De acordo com Lankshear e Knobel (2011), durante o período que compreende o início dos anos 1970 e o início dos anos 1990, o perfil e status de literacy mudou drasticamente em muitos sistemas educacionais modernos, sobretudo naqueles considerados desenvolvidos. Desde então, tal processo tem se intensificado e expandido a partir da disponibilidade em massa das tecnologias digitais mais sofisticadas.
Temos convivido cotidianamente, cada vez mais, com a internet, que, por meio das TDIC, sobretudo das TMSF, nos proporciona a possibilidade de interagir uns com os outros em espaços e tempos diferenciados, com uma velocidade e praticidade surpreendentes. Além disso, ela nos permite compartilhar uma quantidade intensa de informações, nos envolve em outras formas de linguagem multimodais, e proporciona novas dinâmicas sociais em várias esferas da sociedade, sobretudo no campo da Educação.
De acordo com Araújo e Pinheiro (2014), os cidadãos, com base em experiências com as tecnologias digitais, tendem a se moldar diante das transformações, sem perceberem, contudo, a exigência de uma grande quantidade de eventos de letramentos que praticados ao mesmo tempo. Dessa maneira, surgem expressões para designar essas novas práticas que, outrora, não eram demandadas, como a de letramento digital (LD).
Segundo os mesmos autores, com base em Belshaw (2011), o aparecimento do conceito de LD está relacionado ao uso do termo letramento visual na década de 1960, uma vez que os teóricos sobre o assunto sentiam a necessidade de relacionar o letramento à natureza cada vez mais visual dos meios de comunicação produzidos pela sociedade daquele período. Ao longo das décadas posteriores, a expressão foi sendo remodelada, e recebeu a influência de vários outros termos, como letramento tecnológico, letramento computacional, letramento TIC etc. No entanto, nenhum desses conceitos foi capaz de abarcar, em sua totalidade, aquilo que se esperava de uma pessoa letrada digitalmente. Muitos teóricos realizaram diversas discussões de modo que o “letramento digital” acabou se consagrando em
detrimento dos outros termos, e apareceu, pela primeira vez na literatura, em 1997, na obra Digital literacy, de Gilster.
As primeiras definições de letramento digital, no entanto, eram focadas nas competências e habilidades individuais dos sujeitos, quando esses faziam o uso de computadores, uma vez que, naquele momento, exigia-se a capacidade para realizar tarefas específicas e resolver problemas, como requeriam as indústrias de tecnologias da informação daquele período, por exemplo. Essas capacidades, contudo, eram confrontadas com outras que apareciam em face das transformações tecnológicas e que, antes, não eram exigidas, o que trouxe novos desafios ao letramento digital (GILLEN; BARTON, 2010apud ARAÚJO; PINHEIRO, 2014).
Ao compararmos com os dias atuais, por exemplo, os novos aparelhos digitais, como tablets, smartphones, Kindle etc., e, consequentemente, o desenvolvimento de novos softwares e interfaces, certamente exigem dos sujeitos habilidades que antes não eram demandadas. Muitas empresas, por exemplo, têm utilizado sites para fazer transações financeiras, bem como utilizado as redes sociais para divulgar produtos e interagir com clientes, como o Facebook e o WhatsApp.
Em vista das transformações sociais e tecnológicas que tendem a influenciar as concepções de letramento digital, alguns autores têm problematizado os conceitos que circulam no meio acadêmico como uma forma de trilhar novos caminhos em direção a uma definição mais abrangente e, até certo ponto, atualizada. A definição de letramento digital proposta por Soares (2002) tem sido muito difundida em trabalhos acadêmicos, mesmo que esteja sendo problematizada. Segundo a autora (2002, p. 151), o LD representa
um certo estado ou condição que adquirem os que se apropriam da nova tecnologia digital e exercem práticas de leitura e de escrita na tela, diferente do estado ou condição – do letramento – dos que exercem práticas de leitura e de escrita no papel. Como se vê, a proposta da autora parte de uma perspectiva que distingue as experiências de letramentos tradicionais dos letramentos digitais. Essa ruptura entre a “cultura do papel” e a “cultura da tela”, no entanto, tem sido problematizada por autores, como Buzato (2007), Marcuschi e Xavier (2004) e Coscarelli e Ribeiro (2011), cujas pesquisas demonstraram não haver a existência de uma divisão taxativa entre ambos. Ou seja, para esses autores, os modos de ler e escrever no meio digital representam mais uma etapa das transformações tecnológicas da escrita, do que outra configuração que permita afirmar a existência de uma ruptura.
