Enfim ... por meio das relações com as pessoas, pudemos observar que os sons, balbucios e as palavras que Érick utilizava para comunicar-se, foram cada vez mais específicos para determinadas pessoas e situações. Através destes e de seus movimentos corporais, os profissionais da escola e seus colegas passaram a identificar o que ele estava querendo comunicar e ele conseguia manifestar seus desejos, sentimentos e pensamentos.
Com o passar do tempo, Érick procurava os colegas quando queria chamar a atenção para si, quando queria brincar, quando queria dar sua opinião, quando queria algum tipo de auxílio. E, os colegas ajudavam, conversavam e brincavam com ele sem receio e entendendo suas possibilidades de compreensão e participação. As pessoas com quem conviveu na escola aprenderam a entender as formas de comunicação de Érick e o questionavam para saber sua opinião sobre os acontecimentos e também para confirmar aquilo que ele estava querendo manifestar à outra pessoa. Quando, mesmo assim não o compreendiam, perguntavam para outra pessoa o que ele estava querendo dizer.
O contato esporádico com pessoas que não faziam parte de seu convívio diário ficou mais freqüente para o aluno, o que o acostumou a se relacionar com estas pessoas. Assim, só ficava tímido nos primeiros momentos em que conhecia uma nova pessoa, depois ficava descontraído na presença dela.
Érick também se acostumou em estar no meio de várias pessoas, como um grupo grande de crianças ou com a platéia que o assistia na apresentação de fim de ano.
Os profissionais da escola perceberam que era necessário que ele ficasse na escola no dia que sua professora de referência precisava faltar. Assim, Érick passou a não mais se incomodar de ficar com qualquer outra professora.
A relação de Érick consigo mesmo progrediu na medida em que ele foi incentivado a participar das atividades da forma como lhe era possível utilizando seu corpo e, foi proporcionado a ele que experimentasse várias posições e lugares para estar. Ele movimentava mais o seu corpo para tocar e tentar pegar determinados objetos e pessoas.
A possibilidade de circular pelos diversos espaços da escola permitiu que Érick aprendesse a saber e comunicar aos outros onde era cada ambiente da escola. Também aprendeu em que lugar se guardava os materiais de uso pessoal e coletivo do cotidiano. Érick foi incentivado a brincar na areia e nos brinquedos do parque, fatos que colaboraram para ele experimentar movimentar-se no espaço de maneiras diversificadas recebendo vários estímulos sensoriais. Ir ao parque passou a ser uma de suas atividades prediletas.
Érick se locomovia pelos espaços da escola na maioria das vezes em seu carrinho. A professora Marcela o conduzia principalmente nos lugares acidentados, mas ela dividia esta tarefa com os colegas do aluno e demais profissionais.
Ele, como os demais alunos, rodiziavam o lugar em que sentavam na sala de aula. A professora Marcela considerava importante todos estarem se relacionando com colegas diferentes. Porém, ela sempre tomava o cuidado de não deixá-lo de costas para a porta e para a professora para ele poder ver o que estava acontecendo.
Érick realizava as atividades no tempo o qual a professora planejava para tal, considerando suas características. Conforme realizava diariamente determinadas atividades, como a de se alimentar, foi diminuindo o tempo necessário para realizá- la.
O hábito de cantarem músicas e realizarem brincadeiras de seqüência numérica e rítmica, contribuiu para ele aprender a acompanhar o ritmo das brincadeiras e a contar. Igualmente, o hábito de realizarem a roda de conversa contribuiu para que ele aprendesse a mostrar o cartão correspondente da seqüência da rotina do dia. Esta passou a ser conhecida pelo aluno que se manifestava para participar de acordo com o que era realizado.
Era oferecida ao Érick, a possibilidade dele tocar e manipular, da forma como lhe era possível, vários dos objetos do cotidiano escolar, mesmo quando ele não tinha movimentos adequados para utilizá-lo, como no caso da tesoura. Esta atitude contribuiu para que ele aprendesse a conhecer a função dos objetos e demonstrar a intenção de realizar movimentos para utilizá-los de acordo com sua função.
Érick, sua professora e seus colegas procuravam uma forma melhor de posicionar os objetos que manuseava para facilitar sua utilização. Quando necessário, eles o auxiliavam segurando partes do seu corpo para que o movimento necessário fosse realizado ou segurando alguns objetos para que ele pudesse realizar parte da atividade ou os fixando ou ainda, aumentando o tamanho ou mudando a forma dos objetos.
Com o contato freqüente com tinta, cola e areia, ele passou a não ter mais ânsia desses materiais porque sabia que após o seu uso lavaria as mãos. Passou também, a não se incomodar tanto quando outras crianças utilizavam materiais ou brinquedos seus. A intervenção dos profissionais colaborou para que ele, mesmo com ciúmes, compreendesse a necessidade de emprestar e compartilhar os objetos do cotidiano escolar, sendo que todos deveriam tomar cuidado com os pertences dos outros.
Érick teve contato com vários brinquedos, jogos e objetos. Isto colaborou para que ele aprendesse a compreender as regras e algumas formas de brincar. As brincadeiras de faz-de-conta foram algumas das atividades em que ele teve um envolvimento grande, prazer em realizá-las e demonstram o progresso do desenvolvimento cognitivo do aluno.
A brincadeira do pimpão, que era realizada habitualmente na escola, proporcionou com que ele tivesse que manter a atenção, compreender a seqüência numérica e dos movimentos necessários que deveriam ser realizados quando chegasse sua vez. Além disso, estimulava-o a realizar movimentos faciais e esboçar sons para pronunciar o número correspondente da seqüência.
Ao participar das atividades de pintura com giz-de-cera, tinta, cola, etc, Érick teve a possibilidade de compreender algumas noções de quantidade, de cores, e de espaço. Com o passar do tempo, tinha a nítida intenção de pintar no espaço determinado.
Participando da merenda, ele experimentou vários alimentos que permitiu-o saber quando eles eram doces, salgados, azedos e a reconhecer quando os alimentos estavam quentes ou gelados. Recusava-se a comer o alimento quando, pelo seu aspecto, percebia que não gostava.
Como todos os alunos, tinha dia que ele era ajudante da professora na distribuição dos materiais aos alunos. Um colega auxiliava-o empurrando o seu carrinho.
Érick na vivência cotidiana na escola teve a oportunidade de compreender regras do convívio social da escola, regras das atividades e de suas seqüências, realizar associações entre figuras, pessoas e situações que já viveu ou viu em algum lugar.
No seu cotidiano escolar, Érick estabeleceu relações com pessoas, com espaço, com tempo, com objetos, com atividades de forma indissociável e interdependente. Estas relações contribuíram para o seu desenvolvimento e para a sua aprendizagem porque respeitaram e valorizaram suas possibilidades de participação, porque colocaram em funcionamento seus aspectos afetivos, sensoriais, motores e cognitivos, porque ele foi considerado em sua singularidade ... porque ele viveu um cotidiano escolar que acreditou que ele podia aprender!