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Risk yönetimi ve risk ağırlıklı tutarlara ilişkin açıklamalar 1.GBA - Banka’nın risk yönetimi yaklaşımı

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10. Risk yönetimine ilişkin açıklamalar

10.1. Risk yönetimi ve risk ağırlıklı tutarlara ilişkin açıklamalar 1.GBA - Banka’nın risk yönetimi yaklaşımı

Em agosto/2007, o Instituto de Desenvolvimento do Trabalho (IDT), divulgou a pesquisa "O emprego doméstico em Fortaleza: uma análise de perfil e condições de trabalho", relativa ao período de 2000 a 2006. 71

Nesta pesquisa foram levantados dados sobre a quantidade de profissionais envolvidos nesta atividade, contingente de homens e mulheres,

70NOTA TÉCNICA 25 – Incentivo à formalização do emprego doméstico, p. 7. Disponível em www.dieese.gov.br, acesso em

19-11-2007, às 14h 15m 00s.

71 IDT - O emprego doméstico em Fortaleza: uma análise de perfil e condições de trabalho. Disponível em: <www.idt.org.br>. Acesso em: 19 nov. 2007, às 21h 05m 00s.

procedência, grau de instrução, idade, benefícios recebidos, registro na carteira de trabalho e na previdência social.

Em 2006, 63.377 pessoas se identificaram como trabalhadores domésticos em Fortaleza, representando este número 7,27% do total de ocupados na cidade. Este contingente de trabalhadores se constitui na terceira força em termos de ocupação, perdendo apenas para os empregados particulares e os autônomos.

O perfil do trabalhador doméstico na cidade de Fortaleza é caracterizado por ser do sexo feminino, nascida na capital, com baixo grau de instrução e idade entre 20 e 49 anos. Na sua maioria não possui a carteira assinada, não tem registro na previdência social, não recebe nenhum benefício extra e percebe até um salário mínimo.

TABELA 8 - População ocupada, por categoria ocupacional – Fortaleza 2000/2006

Categorias Ano 2000 2006 % Absoluto % Absoluto Ocupados 663.377 871.761 Assalariados 70,30 466.354 66,44 579.199 Autônomos 26,27 174.269 30,68 267.456 Empregados domésticos 7,21 47.829 7,27 63.377 Outros 3,43 22.754 2,88 25.106

Fonte: Pesquisa Direta – IDT (2007).

Nota(1): Empregado público, doméstico e particular.

Nota(2): Empregador, membro da família sem remuneração e profissional liberal.

Um dado interessante, apresentado pela pesquisa, é que das 63.377 pessoas que se identificaram como trabalhadores domésticos, 58% delas haviam nascido em Fortaleza (36.676); 32% migraram do interior do estado (20.591); 8% vieram de outros estados da federação (4.842) e 2% são provenientes de outros municípios que compõem a Região Metropolitana de Fortaleza – RMF (1.268). Estes números vêm desmistificar a idéia de que a maior parcela desses trabalhadores é constituída por pessoas que vieram do interior do estado em busca de trabalho na capital, mostrando que a maior parcela de pessoas que ocupam o emprego doméstico nasceram mesmo em Fortaleza (Tabela 8).

TABELA 9 - Empregados domésticos ocupados, por faixa etária – Fortaleza 2000/2006 Faixa Etária Ano 2000 2006 % Absoluto % Absoluto 10 - 19 16,23 7.763 9,68 6.135 20 - 29 32,44 15.516 28,43 18.019 30 - 39 24,09 11.522 25,18 15.958 40 - 49 16,29 7.791 22,49 14.253 > 50 10,95 5.237 14,22 9.012 Total 100,00 47.829 100,00 63.377

Fonte: Pesquisa Direta – IDT (2007).

