Nossa proposta de investigação-formação corrobora algumas características da Análise de Conteúdo, na perspectiva adotada por Bardin (1977) e Franco (2012) à medida que nos possibilita lançar mão não apenas de considerar o que é observável, mas também considerar o que é latente, a hermenêutica. Nesse sentido, torna-se imprescindível arrolar nesse estudo o que compreendemos por significado e sentido, uma vez que ao longo de nossas inferências estaremos discutindo a complexidade existente na análise dos dados a partir da descrição, análise e sentido que os indivíduos atribuem às suas memórias e experiências
formadoras ao longo de seu percurso formativo (FRANCO, 2012, p.13). Por conseguinte, concordamos com a autora ao conceituar a diferença entre sentido e significado:
O significado de um objeto pode ser absorvido, compreendido e generalizado a partir de suas características definidoras e pelo seu corpus de significação. Já o sentido implica a atribuição de um significado pessoal e objetivando que se concretiza na prática social e que se manifesta a partir das representações sociais, cognitivas, subjetivas, valorativas e emocionais, necessariamente contextualizadas.
A contextualização é relevante como um passo na análise, uma vez que o contexto deve ser considerado como pano de fundo que garanta possibilidades de construção dos sentidos que são atribuídos às mensagens. Dessa forma, consideramos possível, nessa perspectiva a produção de inferências sobre os dados.
Conforme Nacarato e Passeggi (2014), uma escrita narrativa pode contribuir tanto para o leitor quanto para quem produz o texto, pois ao narrar, além de evocar os fatos é preciso reconstruir um cenário para que a trama possa se inserir e ganhar sentido para si e para o outro. Esse momento envolve um processo de reflexão sobre a experiência narrada possibilitando a atribuição de sentidos e significados ao que se passou. Assim, uma escrita narrativa por meio de memoriais de formação pode ser entendida como uma fonte primária de construção de sentidos para o próprio autor.
O curso online possibilitou a constituição de um contexto de elaboração de escritas narrativas para a construção do corpus dessa pesquisa: as narrativas produzidas nos memoriais de formação fomentadas pelos momentos de interação nos Fóruns de Discussão.
Os formadores que iniciaram as atividades foram de pronto informados sobre nossa proposta de investigação-formação. Apresentamos o curso como celeiro das aprendizagens colaborativas no grupo de formadores de professores dos anos iniciais do Ensino Fundamental e também a investigação de doutorado que permitiu a idealização do espaço formativo online e da estrutura e organização teórico-metodológica da intervenção realizada.
Na interface “Início”, na qual a mensagem acima esteve alocada, disponibilizamos um link intitulado “Conheça um pouco mais de nossa proposta” (APÊNDICE 6), pelo qual pudemos esclarecer ainda mais sobre nosso objetivo com a produção de memoriais de formação, no intuito de fomentar uma prática de escrita autobiográfica ancorada numa perspectiva reflexiva. O curso online foi organizado a partir de dispositivos de escrita sobre a experiências pessoais e profissionais, a tomada dessa narrativa como mote para a reflexão e formação em colaboração.
Nossa proposta de intervenção considerou que os formadores escreveriam seus memoriais por etapas. A dinâmica da escrita considerava sempre a temática do Módulo e a temática daquela discussão proposta. Assim, o Fórum de Discussão foi um instrumento presente no trabalho de promover a mediação entre os formadores e o objeto de conhecimento daquela interface. Sempre acompanhado da leitura de um texto mobilizador, algumas questões de análise e um tempo hábil para que as interações ocorressem no AVA. Esse dispositivo de formação proporcionou muito momentos de aprendizagem, troca, intervenções e questionamento, tanto por parte dos formadores participantes do curso quanto da pesquisadora-formadora.
Finalizado o Fórum de Discussão, os participantes eram convidados a significar suas experiências formadoras na escrita de narrativas que comporiam o memorial de formação. Ao longo de toda a construção das narrativas que compuseram o memorial, elaboramos algumas orientações que possibilitassem o início da escrita (APÊNDICE 6).
