8. GEREÇ VE YÖNTEM
8.2. Yöntemler
Para que seja alcançada a vigência plena das normas do Mercosul, é atualmente necessário um procedimento de incorporação que as internalize em seus países membros. Ao contrário da Argentina305 e do Paraguai306, constata-se que o Brasil e o Uruguai307 impõem ao direito produzido no referido bloco um procedimento de incorporação sem qualquer favorecimento ou facilitação.
Vale salientar que, no tocante ao tema específico da integração, resta evidente nas Constituições argentina e paraguaia a admissão a organismos de lege ferenda e jurisdição supra estatais – exigindo unicamente a reciprocidade –, o que satisfaz as necessidades técnicas para a implantação do mercado comum objetivado pelo Tratado de Assunção. Nesse sentido, constata-se que a plena adaptação aos propósitos integracionistas, com disposições específicas, ao contrário do que se observa no sistema constitucional brasileiro.
A própria doutrina argentina reconhece a adequação do dispositivo integracionista, incorporado à Constituição por ocasião da reforma de 1994, em meio a um contexto regional no qual a tendência integracionista se aprofundava e disseminava entre as ordens constitucionais dos países latino-americanos308.
Já no caso do Uruguai, a vocação integracionista, determinada pela segunda parte do art. 6º, incluída nesse dispositivo constitucional por ocasião da reforma ocorrida entre 1966 e
305 “Artículo 75. Corresponde al Congreso: […] 24. Aprobar tratados de integración que deleguen competencias
y jurisdicción a organizaciones supraestatales en condiciones de reciprocidad e igualdad, y que respeten el orden democrático y los derechos humanos. Las normas dictadas en su consecuencia tienen jerarquía superior a las leyes. La aprobación de estos tratados con Estados de Latinoamérica requerirá la mayoría absoluta de la totalidad de los miembros de cada Cámara. En el caso de tratados con otros Estados, el Congreso de la Nación, con la mayoría absoluta de los miembros presentes de cada Cámara, declarará la conveniencia de la aprobación del tratado y sólo podrá ser aprobado con el voto de la mayoría absoluta de la totalidad de los miembros de cada Cámara, después de ciento veinte días del acto declarativo. La denuncia de los tratados referidos a este inciso, exigirá la previa aprobación de la mayoría absoluta de la totalidad de los miembros de cada Cámara”.
306 “Artículo 145 - DEL ORDEN JURIDICO SUPRANACIONAL. La República del Paraguay, en condiciones
de igualdad con otros Estados, admite un orden jurídico supranacional que garantice la vigencia de los derechos humanos, de la paz, de la justicia, de la cooperación y del desarrollo, en lo político, económico, social y cultural. Dichas decisiones sólo podrán adoptarse por mayoría absoluta de cada Cámara del Congreso”.
307 “Artículo 6º. En los tratados internacionales que celebre la República propondrá la cláusula de que todas las
diferencias que surjan entre las partes contratantes, serán decididas por el arbitraje u otros medios pacíficos. La República procurará la integración social y económica de los Estados Latinoamericanos, especialmente en lo que se refiere a la defensa común de sus productos y materias primas. Asimismo, propenderá a la efectiva complementación de sus servicios públicos”.
308 GELLI, Maria Angélica. Constitución de la Nación Argentina: comentada y concordada. 3. ed. Buenos
1967309, provoca dissenso doutrinário, observando-se a existência de entendimentos distintos e, mesmo, contrários.
Um deles aponta que o Estado uruguaio não tem a obrigação de buscar pela integração regional latino-americana, mas que, entre esta e outra qualquer, deve preferir a primeira, bem como registra que o dispositivo integracionista alude ao campo social e econômico, não se estendendo ao institucional ou político, como indica a criação do Parlamento do Mercosul310.
O segundo entendimento, por outro lado, entende ser possível o estabelecimento de uma comunidade de nações semelhante à do modelo europeu com base no referido dispositivo constitucional uruguaio311.
Nesse diapasão, o confronto entre as constituições dos Estados Membros do Mercosul, revela que a ordem constitucional uruguaia, por ser a mais antiga, é a mais defasada em relação ao objetivo integracionista, ficando atestada a incompatibilidade do marco constitucional com o deslocamento, por delegação, de competência a órgãos supra estatais312.
Diante do sistema brasileiro, são necessárias duas observações a partir das disposições da Constituição Federal: primeiramente, convém observar que esta, à exceção dos direitos humanos313, não prevê qualquer distinção por matéria quanto à incorporação de normas internacionais, restando às normas de integração o mesmo tratamento conferido, por exemplo, aos acordos de cooperação bilaterais; em segundo lugar e por decorrência da anterior, o direito internacional de dimensão derivada também necessita de um ato formal de incorporação na ordem jurídica brasileira.
