Em relação à autonomia, percebemos, na maior parte dos professores, um grupo ainda muito dependente de ações direcionadas pela gestão, à espera de comandos, com poucas iniciativas, sejam individuais ou coletivas. Além disso, a marca do individualismo e do isolamento era presente no cotidiano dos professores. Quando muito, eles partilhavam histórias a respeito dos alunos ou pais de alunos, ou algumas dicas de ações desenvolvidas em sala de aula. Raramente os professores discutiam o trabalho uns dos outros, nunca observavam as aulas dos colegas e não analisavam e refletiam coletivamente sobre os propósitos ou objetivos de seus trabalhos. Isso era reforçado pela ausência de planejamento pedagógico coletivo na escola. Por várias vezes, especialmente no início da pesquisa, testemunhamos falas das professoras do tipo: aqui na escola ninguém toma a iniciativa de nada, é todo
mundo esperando pelo diretor; ou ainda ninguém faz planejamento junto, é cada um com seu caderno, planejando sozinho, tem professora que não planeja é de jeito nenhum, chega na sala e vai dando aula de qualquer jeito. Quando isso acontecia,
no início da pesquisa, o diretor não conduzia adequadamente a organização de ações que favorecessem a autonomia do grupo ou a organização coletiva, notávamos que nem ele próprio ainda tinha essa segurança. Esse aspecto pode ser analisado levando em conta a pouca participação do grupo nas tomadas de decisões no início dessa gestão, mantendo a cultura do individualismo.
A esse respeito, Rosenholtz (1989) analisa o individualismo e o isolamento na escola como favorecedores de cenários empobrecidos de aprendizagem. Para essa autora, o isolamento no local de trabalho torna a maioria dos professores e diretores profissionalmente distantes, contribuindo para que eles negligenciem uns aos outros, não desenvolvendo hábitos simples como troca de cumprimentos, apoio e reconhecimento dos esforços positivos uns dos outros.
A participação, juntamente com a autonomia, compõem princípios básicos para uma administração compartilhada e includente. A autonomia só aufere importância se denotar comprometimento e liberdade para a ação educativa com responsabilidade.
Os professores devem encarar suas ações fundamentados nos objetivos do ensino, da tarefa educativa e no significado dessa tarefa para o fortalecimento da escola e da sociedade. O ponto de partida para uma atuação autônoma é reconhecê-la como um valor fundamental para a organização escolar e utilizá-la sempre em benefício dos alunos. A esse respeito, Barroso (1996) assevera que a autonomia da escola envolve fatores internos e externos, sendo capaz de integrar os diferentes sujeitos na constituição de sua identidade, pois acredita que não há autonomia da escola sem o reconhecimento da autonomia dos indivíduos que a compõem. Caso contrário, a gestão pode trilhar um caminho que leve a obediência e o isolamento, que não permitem e até dificultam a participação dos que compõem a escola.
Azanha (2002) observa que a autonomia das escolas tem seu fundamento na exigência da ética. É esperado que a ação educativa não se reduza ao mero cumprimento de horários e de execução de tarefas determinadas por órgãos exteriores à instituição. A ação educativa, tanto na sua dimensão individual quanto coletiva, requer clareza dos objetivos educacionais e dos valores a eles ligados. Sem essa consciência não é possível definir responsabilidades num sentido ético e social. Aqui cabe destacar o alerta de Bolívar (1997) acerca da necessidade de reestruturação das escolas reformulando as estruturas organizativas e de gestão, tanto na redefinição das tarefas, dos processos e das funções dos professores nas tomadas e execuções das decisões.
A escola em foco trilha um caminho ainda incipiente de autonomia, sendo necessário o fortalecimento das interações e das relações dos vários atores sociais que fazem a instituição. Ao longo do tempo da pesquisa na escola, o diretor manifestava consciência da necessidade da conquista da autonomia na condução do seu trabalho junto ao grupo da escola, na perspectiva da educação inclusiva e compartilhada, como ele mesmo atesta:
Contribuem muito para o contexto de inclusão uma gestão que tenha ações compartilhadas, por exemplo, que envolve a responsabilidade fundamental, esse é um aspecto. (...) O compartilhamento das ações também é algo que está funcionando bem, a gente tem discutido pra tomar decisões coletivas pra toda escola, pra todo o grupo de trabalho, ou seja, professor, funcionário de forma que todos se
sintam co-responsáveis e isso, no contexto de inclusão, é com funcionários, professores de maneira a compartilhar as ações tornando todos os autores co-responsáveis pela conseqüência de sucesso ou fracasso, isso é muito positivo e podemos atribuir sim às reflexões vindas dos debates... (diretor da escola).
