Ao concluir esta pesquisa, consideramos importante demarcar seu processo de construção, que partiu do interesse da pesquisadora, desde sua inserção no curso de Pedagogia até seu início de carreira como pedagoga atuante em uma escola registrada como do campo. O interesse em investigar as atuações dos pedagogos inseridos no meio rural foi tomado durante o mestrado. A motivação derivou da seguinte questão: Por que é importante perguntar quem são os pedagogos atuantes nas escolas do campo da Região dos Inconfidentes?
Advindo disso, investigamos quem são estes pedagogos, quais concepções carregam sobre o impacto de suas formações e atuações, perante os desafios nas escolas municipais do campo, para, assim, entendermos quais identidades os caracterizam. Trilhamos nossa caminhada através de nosso objetivo geral: identificar e analisar a identidade do pedagogo atuante nas escolas municipais do campo. Para tanto, os objetivos específicos sinalizaram as ações fundamentais para responder a questão- problema.
Os dez pedagogos convidados a participar de nossa pesquisa foram aqueles que trabalharam no contexto das escolas do campo há mais tempo e/ou carregaram experiências na área da docência e trabalharam há mais tempo nas escolas do meio rural. As entrevistas se configuraram como um estágio importante do nosso trabalho, pois foi a partir das narrativas dos sujeitos que construímos as categorias de análise sobre os pedagogos das escolas do campo. Decorreu, a partir daí, a compreensão das análises encontradas, desencadeando nos resultados finais de nosso trabalho e apontando para novas questões que abrem a possibilidade de novos caminhos a serem trilhados neste campo de estudo.
É preciso compreender que cada um destes pedagogos carrega uma história de vida, cultura, anseios, experiências pessoais e profissionais e tudo isso faz parte da construção de sua identidade. Eles são, também, nossos interlocutores, já que essas narrativas são práticas discursivas, levantam questões sobre o papel do pedagogo e suas atribuições na escola do campo; o trabalho pedagógico desenvolvido a partir dos projetos pedagógicos e dos livros didáticos destinados aos alunos do campo; ao
transporte escolar oferecido; a estrutura física destas escolas; as relações interpessoais no ambiente escolar, dentre outras questões implícitas em cada narrativa.
A análise sobre o pedagogo e a diversidade de funções na escola do campo mostrou como ele assume muitas atribuições decorrentes do fato da direção da escola não ser fixa, ou seja, alguns diretores administram mais de uma escola, distrital ou não, e, consequentemente, o pedagogo, ao fazer seu trabalho rotineiro, assume o trabalho administrativo e pedagógico concomitantemente. É possível que esse fato interfira na postura do pedagogo ao se ver como apoio dos professores ou da escola, ou pode também gerar o desprazer no trabalho devido ao acúmulo de atividades.
Os desafios colocados no cotidiano destes pedagogos são encarados de forma construtiva. Interessante que, neste grupo, se encontram pedagogos com menos tempo de carreira e com mais tempo também. Outro aspecto relevante se refere às angústias e inquietudes de alguns pedagogos por não conseguirem soluções para problemas presentes na escola. Estes alegaram que o fato da escola estar isolada dificulta o atendimento/apoio para alunos que necessitam de atendimento especial, de outro profissional ligado à área de inclusão escolar.
Mesmo para aqueles pedagogos que já trabalham nas escolas do campo há mais de cinco anos, percebemos o quanto a discussão da Educação do Campo é pouco trabalhada e discutida no interior dessas escolas e nas secretarias municipais de Educação, assim como o papel que o pedagogo e o gestor educacional (diretor) assume nas escolas do campo.
Nesta perspectiva, entendemos que esses elementos são parte de um debate mais geral, proveniente dos currículos do curso de Pedagogia que, segundo Brzezinski (2002), contribuem para a múltipla identidade do pedagogo.