Mesmo representando uma das principais formas de inserção no mercado de trabalho, especialmente para os mais jovens, a participação desse grupo diminuiu no emprego doméstico no período compreendido entre 2000 e 2006. No mesmo período é possível observar um crescimento significativo na participação de pessoas com idade superior a 40 anos, segmento este que por tradição encontra menos oportunidades de emprego no mercado (Tabela 9).

Uma explicação mais plausível para esta diminuição da participação juvenil no emprego doméstico deve-se a própria evolução do mercado de trabalho, que tem oferecido mais oportunidades para esse segmento, nos mais diversos setores de atividade econômica, uma vez que os jovens ocuparam 92,98% (15.775 vagas) dos empregos formais gerados na Capital Cearense, em 2006, segundo o Cadastro Geral de Empregados e Desempregados – CAGED, do Ministério do Trabalho e Emprego. 72

TABELA 10 - Empregados domésticos ocupados, por gênero – Fortaleza 2000/2006 Variáveis Ano 2000 2006 % Absoluto % Absoluto Mulheres 91,97 43.988 93,81 59.454 Homens 8,03 3.841 6,19 3.923 Total 100,00 47.829 100,00 63.377

Fonte: Pesquisa Direta – IDT (2007).

Em 2006, 93,81% dos trabalhadores domésticos de Fortaleza são do sexo feminino, percentual condizente com o perfil observado para esta categoria em nível nacional em 2004 (93,3% dos ocupados) - Tabela 10.

72IDT - O emprego doméstico em Fortaleza: uma análise de perfil e condições de trabalho. p. 17. Disponível em:

Verificou-se ainda que 24,41% das trabalhadoras são mulheres chefes de família (14.513), enquanto que 45,02% dos homens (1.766) se apresentam nesta situação. Em números reais, o contingente de trabalhadores domésticos em Fortaleza, que assumiu o papel de chefe de família, cresceu de 17,35% (2000) para 25,69% (2000), sendo entre as mulheres, de 15,68% para 24,41.

Entre a parcela de empregados domésticos que moravam em seus próprios locais de trabalho, houve uma redução de 22,26%, em 2000 (10.647), para 8,70%, em 2006 (5.514). Esta diminuição pode ser creditada à maior inserção desses trabalhadores na condição de chefes de família, passando a ter residência própria, como a menor participação de trabalhadores advindos do interior do estado, que freqüentemente moram nas residências em que trabalham.

TABELA 11 - Empregados domésticos jovens e adultos ocupados, por grau de instrução – - Fortaleza 2000/2006 Variáveis Ano 2000 2006 % Absoluto % Absoluto Analfabeto 10,17 4.864 6,28 3.980 Alfabetizado 4,50 2.152 4,31 2.732 Ensino fundamental 73,11 34.968 62,08 39.344 Ensino médio 11,94 5.711 26,86 17.023 Nível superior 0,28 134 0,47 298 Total 100,00 47.829 100,00 63.377

Fonte: Pesquisa Direta – IDT (2007).

Verificamos pelo perfil apresentado em 2006, que a maioria destes trabalhadores possui baixa escolaridade, pois 72,67% dessas pessoas (46.056) tinham, no máximo, o ensino fundamental. Comparado com 2000, observamos um avanço significativo nesse perfil educacional, uma vez que naquele ano, 87,77% dos empregados domésticos de Fortaleza (41.984) apresentavam esse mesmo nível de escolaridade.

Vale destacar a redução do número de analfabetos, de 10,17% para 6,28%, em 2006, que representam 3.854 adultos e 106 jovens, e o aumento de 68% entre 2000 e 2006, entre aqueles que têm o nível superior (Tabela 11).

TABELA 12 - Empregados domésticos jovens e adultos ocupados, com carteira de trabalho assinada – Fortaleza 2000/2006 Carteira de Trabalho Ano 2000 2006 % Absoluto % Absoluto Assinada 13,91 6.653 16,57 10.502 Não assinada 86,09 41.176 83,43 52.875 Total 100,00 47.829 100,00 63.377

Fonte: Pesquisa Direta – IDT (2007).

