8. BULGULAR VE TARTIŞMA
8.1. MİNİMUM MİKTARDA YAĞLAMA (MMY) PARAMETRELERİNİN
8.1.1. Yüzey Pürüzlülüğü
Não são poucos os exemplos de autores que utilizaram acontecimentos da sua própria vida para construir narrativas, não necessariamente seguindo à risca todos os fatos ocorridos. Um dos vários exemplos que poderiam ser escolhidos é o colombiano Gabriel García Márquez. Chichorro (2006, pág. 8) analisa sobre a ótica dos elementos da memória, como se deu a relação entre o produzido ficcionalmente pelo autor e suas lembranças de vida, que aparecem em Vivir para contarla, sua autobiografia. Para tanto, Chichorro utilizou o elemento da memória da casa materna na infância, tratando de “identificar a relação que as personagens estabeleceram com ela” (ibidem, pág. 126).
Os relatos mostraram-se rentáveis a partir de uma característica que perpassou (e perpassa) os relatos autobiográficos: a memória. As relações entre as casas e as personagens analisadas nos relatos ficcionais de García Márquez mostraram-se perpassadas pela memória. Ainda que de maneira diferente, eram evocadas lembranças a partir desse lugar. (ibidem)
Sobre a vida pessoal ser parte constituinte da obra ficcional, Candido esclarece: Se cada livro pode dar lugar a um interesse apenas imediato, isto é, esgotado pelo que ele pode oferecer, uma obra, em conjunto, nos leva quase sempre a averiguar a realidade que nela se exprime e as características do homem a quem devemos esse sistema de emoções e fatos tecidos pela imaginação. (CANDIDO, 1992, pág. 49)
Ainda sobre o caráter biográfico que cada artista impõe, em menor ou maior escala, à sua obra ficcional, Candido afirma que os autores não conseguem pôr-se em contato com a vida sem recriá-la.
Mas, mesmo assim, sentimos sempre um certo esqueleto de realidade escorando os arrancos da fantasia. Na mentirada das Confissões de Rousseau, percebemos essa ossatura que não nos deixa confundi-la com um romance. Percebemos, sobretudo, o tom de crônica, a divisão temática do tempo. (ibidem, pág. 50)
Candido prossegue sua argumentação utilizando o exemplo de Graciliano Ramos em Memórias do cárcere:
Como escritor, era compelido por força invencível a registrar os frutos da observação segundo os princípios da verdade. Apesar de toda a severidade para com a própria obra e o pavor vaidoso de lançá-la à publicidade, não pode deixar de escrever, estilizar, ou mais tarde, registrar o que via. No tremendo porão do navio, na cela, na colônia correcional, quando o horror ou o tédio da situação o levavam ao jejum, à repulsa pelo mundo, vai anotando a sua experiência febrilmente, sem pudor, desconfiança, tornando-o um “servidor da vida”, no sentido de que esta o estimulava e perturbava, nele e fora dele, obrigando-o a lhe dar categoria de arte. (ibidem, pág. 58)
O tom confessional que Candido aplica à obra de Graciliano também está contido na escrita do autor gaúcho. Barbosa (2009, pág. 17) analisou os livros ficcionais do autor gaúcho baseando-se na “leitura da obra de Caio F. especialmente pelo recorte da ‘autoficção’ e, em certa medida, da ‘autobiografia’”. Para o teórico, a obra de Caio deve ser compreendida e analisada a partir do seu processo de escrita e de ficcionalização de sua própria realidade, de sua própria experiência, para não se tornar
um mero dado ficcional presente em seus textos, a fim de responder questões e curiosidades biográficas. A visão de Barbosa vai ao encontro da de Maingueneau:
O ato de escrever, de trabalhar num manuscrito, constitui a zona de contato mais evidente entre “a vida” e “a obra”. Trata-se de fato de uma atividade inscrita na existência, como qualquer outra, mas que também se encontra na órbita de uma obra, na medida daquilo que assim a fez nascer. (apud BARBOSA, 2009, pág. 17)
Para Barbosa o caráter “autoficcional” da obra literária de Caio parece ter sido uma via de mão única para ele, no sentido de que somente, assim, ele poderia efetivamente trabalhar sua vivência, mas sempre do ponto de vista da recriação linguística ou mesmo da reelaboração de vida e de suas experiências com a sua produção literária.
Segundo Pedro Paulo de Sena Madureira, amigo e editor de alguns livros de Caio, a vida do autor estava fortemente atrelada à sua obra:
As pessoas ainda não se deram conta de que Caio era o seu texto, no sentido cartesiano da palavra. Escrevia em cima de uma experiência de vida riquíssima, que quando ele não tinha, ia buscar (...) Ele viveu cada um de seus livros e tinha uma crença básica, quase religiosa, na literatura. Vivenciou sua obra da forma mais subjetiva possível, como ator do seu texto. Fazia parte de seu processo criativo encarnar os personagens antes de escrevê-los. (apud DIPP, 2009, pág. 441, grifos do autor)
Segundo Barbosa (2009, pág. 121), Caio jamais deixou de transferir fatos da sua vida para sua ficção. De acordo com Callegari (2008, pág. 84), suas experiências, principalmente as amorosas, serviam de alavanca para sua escrita: “sofrendo bastante, vivendo e sangrando e amando, Caio teria vivência para escrever. Teria assunto. O mito do artista sofredor parecia calar fundo no coração do escritor”.
Barbosa (2009, pág. 188) acredita que a opção de Caio em utilizar aspectos da sua vida para formarem parte do corpo de suas narrativas foi uma escolha autônoma, já que ele não se deu conta dessa temática autoficcional, quando ela surgiu no início da década de 70. Segundo ele, as motivações do escritor gaúcho estão atreladas a sua busca por um texto autoral e suas mobilizações internas, da mesma forma que ocorre nos texto de Clarice Lispector, poderosa influência no início da carreira de Caio:
Assim como para Clarice essa característica de sua escrita parece ter sido forjada por um movimento interno e necessário à sua criação, o mesmo pode ser pensado em relação a Caio Fernando Abreu, especialmente quando se
considera que a busca de Caio por um texto autoral ou mesmo por uma dicção própria se pautava antes por uma necessidade de, pela literatura, se criar um espelho no qual pudesse se ver refletido por inteiro, com suas dúvidas, suas diferenças, suas buscas internas, seu “idioma pessoal”, como muito claramente se pode apreender já do personagem Maurício de seu primeiro livro escrito, o romance Limite Branco, quando ainda vivia em Santiago do Boqueirão, portanto ainda um jovem de apenas quatorze anos de idade. E essa verve de escritor já despontara até mesmo antes, na composição da primeira novela “A maldição dos Saint-Marie”, escrita aos treze para um concurso de romances no ginásio em Santiago. (ibidem) Para Barbosa, a questão da literatura como “meio e modo de vida” parecia ser para Caio uma verdade intransponível. Sobre a crença de Caio no poder da literatura, Barbosa afirma:
Não um poder absoluto, não um poder ostensivo e dominante, mas um poder que aos poucos, sorrateiramente, vai mostrando ao homem o que ele foi, é ou que ele pode vir a ser, um poder subversivo por certo, corrosivo e transformador, razão pela qual certamente a literatura tem sido nos nossos dias estrategicamente banida dos currículos, das escolas, da vida do homem. (ibidem, pág. 384)