2. MATERYAL ve YÖNTEM
2.2. Yöntem
Marcelo Ridenti (2008), reconstruindo a trajetória do Partido Comunista do Brasil (PCB), auxilia-nos a apreender alguns pontos cruciais do contexto político do segundo governo Vargas (1951-1954). Nos anos 1950, o PCB se alinhou com as forças nacionalistas que se formaram na esteira dos processos de modernização, urbanização e industrialização em curso no país, vinculando-se às “lutas por direito e reformas sociais” (Ridenti, 2008:173). Nacionalistas e membros do PCB participaram juntos da campanha “O petróleo é nosso”, que resultou na criação da Petrobrás, em outubro de 1953. Como mostra Ridenti, o PCB fazia parte das forças antigetulistas do período, formadas majoritariamente (mas não somente) por políticos do espectro da direita e pertencentes à UDN. Percebe-se, desse modo, que assim como a pauta nacionalista, o posicionamento antigetulista congregava forças políticas heterogêneas e até opostas, e foi mobilizada por distintos atores sociais e políticos107.
107 Mesmo a UDN, como mostra Benevides (1981), era formada, de fato, por inúmeras UDNs, o que
engendrava as ambiguidades e contradições que a legenda continha. Segundo a autora, “no caso da UDN, a ambiguidade parece mais evidente. Dos idealistas democratas de 1945 aos adeptos do Ato Constitucional nº. 5, do purismo do lenço branco ao populismo da vassoura, a trajetória da UDN é marcada por contradições várias, num desafio à busca da unidade e da identidade. A perplexidade é
Como mostra Alzira Abreu (2008), o jornalismo deste período tinha como característica crucial a “paixão política. O debate era conduzido pelos partidos de maior penetração nacional – de um lado o Partido Social Democrático (PSD) e o Partido Trabalhista Brasileiro (PTB), ambos partidos de apoio aos Governos Vargas e Kubitschek, e de outro a União Democrática Nacional (UDN), partido de oposição a esses dois governos108” (Abreu, 2008:220-221). Essa divisão era compartilhada também pela imprensa, o que concedia a esta grande protagonismo nos momentos de crise política. Embora os jornais fossem partidários – isto é, transmitiam os interesses de caráter ideológico dos partidos – não eram sustentados por eles. Nesse contexto, os editoriais dos jornais tinham papel de destaque: “eram os espaços privilegiados para a defesa das posições partidárias e ideológicas dos proprietários e tinham um número elevado de leitores” (Abreu, 2008:221)109.
A paixão pela política também estava presente em Comício – bem como nos veículos pertencentes à imprensa nacionalista (Cf. Ramos: 1996) – e, assim como nos jornais diários de grande circulação como os Diários Associados, Última Hora, Correio
da Manhã, etc, os editoriais do semanário eram um espaço privilegiado de discussão e
posicionamento político por parte dos seus três diretores. Passo, então, a partir dos editoriais – mas também por meio das reportagens de Joel Silveira, da coluna de Rafael Corrêa de Oliveira, das seções sobre a Câmara e o Senado assinadas por, respectivamente, Carlos Castello Branco e Otto Lara Resende, de algumas das crônicas de Rubem Braga, e da série de matérias sobre a história dos partidos assinada por Pedro
compreensível: coexistem, na UDN, algumas teses liberais e progressistas, com outras ostensivamente reacionárias e antidemocráticas. O partido que vota a favor do monopólio estatal do petróleo e contra a cassação dos mandatos dos parlamentares comunistas, é o mesmo que se opõe à intervenção do Estado na economia e denuncia, às raias do absurdo, a ‘infiltração comunista’ nos setores da vida pública. E mesmo para o simples leitor de jornais, como entender a convivência cordial, no mesmo partido, do charme discreto de um liberal consagrado, como Milton Campos, com a agressividade virulenta, injuriosa e ‘golpista’ de um Carlos Lacerda?” (Benevides, 1981:12).
108 Angela de Castro Gomes (2007b) apresenta o mesmo panorama a respeito da força política de
determinados partidos políticos no período democrático que se iniciou após o fim do Estado Novo: “A República que se abre com o fim da ditadura do Estado Novo e com a promulgação da Constituição de 1946, abarcando a experiência liberal-democrática que vai de 1945 a 1964, pode ser caracterizada pela dominância de três grandes partidos na cena política nacional: o Partido Social Democrático (PSD), a União Democrática Nacional (UDN) e o Partido Trabalhista Brasileiro (PTB). Convivendo com outros partidos de menor porte e de importância eleitoral mais regionalizada, não há dúvida de que essas foram as principais organizações do sistema partidário que então se forma” (Gomes, 2007b:55).
