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Caracterizada pela aplicação de uma técnica que parte do “não-científico” para produzir ciência moderna, a etnofarmacologia surge enquanto um campo de investigação multidisciplinar. Embora se utilize de conhecimentos tradicionais, ou simplesmente populares, a etnofarmacologia nunca deixou de ser uma área profundamente determinada pelos ditames da atividade científica moderna. Sua atividade “extra-científica”, portanto, restringe-se a um breve contato social com comunidades locais e indígenas, com o único objetivo de obter uma determinada informação que, por algum motivo, ainda não compõe o domínio da ciência natural. Apesar de partir de algo que já é conhecido para alguns grupos sociais, etnofarmacólogos trabalham com o objetivo básico de fazer ciência a partir da distinção entre a verdade e crença vulgar. Em suma, sua prática é orientada para a pesquisa

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científica através de um contato social peculiar, de acordo com as necessidades acadêmicas e com a epistême que fundamenta a atividade científica moderna.

Não é tarefa fácil trabalhar com distintos sistemas de conhecimento. Embora as diferenças sejam consideravelmente grandes, a prática de etnofarmacólogos está diretamente relacionada ao estudo da botânica de grupos diferenciados, particularmente quanto à classificação e identificação de novas espécies vegetais que podem ser empregadas em atividades medicinais de grupos sociais tradicionais. A lacuna existente entre o universo do desconhecido e do conhecido é momentaneamente suprida pela etnofarmacologia através dos conhecimentos detidos por outros grupos sociais. Tomados como fontes privilegiadas para a classificação e emprego de espécies biológicas, as comunidades locais fornecem informações que serão inicialmente utilizadas por cientistas para a construção da ciência. Esta complementaridade poderia ser empiricamente demonstrada através da observação da trajetória de aplicação, quando bem sucedida, dos saberes locais pela tecnociência moderna, procedimento que apresenta como resultados o desenvolvimento de processos, produtos high

tech e proposições científicas.

Tratando-se de uma atividade científica ocidental, os etnofarmacólogos deverão desenvolver suas práticas de pesquisa de acordo com a epistême que dá fundamento à atividade científica moderna, com vistas à universalidade do saber. Não basta que cientistas procedam com a transferência direta do conhecimento tradicional, de caráter “local”, ao mundo da ciência moderna, de cunho “universal”. A passagem de um conhecimento ao outro deverá ser realizada de forma unilateral e unidirecional, guardando em si o objetivo de uma “purificação” legitimadora, voltada para a separação entre verdade e crença. É necessário, portanto, que modificações estruturais sejam realizadas durante a passagem, uma espécie de decodificação que, na verdade, é uma apropriação epistêmica. Neste sentido, o conhecimento que é levantado junto aos povos tradicionais ou indígenas deverá sofrer um processo de adequação, com o único objetivo de torná-los científicos, nos moldes sugeridos pela atividade de pesquisa ocidental.

A noção de legitimidade terapêutica de um medicamento encontra-se enraizada, geralmente, na confiança socialmente atribuída à metodologia científica. Testes pré-clínicos e clínicos são, além de técnicas experimentais eficientes para o estudo da atividade bioquímica de substâncias, procedimentos de pesquisa socialmente legítimos para a sociedade moderna, além de condição para que agentes possam confiar na atividade terapêutica descrita. Trata-se de um conjunto de práticas reconhecidas e legitimamente aceitas por grande parte da população.

De acordo com a idéia anterior, etnofarmacológos possuem um duplo devir: i) reinventar o conhecimento tradicional e adequá-lo ao universo tecnocientífico reconhecidamente legítimo e ii) desenvolver a P&D farmacológica sob os moldes científicos modernos. As duas atividades possuem tensões e conflitos sociais. Mas o primeiro devir em particular, onde o cientista deverá proceder com a decodificação e com a apropriação de um conhecimento diferenciado de acordo com universo epistêmico vigente em seu campo de atuação, é dotado de um nível elevado de tensões sociais, seja com relação ao plano técnico, mas, sobretudo, quanto ao plano epistemológico.