Muitas vezes isso não era possível por falta de condições e meios adequados que favorecessem essa prática, além de uma dificuldade pessoal, perceptível em alguns momentos. Por outro lado, entendemos que a inovação pode desestabilizar as relações de poder estabelecidas dentro da instituição, causando certo desequilíbrio e transformações nessas relações. Além disso, dentro de toda instituição, há sempre um grupo mais resistente a mudanças e inovações, no sentido de compartilharem idéias e práticas ou de participar com a mesma intensidade de outros membros. Da mesma forma, era perceptível a existência de um grupo de apoio, entusiasta, que se comprometia com as propostas, se implicava diante dos conflitos, interagia e compartilhava as ações. Esse último grupo contava mais claramente com o apoio do diretor, pois expressava nitidamente a vontade de mudar suas concepções e atitudes sobre o seu papel em relação aos alunos, à escola e até mesmo às famílias, segmento sempre mais distante da escola.
O investimento na mudança educacional requer mais do que esforço e domínio técnico e intelectual; não depende apenas do fato de exercitar conhecimentos, habilidades e capacidades para a solução dos problemas. A mudança educacional prescinde também de um trabalho emocional que envolve afeta uma vasta rede de relacionamentos humanos importantes e significativos, presentes na escola. As tentativas de mudança educacional afetam relacionamentos entre os professores e alunos, entre professores e pais e entre eles mesmos (HARGREAVES, EARL, MOORE E MANNING, 2002)
Os pesquisadores ressaltam ainda que toda mudança é complexa e, para seu sucesso e aprendizado profissional, requer tempo e apoio humano, e isso é uma responsabilidade que ultrapassa a escola individualmente. É necessária a garantia de apoio dos sistemas de ensino externos, para que a mudança seja profunda e bem-sucedida. Caso contrário poderá ficar reduzida a projetos de reformas temporários e localizados.
Ao finalizar essa pesquisa, podemos dizer, com base nos procedimentos utilizados, que houve avanço no que diz respeito à participação direta do grupo nas decisões centrais e periféricas da escola. Foram criadas oportunidades para que os professores, gradativamente assumissem suas funções de liderança mediante o envolvimento e o fortalecimento pessoal. Conforme destacado, ainda se faz necessário um maior entrosamento da gestão com as instâncias decisórias superiores, pois, em muitos momentos, nas resoluções de problemas cotidianos, essa falta de interação com a Secretaria Executiva Regional ou Secretaria Municipal de Educação prejudicava as ações na escola, fosse pela morosidade ou pela falta de articulação entre a gestão e os sistemas de ensino, como foi o caso da demora na lotação da professora da sala de apoio ou da contratação de pessoal para limpeza ou reforma da escola. O próprio diretor, em sua fala, destaca essas dificuldades:
Temos relações com a Regional VI e a SEDAS. A Regional é mais próxima de nós. A SEDAS é mais recente, envolvendo o processo de ensino inclusivo... me sinto mais assistido pela Regional do que pela SEDAS. Com ela, muito pouco assistência na parte da educação, existe muitas barreiras burocráticas. Gostaria de ajuda mais na educação, em termos de acompanhamento, de apoio técnico, humanos, a gente se esbarra nos problemas materiais, humanos, na falta de profissionais, de acompanhamento, apesar de beneficiarmos da presença da pesquisa... pode imaginar os outros... As mudanças, é uma batalha... depende do engajamento dos parceiros políticos, da sociedade civil, como ela considera e se implica na inclusão...
A esse respeito, Barroso (1996) destaca que a autonomia da escola resulta do equilíbrio das forças entre os diferentes detentores de influência, nos quais se destacam os sistemas de ensino e seus representantes, os gestores, os professores, os alunos, os pais e outros membros da comunidade local. Está na gestão escolar, entretanto, a consolidação dessa autonomia, sendo necessária aos gestores a qualificação para dividir o poder com os diversos segmentos da escola, estimulando a participação em todas as instâncias.
Como vimos, a gestão e a organização da escola para a inclusão requerem uma atuação firme e de liderança nos processos de mudança. As
estratégias para alavancar a transformação pretendida encontra-se, sem dúvida, no papel e na função do profissional da gestão.