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Na sociedade de mercado, onde tudo vira negócio e possível de ser consumido, as relações sociais assumem características de relações entre coisas (coisificação). “O predomínio do capital fetiche conduz à banalização do humano, à descartabilidade e indiferença perante o outro” (IAMAMOTO, 2008, p. 125).

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A violência cometida contra as crianças e adolescentes abrange várias situações caracterizadas pela coisificação do sujeito nas relações interpessoais, sua conversão em objetos, sua destituição enquanto sujeitos de direitos e desejos, na qual a pessoa (no caso a criança e / ou o adolescente), que é um dos polos da relação, passa por um processo de desumanização, perde suas características humanas e passa a ser objeto dos desejos do outro, daquele que tem mais poder sobre ela / ele, relações assimétricas de poder são instituídas (LIBÓRIO, et al, 2007, p. 148).

Esta coisificação e banalização também são evidenciadas pelos(as) profissionais como determinações da exploração sexual, ou seja, crianças e adolescentes passam a ser um bem mercantilizado, ou seja, uma mercadoria com valor de uso e valor de troca. “[...] a questão cultural, que a mulher tem, assim pensando nas meninas, a banalização, essa coisificação do corpo da mulher como mercadoria” (PROFISSIONAL 7). Quando uma pessoa consome serviços sexuais de crianças e adolescentes, o faz alheio às implicações sociais e humanas que essa prática envolve, ou seja, coisifica o social” (LEAL, 2013b, s/p).

A lógica da exploração sexual é a da total desconsideração com os sentimentos, necessidades e a própria existência com a natureza humana da vítima, processo pelo qual se desumaniza quem é atingido, destruindo sua identidade pela transformação desta pessoa em mercadoria, em objeto. Não apenas o seu corpo é instrumentalizado, subjugado, mas todo o ser o é a partir da violação do seu corpo (ROSÁRIO, 2004, p. 01).

Esta relação de coisificação em relação à mulher também precisa ser compreendida pela perspectiva de gênero. Como refere Mackinnon (apud SCOTT, (s/d, p. 9) “a reificação sexual é o processo primário da sujeição das mulheres. Ele alia o ato à palavra, a construção à expressão, a percepção à coerção, o mito à realidade. “O homem come a mulher: sujeito, verbo, objeto”.

Muitos são os mecanismos que reforçam a condição de objeto sexual das mulheres, condição esta que vai sendo apreendida e assimilada por meninas ainda crianças ou adolescentes. Como exemplo desses mecanismos pode ser citado as campanhas de cervejas que “com um grau de liberdade sem limites oferecem mulheres e cervejas geladas como uma única mercadoria para homens que buscam o prazer” (MELO, 2010, p. 19).

A mesma autora refere que tais campanhas têm um efeito bastante negativo sobre meninas e meninos que são facilmente seduzidos pelos apelos dessas

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propagandas. “A explícita “coisificação” da mulher nesse tipo de propaganda produz perversa influência na construção do imaginário das novas gerações” (MELO, 2010, p. 19). Rosa Fischer (2001, p.16) argumenta que a televisão e, de modo mais abrangente, a mídia, apresenta-se como "um lugar privilegiado de aprendizagens diversas; aprendemos com ela desde formas de olhar e tratar nosso próprio corpo até modos de estabelecer e de compreender diferenças de gênero".

A imagem de uma mulher, que segue determinados padrões de beleza e que se apresenta seminua numa capa de revista, na televisão ou no site da internet, constitui-se numa importante estratégia do mercado para atrair os consumidores. O forte apelo da mídia em relação ao corpo da mulher faz com que a própria mulher, sem perceber reproduza essa ideia vendida pelos meios de comunicação. Como referem Lopes e Maia (1993), o corpo e a sexualidade têm sido usados exaustivamente para divulgar e vender “desde sabão em pó até toalhas de banho”, tornando-se produto consumível.

Ainda sobre os padrões de beleza é importante destacar que a construção social de uma identidade feminina está calcada, nos dias atuais, "quase que exclusivamente na montagem e escultura desse novo corpo [...] um corpo cirúrgico, esculpido, fabricado e produzido, corpo que é o centro das atenções e fetiche de consumo" (DEL PRIORE, 2000, p. 96). A preocupação com a beleza e com a aparência também é percebida em relação às meninas. “Elas frequentam cada vez mais cedo as academias de ginástica, se submetem a cirurgias plásticas, fazem dietas, [...] tudo em nome da beleza (FELIPE; GUIZZO, 2003, p. 127)

Imagens de crianças e adolescentes veiculadas pela mídia, que antes eram representadas pela pureza e pela ingenuidade, também se transformam. São substituídas por outras extremamente erotizadas, principalmente em relação às meninas. [...] “as crianças têm sido alvo de um forte apelo comercial, sendo descobertas como consumidoras e, ao mesmo tempo, como objetos a serem consumidos” (FELIPE; GUIZZO, 2003, p. 120). Landini (2000, p. 29) ressalta que "não é difícil encontrar propagandas e anúncios onde a criança é mostrada em pose sensual ou em um contexto de sedução".

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Nesse sentido, percebe-se o quanto a sociabilidade capitalista58 reforça a

desigualdade de gênero, a condição de objeto da mulher, seja ela adulta, criança ou adolescente. Tal condição, enraizada historicamente, nas relações interpessoais, sociais e culturais, são fortalecidas pelo mercado.

Na sociabilidade do capital, as condições materiais se constituem num grande obstáculo que limita o desenvolvimento pleno e livre da individualidade. Considerando que o modo de pensar e agir é determinado na dinâmica complexa e contraditória entre sociabilidade e individualidade, podemos verificar a prevalência de indivíduos despotencializados em sua criatividade, em sua capacidade reflexiva, reproduzindo práticas que reiteram processos de alienação e de subalternidade (SANTOS; OLIVEIRA, 2010, p. 12).

Com base no exposto percebem-se os limites e desafios existentes para a proteção de crianças e adolescentes. Ao mesmo tempo em que leis são criadas e aprimoradas; programas, projetos e serviços são implementados e campanhas são realizadas condenando qualquer tipo de relação sexual envolvendo um adulto e uma criança, convive-se, contraditoriamente, com a produção de imagens erotizadas das crianças (FELIPE; GUIZZI, 2003). Principalmente na internet, não é difícil encontrar sites de pornografia em que fotos e vídeos de adolescentes são expostos. Estes são facilmente encontrados e identificados pela categoria “teen”, ou seja, adolescente.