Desse modo, na primeira atividade do “Módulo 1”, um Fórum de Discussão viabilizou aos participantes um reconhecimento sobre a proposta de escrita de narrativas em memoriais de formação. Ao final do período dedicado à realização do Fórum, propusemos a primeira escrita narrativa que comporia o memorial de formação cuja delimitação foi o período de escolarização na Educação Básica ao curso de formação inicial. Após a conclusão dessa primeira narrativa, escolhemos uma delas, a que consideramos apresentar de forma bastante completa toda a trajetória da autora, incluindo também elementos do contexto sociocultural e histórico em que ela cresceu e se formou. Essa etapa impulsionou os participantes para a reflexão de pontos que podem ser explorados para que o memorial ficasse mais rico e com mais detalhes e reflexões.
Feita essa discussão coletivamente, em Fórum, solicitamos que os participantes revisitassem suas narrativas e aprofundassem a escrita, fato esse que não obteve, em nosso ponto de vista, o êxito almejado. Inferimos que o pouco tempo de dedicação para a realização dessa atividade e até mesmo o desconhecimento do potencial da escrita de si como prática de produção de conhecimento, nesse momento, não foi compreendida por todos e acarretou o não envio da narrativa revista. Decidimos não realizar a socialização das escritas autobiográficas, com o intuito de reescrever seus textos a partir das discussões em grupo.
Optamos, então, por promover feedbacks individuais para contribuir na reescrita das narrativas para que participante pudesse fazê-la em seu tempo disponível a ser realizada até o final do curso. Essa opção se deu devido ao fato de, naquele momento, acreditarmos que o
grupo ainda não estava seguro sobre a metodologia e que precisava adaptar-se primeiramente ao fato de escrever sobre suas histórias e experiências.
Desse modo, as interações e a mediação ocorriam ao longo de todo o curso, individualmente, e especialmente nas atividades formativa como os Fóruns de Discussão, a leitura dos textos, o uso de outras ferramentas como o questionário e principalmente na escrita dos memoriais.
Seguimos mais dois módulos com a construção das narrativas que comporiam o memorial de cada formador. No “Módulo 2” e “Módulo 3” a dinâmica se repetiu, primeiramente um Fórum discutindo a temática “Processos formativos, docência e função do formador”, depois a escrita da narrativa e novamente um Fórum de Discussão que aprofundasse uma temática compreendida como necessidade formativa dos formadores de professores e a escrita de mais uma narrativa.
Finalmente, no “Módulo 4” há uma organização do Memorial de Formação, também na mesma dinâmica de discussão em fórum. Ao longo de todo o processo, a escrita das narrativas esteve subsidiada pela interação mantida nos Fóruns, uma vez que a temática a ser significada pela escrita havia sido inicialmente alvo das discussões do grupo de formadores.
Abaixo organizamos uma linha de progressão temática em que será possível visualizar as etapas em que o memorial foi construído dentro do curso online.
Fonte: Elaborado pela autora. Processo de Construção da 1ª Narrativa
(Construção do Memorial)
Módulo 1 – 22/04/2013 a 02/06/2013 Tema: “Período de Escolarização à Formação
Inicial”
- Leitura de texto e Fórum de Discussão - Escrita e Postagem 1ª Narrativa
- Fórum de Socialização – Analisando uma Narrativa sobre o Processo de Escolarização - Revisão e Postagem da Narrativa revista.
Processo de Construção da 2ª Narrativa (Construção do Memorial)
Módulo 2 – 05/06/2013 a 14/07/2013 Tema: “Carreira Docente”
- Leitura de texto e Fórum de Discussão - Escrita e Postagem 2ª Narrativa
- Leitura de texto e Fórum de Discussão
Processo de Construção da 3ª e da 4ª Narrativa (Construção do Memorial) Módulo 3 – 05/08/2013 a 22/09/2013
Tema: “Ser Formador de Professores” - Leitura de texto e Fórum de Discussão - Escrita e Postagem 3ª Narrativa
- Leitura de um Caso de Ensino, elaboração de uma carta e Fórum de Discussão
- Escrita e Postagem 4ª Narrativa.
