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2. YÖNTEM ve MATERYAL
Alguns setores da sociedade brasileira desenvolveram pressão política e social para que Getúlio Vargas convocasse uma Assembleia Constituinte. Foi promulgada a Constituição da República de 1934, na qual constou o título da ordem econômica e social, como resposta à realidade advinda da crise econômica mundial instalada em 1929, com a quebra da bolsa de valores de Nova York. De vida efêmera, a Constituição de 1934 seria derrogada pela Carta Política do Estado Novo, em 1937.
A tentativa de constitucionalizar a defesa e a promoção do desenvolvimento da Amazônia e de outras regiões do País, na Constituição de 1934, não chegou a ser efetivada como regra, apesar do interesse de constituintes. Somente se realizou na Constituição Federal de 1946, gerando novo ânimo à região, sobretudo pela inclusão da regra do artigo 199,524 que instituía um programa de desenvolvimento denominado o Plano de Valorização Econômica da Amazônia, a ser financiado por parcela da receita de impostos federais durante vinte anos, além da contribuição de iguais recursos oriundos dos Estados e municípios da região. A Constituição fixou o uso de incentivos fiscais federais, estaduais e municipais, para fins de desenvolvimento regional, com prazo certo.
521 LOUREIRO, Violeta Refkalefsky, op. cit., p. 41. 522 Ibid., p. 41.
523 MAHAR, Dennis J, op. cit., p. 15.
524 Constituição dos Estados Unidos do Brasil. (de 18 de setembro de 1946). Art. 199 – Na execução do plano de valorização econômica da Amazônia, a União aplicará, durante, pelo menos, vinte anos consecutivos, quantia não inferior a três por cento da sua receita tributária. Parágrafo único – Os Estados e Territórios daquela região, bem como os respectivos municípios, reservarão para o mesmo fim, anualmente, três por cento das suas receitas tributárias. Os recursos de que trata este parágrafo serão aplicados por intermédio do Governo Federal. (Emenda proposta pelo deputado amazonense Leopoldo Péres).
Na sequência, surgiram algumas propostas objetivas de aplicação da regra constitucional, dentre as quais, em novembro de 1946, o Instituto de Recuperação da Amazônia. Esse órgão paraestatal encampava outros organismos regionais já existentes e teria como objetivo reconhecer as condições geoeconômicas da região. Segundo Reis,525 promoveria o planejamento das atividades e a supervisão e controle da execução do plano que para tal fosse organizado. Em 1947, o deputado federal pelo Amazonas, Cosme Ferreira Filho, propôs que a valorização da Amazônia fosse realizada em duas etapas: pelo aproveitamento dos órgãos já existentes; e a pela adoção “de medidas de natureza mais ampla, com base científica e com fundamento no sentido histórico da própria evolução da Amazônia (...) ao invés de tentarmos improvisações e experiências.” 526
Foi do parlamento que surgiu o embrião do que viria a ser a solução institucional aplicada. A comissão parlamentar encarregada de estudar o caso amazônico apresentou projeto criando a Comissão Executiva do Plano de Valorização da Amazônia, vinculada ao Presidente da República, com um conselho técnico e de planejamento, incorporando organismos federais já existentes, organismo que finalmente foi instituído em 1953 após cinco anos de tramitação.527 Destaque-se que para efeito do dispositivo legal aprovado, abandonava- se o conceito clássico de Amazônia, ampliando sua área de abrangência.528
Efetivada a instalação da Spvea, em 1953, de logo decorreria a elaboração de um Programa de Emergência visando enfrentar as questões mais urgentes. Esse plano foi decretado pelo Presidente da República, vindo depois a elaboração do Primeiro Plano Quinquenal de Desenvolvimento da Amazônia, a ser examinado pelo Congresso. Ambos os planos foram realizados, mas o Congresso nunca examinou o plano quinquenal apresentado nos primeiros anos da década de cinquenta do século XX. Por meio do plano, diz Reis,529
525 REIS, Arthur Cézar Ferreira. A Amazônia e a integridade do Brasil, op. cit., p. 197. 526 Ibid., p. 198.
527 Os debates políticos dificultavam o prosseguimento da proposta, inclusive, quanto à sede do órgão, se em Belém ou em Manaus, até que em março de 1949, na Comissão de Constituição e Justiça da Câmara Federal, foi aprovado o projeto para a criação da Superintendência do Plano de Valorização Econômica da Amazônia como órgão federal, subordinado ao Presidente da República, sendo seus dirigentes nomeados com aprovação do Senado Federal.527 O projeto de lei foi aprovado no Senado em 1951, com emendas, retornando à Câmara dos Deputados e finalmente em 06 de janeiro de 1953, foi sancionada a Lei n.° 1.806 que dispôs sobre o Plano de Valorização Econômica da Amazônia, criando a Superintendência destinada à sua execução.
528 Pela Lei n.° 1.806/53 a área de atuação da Spvea compreenderia os Estados do Amazonas, Pará, os territórios federais do Acre, Amapá, Guaporé (hoje Estado de Rondônia) e Rio Branco (hoje Estado de Roraima), e, ainda, partes dos Estados do Mato Grosso, Goiás e Maranhão. (In: REIS, Arthur Cézar Ferreira. A Amazônia e a integridade do Brasil, op. cit., p. 198-207).
pretendeu-se responder a grande dúvida sobre a possibilidade de ser criada uma área de civilização avançada nos trópicos úmidos brasileiros.
