Ao comentar as pesquisas realizadas sobre os distritos produtivos da “Terceira Itália”41, Lazzarato exalta o caráter cooperativo do trabalho autônomo realizado na região e critica o autor das pesquisas, Sérgio Bologna, alegando que este teria cometido um “pecado” nas suas análises ao não enxergar o “lado liberatório e inovativo” do trabalho, aspecto que teria sido colocado no primeiro
40 O epíteto de “Terceira Itália” é empregado “para ressaltar suas especificidades frente às duas realidades que, classicamente, eram opostas para afirmar o dualismo econômico e societal italiano: de um lado, o triângulo industrial tradicional [Milão-Turim-Gênova, sedes da produção em massa], ao norte; de outro, o Mezzogiorno, região marcadamente agrícola e mais subdesenvolvida, que compreende o centro-sul e as ilhas.” (XAVIER SOBRINHO, 1997, p. 149).
41 As principais características da “Terceira Itália” são: “a consagração de estrutura de pequenas empresas industriais em áreas com tradição artesanal e pouca ou nenhuma experiência anterior na produção em massa; processos de trabalho e relações de trabalho flexíveis; alta capacidade de inovação e inserção autônoma dessas redes de pequenas empresas no mercado internacional; homogeneidade cultural e consenso político nas comunidades que sediam esses sistemas produtivos.” (XAVIER SOBRINHO, 1997, p. 150).
plano pelas teorizações de Marx sobre o chamado “General Intellect”42. Enfim, Bologna teria se limitado a tentar “destacar o trabalho autônomo como novo filão de produtividade e como forma renovada da exploração.” (NEGRI; LAZZARATO, 2001, p. 92)
Entusiasmado com o exemplo do “enorme potencial comunicativo da marca Benetton”, e referindo-se ainda às conclusões de Bologna, Lazzarato aponta que a empresa pós-fordista, ao invés de preocupar-se com o lucro ou com as necessidades do consumidor, estaria voltada para a constituição das subjetividades, isto é, para os desejos do consumidor:
Uma das funções mais importantes exercidas pelo empresário político na ‘construção social do mercado’ consiste na constituição do consumidor’: função que neste caso vem sendo exercitada através de um instrumento preciso, a publicidade. Diversamente da empresa fordista, sabe-se que Benetton não delega publicidade a agências externas, porque ele considera esta atividade como um ‘fator produtivo’, na mesma medida dos outros. [...] Mas na empresa pós-fordista a produtividade da publicidade encontra a sua razão de ser econômica não tanto na venda, mas na ‘produção de subjetividade’. Ela é a forma mediante a qual é organizada a ‘interação’ com os consumidores, que se assemelha sempre mais à ação política, dado que aqui se determina a produção de sentido para um mercado que tem os contornos da própria sociedade. (NEGRI; LAZZARATO, 2001, p. 61).
Diferente do trabalho artesanal pré-fordista, o trabalho autônomo da sociedade pós-fordista – segundo Lazzarato - seria inovador na medida em que socializaria os saberes, contemplaria as subjetividades dos trabalhadores, intensificaria os níveis de cooperação e converteria os meios e processos tecnológicos em proveito de uma emergente comunidade comunicacional, organizativa e relacional. Na ótica do aludido autor, o trabalho autônomo redefiniria a “autonomia e independência das formas de cooperação e de comunidade do proletariado que se ‘libertou’ do fordismo” (NEGRI; LAZZARATO, 2001, p. 96).
O novo padrão produtivo seria comunicacional porque conteria um excedente de produção lingüística que permitiria a emergência de uma nova linguagem, dotada de novas expressões, novos valores e novas palavras, que configuraria o fluido conteúdo de uma rede criativa que não se encontraria no espaço da fábrica, mas estaria difundida em todas as instâncias da sociedade. Esse caráter comunicacional
42 Negri (2005) faz menção a expressão General Intellect, utilizada por Marx nos Grundrisse,
especificamente na parte denominada “fragmentos sobre as máquinas.” O autor italiano interpreta o citado termo como sinônimo de“inteligência coletiva”.
seria relacionado aos fluxos e circuitos integrados na comunicação, no trabalho, no consumo e nos desejos.
Assim, a “Terceira Itália” seria o exemplo de transformação no mundo do trabalho, uma região na qual ex-trabalhadores assalariados e artesãos, com o apoio de movimentos comunistas e cristãos, colocaram em curso um conglomerado de unidades produtivas que se articulam em cadeia. Os distritos industriais são compostos de pequenos empreendedores coordenados por um conselho comunitário. Este – constituído por sindicatos (ou cooperativas) e câmaras de comércio – encarrega-se de realizar a cooperação entre os produtores e de viabilizar linhas de crédito. Os trabalhadores dessas comunidades – em sua maioria – são geralmente vinculados a uma etnia, uma religião ou a um partido político (PIORE; SABEL, 1990).
A experiência dos clusters industriais da “Terceira Itália” foi anunciada ao mundo, segundo Piore e Sabel (1990), como o protótipo de uma experiência de protagonismo das pequenas empresas que, concentradas num determinado território, complementam-se nas suas atividades produtivas. A emergência desses distritos foi possível graças aos incentivos do poder público local, à falta de uma resistência sindical, ao baixo custo da força de trabalho na região, à presença de um mercado de trabalho segmentado e à exploração de trabalho precário.
A terceirização foi uma das formas jurídicas “inovadoras” que o capitalista utilizou para continuar a dissimular a sua relação de exploração, exercer um controle sem resistências e produzir um dócil trabalhador travestido de empreendedor e de senhor dos riscos da atividade econômica. Segundo Leite (2003), o balanço mais recente demonstrou que a experiência desses distritos tornou-se insustentável diante da competição interempresarial, a ponto de há poucos anos as grandes empresas adquirirem as pequenas e médias empresas da região. Embora os distritos industriais da Terceira Itália não sirvam mais de referência como lócus do “novo operário”, Negri e seus companheiros continuam a sustentar que o novo modo de produção já se consolidou.