A próxima cena da narrativa começa no versículo 31 e segue até o 34, e nela podemos distinguir três momentos. No primeiro deles, o servo ingrato é delatado ao senhor que o perdoara (v. 31); no segundo temos o encontro entre eles, e as palavras do senhor oferecem as respostas que procurávamos para a tensão criada pelo enredo na segunda cena (v. 32-33); e no terceiro momento temos a sentença final, a conclusão da narrativa (v. 34):
(31) Então, tendo visto os conservos dele o que tinha acontecido foram
entristecidos grandemente, e tendo ido expuseram ao senhor deles tudo o que tinha acontecido.97
(32) Então, chamando-o, o senhor dele diz para ele: “Servo mau, toda aquela
dívida perdoei para ti quando me rogaste; (33) não devia tu também teres
piedade do teu conservo, como eu também tive piedade de ti?”.98
(34) E tendo ficado indignado o senhor dele, o entregou para os verdugos até
que pagasse tudo o que (estava) devendo.99
97 Texto grego: (31) ivdo,ntej ou=n oi` su,ndouloi auvtou/ ta. geno,mena
evluph,qhsan sfo,dra kai. evlqo,ntej diesa,fhsan tw/| kuri,w| e`autw/n pa,nta ta. geno,menaÅ
98 Texto grego: (32) to,te proskalesa,menoj auvto.n o` ku,rioj auvtou/ le,gei
auvtw/|\ dou/le ponhre,( pa/san th.n ovfeilh.n evkei,nhn avfh/ka, soi(
evpei. pareka,lesa,j me\ (33) ouvk e;dei kai. se. evleh/sai to.n su,ndoulo,n
Ao lermos o texto desse ponto devemos observar que surgem outros “conservos” na história. Esses personagens são solidários com o “conservo” devedor de cem denários, são sujeitos de igual status e reagem contra o conhecido escravo liberto que foi perdoado e não perdoou. Como todos os eventos narrados na parábola acontecem num espaço social delimitados, que é casa de um mesmo patrono, entende-se que esses outros conservos testemunharam os eventos anteriores, e foram levados a experimentar uma grande tristeza por aquela atitude incoerente do servo perdoado, como nos mostra a voz passiva empregada no verbo grego. Essa tristeza (que talvez devesse ser expressa por meio de outros termos, como inconformação, por exemplo) os conduz a uma nova ação; eles não ficam meramente passivos e desesperançosos, antes, delatam o servo perdoado e ingrato ao seu senhor em busca de reverter os resultados da segunda cena. Esta é uma atitude que atende aos desejos do leitor, que esperava mesmo que alguém interviesse naquela conclusão injusta. E a sua ansiedade (do leitor) aumenta nesse ponto, quando sabe que está prestes a descobrir o fim daquele “servo mau”.
Antes de seguirmos com nossos comentários, deixe-nos fazer uma breve consideração sobre os sentimentos que estão sendo empregados a cada cena da parábola. No versículo 27 o “homem rei” se compadece diante do clamor do servo que lhe devia, e decide perdoar sua dívida; na segunda cena o clamor do devedor não foi capaz de provocar a mesma reação, mostrando que o clamor não é o fator determinante na sequência dos acontecimentos. Segundo o narrador, o servo que fora perdoado “não queria” atender ao pedido feito pelo conservo (v. 30), negando espaço para o sentimento que ali deveria surgir e o induzir ao perdão. Se nossas impressões estão corretas, a ausência do sentimento, da compaixão, é um anteaviso a respeito do resultado indesejado. Os versículos 32 e 33 dirão claramente que ele deveria ter tido “piedade”, que parece ser aqui um sinônimo de compaixão. Nessa nova cena que estamos lendo o autor se preocupou em nos informar o sentimento dos conservos, a grande tristeza que também os impulsiona a agir. Então, diríamos que no discurso mateano, a compaixão com o pobre devedor é um sentimento apropriado no Reino dos Céus, e na articulação da narrativa é um elemento importante, um valor que precisa ser adquirido pelo protagonista para que ele consiga atingir o objetivo de perdoar. Da mesma forma, a tristeza diante da violência e do não perdão, da ingratidão que caracteriza a atitude do homem perdoado que não perdoa, é elemento essencial para a sequência do enredo, é um impulso
99 Texto grego: (34) kai. ovrgisqei.j o` ku,rioj auvtou/ pare,dwken auvto.n toi/j
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capaz de promover as ações transformadoras. Com isso, constata-se a importância dada a esses elementos passionais que humanizam a parábola, tornando os personagens mais ricos e próximos de seus leitores, escondendo o fato de que na realidade são meras figuras da sintaxe narrativa.