Pouco mais de 16% dos trabalhadores domésticos de Fortaleza possuem carteira de trabalho assinada. Este número se mostra inferior à média registrada para o Brasil em 2004, que era de 25,8%, mas ainda superior à média nordestina naquele mesmo ano, que foi de 14,6% (Tabela 12).

Entre 2000 e 2006, verificou-se que foram geradas 15.548 vagas para trabalhador doméstico em Fortaleza, o que equivaleu à adição média anual de 2.591 novos postos de trabalho assalariado. Deste montante, houve uma ampliação média anual de 642 vagas com carteira assinada para 1.949 sem carteira, o que equivale dizer que a cada quatro vagas de emprego doméstico geradas, três não possuíam registro em carteira. A constatação dessas estatísticas mostra que a maior parcela dos empregados domésticos da capital cearense atuam na informalidade, o que dificulta que esses trabalhadores tenham acesso aos direitos e benefícios trabalhistas. 73

TABELA 13 - Jornada de trabalho do empregado doméstico, segundo a posse da carteira de trabalho

assinada – Fortaleza 2000/2006

Variáveis %

2000 2006

Com carteira assinada

Média 46,78 47,12 Mediana 48,00 48,00 Moda 48,00 48,00 Sem carteira assinada

Média 46,11 44,47 Mediana 48,00 44,00 Moda 48,00 44,00

Fonte: Pesquisa Direta – IDT (2007).

Esta categoria padece com as longas jornadas de trabalho. Em Fortaleza verificou-se que, em 2006, 31.365 profissionais domésticos enfrentavam uma jornada de trabalho superior a 44 horas semanais. No entanto, comparando a participação dos empregados domésticos com esta jornada de trabalho, de 2000

73

IDT - O emprego doméstico em Fortaleza: uma análise de perfil e condições de trabalho. p. 27. Disponível em <:www.idt.org.br>. Acesso em: 19 nov. 2007, às 21h 05m 00s.

para 2006, ela caiu de 57,82% para 49,49%, o que proporcionou uma redução do tempo médio de trabalho semanal, de 46,20 para 44,90 horas.

Chama atenção o fato de que os empregados domésticos com carteira assinada apresentam uma maior jornada de trabalho (47,12 horas) quando comparados aos trabalhadores sem carteira assinada (44,47 horas). Obtemos aqui uma clara sinalização de que o empregador, ao conceder os benefícios trabalhistas, passa a ter um maior nível de exigência em relação ao seu trabalhador (Tabela 13).

TABELA 14 - Empregados domésticos ocupados, segundo a posse da carteira de trabalho assinada,

por faixa de remuneração – Fortaleza 2000/2006 Faixas de Remuneração

Ano

2000 2006

% Absoluto % Absoluto

Com carteira assinada

Sem remuneração 0,71 47 0,46 48 0 -1/2 1,62 108 1,08 113 1/2 - 1 46,21 3.074 69,49 7.299 1 - 2 39,03 2.597 25,34 2.661 2 - 3 6,67 444 1,78 187 >=3 1,82 121 0,46 48 Não informou 3,94 262 1,39 146 Total 100,00 6.653 100,00 10.502

Sem carteira assinada

Sem remuneração 3,89 1.602 2,75 1.454 0 -1/2 9,10 3.747 29,15 15.413 1/2 - 1 63,32 26.072 61,11 32.312 1 - 2 19,10 7.865 5,94 3.141 2 - 3 1,45 597 0,17 90 >=3 0,66 272 0,14 74 Não informou 2,48 1.021 0,74 391 Total 100,00 41.176 100,00 52.875 Total Sem remuneração 3,45 1.650 2,37 1.502 0 -1/2 8,06 3.855 24,50 15.527 1/2 - 1 60,93 29.142 62,50 39.611 1 - 2 21,88 10.465 9,15 5.799 2 - 3 2,18 1.043 0,44 279 >=3 0,81 387 0,19 120 Não informou 2,69 1.287 0,85 509 Total 100,00 47.829 100,00 63.377

Fonte: Pesquisa Direta – IDT (2007).