109 A personificação do jornal em relação a seu proprietário ou redator-chefe era grande, ao ponto de se
denominar que um jornal era do Carlos Lacerda (Tribuna da Imprensa), do Samuel Wainer (Última
Hora), do Roberto Marinho (O Globo), do Macedo Soares (Diário Carioca), do Paulo Bittencourt
Gomes – a delinear o posicionamento político assumido por Comício, bem como as propostas políticas as quais eram favoráveis.
Metodologicamente, considerando a vastidão do escopo de textos do semanário que abordam questões de ordem política, parto dos editoriais110, espaço central para a definição dos problemas considerados mais candentes pelos diretores e das posições que assumem em relação aos mesmos. Assim, são os assuntos abordados nos editoriais que serão aprofundados por meio dos outros textos que também o discutem no interior de
Comício, seja a reportagem de Silveira ou Gomes, a crônica de Braga, as seções de
Corrêa, Resende e Castelo Branco. Os editoriais servirão, portanto, como ponto de partida que me indica os assuntos para eles cruciais no período e, então, passarei a conectá-los com os demais textos que discorrem sobre o mesmo assunto. Assim, será possível traçar tanto uma agenda política cara aos diretores, como as aproximações e distanciamentos políticos que mantinham, tendo em vista as próprias preocupações que os mobilizavam, e ainda apreender como tal agenda se desdobrava nas demais seções de
Comício.
Como evidenciado no começo do segundo capítulo, o editorial do primeiro número apresenta a plataforma de interesses do semanário, no qual fica explícita a preocupação em apreender “o que, e quem e quando e como representa os interêsses mais legítimos da massa de nosso povo” (Comício, n.1, p.3). A seguir, perceberemos como a questão acerca da representação dos interesses do povo é desenvolvida em muitos dos editoriais. Além disso, a democracia e os valores a ela vinculados são apresentados como os ideais por parte dos diretores, sendo assinalados os riscos e os indivíduos que estariam agindo contra tal regime de governo.
O segundo editorial, sem título, tem como temática a questão da expulsão dos jornalistas das dependências da Câmara dos Deputados, orquestrada pelo deputado Nereu Ramos (PSD) que, em 12 de março de 1951, foi eleito presidente da Câmara (Cf. “Nereu Ramos”, DHBB/CPDOC):
“É uma vitória melancólica essa, que está abrindo um tôrvo sorriso na carranca do sr. Nereu Ramos. A expulsão dos jornalistas do recinto da Câmara está sendo obtidas à custa de sofistas (a interpretação do Regimento) e de recursos igualmente baixos (almôço com os diretores dos
110 Serão objeto de análise aqueles editoriais sobre os quais não me debrucei em outros tópicos do texto, e
jornais, insistência pedindo junto aos deputados que haviam assinado a emenda Falcão) mas o que nela mais contrista é o aspecto anti-democrático.
O golpe foi, certamente, vibrado pelo sr. Rui de Almeida, cuja espaventosa mediocridade só consegue se realçar através de expedientes que degradam a própria Câmara, como o caso dos ‘Cadillacs’. E essa idéia deve ter parecido logo excelente ao velho soba que os catarinenses, com tanta vivacidade, repudiaram nas urnas.
Não falta quem recomende aos jornalistas muito cuidado ao escrever sôbre coisas da Câmara. É do interêsse primordial dos jornalistas não desprestigiar um órgão essencial ao funcionamento do regime. Mas no caso dos ‘Cadillacs’, como nêste caso agora, o que vimos foi uma demonstração de fraqueza dos parlamentares. Fraqueza de aspectos diferentes, em um caso e outro, mas sempre de molde a diminuir a Câmara perante o público. Exigir que os jornalistas achem isso muito bonito é demais. Gostariamos de vêr a Câmara igualmente enérgica ao enfrentar uma ‘questão fechada’ do sr. Vargas.
E a oportunidade é bôa: temos pela frente a questão do petróleo, em que o ex-ditador se colocou contra as correntes cívicas mais esclarecidas do país. Seria o caso de indagar o que pensa disso o sr. Nereu Ramos – se não fôsse visível que êle não tem tempo de pensar em outra coisa além da própria importância” (Comício, n.2, p.3).