Na terceira parte o leitor é outra vez conduzido a um novo recorte temporal, a um novo cenário, onde aquele “homem rei” volta à cena e atrai todas as atenções. O servo antes perdoado está em situação difícil agora, se encontra numa espécie de julgamento no interior da família, e dessa vez o narrador não lhe concede o direito de falar ou de clamar por novas chances. Esperamos pela conclusão que finalmente fará a narrativa condizente com o tema do perdão imensurável que Jesus havia proposto, e o autor parece estar ciente de que esse momento é decisivo e deixa o “senhor” falar como nunca nos versículos 32 e 33. Depois de já qualificar o seu interlocutário100 o chamando de “servo mau” (expressão bastante negativa em outras passagens de Mateus que tratam de relações entre senhores e escravos),101 o senhor começa o lembrando que ele o perdoou quando devia dez mil talentos, e confessa que diante disso foi criada uma expectativa, a de que aquele homem que foi perdoado também perdoasse quem lhe devesse algo. A ingratidão era uma falta séria, especialmente em se tratando de libertos contra seus antigos senhores102 e, como sempre, expectativas frustradas provocam sentimentos negativos, reações indesejadas, e aos poucos o leitor vai se certificando de que o final daquele “servo mau” seria terrível.
No versículo 34 o narrador interrompe o interlocutor para narrar o final da terceira cena. Ele volta a apresentar o sentimento do seu personagem ao dizer que o senhor agora
100 Sabemos que no texto de Mateus sempre ouvimos a voz de um narrador confiável, que por vezes pode
conceder aos seus personagens o direito de falar. Nesses casos em que o narrador fala por meio de personagens podemos dizer que o sujeito a quem o narrador empresta sua voz é um interlocutor, e consequentemente, se há outro personagem para o qual sua fala é dirigida, este será chamado de interlocutário. Para mais detalhes precisamente sobre interlocutor e interlocutário pode-se consultar a obra de Diana Luz P. de Barros, indicada na bibliografia (2011, p. 53-59), ou o conciso e eficaz artigo de José Luiz Fiorin intitulado O Sujeito na Semiótica Narrativa e Discursiva (2007).
101 Essa expressão “servo mau” (kako.j dou/loj) também aparece na passagem de Mateus 24.45-51, e lá o
“servo mau” é alguém que não é prudente na administração dos bens do seu patrono. Na ausência prolongada do patrono, o escravo mau espanca os conservos e se entrega aos excessos de comida e bebida. Também em 25.14- 30, na “Parábola dos Talentos”, escravos são encarregados de administrar as posses do senhor ausente e aquele que se mostra incompetente é chamado de “servo mau” (ponhre. dou/le) (v. 26). Em ambas as passagens, o “servo mau” acaba punido pelo senhor que retorna, o surpreende e reprova.
102 Citando Paul Veyne (2009, p. 87-88):
“[...] esse liberto deve alguma coisa ao antigo dono e torna-se para sempre seu fiel. Do contrário, o patrono terá fundamentos para puni-lo como puder, tirá-lo da lista de seus legatários, proibir que seja sepultado na tumba da família. Ou administrar-lhe uma série de bastonadas; em princípio, não se deve levantar a mão para um homem livre; entretanto, ‘não se poderia suportar que um indivíduo que ainda ontem era apenas um escravo venha se queixar de seu senhor que o expulsou, bateu-lhe um pouco ou aplicou-lhe uma correção’”.
