  e 4)  político,  que  se  relaciona  às  pressões  que  recaem na  configuração do currículo. Por esse motivo, deve‐se considerar o caráter prévio do  currículo,  enfatizando‐o  como  um  documento  que  antecede  e  orienta  a  prática  escolar. 

Ampliando o debate, Alarcão (2001) acrescenta os aspectos administrativos  ao  currículo,  que  não  podem  ser  desvinculados  dos  aspectos  políticos  e  pedagógicos,  pois  sua  elaboração  requer  o  repensar  da  escola  como  um  todo.  A  elaboração do currículo envolve, além da seleção de conteúdos, definições como:  agrupamento das crianças (infelizmente só se convencionou a idade como critério  de  agrupamento);  utilização  dos  espaços  disponíveis,  como  quadras,  atelier,  brinquedoteca; e a distribuição equilibrada do tempo, com atividades individuais e  coletivas,  bem  como  momentos  dirigidos  pelos  professores  e  de  autonomia  da  criança.  Dessa forma, sintetizando, entende‐se Currículo como ponte entre a teoria  e a prática, compreendendo todas as questões e aspectos relacionados à escola. 

 

2.2. Estudos sobre Currículo

 

Nesta  seção  apresento  um  breve  retrato  de  como  os  estudos  do  currículo  chegaram  ao  Brasil  (cf.  Moreira,  1990),  para  compreender  de  que  forma  os  conteúdos, um dos focos desta pesquisa, são selecionados, assim como as questões  de poder implícitas nessa seleção. Essa questão é fundamental para a discussão dos  resultados obtidos na análise dos documentos (RCNEI, Currículo‐I e Encontro de  Formação). 

Os  primeiros  estudos  no  campo  do  currículo  no  Brasil  podem  ser  localizados nos anos vinte e trinta, e surgiram em decorrência daquele momento  histórico em que a burguesia industrial buscava alfabetizar os trabalhadores, dos 

Benzer Belgeler