O cientista apresenta-se como um agente social imerso em uma teia de conflitos. Sabe de sua colocação e de seu papel. Conhece sua atividade e entende que, necessariamente, deverá produzir um conhecimento a partir de um sistema de saber diferenciado, transformando aquilo que foi obtido durante o levantamento etnofarmacológico em ciência. O que, para comunidades locais, poderá ter uma fundamentação religiosa ou mitológica, em todo o caso, legitimado pela posição social de um agente, ou seja, enquanto um saber personalizado, deverá ser transformado pelo etnofarmacólogo em um conhecimento despersonalizado e metodologicamente padronizado, demonstrável, objetivo de desprovido de qualquer idiossincrasia.16

Ainda que sob a lógica da pesquisa científica paire uma espécie de “intuição criadora”, que não pode ser explicada com a aplicação do mesmo método que fundamenta as leis e as proposições científicas, a idéia de universalidade e de objetividade da ciência moderna permaneceria intacta. Seja da justificação à falsificação, as proposições científicas seriam extraídas de uma ontologia fechada, isto é, dada a priori. Nesse sentido, a noção “verdades” seria contraditória, quando não paradoxal, dada a concepção ontológica de mundo. Ainda sobre a lógica da pesquisa científica, Popper afirma que:

“(...) não existe um método lógico de conceber idéias novas ou de reconstruir logicamente este processo. Minha maneira de ver pode ser expressa na afirmativa de que toda descoberta encerra um ‘elemento irracional’ou ‘uma intuição criadora’, no sentido de Bérgson. De modo similar, Einstein fala da ‘busca daquelas leis universais (...) com base nas quais é possível obter, por dedução pura, uma imagem do universo. Não há caminho lógico’, diz ele, ‘que leve a essas (...) leis. Elas só podem ser alcançadas por intuição, alicerçada em algo assim como um amor intelectual (Einfühlung) aos objetos de experiência’”. (POPPER, 2002: 32)

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No entanto, a passagem do mito ou da crença a uma ciência universal, assegurada pela etnofarmacologia, produzirá, como no caso da ciência moderna em geral, uma outra proposição que, ao invez de falsificar o mito, se justifica pela mesmo processo epistêmico (cf. ADORNO e HORCKHEIMER, 1985).

Apesar da possível fragmentação da verdade em “verdades”, a dinâmica do conhecimento parece seguir a determinação local, isto é, os princípios locais que determinam os sistemas de conhecimento. Assim, etnofarmacólogos atuariam no interior de uma determinada sociedade, onde certos valores sociais e instituições influenciariam o tipo legítimo saber. O inverso, por sua vez, também poderá ser considerado verdadeiro, ou seja, quando um agente, detentor de qualquer tipo de conhecimento “não-científico”, entrar em contato com o sistema de pensamento científico, deverá proceder com a adaptação local para que, assim, possa ocorrer uma espécie de transferência e de adaptação de significados.

A dinâmica da relação entre etnofarmacólogos e comunidades locais pode ser descrita através do conceito de “translação”, elaborado por Bruno Latour para analisar as várias etapas de aliciamento de agentes verificados nos procedimentos de produção tecnocientífica (LATOUR, 2001 e 1999). Para Latour, o conceito de translação entrecruza o chamado “acordo modernista”.17

“Em suas conotações lingüística e material, refere-se a todos os deslocamentos por entre outros atores cuja mediação é indispensável à ocorrência de qualquer ação. Em lugar de uma rígida oposição entre contexto e conteúdo, as cadeias de translação referem-se ao trabalho graças ao qual os atores modificam, deslocam e transladam seus vários e contraditórios interesses” (LATOUR, 2001: 356)

Empiricamente, a idéia de translação revela o encadeamento entre os agentes nas várias ações tecnocientíficas:

“É possível recrutar para as controvérsias científicas grupos que antes não se relacionavam. É possível atrair o interesse dos militares para a física, o dos industriais para a química, o dos reis para a cartografia, o dos professores para a teoria da educação, o dos congressistas para a ciência política.” (LATOUR, 2001: 122)

Inúmeras cadeias de translação podem ser identificadas na atividade de pesquisa etnofarmacológica. Ocorreria translação quando do estabelecimento de uma frágil

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“Acordo modernista” é um termo utilizado por Latour para caracterizar as inconsistências relativas ao pensamento moderno, tais como a separação entre ontologia e epistemologia, palavra e coisa e, ainda, entre humanos e não-humanos. Do acordo, desta forma, deriva a atual idéia de sociedade que, como já dito, deverá ser substituída pelo termo coletivo.