ficou indignado, e como antes, a apresentação de um sentimento é um modo de justificar uma ação. Diz o texto que o senhor entregou o servo aos verdugos para que sofresse até que a dívida fosse paga; isso quer dizer que a dívida perdoada é retomada, e que o sofrimento do homem nas mãos dos torturadores seria tão prolongado como os dez mil talentos que devia. Esses torturadores, informamos novamente, eram figuras típicas dos ambientes urbanos do Império, empregadas como elementos ordinários do discurso parabólico; sabemos que existiam carrascos municipais, cujos serviços podiam ser contratados.103 Nesse ponto, então, temos uma espécie de sanção pragmática, uma conclusão onde o sujeito que foi perdoado e não soube retribuir o favor oferecendo seu perdão é punido, sofre as consequências de seu egoísmo (Barros, 2011, p. 33-35). O patrono age contra a injustiça que vê nas relações de reciprocidade, e podemos afirmar que esta sanção restabelece o equilíbrio do Reino dos Céus, elimina o sujeito que ameaçava seu modo igualitário de ser.
Evitamos até aqui comparar o “homem rei” ou o “senhor” da parábola com a divindade mateana, mas para a teologia de Mateus não há dúvidas de que este patrono que empresta dinheiro e é capaz de perdoar um devedor pobre é uma figura que representa o patrono do Reino dos Céus (Luz, 2003, p. 104). Em Mateus 6.12, que ainda analisaremos com detalhes no próximo capítulo, lemos uma oração em que o interlocutário é Deus, a quem se pede: “... perdoa as nossas dívidas como também nós perdoamos os nossos devedores”. Pouco depois disso Jesus diz: “Pois, se perdoardes aos homens as suas transgressões, também o vosso pai celestial vos perdoará. Porém, se não perdoardes os homens, tampouco o vosso pai vos perdoará as transgressões” (Mt 6.14). É impossível negar essa intertextualidade, e seria uma imprudência exegética desconsiderar essas passagens na presente leitura. No capítulo 6 o perdão divino está ligado ao perdão que se concede ao próximo, e aqui na parábola do capítulo 18 o perdão do “homem rei” vem primeiro, e serve como incentivo ao perdão dos servos perdoados. Concluímos que na teologia mateana o perdão divino é uma dádiva indispensável e pressuposta, mas sua posse também significa o estabelecimento de um contrato que exige do perdoado a retribuição do perdão recebido. Ou, invertendo as coisas
103 Aqui, sobre os carrascos municipais, estamos nos apoiando em Paul Veyne. É verdade que o autor afirma que
essa punição ou qualquer tipo de violência física em geral não devia ser empregada contra homens livres (2009, p. 62, 87). Contudo, o mesmo autor diz que a infidelidade de um liberto contra seu antigo senhor era motivo para exceções (2009, p. 87-88), e depois, sendo mais preciso ao tratar de casos de empréstimos e dívidas, afirma que “um emprestador romano faz justiça se os assalariados o roubam, como se fossem escravos” (2009, p. 112). Mantemos nossa posição e seguimos sugerindo que o servo devedor da parábola era originalmente um escravo, mas que foi liberto e que no final, por sua ingratidão, é punido com severidade pelo antigo senhor que agora assumira o papel de patrono.
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sem nenhum prejuízo, o perdão divino é a recompensa prometida àqueles que cumprem o contrato religioso que exige o perdão de todo discípulo de Jesus.
Ao final da análise das três cenas, podemos notar também outro padrão formal na parábola. Em todas as cenas vimos o narrador introduzir os personagens, apontar o tempo e o lugar, descrever o tema que motiva cada cena (v. 23b-24, 28, 31); e vimos também que no centro de cada uma delas havia uma intervenção direta de interlocutores, ou seja, pudemos ouvir a voz dos personagens devedores que clamavam por paciência, ou do emprestador que na última cena falou como um advogado de acusação contra o “servo mau” (v. 26, 29, 32-33). Também no final das três cenas houve coincidências estruturais, pois todas trouxeram sentenças de perdão ou condenação (v. 25, 27, 30 e 34). Isso tudo nos mostra que a parábola é um empreendimento literário que dispõe de recursos simples, mas que estão empregados com esmero.