O rendimento médio observado para estes profissionais em 2006 sofreu uma acentuada redução, em relação a 2000, passando de 0,99 salário-mínimo, para 0,79 salário-mínimo, o que representou uma variação negativa de 20,20%.

Entre os empregados com carteira assinada e aqueles que estão na informalidade, foi observada uma diferença significativa no padrão de rendimentos. Entre aqueles que possuem vínculos formalizados, 71% percebem até um salário mínimo, enquanto entre aqueles que não têm o registro trabalhista, essa participação foi de 93% (Tabela 14).

[...] a constatação desse fato pode estar associada também à queda do padrão de rendimentos da população ocupada, que caiu de 2,26 (2000) para 1,33 (2006) salário-mínimo, quando medido em termos nominais e em salário-mínimo, sinalizando um menor poder aquisitivo dos próprios empregadores. 74

TABELA 15 - Empregados domésticos ocupados, segundo a contribuição previdenciária – Fortaleza 2000/2006 Variáveis Ano 2000 2006 % Absoluto % Absoluto Previdência Pública 13,96 6.677 17,70 11.218 Previdência Privada 0,89 426 0,05 32 Previdência Pública e Privada 0,15 72 0,41 260 Não contribui 85,00 40.654 81,84 51.867

Total 100,00 47.829 100,00 63.377

Fonte: Pesquisa Direta – IDT (2007).

Com relação à contribuição previdenciária, observa-se uma baixa proteção para estes trabalhadores, onde apenas 17,70% deles, em 2006, se identificaram como segurados. Este número está superior àqueles encontrados para os empregados domésticos que possuem carteira assinada (16,57%), indicando que alguns daqueles que se encontram na informalidade percebem este benefício.

A parcela daqueles que puderam ter acesso à previdência pública sofreu uma ampliação de 26,7%, no período de 2000 (13,96%) para 2006 (17,70%), o que reflete, de certa maneira, a variação positiva também ocorrida no número daqueles que possuem carteira de trabalho assinada (19,1%) - Tabela 15.

No geral, apenas 31,51% dos domésticos tiveram acesso a algum tipo de benefício em 2006.

74

IDT - O emprego doméstico em Fortaleza: uma análise de perfil e condições de trabalho. p. 31. Disponível em: <www.idt.org.br>. Acesso em: 19 nov. 2007, às 21h 05m 00s.

TABELA 16 - Empregados domésticos ocupados, por gênero, segundo os benefícios concedidos – Fortaleza 2000/2006 Variáveis Ano 2000 2006 % Absoluto % Absoluto Masculino Nenhum 69,71 2.678 65,15 2.557

Vale transporte ou sistema de condução 17,34 666 11,20 439 Vale refeição, cesta de alimentação ou o

equivalente em dinheiro 6,65 255 12,45 488 Vale transporte e vale refeição ou cesta de

alimentos 5,25 202 9,96 391

Vale transporte e assistência médico-odontológica

Vale refeição e assistência médico-odontológica 0,62 24

Outros 1,05 40 0,62 24

Total 100,00 3.841 100,00 3.923

Feminino

Nenhum 76,89 33.822 68,71 40.851

Vale transporte ou sistema de condução 11,56 5.085 11,56 6.873 Vale refeição, cesta de alimentação ou o

equivalente em dinheiro 6,15 2.705 11,36 6.754 Vale transporte e vale refeição ou cesta de

alimentos 3,26 1.434 6,76 4.019

Vale transporte e assistência médico-odontológica 0,05 22 0,11 65 Vale refeição e assistência médico-odontológica 0,09 40 0,19 113