A experiência da Superintendência de Valorização Econômica da Amazônia (Spvea) foi breve, diverso do necessário. Arthur Reis530 destaca que a questão possuia amplitude e complexidade, não sendo empreendimento que pudesse resultar do desejo imediatista de legisladores ou constituintes, e de antigo anseio da sociedade local. Duas razões básicas fundavam a decisão de criação do órgão, ressalta o autor: “o que diz respeito ao estabelecimento de condições iguais ao homem brasileiro nas várias regiões em que ele vive, e a que se refere à segurança nacional, no que essa segurança possa estar ferida pela ambição de potências mais desenvolvidas”.531 Em síntese, afirma Reis, com a autoridade de quem foi o primeiro superintendente do órgão de valorização federal, que
a valorização econômica da Amazônia é obra de natureza política, técnica e regional. É política, porque empreendimento do Estado e não a cargo da iniciativa privada [...] É técnica porque não pode ser promovida mantendo-se os sistemas de rotina até então em uso na região, antes exigindo (...) planos de ação, programas de trabalho de campo em bases que não sejam a resultante do empirismo [...]. É regional porque abrange uma vasta área do território, que, por suas potencialidades e consistência social, econômica, cultural, constitui região perfeitamente definida.532
Na lei criou a Spvea533, a valorização da Amazônia tinha como fins precípuos estimular melhores padrões sociais de vida e bem-estar econômico das populações da região e expandindo a riqueza do País. Para Reis,534 conforme o resultado a ser alcançado isto representaria, diretamente “a maturidade ou a imaturidade brasileira”. De certo modo, os conceitos que sustentaram posteriormente a justificativa, pelo movimento militar, para propor outro plano de desenvolvimento voltado para a Amazônia, podem ser identificados em relatórios oficiais do governo brasileiro, de 1954, quando a Superintendência do Plano de Valorização Econômica da Amazônia, ao traçar um programa de emergência afirmava que,
Desenvolver a Amazônia é [...] uma sorte de imperativos do destino nacional, completando áreas de clima e produção vertentes e alargando uma fronteira econômica e cultural cuja permanente proximidade do litoral
530 REIS, Arthur Cézar Ferreira. A Amazônia e a integridade do Brasil, op. cit., p. 179. 531 Ibid., p. 180.
532 Ibid., p. 207-208.
533 Lei n.º 1.806, de 6 de janeiro de 1953, art. 1°.
constitui uma limitação às possibilidades de desenvolvimento do país e uma ameaça à sua segurança e unidade.535
Na mesma proposta, em meio a uma dezena de recomendações na busca da promoção do desenvolvimento regional, o plano concluiu ser “necessário desenvolver cultural e industrialmente as cidades que são os atuais centros de vida social, política e econômica da Amazônia”.536 Ainda que as bases conceituais correspondessem aos melhores objetivos de desenvolvimento regional, o fato é que as ações implementadas, pelas razões mais diversas, não foram suficientes para evitar que as respostas fossem, mais uma vez, modestas, senão insignificantes, diante da ordem de grandeza do problema.
A intenção do constituinte, entretanto, não se confirmou na prática. O incentivo ao desenvolvimento regional não foi efetivado em decorrência de questões administrativas, como a falta de técnicos, a burocracia e a escassez de recursos financeiros, entre outros motivos, não prosperando. O projeto mais importante realizado durante a administração da Spvea foi a abertura da rodovia Belém-Brasília, concluída em 1960, que possibilitou a comunicação por via terrestre da Amazônia com o Centro-Sul do País e, principalmente com a capital federal, que estava sendo transferida para Brasília.537 Pelo que se vê, a tomar a opinião do respeitado autor, o que restou demonstrado foi a “imaturidade brasileira”, posto que a região Amazônica, comparando-se com outras regiões do País, continuou em situação desfavorável no que se diz respeito ao desenvolvimento.
Superada a fase getulista, tanto a de cunho ditatorial ou a decorrente de eleições diretas e democráticas, atingida a etapa do nacional-desenvolvimentismo com o governo Juscelino Kubitscheck de Oliveira, o deputado Francisco Pereira da Silva conseguiu aprovar lei federal criando uma região de porto livre, específica para a cidade de Manaus, capital do Estado do Amazonas. Embora sancionada pelo Presidente da República em 1957, a lei só foi implementada anos depois, mesmo assim, sem resultados satisfatórios. No amplo espaço amazônico, com abrangência para toda a região, persistia o modelo criado em razão do art. 199, da Constituição de 1946, sem obter o êxito pretendido.
Ao longo dos anos, ao tempo em que aumentavam os discursos que ressaltavam a importância da região e a necessidade de planos e programas para o seu efetivo
535 BRASIL. Superintendência do Plano de Valorização Econômica da Amazônia, Comissão de Planejamento, Programa de Emergência para 1954, Anexo A. In: MATTOS, Carlos de Meira (general). Uma Geopolítica pan-amazônica. Rio de Janeiro: Biblioteca do Exército, 1980. p. 178.
536 BRASIL. Superintendência do Plano de Valorização Econômica da Amazônia, op. cit., p. 183. 537 OLIVEIRA, Adélia Engrácia de, op. cit., p. 269.
desenvolvimento, também era ampliado o interesse de outros países sobre a Amazônia brasileira. Cobiça que, aliás, não era nova, pois faz parte do processo histórico da região, desde o seu descobrimento pelo homem europeu, considerando-se não ter havido nenhum plano de ocupação eficaz, capaz e suficiente de promover seu amplo desenvolvimento, nas décadas de cinquenta e sessenta do século XX. Embora não fosse recente e sem jamais ter se materializado em moldes mais concretos e efetivos, o interesse internacional motivava reações crescentes de estudiosos, nacionalistas e militares, servindo de pano de fundo, ao lado de outras questões da política interna do governo brasileiro, logo após o movimento militar de 1964, para a proposição de mais um plano de desenvolvimento para a Amazônia.
3.4 A ruptura democrática, as políticas desenvolvimentistas e os órgãos de