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A arte de contar história é uma prática milenar que pertencem ao patrimônio histórico da humanidade. Segundo Coelho (2000), o contar histórias emerge da necessidade do homem primitivo de entender e explicar os fenômenos da natureza.

Em se tratando especificamente dos contos de fada, várias são as discussões acerca de sua origem. Segundo Coelho (2000), os primeiros contos de fadas teriam surgido entre os celtas, povos bárbaros que, submetidos pelos romanos no século II a.C e século I da Era Cristã, se fixaram nas Gálias, Ilhas Britânicas e Irlanda. É importante ressaltar que, a princípio, sua origem não era concebida para crianças, pois se tratavam de narrativas complexas que descreviam situações dramáticas e acontecimentos. De acordo com Zilberman (2003, p. 48), esses só foram direcionados ao público infantil a partir do século XVII com Charles Perraut e no início do século XIX com os Irmãos Grimm.

Para Ariès (1981), as crianças, até o século XVII, eram tratadas como se não tivessem características nem necessidades próprias, o que indica a ausência de uma particularidade da infância e, consequentemente, elementos ou artefatos voltados para a criança, a exemplo de práticas educacionais específicas, vestuário, tratamentos médicos e da literatura infantil, o que

inclui os contos de fadas. Estes últimos foram inseridos, a princípio, como um veículo essencial na transmissão de lições morais, inclusive nos programas escolares.

Em relação à literatura infantil, Zilberman (2003, p. 137-139) aponta algumas particularidades desse gênero. Entre elas, destacamos:

1. Sua especificidade decorre diretamente de sua dependência a um certo tipo de leitor, a criança.

2. A constituição de um acervo de textos infantis fez-se por meio do recurso a um material pré-existente: os clássicos e os contos de fada. Foram estes últimos que se mostraram mais apropriados por dois aspectos: a) eles têm um conteúdo onírico latente [...]; b) abriga a presença do elemento mágico de um modo natural [...].

3.Se o conto de fadas se revelou o mais apto à formação de um catálogo de textos destinados às crianças, devido às qualidades mencionadas antes, isto significa que a literatura infantil somente merece esta denominação quando incorpora as característica daquele gênero.

Independente de sua origem, sabemos que fadas, reis, rainhas, lobos, castelos... o mundo mágico dos contos de fadas estão presentes na vida do ser humano desde a mais tenra idade quando aos embalos de acalentos e poemas cantados já entram no mundo ficcional através da voz da mãe e/ou de outros cuidadores.

São fios que tecem vidas atravessando florestas, desertos, bosques e reinos encantados rompendo as barreiras do mundo real com seus encantamentos movendo-nos em um mundo totalmente possível: o mundo dos contos de fadas.

Os contos de fadas são histórias que permitiram e permitirão sempre as mais inusitadas viagens pelo mundo imaginário. Mundo esse que nos faz compreender a vida. É a porta de um mundo onde as crianças ―vestem-se‖ de diferentes papéis, intervindo, estabelecendo relações, imaginando, criando e recriando o ambiente que a cerca. Em outras palavras, através dos contos, a criança vive temporariamente todos os encantos e desencantos que estes lhe propõem, multiplicando, assim, as suas alternativas de experimentar o mundo sem correr riscos. Para Brandão (2009, p. 121-122):

O prazer e a alegria de transitar por este universo mágico, para muitas crianças, iniciam-se quando, ainda muito pequenas, são embaladas, antes de dormir, com as mais diversas e interessantes histórias encantadas: Rapunzel, Branca de Neve, Chapeuzinho Vermelho, Cinderela, entre outros. [...] a expressividade oral e corporal e a música silenciosa contida nos seus suspenses e emoções levam a criança a adentrar no universo dos contos maravilhosos, os quais a envolvem no misterioso mundo da fantasia e, a cada viagem que faz, seu reino encantado da leitura está se formando, como na magia do caleidoscópio.

Nelas, a musicalidade da voz, a dinâmica do movimento, a dança corporal através dos gestos nos levam a possibilidade de realizarmos nossos desejos, vencermos os nossos conflitos. Assim, voz e gestos se unem numa ciranda encantada e misteriosa dando sentido ao mundo da criança. Assim, como o flautista de Hamelin49, as crianças são levadas pelo encantamento da voz do contador, personificado por Sherazade, Dona benta, Tia Anastácia, Velha Tontônia, dentre outros contadores que as seduzem com palavras e gestos costurando com fios invisíveis o real e o imaginário.

Não enveredando pela psicanálise, mas apenas para situar as dimensões constitutivas dos contos, Gillig (1999, p. 75) aponta que o conto de fadas coloca a criança diante de uma situação-problema cuja solução ela encontrará graças à sua capacidade de imaginar. Nesse sentido, através dos contos, projetando-se em seus personagens, as crianças vivenciam outras formas de viver e ver o mundo, o que uma simples existência não daria conta (AMARILHA, 1997).

Nessa mesma linha de pensamento, Bruno Bettelheim (2001), um dos principais estudiosos da psicanálise, defende que o leitor busca nas narrativas não apenas o entretenimento, mas um significado para sua própria existência. Para o autor, os contos de fadas são a melhor literatura infantil, pois este tipo de história dá a criança explicação aos seus conflitos internos.