Outros 2,00 880 1,31 779

Total 100,00 43.988 100,00 59.454

Total

Nenhum 76,31 36.498 68,49 43.407

Vale transporte ou sistema de condução 12,03 5.754 11,54 7.314 Vale refeição, cesta de alimentação ou o

equivalente em dinheiro 6,19 2.961 11,42 7.238 Vale transporte e vale refeição ou cesta de

alimentos 3,42 1.636 6,96 4.411

Vale transporte e assistência médico-odontológica 0,04 19 0,10 63 Vale refeição e assistência médico-odontológica 0,08 38 0,22 139

Outros 1,93 923 1,27 805

Total 100,00 47.829 100,00 63.377

Fonte: Pesquisa Direta – IDT (2007).

O vale transporte é o benefício mais freqüente, mas apesar de constituir- se direito do empregado doméstico, apenas 11,54% deles (7.314) o recebem, número este que se mostra inferior até mesmo ao percentual de carteiras de trabalho assinadas (16,57% dos ocupados, equivalente a 10.502 empregados) – Tabela 16.

A legislação que pouco a pouco vai estabelecendo valores e resgatando a dignidade deste profissional ainda não avançou o suficiente. O reflexo desse preconceito é o fato de que alguns empregados domésticos ainda recusam a assinatura de suas CTPS, para que nelas não seja mencionada sua profissão, que reputam humilhante. 75

O trabalho doméstico tem sua origem na escravidão, não sendo diferente no Brasil, onde além de associado à servidão, está profundamente vinculado à população desprivilegiada, principalmente após a abolição da escravatura, absolvendo a mão-de-obra representada pelas negras recém libertas e, posteriormente, com a migração da população pobre do campo para a cidade.

A presença das classes excluídas foi preponderante nesta atividade, o que justifica, em parte, a discriminação social observada em relação à categoria de trabalhadores. José Luiz Ferreira Prunes, ilustrou bem esta situação quando fez a seguinte afirmativa:

Os problemas são inúmeros, pois devemos também considerar (em linhas gerais) a falta de preparação das empregadas domésticas. Usualmente, pouco mais que alfabetizadas (se é que se chegam a ser). Se as donas de casa fazem críticas veementes à conduta dessas serviçais, devemos olhar que são, em última analise, empregadas que não têm condições psíquicas, técnicas, familiares e até físicas, para se empregarem na indústria ou no comércio. Há um círculo vicioso, maus salários, mau amparo previdenciário e assim maus serviços, prestações desatenciosas. 76

Historicamente esta categoria profissional foi mantida à margem da legislação trabalhista, sendo uma das últimas a ser reconhecida e a ter direitos assegurados:

Apesar dos avanços conseguidos, ainda padece com a marginalização, a exploração e a exclusão. Seu regime, nas regiões menos desenvolvidas, lembra o de servidão, em face da vinculação do prestador aos membros da unidade familiar, especialmente a patroa.77

75FILHO, José Soares. Direitos trabalhistas e previdenciários do empregado doméstico. Revista CEJ, n. 35, out./dez.2006, p.

55.

76PRUNES, José Luiz Ferreira. Manual do empregador e do empregado doméstico. 1. ed. São Paulo: Sugestões Literárias,

1973, p. 15.

77FILHO. José Soares. Direitos trabalhistas e previdenciários do empregado doméstico, Revista CEJ, n. 35, out./dez.2006, p.

A relação de trabalho guarda um forte conteúdo paternalista e assistencial, regulada mais pela amizade e pela benevolência, característica de uma relação familiar. Apesar disto, o empregado doméstico não é um membro da família, e isto fica claro com a segregação a que é submetido, não dividindo a mesa com o patrão, sendo relegado ao cômodo nos fundos da habitação, à área de serviços no dia-a- dia, e à cozinha nas festinhas familiares.