aliança entre etnofarmacólogos e comunidades tradicionais e/ou indígenas. O aliciamento, por sua vez, ocorreria exatamente na atração para a pesquisa científica e para o desenvolvimento de fármacos que é exercida por cientistas sobre os interesses de comunidades locais. A partir da construção das alianças entre cientistas e povos locais, novos e controversos interesses seriam criados. Cientistas buscam novas substâncias com possível atividade terapêutica. Povos locais buscam novas fontes de renda e/ou benefícios. Estes agentes unir-se-iam em um único e controverso objetivo, o de construir um novo fármaco.18

Para que o processo de translação seja efetivamente estabelecido, com o pleno aliciamento de povos tradicionais e com a criação de novas alianças e de novos e controversos objetivos, outros agentes e instituições deverão atuar no processo de licenciamento de pesquisa. Esta é uma etapa sine qua non para que uma pesquisa etnofarmacológica obtenha sucesso. Acessar o conhecimento tradicional e o insumo biológico associado a tal saber requer o estabelecimento de certas negociações com instituições federais, responsáveis pelo acesso e utilização da biodiversidade e dos saberes de grupos locais. Apesar de serem tratados como sistemas informais de conhecimento, o acesso e a utilização de saberes tradicionais são regidos por legislação específica.

Para que um cientista ou um laboratório obtenha acesso ao conhecimento tradicional de comunidades locais e à biodiversidade brasileira, será necessária a submissão do projeto de pesquisa para a análise de alguns órgãos de licenciamento. A licença para acesso e uso do conhecimento tradicional é competência do Conselho de Gestão do Patrimônio Genético (CGEN). Por outro lado, para acessar e utilizar componentes da biodiversidade brasileira, uma solicitação deverá ser enviada para ser avaliada pelo Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (IBAMA). Quando um projeto de pesquisa for pautado no uso de conhecimento indígena, por outro lado, além do parecer e análise dos dois órgãos federais anteriores, o cientista deverá solicitar à Fundação Nacional do Índio (FUNAI) autorização para entrar em território indígena. Mas, para que o projeto seja avaliado pela FUNAI e pelas demais comissões, a pesquisa deverá ter a pré- aprovação de outras duas instituições, a saber, a Comissão de Ética em Pesquisa (CONEP, do Ministério da Saúde) e do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) – sendo que o CNPq solicita outros dois documentos para a análise do projeto (o

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Devemos lembrar que uma cadeia de translação exemplifica uma situação ideal de investigação tecnocientífica. Como os interesses entre os agentes são controversos e a assimetria entre os grupos que participam da P&D etnofarmacológica geralmente são elevadas, muito dificilmente um processo de translação ocorrerá sem conflitos. Sendo assim, o estudo de uma situação empírica é extremamente relevante.

Termo de “Consentimento Livre e Esclarecido” e o “Processo de Obtenção e Registro do Termo de Consentimento Livre e Esclarecido” – TLCE).

A etapa burocrática é entendida como um entrave para qualquer cientista, sendo que, para a obtenção de todos os pareceres exigidos para a o acesso e uso do conhecimento tradicional e da biodiversidade, muito tempo deverá ser despendido, além de apresentar uma relativa redução da autonomia do campo científico. Trata-se de uma atividade necessária ao desenvolvimento da pesquisa, que deverá ser realizada por cientistas, mas que, necessariamente, remanejá-los-á para o lado de fora do laboratório com o objetivo de angariar apoio, estabelecer alianças e obter licenças de pesquisa. Apesar de ser uma atividade científica como qualquer outra, é uma prática indesejável para cientistas, pois escaparia ao domínio daquilo que é entendido como sendo de caráter científico (leia-se uma atividade interna ao laboratório). Para realizar tal etapa o cientista gastará muitas horas em reuniões, em viagens e no preenchimento de papéis. Estar do lado de fora do laboratório poderá representar possíveis atrasos na atividade puramente de pesquisa científica. Latour (2001) elaborou um tipo ideal (o diário do Chefe). Criou uma agenda fictícia e, teoricamente, seguiu um experiente cientista sociedade afora. Buscaremos fazer algo similar, mas agora apresentaremos ao leitor um exemplo empírico de pesquisa.19

Benzer Belgeler