De todos os nossos entrevistados, apenas um teve, em sua matriz curricular, durante sua formação inicial, a disciplina voltada para a Educação do Campo. A maioria estudou em universidades particulares próximas ou na Região dos Inconfidentes e muitos destes, em seus inícios de carreira, trabalharam como coordenadores pedagógicos das escolas do campo. Com isso, verificamos que os currículos destes cursos de Pedagogia enfatizaram outras temáticas educacionais e desconsideraram a realidade presente nas escolas da Região dos Inconfidentes ao não perceberem o quantitativo de escolas distritais e do campo. Também, ao analisarmos as narrativas,
constatamos o quanto essa formação inicial e a ausência de discussão sobre a temática do campo impactou na inserção destes profissionais nas escolas do campo.
Nossa análise também abarcou o pedagogo desde a satisfação e a relação com o aluno, o professor e algumas das especificidades da Educação do Campo no que tange às estruturas das escolas e transportes (acesso).
É preciso reconhecer também que as estruturas das escolas do campo precisam ser pensadas diante das necessidades da comunidade escolar local, sem influência de modelos de escolas urbanas. Essas escolas não podem ficar isoladas, tanto no aspecto geográfico (condições de acesso e comunicação), quanto no administrativo e pedagógico, é preciso romper com o modelo de “escolinha” e “isoladinha”.
Concordamos com Arroyo (2009), quando comenta a respeito da palavra “adaptação”, frequentemente utilizada nos documentos e nas narrativas dos nossos pedagogos. Não temos que adaptar currículos, calendários, propostas e, assim, acreditamos que as escolas do campo necessitam de mais autonomia e direito de forma a construir seus ideais e ações. É preciso desconstruir o discurso no qual o modelo de escola urbana é o ideal e que a cidade é o melhor lugar para se viver, que o aluno do campo é pacato, receoso e que possui uma identidade enquadrada e única.
É fundamental, também, demarcamos a especificidade da escola do campo, no que tange aos projetos pedagógicos e os livros didáticos, um dos instrumentos de trabalho dos pedagogos do campo. Sobre o livro didático, nossos entrevistados teceram críticas: simplificado, resumido, vago, confuso e limitado. Os livros específicos para a Educação do Campo fazem parte de uma realidade recente, em 2011, criada pelo PNLD Campo. Rocha (2014) avalia que é preciso que os sujeitos do campo discutam e sugiram propostas, enquanto Arboit e Pacheco (2013) afirmam que os livros precisam acabar com a dicotomia cidade-campo e é imprescindível uma boa formação teórica e política do professor. A escolha do livro didático para as escolas do campo também não pode ser realizada sem o retorno à equipe PNLD Campo, pois é preciso dialogar e propor melhorias.
Acreditamos que tanto pedagogos quanto professores precisam de uma formação inicial e continuada na temática da Educação do Campo para que possam desenvolver projetos pedagógicos que não se resumam a plantar uma horta com os alunos ou desenvolver um projeto na área de Educação Patrimonial. É necessário romper com a
visão urbanocêntrica presente nas concepções de muitos educadores, inclusive entre os educadores do campo.
Enfim, essa pesquisa sobre os pedagogos que atuam nas escolas do campo da Região dos Inconfidentes nos permitiu adentrar e conhecer melhor os discursos presentes sobre a Educação do Campo na região e, através das narrativas dos pedagogos, conhecemos melhor quem eles são, como atuam, o que pensam sobre o trabalho que desenvolvem e o que almejam em relação ao contexto das escolas do campo. Entendemos que não existe uma identidade única para o pedagogo que trabalha nas escolas do campo, e que todos eles conjugam diversas formas identitárias em construção.
Nessa direção, percebemos a necessidade de instalar um fórum de discussão na Região dos Inconfidentes sobre as escolas do campo, contemplando os pedagogos do campo, de forma que se faça um debate mais coerente e real sobre a atuação dos mesmos neste contexto educacional. Acreditamos que nosso trabalho traz uma contribuição para a área e desejamos que ele possa instigar novas pesquisas a partir dos dados aqui levantados.
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