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Estudar a fisionomia, a estrutura, as funções e as articulações das vilas e cidades em tempos idos não é fácil, como assinalado anteriormente, sobretudo pela indisponibilidade de dados. Apesar dessa dificuldade, as pesquisas empreendidas no âmbito da Geografia Urbana retrospectiva têm ajudado o entendimento do sistema urbano atual e acrescentado cenários urbanos mais diversificados espacial e culturalmente, o que pode ser uma importante ferramenta de planejamento territorial. No alvorecer do século XIX haviam poucas cidades no Brasil: de acordo com Prado Júnior (1994, p. 306), Salvador, Paraíba, Olinda, Natal, São Luís do Maranhão, Belém do Pará, Mariana, São Paulo, Rio de Janeiro e Cabo Frio detinham essa posição na rede de relacionamentos, em formação. Além de sediar a primeira cidade da América do Sul, o atual território da Bahia possuía quantidade relevante de vilas. Como se observa na Figura 07, a maioria das vilas baianas foi criada no século Setecentos. De aproximadamente 30 vilas instituídas nos três primeiros séculos de possessão territorial lusitana, pelo menos 20 vilas21 foram erigidas nesse período - quase 67% do total.

Outro aspecto a ser destacado nos mapas é a disposição dos aglomerados humanos ao longo da costa atlântica e dos rios, reforçando a tese da importância que tiveram os recursos naturais na formação das várias economias regionais no Brasil.

Foi por meio desses recursos que o País ampliou decisivamente sua produção de

riquezas e consolidou seus laços de intercâmbio comercial com o exterior (MATOS, 1995).

21 Durante o Setecentos foram criadas na colônia 118 vilas, sendo que 57 são do terceiro quartel desta

71 Figura 07 - Província da Bahia, vilas fundadas - séculos XVI a XIX.

72 Sendo assim, a morfologia do relevo e a existência de corredores de água foram os primeiros fatores a condicionar a estruturação da rede de localidades na Colônia e, por conseguinte, na província22. Convém notar que a configuração da rede urbana da Bahia atual também reflete essa geografia física.

A formação de vilas era um passo decisivo para o povoamento de uma zona, pois significava que a ocupação era concreta, fixando gente na terra e instituindo a política de representação local. A criação de vilas representava um esforço de controle concreto administrativo de uma região, mesmo quando ali as atividades eram extensivas ou de exploração dispersa (como o garimpo) (ZORZO, 2001, p. 42-43). O crescimento e dispersão da população, o desenvolvimento de atividades econômicas e a inércia produtiva regional figuraram entre os fatores que condicionaram o aumento da vida urbana na província. A extração de ouro e diamantes na Chapada Diamantina e em Minas Gerais contribuíram para esse quadro. Se no Setecentos ampliou-se consideravelmente a quantidade de vilas, foi no século XIX que começou a ser difundido na Bahia um modo de vida tipicamente urbano, para além do Recôncavo e da faixa litorânea. O primeiro recenseamento realizado pelo governo imperial do Brasil - no ano de 1872 - contabilizou na província da Bahia 72 municípios,169 freguesias e 11 cidades. Se em 1797 havia 28 vilarejos, o referido censo identificou 61 vilas. Judicialmente, naquele momento, a Bahia era subdividida em 32 comarcas, 49 termos, 169 paróquias e 285 distritos de paz (FERREIRA, 1875).

A análise dos dados apresentados acima permite inferir que as mudanças mais significativas do ponto de vista da reestruturação das unidades espaciais da Bahia ocorreram no século XIX. O maior número de emancipações políticas23, o crescimento populacional acompanhado pela dispersão da população no território, a extração aurífera e o início do uso do transporte ferroviário foram fatores decisivos na institucionalização de novas sedes administrativas, ampliando assim a ação política do governo nos quatro quadrantes da província.

Além do peso demográfico de Salvador no alvorecer do século XIX, faz-se importante ressaltar o número de vilas presentes na província da Bahia no primeiro quartel desse século. No ano da independência política do Brasil, a Bahia era a província mais urbanizada do país, pois havia nada menos que 40 vilas em seu

22 Os antigos nomes dessas vilas encontram-se no Anexo 1.

23 “[...] a criação de municípios denota, de certa maneira, a relevância de grupos locais, junto à esfera

do executivo provincial, que passa a exigir mais atenção e recursos, e de certa maneira, autonomia administrativa” (PORTO & MATOS, 2013, p. 309).

73 território, isto é, mais de 18% das vilas do Brasil de então (AZEVEDO, 1994, p. 55). A emancipação política contribuiu para o surgimento de cidades como meio para fortalecer a unidade nacional (Ibid. p. 52). A Tabela 03 ilustra as mudanças ocorridas no ultimo quartel do Oitocentos nas fronteiras internas da região denominada atualmente de Oeste Baiano, reflexo do que teria ocorrido na Bahia, como um todo. Em 1872, existiam, nessa porção da província, 7 municípios, mas em pouco mais de 25 anos as disputas políticas local e regional os tornariam em 11 unidades administrativas.

Tabela 03 - Oeste Baiano, evolução populacional - 1872 e 1900

Municípios 1872 Municípios 1900

PA R (%) P (%) PA R (%) P(%)

Campo Largo 22.949 17,51 1,66 Campo Largo 19.095 9,65 0,90 Angical 7.086 3,58 0,33 Barreiras 9.270 4,69 0,44 Carinhanha 7.511 5,72 0,54 Carinhanha 11.602 5,86 0,55 Barra do Rio Grande 11.525 8,80 0,84 Barra do Rio Grande 17.804 9,00 0,84 N. S. do Riacho do Pilão Arcado 17.971 13,72 1,30 Pilão Arcado 23.114* 11,68 1,09

Rio das Éguas 36.678

28,00 2,66 Correntina 33.350 16,86 1,57 Sant`Ana dos Brejos 15.112 7,64 0,71 Sta Maria da Victoria 8.197 4,14 0,39

Santa Rita do Rio Preto 15.658 11,94 1,13 Santa Rita 24.187 12,23 1,14 Urubu 18.774 14,32 1,36 Urubu 29.001** 14,66 1,37 Oeste Baiano 131.006 100 9,50 Oeste Baiano 197.818 100 9,34 Bahia 1.379.616 xxx xxx Bahia 2.117.956 xxx xxx

Notas: PA=População Absoluta/R=Região/P=Província/Estado.

*=Corresponde também à população do município de Remanso, emancipado nesse ano.

**=Corresponde também à população dos municípios de Bom Jesus da Lapa e Oliveira dos Brejinhos, emancipados, respectivamente, em 1890 e 1891.

Fonte: IBGE, 1872 e 1900.

Benzer Belgeler