Araújo e Pinheiro (2014) apontam para outra problemática a respeito da concepção de Soares (2002), que é o fato da teoria adotada pela autora dar primazia ao texto escrito em detrimento de outras formas de linguagem que, hoje, aparecem nos meios digitais como forma de hipertextos. Os autores explicam que essa limitação ocorre pelo fato de a definição ter sido cunhada antes da invenção da web 2.0 e da popularização de algumas redes sociais no Brasil, como o Orkut, o Twitter, o Facebook, o Skype, o Youtube, ao que podemos acrescentar também o uso do WhatsApp, que tem se popularizado muito no Brasil recentemente.
Sem deslegitimar outras concepções de letramento digital e reconhecendo a complexidade do termo, Buzato (2007) busca trazê-lo para uma perspectiva sociocultural, ao propor uma definição mais ampla, que permita diluir algumas problemáticas anteriores. Assim, o autor (2007, p. 168) define LD como
redes complexas de letramentos (práticas sociais) que se apoiam, se entrelaçam, se contestam e se modificam mútua e continuamente por meio, em virtude e/ou por influência das TIC.
Isso quer dizer que o letramento digital não se constitui em uma prática isolada, mas articula outros letramentos de forma a ampliar as possibilidades de interação com a escrita. Essa perspectiva aproxima-se das concepções de Coscarelli e Ribeiro (2011) que afirmam que LD é o nome que se dá à ampliação do leque de possibilidades de contato com a escrita também em ambiente digital, tanto na leitura quanto na escrita.
A definição Buzato (2007), em consonância com o NEL, envolve três concepções para a compreensão do conceito de letramento digital. A primeira descrita por ele refere-se à necessidade de se levar em consideração, nas análises sobre letramentos, os pontos de convergência entre o letramento tradicional e o digital, ao invés de enfatizar as descontinuidades ou rupturas entre eles. A segunda envolve a concepção do LD, não como um impacto unidirecional sobre as comunidades, instituições e/ou indivíduos, mas também como um movimento em sentido contrário, no qual os diferentes grupos/instituições se apropriam dos letramentos, conferindo-lhes significados, finalidades e valores diversos. E, por fim, para o autor, a perspectiva sociocultural do letramento precisa lidar com uma nova visão de “contexto”, que não deve ser visto apenas como um contêiner no qual as relações acontecem, mas deve ser concebido de forma relacional, comas experiências de tempo e espaço se colidindo e envolvendo umas nas outras.
Para construir a sua concepção de LD, Buzato (2007) também se baseou no conceito de hibridismo proposto por Friedman (2002), evidenciando se tratar, na verdade, de uma rede
de letramentos híbridos, na qual o digital deve(ria) ser gradativamente excluído das considerações sobre os letramentos. De acordo com Buzato (2007), o “digital” não deve ser situado em uma posição superior capaz de controlar todas as outras formas de letramento. Para além de um contexto institucional/cultural particular, os letramentos digitais representam configurações específicas de nós da rede de letramentos e são acionados para finalidades ou situações específicas. Isso representa uma tentativa de superar a polaridade entre o on-line e o off-line, ou o letramento digital do letramento tradicional, haja vista que ambos se hibridizam. Segundo Buzato (2017, p. 167),
o hibridismo nos convida, de forma mais imediata, a desconstruir a noção de letramento como algo homogêneo que tem na letra, isto é, na escrita, ou de forma mais ampla no verbal, uma essência. A premência dessa desconstrução pode ser avaliada pela dificuldade que, ainda hoje, muitos autores brasileiros e portugueses enfrentam para utilizar as palavras leitura e letramento quando se referem à significação que envolve outros códigos que não a língua escrita.
Dessa maneira, ao assumir uma perspectiva sociocultural de letramento, a partir dos Novos Estudos do Letramento, acreditamos ser útil considerar, no âmbito desta pesquisa, as concepções de letramento digital que se aproximam da definição proposta por Buzato (2007). Tal perspectiva vai ao encontro dos nossos objetivos de investigar práticas que envolvam o letramento digital, pois nossas análises têm se focado em tecnologias mais recentes, representadas pelas TMSF, cujas características apresentam consonância com as definições mais recentes de letramento digital.