Assim, as aventuras vividas nesse mundo ficcional levam as crianças a encontrarem respostas para as inúmeras indagações acerca do seu ser e estar no mundo. Vale ressaltar que o mundo mágico presente nos contos de fadas é o que mais se aproxima do universo infantil, à medida que ambas falam a mesma linguagem simbólica e criativa.

Coelho (1991a, p.59) afirma que:

A força da história é tamanha, que narrador e ouvintes caminham juntos na trilha do enredo e ocorre uma vibração recíproca de sensibilidade, a ponto de diluir-se o ambiente real ante a magia da palavra, que comove e eleva, enquanto a ação se desenvolve e participamos dela, sem que ocorra alienação, num processo essencialmente recreativo.

49 O Flautista de Hamelin é um conto folclórico, reescrito pela primeira vez pelos Irmãos Grimm e que narra a

Vemos, portanto, que a contação de histórias é um momento mágico em que leva tanto o narrador como o ouvinte para um mundo completamente mágico e possível onde se entrelaçam emoções, conflitos, sentimentos, dentre outros elementos importantes na constituição do sujeito.

Mas, lamentavelmente, conforme afirma Benjamin (1994, p. 203), essa prática da contação de história está sendo esquecido a cada dia. Para o autor,

Cada manhã recebemos notícias de todo o mundo. E, no entanto, somos pobres de histórias surpreendentes. A razão é que os fatos já nos chegam acompanhados de explicação. Em outras palavras: quase nada do que acontece está a serviço da narrativa, e quase tudo está a serviço da informação.

Levando em consideração o comentário tecido pelo autor, hoje, as histórias surpreendentes traduzidas pelos antigos narradores estão sendo substituídas pelos meios midiáticos, cerceando, principalmente na criança, a possibilidade de criação, uma vez que emitem informações velozes, práticas e acabadas. Na concepção de Benjamin, a preciosidade da narrativa é a possibilidade do novo, do único, do original, que rompe com os modelos. As considerações de Benjamin apontam para a importância de repensarmos a forma como tem sido tratada os contos de fadas no contexto escolar.

Afora as dimensões até então discutidas, não podemos deixar de evidenciar que a contação de histórias é, sobretudo, um recurso crucial no desenvolvimento narrativo da criança, pois, como já tratamos neste estudo, é pelo gênero do discurso que a criança entra na linguagem. Pela contação de histórias cria-se a condição para que a narrativa seja percebida pela criança como um encadeamento de fatos que envolvem não só a fala, mas também os gestos na sua constituição.

Lamentavelmente, o tratamento dado aos contos ou a contação de história no cotidiano escolar tem sido marcado por práticas para acalmar as crianças ou como instrumentos para ensinar gramática. As práticas por nós evidenciadas no momento da contação mostram a preocupação de professores com a estrutura narrativa, melhor, com a reprodução de histórias contadas. Não há, portanto, um lugar para a fala da criança, ou seja, para sua maneira própria de dizer as coisas, embora se fale tanto nas especificidades e particularidades da infância. Para Brandão (2009, p. 119),

[...] se olharmos as práticas cotidianas, esses discursos nem sempre se legitimam, uma vez que continuamos assistindo à fragilidade e a recorrência de ações educativas pautadas em práticas mecanicistas, que em nada contribuem na formação desse sujeito que se pretende nos discursos oficiais. Na verdade, o que presenciamos são práticas pedagógicas insólitas, ou seja, toda a ação pedagógica tem caminhado em sentido contrário a formação do sujeito leitor.

De acordo com nossa experiência como professora e pesquisadora, observamos que são raros os momentos que se logram o prazer e o encantamento que o conto proporciona, nem tampouco a sua importância na entrada da criança na linguagem. Sabemos que a maioria das atividades que são realizadas é basicamente voltada para exploração de conteúdos, ou seja, a pedagogização dessa prática através de cobranças de atividades sem significados com vistas na ―formação do leitor‖, como se essas crianças já não lessem e não produzissem narrativas.

Essa pedagogização com que os professores tem conduzido esses momentos da contação pode levar a criança a distanciar-se desse mundo ficcional e, consequentemente, ao prazer de ler e contar.

Diante disso, reconhece-se a necessidade da presença da contação de histórias na escola cabendo aos professores abrirem espaço para os dizeres e saberes da criança e para a expressão livre, apresentando a narrativa de uma forma estimulante, tornando os livros tão acessíveis e prazerosos quanto os brinquedos.

Para Debus (2006, p. 123):

A leitura literária no cotidiano da Educação Infantil não é pensada só como vôo solitário (quando a criança individualmente lê as imagens ou constrói a narrativa pela voz do professor). Ela é revoada de um bando (professor e crianças) para um mesmo local: o imaginário, onde se encontra mais do que um território mais quente, pois reside ali a festividade com que a literatura pode presentear o leitor.

Partindo desses pressupostos, entendemos que é dessa forma que devemos conduzir o trabalho com a contação de histórias, estimulando a oralidade, a criatividade, a inventividade e a curiosidade da criança. A questão aqui não é condenar as atividades pedagógicas desenvolvidas a partir das histórias contadas, mas, propor situações que contribuam com o que parece central: o desenvolvimento do discurso narrativo da criança a partir dos elementos acima citados.

Benzer Belgeler