A primeira descrição de uma entrada da princesa numa localidade data de 13 de Outubro, em Montemor-o-Novo, onde o autor do diário já estava presente. Ao anoitecer, D. Maria chegou com a sua comitiva, e foi recebida pelas autoridades locais, como era habitual – o alcaide-mor, o capitão dos ginetes215 com os seus filhos e outras
personalidades, ao todo cento e cinquenta pessoas a cavalo. Seguiram-se as danças tradicionais, entre raparigas vestidas à cigana, travestis, danças com espadas e folias (uma organizada pela câmara e outros pelos alfaiates), e ainda alguns espingardeiros e besteiros. O duque de Bragança e a princesa tinham também os seus atabales e atabaleiros, vestidos de veludo laranja e com pelotes e capas barradas com veludo azul. Do lado direito das andas estava o duque de Bragança, no meio o embaixador de Castela e à esquerda, numa das andas, a Infanta, cujo rosto “(...) parecia saudoso.”216 Atrás das
andas estava a camareira-mor e as damas com os seus fidalgos, os moços da estribeira da princesa, vestidos com calças escarlates, couras de cetim carmesim, pelotes e chapéus verdes e capas carmesim, um grupo composto pelas raparigas honradas da localidade, protegidas por quatro homens, e outro grupo de mulheres. À noite, vários fogaréus nas torres e baluartes do castelo iluminaram a localidade, assinalando o acontecimento da passagem da princesa.
As festas dadas em honra de D. Maria foram bastante semelhantes nestas pequenas localidades. Tal como já foi descrito, normalmente a Infanta era recebida pelas várias autoridades locais, assistia a danças tradicionais e à passagem de atabales e atabaleiros. Em algumas localidades, foram largados alguns touros, como foi o caso de Montemor-o-Novo, a 14 de Outubro, e em Évora, no dia seguinte217. Pouco mais, para
215Cavaleiros armados com lança e adaga.
216SOUSA, António Caetano de – “Diario da jornada da Infanta D. Maria Princeza das Asturias...” in Provas da História Genealógica da Casa Real Portuguesa (1744), Index, Tomo III,1 ª parte, Coimbra: Atlântida – Livraria Editora, Lda, 1948, p.144.
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além dos trajes dos seus participantes, é descrito nesta primeira etapa da viagem da Infanta D. Maria. Mas – o que não deixa de ser um pormenor importante – o autor do diário descreve frequentemente o preço de alguns produtos básicos em cada localidade, como o pão e a carne – este detalhe é especialmente interessante porque dele transparece a preocupação da alimentação e sustento de um tão grande número de pessoas que acompanharam D. Maria, além de estabelecer um interessante quadro comparativo. O facto de o autor referir que o pão era barato, como foi o caso da descrição do dia 14 de Outubro de 1546, em Montemor-o-Novo218, por exemplo, poderá
levantar algumas questões, pois um produto barato para um elemento de classe alta será, certamente, ainda pouco acessível para um elemento da classe baixa. Outras das descrições feitas ocasionalmente pelo autor são referentes à caracterização da localidade onde se encontrava no momento. No caso de Évora, cidade que festejou a passagem da Infanta a 15 de Outubro, o autor justifica-se: “E por nunca ver esta Cidade naõ deixarej de dizer o que vi nela que me beem e mal pareceo (...)”219. As suas descrições tanto
elogiam como criticam certos aspectos da localidade; no caso de Évora, considerou a Sé “(...) beem comcertada.”220, mas critica os cónegos da mesma, indicando que pareciam
“(...)homens que vieram de Saõ Thome porque amdam muj chamuscados(...)”221. Na
sua estadia em Estremoz, o anónimo autor também elogia o espaço da praça principal e a sua fonte, assim como as mulheres locais, que eram “(...) fermosas e em boa camtidade (...)”222, mas critica o mosteiro de S. Francisco, “(...) que de velho parece pombal de pombas.”223. No fundo, o autor do diário apresenta um verdadeiro roteiro das localidades, indicando a sua apreciação por onde passava, o que não deixa de constituir, a vários títulos, um manancial de informações várias. Por exemplo, no que respeita ao convento de S. Francisco, houvera uma degradação evidente do seu estado de
218“(...) Aqui nesta Vila valeo a cevada a xx reis o alqueire e a canada do vinho velho a trimta reis e o paõ de barato e fartura de carnes.” SOUSA, António Caetano de – “Diario da jornada da Infanta D. Maria Princeza das Asturias...” in Provas da História Genealógica da Casa Real Portuguesa (1744), Index, Tomo III,1 ª parte, Coimbra: Atlântida – Livraria Editora, Lda, 1948, p.145.
219SOUSA, António Caetano de– “Diario da jornada da Infanta D. Maria Princeza das Asturias...” in Provas da História Genealógica da Casa Real Portuguesa (1744), Index, Tomo III,1 ª parte, Coimbra: Atlântida – Livraria Editora, Lda, 1948, p.145.
220IBIDEM, p.146. 221IBIDEM, p.146. 222IBIDEM, p.148. 223IBIDEM, p. 148.
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conservação, já que fora aí que, cerca de 20 anos antes, os pais da princesa D. Maria haviam contraído matrimónio religioso224.
O autor indica também, esporadicamente, alguns episódios interessantes, no que respeita a certos cerimoniais observados. Na viagem entre Évora e Estremoz, toda a comitiva teve de parar antes de Évoramonte para almoçar. A princesa almoçou nas andas onde se deslocava, por questões de tempo, ao mesmo tempo que foi tocada música de viola de arco e harpa, instrumentos acompanhados por dois homens do duque de Bragança225. Descreve igualmente, de forma pormenorizada, o jantar que ocorreu na
noite de 18 de Outubro em Estremoz, no qual estava presente o duque de Bragança, o arcebispo e outros fidalgos, num total de dezasseis pessoas. A descrição das suas posições à mesa permitem-nos perceber o estatuto social de cada um dos presentes – o duque de Bragança encontrava-se no local relevante, à cabeceira da mesa, estando ao seu lado direito o seu irmão D. Jaime e depois o arcebispo, e à sua esquerda D. Francisco, o filho do mordomo-mor da rainha e outro irmão do duque, D. Constantino. A seguir encontravam-se os outros fidalgos, numa casa “(...) armada de muito rica tapeçaria (...) huãs alcatifas ao comprido pelo meo da casa sobre as quaes estavaõ as mesas e as mesas todas cubertas de panos de veludo verde e polas bordas barradas de brocadilho.”226