O editorial não deixa dúvidas: a expulsão dos jornalistas teria sido um golpe de caráter anti-democrático, que corroboraria para a diminuição do Legislativo frente aos eleitores. Mais do que isso, o editorial alfineta tanto os membros da Câmara a fim de que se posicionem em relação à questão do petróleo, quanto Vargas, ao nomeá-lo como “ex-ditador” e não Presidente da República e ao frisar que a posição deste sobre o assunto seria contrária a todas as “correntes cívicas mais esclarecidas do país”, das quais Comício faria parte111.
Na mesma edição, a seção “A semana da Câmara” assinada por Carlos Castello Branco informava sobre o ocorrido, com um texto intitulado “Os dois lados de Nereu Ramos”. O texto ressalta os malefícios que o ato de Nereu Ramos teria para a própria Câmara, uma vez que sua cobertura perderia espaço na mídia, em decorrência da falta de acesso à Casa:
“O sr. Nereu Ramos conseguiu pôr fim a uma prática iniciada com a reabertura do Congresso em 1946: a convivência numa área do recinto da Câmara entre deputados e jornalistas. Convivência de que vinha resultando um noticiário político e parlamentar mais vivo e numeroso com benefício evidente para o prestígio do Poder Legislativo. Já agora os leitores de
jornais e ouvintes de rádio não poderão ser informados da mesma maneira sôbre os trabalhos da Câmara.
Não vamos analisar o método de que se utilizou para isso o sr. Nereu Ramos, mas apenas fixar que êle jamais se conformou com essa prática. Inicialmente, tentou imobilizar jornalistas e deputados na área comum, obrigando-os a jamais darem as costas ao sr. presidente. Essa imposição, além de algumas piadas, não rendeu mais nada. O correr dos dias bastou para torná-la inócua. Entretanto, o fracasso deu tempo e fôrça ao sr. Nereu Ramos para a partida decisiva que veio a travar agora. Para êsse propósito é que se pode dizer que lhe caiu de céu a eleição do coronel Rui de Almeida para a primeira secretaria. O novo secretário, eleito sob oposição de todos os jornais, atacado violentamente por alguns órgãos a propósito da ‘resolução dos Cadillacs’, vinha maduro para suscitar o caso perante a Mesa. O mais já se sabe.
E agora que tudo ocorreu vamos dizer que essa era uma decorrência natural da presença do sr. Nereu Ramos na presidência da Câmara, tanto é verdade que o aspecto da casa reflete o temperamento do dono” (Castello Branco, n.2, p.6).
Além de traçar a relação nada amigável que Ramos havia mantido com os jornalistas, e mostrar o apoio que obteve de outro deputado, Castello Branco evidencia a inevitabilidade do ocorrido, em decorrência do fato de Ramos ocupar a presidência da Câmara. Castello ainda mostra que Ramos era “antigo interventor da Ditadura” e que teria se tornado, mais recentemente, um “símbolo de resistência e de respeito à palavra dada”, a ponto de até políticos da oposição enxergarem sua presença no governo Vargas como “um dado essencial para a preservação do regime”. No entanto, o autor não deixa de assinalar os aliados políticos que o deputado teria, bem como seus interesses políticos:
“O PSD governista, o PSD do sr. Benedito Valadares, o PSD do sr. Cirilo Júnior, esfregando as mãos de contente, rondavam em tôrno do sr. Nereu Ramos. Seria a oportunidade do assalto, a hora de ‘abafar’ a presidência. Essa ronda sinistra (políticamente) foi o principal elemento de salvação do sr. Nereu Ramos. E da Mesa” (Castello Branco, n.2, p.6).
Na edição seguinte, saiu uma matéria assinada por Marcelo Guimarães analisando o boicote da Câmara à imprensa. O título já faz menção ao estado de “guerra” entre a Câmara e a imprensa: “Reportagem no ‘front’: A mesa da Câmara faz guerra à imprensa. História de uma campanha triste”. A matéria explicita que está em jogo o cerceamento da liberdade de imprensa durante um momento em que a democracia passava por um processo de consolidação (“a democracia era ainda a ‘plantinha tenra’ do sr. Otávio Mangabeira”) (Guimarães, n.3, p. 14):
“Já dura uma quinzena o impedimento criado pela Mesa da Câmara dos Deputados aos jornalistas, ali credenciados, para que possam cumprir o seu dever profissional de divulgar e comentar os fatos da atividade parlamentar. É um caso autêntico de cerceamento da liberdade de informação a que os advogados gratuítos ou suspeitos da Mesa, a própria Mesa coatora e os espectadores desavisados da crise têm chamado de ‘greve dos jornalistas’.
