• Sonuç bulunamadı

1. GİRİŞ 1

1.7. İleri Yükseltgeme Yöntemleri

É comum ouvir dizer que nada é mais íntimo do que uma relação sexual, tanto que pode provocar constrangimento quando os sujeitos envolvidos não se conhecem previamente. Neste caso, para que o ato sexual aconteça, pressupõe-se uma permissividade que atravessa o limite de normas e regras estabelecidas socialmente. E nesse jogo de sedução e desejo, os sentimentos transparecem na extensão do corpo e se colocam em ação nos comportamentos (LE BRETON,

2006). Desse modo, o corpo funciona como um vetor que direciona e provoca prazer.

Para manter uma clientela, o michê tem de descobrir o que o cliente quer fazer durante o programa, mesmo que este não verbalize seu desejo. Isto pode ser percebido nas seguintes narrativas:

[...] É assim, eu me acho artista e sou um personagem pro meu cliente. Porque assim, se ele estiver apaixonado e me querer daquela forma, é daquela forma que eu tenho que ficar para ele [...], para ele ficar mais louco e mais louco [...]. (Felipe).

‘ [...] o cliente chega, eu o abraço e começa as pré iniciais para seduzir o cliente, tirando a roupa, a blusa e por último tirando a calça dele. Isso são técnicas que muitos profissionais usam, mas são profissionais mesmos [...] é uma coisa muito de química (Marley).

É interessante frisar que a desenvoltura ou desempenho sexual do michê traduz-se na sua capacidade de criar e realizar fantasias, que são fatores determinantes para a qualidade da prestação do serviço. Estes fatores influenciam também a negociação, pois tudo que é realizado durante o programa tem um preço e é cobrado. Afirma-se, assim, uma característica peculiar ao comércio do sexo: a estreita vinculação entre o interesse material explícito e o desejo que se aloja nos subterrâneos do imaginário.

O bom profissional é aquele que tem a capacidade de seduzir, provocar ciúmes, despertar paixões, viver múltiplas personas:

[...] eu trabalho com a cabeça, porque todo garoto de programa trabalha com a mente. Ele tem que pensar como vai ser, tipo assim: manter uma cena, criar um ciúme na pessoa. [...] Fazer aquela maricona se apaixonar por você. É uma coisa meio difícil, mas estamos na vida, a gente aprende rápido e consegue. Consegue viver essa dupla personalidade. É algo assim que só o michê tem, só o garoto da rua consegue fazer isso. Enganar uma pessoa, por dinheiro. (Felipe).

A gente tem que ser um psiquiatra porque um psicólogo é pouco demais, porque a gente encontra todos os tipos de cliente porque está pagando [...] então eles já visualizam que são muito apaixonados, o cara induz e aí já se apaixona, enganam. Existe tudo isso, então nós que já vivemos mais tempo a gente sabe [...] a gente tem que produzir e satisfazer a produção, satisfazer os telespectadores [...] para satisfazer o cliente, que tem de sair bem. Quando eu falo que eu sou uma personagem do filme, da novela, é a pura verdade: você está ali, o cara olha pra você, o cara muito masculino, você já passa purpurina, aí eu vejo que ele gosta de cara que é um pouco homofóbico, ali escondido. Então, ele não pretende transar com um cara másculo porque ele acha que é ser gay, então ele opina por um cara mais acertado. Aí eu já trunco, eu já fico um rapaz bem alegre, aí o coroa chega e eu digo é tanto e pronto, a gente faz aquele bom contrato. (Pablo).

Os clientes estão no centro dessa teia de corpos, desejos e interesses. Muitas vezes, solicitam dos profissionais do sexo a realização de fantasias. Estas, quase sempre, são previamente negociadas, porque o valor pago é maior. Às vezes, os clientes são explícitos e dizem exatamente o que esperam do profissional; outras vezes, deixam que a criatividade do michê alcance o seu desejo. Pablo relata que “[...] têm uns clientes que pedem pra gente transar batendo, outros pedem pra gente passar creme no corpo”. Certas fantasias são mais constrangedoras, pois ofendem a condição de macho que o garoto tenta preservar:

[...] já me pediram muita marmota, mas o pior mesmo foi vestir uma calcinha feminina de renda, eu não aceitei porque depois o cara ia querer me comer, assim não dá, porque o que ele queria mesmo era alguém para substituir sua mulher, [o que] não é o meu caso (Marley).

O michê, ao aceitar o programa, deve realizar a fantasia sem causar constrangimentos, para evitar desentendimentos ou mesmo a perda do cliente:

Uma vez fiz um programa com um cliente que ficou o tempo todo bebendo. No final ele quis marcar outro programa para o dia seguinte, mas adiantou que gostaria de transar preso [algemado] à cama e apanhando de chicote. Tudo bem, claro, eu só insinuei a chicotada, mas não batia com força. Depois perguntou se eu toparia transar com uma máscara de pirata e eu topei, mas pedi que arranjasse a máscara e aumentasse a grana. No final, eu perguntei [em tom de sarcasmo]: “no próximo programa, a fantasia é do Drácula?” Aí o cara sumiu. Então eu entendi que a gente tem que respeitar a vontade do cliente. (Pablo).