Processo de formatação e organização das narrativas elaboradas (Construção Final do
Memorial)
Módulo 4 – 23/09/2013 a 17/11/2013 Tema: “E o futuro, o que me reserva? ” - Leitura de texto e Fórum de Discussão
- Organização Final do Memorial de Formação e postagem
- Leitura de um Memorial de Formação (Em duplas ou trios) e elaboração de uma carta com devolutiva após a leitura, devolutiva final da Pesquisadora- Formadora em Fórum de Discussão
- Revisão e Postagem Final - Avaliação do Curso.
É possível observar que no Módulo 4, retomamos a socialização dos memoriais. Nesse momento havia mais segurança e reconhecimento do outro como alguém que possibilita a aprendizagem dentro do curso. Assim, propusemos que em pequenos grupos de duas ou três pessoas cada participante pudesse ler o memorial, fazer algum apontamento sobre algo que pudesse ser mais detalhado ou retomado e que ao final escrevesse uma carta comentando sobre esse processo de leitura. Junto a esse momento, enquanto parte do processo de intervenção, a pesquisadora-formadora leu novamente os memoriais organizados e entregues, fazendo devolutivas e comentários motivadores sobre a escrita e solicitou que após a leitura da carta a eles remetida fosse feita uma revisão do memorial, aprofundando ou anunciando mais alguma experiência e assim o envio final fosse realizado. Na figura a seguir, trouxemos o enunciado da atividade para que seja possível visualizar a intervenção realizada nesse momento.
Figura 2 – Consigna da atividade AIV- 3_Leitura de um Memorial Formativo e escrita de uma carta
Fonte: Dados do curso online.
No que diz respeito ao processo de intervenção esse momento foi bastante profícuo, pois para os formadores se revelou em um processo de aproximação com o memorial de outro formador, agora de forma completa, que traz à tona lembranças e relações com as próprias experiências vividas. Para a pesquisadora-formadora, esse processo foi especialmente significativo, já que foi possível contemplar o fechamento de um percurso vivido no contexto do curso online que resultou em um gênero textual agora organizado e apresentado a todos os
participantes na íntegra e a produção de dados ricos para a análise de aspectos da profissionalidade do formador de professores.
Acreditamos que essa proposta de investigação-formação permitiu a todos os envolvidos o entrelaçamento de diferentes aprendizagens e reflexões, tanto ao pesquisador quanto ao participante. Concordamos com Franco (2012) ao conceber que teoria, coleta, análise e interpretação de dados são movimentos integrados que devem estar claros ao investigador quando organiza sua proposta investigativa.
Por se tratar de percursos formativos, tanto pessoais quanto profissionais, as emoções da pesquisadora-formadora também estiveram em jogo e sua própria trajetória foi analisada e refletida, em outro movimento, mais pessoal e autoformativo, porém, nesse estudo ela não foi abordada.
As colaboradoras dessa pesquisa puderam elaborar seus memoriais de formação no decurso do processo formativo, contando com a mediação da pesquisadora-formadora e dos demais participantes na discussão direta de sua escrita por feedbacks17 tecidos nos Fóruns.
Enfim, o corpus de nossas análises se expressa prioritariamente nos memoriais de formação que foram produzidos e finalizados no curso online, contudo, reconhecemos que esse processo só foi possível porque as interações eram mantidas nos Fóruns de Discussão. Assim sendo, as interações realizadas por meio dessa interface de comunicação foram consideradas em nossas análises para colaborarem com a construção dessa tese, na busca pela atribuição de sentidos das diferentes experiências narradas e reveladas no grupo.
A seguir, nos reportaremos aos procedimentos adotados na organização dos dados para as análises.