Mas, ainda que a atitude anti-regimental, despropositada, odiosa, abusiva e grosseira da Comissão Diretora da Câmara, justificasse, à vontade, uma ‘greve’ dos jornalistas assim coarctados e pessoalmente ofendidos, não foi essa, todavia, a razão que os levou a deixar entregue às moscas a bancada da imprensa do Palácio Tiradentes e a reduzir ao mínimo o noticiário das suas sessões plenárias. Simplesmente os ‘rapazes da imprensa’, como são tratados, pejorativamente, pelos maiorais da Câmara, ficaram impedidos de trabalhar, desde que lhes foram negadas tôdas as condições para um desempenho fiel e honesto, como sempre o tinha até aqui, dos seus encargos profissionais” (Guimarães, n.3, p. 14).
Além de uma descrição de todos os acontecimentos que levaram ao afastamento dos jornalistas do recinto da Câmara, a matéria traz o nome, a foto e uma pequena descrição tanto do presidente da mesma (Nereu Ramos), quanto do primeiro, segundo, terceiro e quarto secretários da Mesa (respectivamente, Rui de Almeida (PTB), Adroaldo Costa (PSD), Rui Santos (UDN) e Amando Fontes (PR)). Como Ramos e Almeida são os dois maiores responsáveis pela articulação da expulsão, transcrevo a descrição feita:
“NEREU RAMOS: presidente
Planejou a expulsão dos jornalistas do plenário da Câmara, desde que se viu guindado à presidência. ‘Gauleiter’ fantasiado de guardião do regime traz da ditadura a aversão pela imprensa. No Regimento, do qual se diz escravo, encontra todos os pretextos para cercear a liberdade de informação e a própria iniciativa individual dos deputados” (Guimarães, n.3, p. 15).
“RUI DE ALMEIDA: 1.º SECRETÁRIO
Era a peça que faltava na engrenagem armada para triturar a liberdade de imprensa na Câmara. Graça ao projeto dos Cadillacs, de sua autoria, tomou a 1.º Secretaria de um colega de partido e de bancada. Foi executor do plano engendrado pelo sr. Nereu Ramos e, afinal, ainda mais realista, agrediu torpemente um diretor de jornal, no recinto da Câmara” (Guimarães, n.3, p. 14).
Já os editoriais das edições 3 e 4 discutem a questão da aliança feita entre a UDN e o integralismo na candidatura do Brigadeiro Eduardo Gomes à Presidência da
República em 1950. O assunto vem à baila em decorrência da morte de Soares Filho, que era o líder da UDN na Câmara112. Com a lacuna deixada por este, Raimundo Padilha, um “camisa-verde” (isto é, um integralista), ocuparia sua cadeira. O primeiro editorial sobre o assunto é escrito de maneira a condenar e a lamentar tanto a aliança efetuada anteriormente, quanto as consequências dela, que agora se tornariam concretas. O editorial frisa a existência de uma contradição, já que o “camisa-verde”, “um inimigo do regime de representação e liberdade de opinião” ocuparia a cadeira do líder de um partido “que se apresenta como o defensor supremo e intransigente dêsse regime”. Novamente, é a democracia e seus possíveis inimigos que estão sendo escrutinados no editorial de número três:
“Homem católico, e praticante, o Brigadeiro Eduardo Gomes não nos levaria a mal se puséssemos, como título desta nota: ‘O pecado do Brigadeiro’.
Felizmente nosso pequeno editorial não precisa de título; pois então hesitaríamos em escrever ‘U.D.N.’ no lugar de ‘Brigadeiro’. Em todo caso o pecado foi de ambos – e foi feio. A aliança eleitoral com o integralismo foi uma dessas ‘mancadas’ imperdoáveis em um partido que se diz democrático.