O respeito, neste caso, é considerado como uma regra a ser mantida como condição de garantia da assiduidade e do valor pago por parte do usuário: “a gente não discute com o cliente, a gente respeita o cliente e faz o que ele quer. Agindo dessa forma, ele retorna, te respeita e te paga bem”, diz Felipe. Tal constatação indica que esses sujeitos desenvolvem normas de conduta fundadas por meio da conveniência entre eles e reconhecidas pelos seus pares.

As fantasias dos michês têm menos a ver com o erotismo do que com as condições materiais daqueles que compram os seus serviços. Há garotos que observam a roupa que os clientes estão vestindo, se eles os levam para um motel bom ou para um motel barato, se oferecem uma bebida antes da relação sexual etc. O automóvel é um verdadeiro fetiche nessa relação: “na ‘paquera’ motorizada, a marca do carro é altamente valorizada Em [certas] ocasiões alguns michês podem até deixar de lado interesses econômicos pelo prazer de se exibir num carro de luxo”

(PERLONGHER, 2008, p. 174). No caso, prevalece o desejo de mostrar aos demais michês que ele “é o cara”, “que está podendo” – o que não deixa de ter seu lado interesseiro, pois exibir-se com clientes endinheirados pode despertar a atenção de outros clientes de igual condição financeira. Em algumas ocasiões, porém, trata-se apenas do prazer de se sentir em um status mais elevado, embora tudo não passe de fantasia.

Entre o michê e seu cliente existe uma cumplicidade que vai além da questão sexual. Isso explica o fato de alguns clientes pagarem os garotos apenas para ser ouvidos, como foi visto no primeiro capítulo. Entre os protagonistas, se estabelece um jogo erótico no qual fica difícil saber quais fantasias são realizadas, porque, às vezes, o programa se resume a uma conversa, uma espécie de desabafo; nem sempre acontece o intercurso sexual. Assim, entre quatro paredes, as práticas desenvolvidas pelos michês são indefinidas, e essa indefinição, de algum modo, é provocante, elemento que contribui para tornar mais sedutores os serviços por eles oferecidos.

A própria transgressão, paradoxalmente, é normatizada, pois o sucesso da prostituição requer que comportamentos e práticas sexuais desviantes se realizem mediante acordos (inclusive financeiros) entre os parceiros, obedecendo a limites (por exemplo, a recusa de Marley em usar calcinha) e pautando-se por “respeito”, de modo que não haja constrangimentos. Assim,

O território de prazeres ilegítimos, que conta com a cumplicidade entre aqueles que o frequentam, permite ao homem viver fantasias sexuais inconfessáveis, sem se sentir ameaçado em sua identidade social. Além disso, os eventuais e inevitáveis fracassos sexuais são igualmente preservados neste espaço. Existem também aqueles para quem o pagar representa uma forma de afirmação de poder, virilidade (em particular quando a performance sexual deixa a desejar), uma maneira de compensar uma insegurança ou frustrações afetivo-sexuais, etc. Mas, por certo, existem pessoas que sentem prazer nessa forma de viver a sexualidade sem maiores problemas. (CECCARELLI, 2008b, p. 9).

Embora quase sempre visto pelo olhar estigmatizante, cujos sentidos pairam em diversas ordens de preconceitos, o michê está no ponto (seja na rua, cinema, banheiro, sauna, boates e tantos outros locais) nutrido por um conjunto de condições que os faz desejar, sendo desejados: o culto ao corpo, como forma de prazer, seja no livre acesso ou na negociação; os atos, práticas, gostos e prazeres; a competição no trabalho, vangloriando-se da própria masculinidade e de estar cumprindo o papel tradicional ligado à penetração, à potência, à agressividade, à dominação, ao

controle emocional, à coragem e à racionalidade. A comercialização de serviços sexuais torna-se, assim, um campo para a realização de necessidades complementares: por parte do cliente, que têm seus desejos e fantasias sexuais realizados, e por parte dos profissionais do sexo, que ganham financeiramente com o negócio.

Como se pode constatar dos relatos apresentados, as inscrições corporais e simbólicas são atravessadas por marcadores sociais distintos, como status econômico e um saber sobre as partes do corpo, que as valorizam ou inferiorizam. Então, pode-se pensar que as masculinidades se encontram em permanente tensão e disputa, como argumenta Louro (2000), ao afirmar que as práticas sexuais estão relacionadas a um conjunto de convenções culturais e plurais, haja vista que é por meio da cultura que os corpos ganham sentido socialmente.

Assim, pesquisar as práticas e a identidade sexuais de michês, em seu cotidiano, implica compreender que, na sexualidade, estão envolvidos fatores culturais diversos, da ordem da linguagem, dos rituais, dos símbolos e das fantasias. A noção de corporalidade, assim como a própria definição do que é ou não “natural”, é produzida pela cultura. Como assinala Louro,

[...] nada há de absolutamente ‘natural’ neste terreno, a começar pela própria concepção de corpo, ou mesmo de natureza. Através de processos culturais, definimos o que é – ou não – natural; produzimos e transformamos a natureza e a biologia e, conseqüentemente, as tornamos históricas (LOURO, 2000, p. 6).

Benzer Belgeler