A dinâmica da integração regional, decorrente de sua natureza fundamental calcada em aspectos econômicos, reclama um tratamento mais ágil em sua incorporação. No entanto, este aspecto é frustrado em razão do sistema constitucional brasileiro, que não confere às normas integracionistas nenhum vestígio de tratamento preferencial, comprometendo
309 ESPIELL, Héctor Gros. Evolución Constitucional Del Uruguay. 3. ed. Montevideo: Fundación de Cultura
Universitaria, 2003, p. 119.
310 KORZENIAK, José. La Constitución explicada y un poco de humor. Montevideo: Planeta; Fundación de
Cultura Universitaria, 2007, p. 42-43.
311 CORREA FREITAS, Ruben. Derecho Constitucional contemporáneo. Montevideo: Fundación de Cultura
Universitaria, 1993, p. 65-66 apud FERRAND, Martín Risso. Derecho Constitucional Tomo I. 2. ed. Montevideo: Fundación de Cultura Universitaria, 2006, p. 393.
312 Idem, ibidem, pp. 390 e 393. 313 Art. 5º, §2º e § 3º.
significativamente a realização de seu próprio art. 4º, parágrafo único. O próprio Supremo Tribunal Federal reconhece o problema, mas a ele não oferece qualquer solução.
Ainda, do ponto de vista jurídico-internacional, a integração regional externa ambas as dimensões de normas internacionais: as originárias, que estabelecem as vontades multilaterais dos Estados, através de tratados internacionais; e, as derivadas, que constituem o direito produzido pelos organismos da instituição de integração.
Nessa perspectiva, é interessante verificar que o modelo jurídico e institucional integracionista paralelo aplicado na integração europeia permite que o direito derivado produzido possa ter efeito direto, tanto sobre os Estados quanto sobre os particulares314. Naquele sistema, os regulamentos e as decisões gozam dessa característica, sendo os primeiros de caráter mais genérico enquanto as segundas têm aplicabilidade para sujeitos determinados. Fato é que as diretivas, que constituem, também, direito derivado, necessitam de ato interno de incorporação, mas existe um sistema de responsabilização do Estado Membro que demorar em proceder a esta obrigação315. De qualquer modo, os assuntos relacionados à regulação macroeconômica, por exemplo, a cargo do Banco Central Europeu, ocorrem por meio dos regulamentos, e, na prática, se observa um significativo grau de eficiência na atividade jurídica, repercutindo mais efetivamente na devida segurança para as atividades econômicas dos particulares.
No entanto, em se tratando de integração regional e, especificamente, do Mercosul, não parece adequado que o direito derivado, espécie muito mais numerosa e de apelo prático mais significativo, seja tratado do mesmo modo que o direito originário, posto que depende, tal como este, de ato interno de incorporação para que goze de vigência no interior do ordenamento jurídico de cada Estado Membro.
A consequência da falta de agilidade na internalização das normas é a falta de dinamicidade no caminhar do processo integracionista, especialmente no caso das normas derivadas. Assim, o direito produzido pelo Mercosul enfrenta sérias dificuldades em acompanhar a velocidade com que se desenvolvem as relações econômicas privadas sobre as quais pretende atuar.
Outro aspecto importante a ser analisado é a hierarquia das normas integracionistas, após incorporadas, que também revela dissonâncias de tratamento entre os países membros, conforme demonstrado a partir da análise dos textos constitucionais. Visto que a Constituição
314 Tratado de Roma de 25 de março de 1957, art. 249.
brasileira não traz quaisquer esclarecimentos nesse sentido, a questão recai sobre a responsabilidade do tribunal constitucional brasileiro, o Supremo Tribunal Federal.
A questão revela fundamental importância quando se considera que, a depender do grau hierárquico conferido às normas de integração, elas podem sofrer, na prática, derrogação ou ab-rogação interna por norma ulterior de mesma hierarquia316, apesar dos clamores da doutrina no sentido contrário317.
A observância desse fato, por si só, já constitui um revés evidente, podendo acarretar consequências significativamente negativas para a segurança jurídica no processo de integração, visto que o Estado Membro poderia, através da produção de ato jurídico unilateral, derrubar a vigência de norma internacional, originária ou derivada, proveniente de um acordo de vontades soberanas pactuado em esfera internacional.
Seção 1. A processualística de incorporação das normas mercosulinas ao ordenamento