Chamando para sua companhia êsse homem bom que sempre foi Soares Filho, Deus está punindo, em parte, o triste pecado. O lugar do excelente líder será ocupado por um ‘camisa-verde’, e dos mais ativos, o sr. Raimundo Padilha. A Câmara vai ganhar, assim, mais um inimigo do regime de
112 Enquanto na primeira edição de Comício foram apresentados os Líderes do Senado, em matéria
assinada por José Floriano, na edição seguinte, é a vez de Carlos Castello Branco escrever sobre os Líderes da Câmara. A matéria apresenta uma pequena descrição dos líderes, com sua foto, partido e, entre parênteses, a posição política. Assim, Soares Filho é mostrado como “U.D.N. (Semi-oposicionista). Os demais líderes de cada partido na Câmara são: Gustavo Capanema “P.S.D. (Governista)”, Emílio Carlos “P.T.N. (Jaffetista)”, Roberto Morena “P.R.T. (Comunsta)” [sic], Afonso Matos “P.S.T. (Vitorinista)”, Padre Arruda Câmara “P.D.C (Clericalista)”, Orlando Dantas “P.S.B. (Socialista)” e Padre Ponciano “P.R.P. (Integralista)”. Este último, Soares Filho e Capanema são os que possuem as maiores fotos, mas os representantes da UDN e do PSD são os que possuem as descrições maiores. Na terceira edição, comentando em sua seção a morte de Soares Filho, Carlos Castello Branco levanta hipóteses sobre quem seria o melhor candidato ao posto de líder da UDN e conclui que deveria ser o deputado Afonso Arinos, “que, aos atributos pessoais, junta a necessária notoriedade pública” (Castello Branco, n.3, p.6). Arinos, no entanto, enfrentaria problemas com os “colaboracionistas” do governo presentes em seu partido: “Acontece que o deputado mineiro se constituiu junto ao seu partido numa espécie de promotor da resistência, de representante do grupo mais agressivo da UDN, podendo-se assim prever que os numerosos colaboracionistas, simpatizantes do colaboracionismo, inclinados a simpatizar com o colaboracionismo, tôda essa gama de nostálgicos do poder ou simplesmente do sr. Getúlio Vargas, dificilmente darão poderes ao sr. Afonso Arinos para falar em seu nome” (Castello Branco, n.3, p.6). Percebe-se, assim, que os membros da UDN não compartilhavam as mesmas posições em relação ao governo Vargas. Trata-se, portanto, de mais uma prova das ambiguidades e heterogeneidades presentes no interior da UDN. E com a morte de Soares Filho, para Castello Branco, o partido teria que passar por um teste a respeito daquela que seria a sua verdadeira vocação política. Desse modo, a escolha de Arinos para a liderança poderia assinalar “se os udenistas já estão suficientemente desencantados com o sr. Getúlio Vargas para permitir que as coisas marchem naturalmente, de acôrdo com o que deveria ser a vocação da UDN, um partido que nasceu para combater o getulismo” (Castello Branco, n.3, p.6).
representação e liberdade de opinião – do regime em que é possível a existência de uma verdadeira Câmara. E êsse inimigo vai ocupar a cadeira do líder de um partido que se apresenta como o defensor supremo e intransigente dêsse regime.
A melancolia dessa sucessão dispensa comentários. Ela vem reforçar a lembrança de um êrro deplorável. E tem o sentido de uma advertência à União Democrática Nacional: nas próximas lutas, escolha melhor seus aliados, se por acaso se irrita alguma coisa quando seus inimigos poem ‘Democrática’ entre aspas” (Comício, n.3, p.3).
A reprovação em relação à aliança construída pela UDN com os integralistas é clara e coloca como questão os próprios princípios democráticos do partido (supostamente) opositor a Vargas.
Ainda na página 3, ao lado do editorial supra citado, está uma reportagem assinada por Joel Silveira intitulada “O integralismo faz tricô”. Joel procura mostrar que o movimento integralista não teria, em 1952, a força que teve no final dos anos 1937. O autor constrói inclusive um pequeno box, no qual compara a força e expressão do integralismo nos anos 1937 e nos anos 1952:
“1937 – No dia 1.º de Novembro de 1937 Plínio Salgado, numa demonstração de fôrça diante de Getúlio, fez marchar cem mil integralistas pelas ruas do Rio.
1952 – O exército integralista é hoje insignificante e abúlico, como atestam as melancólicas e despovoadas reuniões do Partido de Representação Popular, rótulo legal da antiga Ação Integralista Brasileira” (Silveira, n.3, p.4).
A despeito da falta de expressão do integralismo, o brigadeiro Eduardo Gomes teria acreditado no prognóstico de Plínio Salgado de que o movimento possuiria, ainda, 600 mil membros. Em um subtópico intitulado “O mau negócio do brigadeiro”, Joel Silveira critica a aliança, mantendo a mesma linha argumentativa do editorial. Assinala que a aliança deveu-se a um oportunismo eleitoral do candidato da UDN, que resultou em realizá-la com uma força política de conteúdo anti-democrático. É assinalado