A divisão se estende para o saguão dos edifícios, onde o regimento interno de muitos condomínios proíbe o empregado doméstico de utilizar-se do elevador social, relegando-o ao uso do elevador de serviços, em flagrante desrespeito ao art. 5º da Constituição Federal, com uma indisfarçável discriminação pela condição social do trabalhador. Iniciativas no campo legislativo buscam impedir que esta injustificada ação se perpetue.

No âmbito federal, está em trâmite o Projeto de Lei n° 6.573, de 11/10/2006, da Câmara dos Deputados, que propõe acrescentar o art. 23-A, no Decreto-Lei n° 3.688, de 3 de outubro de 1941 (Contravenções Penais), instituindo a pena de prisão simples (30 dias a 3 meses) e multa leve, ao ato de discriminar empregados domésticos e outros trabalhadores quanto ao acesso aos elevadores sociais.

Na Assembléia Legislativa do Estado do Ceará, tramita o Projeto de Lei n° 66/06, de 11/5/2006, que no intuito de atender a solicitação de classes oprimidas como a dos empregados domésticos, propõe no seu art. 1° que os locais que tenham elevador de acesso de pessoas não faça distinção entre elevador de serviço e social, instituindo multa de 100 (cem) salários mínimos e indenização, pelo não cumprimento.

Ainda hoje esta categoria não conta com uma jornada prefixada de trabalho. Dormindo a doméstica na casa onde trabalha, observa-se que acaba sendo mais vantagem para a patroa, que pode contar com seus serviços vinte e

quatro horas por dia, até mesmo porque a lei ainda não determina um limite de jornada semanal de trabalho. 78

Com relação à remuneração, até o advento da Constituição Federal de 1988, o empregado doméstico não tinha garantia de um piso salarial mínimo. Este entendimento decorria da interpretação a contrário sensu do § 1º, do art. 5º da Lei n° 5.859, que ao utilizar a expressão “o empregado que receber salário superior ao mínimo vigente”, levava à compreensão de que ao doméstico era possível o pagamento em salário menor que o mínimo.

Na prática, muitos empregadores já concediam o pagamento de pelo menos um salário mínimo ao empregado doméstico, mas, uma parte significativa dessa remuneração não era monetizada, constituindo-se de utilidades (moradia, alimentação, vestuário, higiene e transporte) limitadas ao teto de desconto de até 70% dos proventos a serem pagos, conforme fixado no parágrafo único do art. 82 da CLT, que, embora se refira à composição do salário mínimo, tem sido utilizado pela doutrina como parâmetro para os demais salários.

A Lei nº 11.324, de 19/7/2006, introduziu na Lei nº 5.859/1972, o art. 2º-A, vedando ao empregador doméstico efetuar descontos no salário do empregado por fornecimento de alimentação, vestuário, higiene ou moradia. Como exceção, o § 1º desse mesmo artigo permite o desconto de despesas com moradia, desde que esta se constitua em local diverso da residência em que ocorrer a prestação de serviço, e desde que essa possibilidade tenha sido expressamente acordada entre as partes.

Outro ponto digno de observação é a apresentação de atestado de boa conduta, a ser emitido por autoridade policial e atestado de saúde, a ser emitido por autoridade médica, na forma do art. 2º da Lei n° 5.859, como requisitos para admissão do empregado doméstico, apesar de na prática não mais serem exigidos.

Quando definiu a exigência do atestado de boa conduta, a Lei se preocupou em garantir ao empregador a possibilidade de verificação da idoneidade

do trabalhador, já que ele permanecerá, na maioria das vezes, praticamente o dia todo na residência da família.

Como ocorre muito o fato de a empregada doméstica, na primeira oportunidade, furtar a residência da família e depois desaparecer, o atestado de boa conduta tem por objetivo afastar os maus profissionais do mercado; mas, evidentemente, não irá eliminá-los. 79

O atestado de saúde, por seu lado, visa verificar se o empregado não é doente, preservando o lar de um eventual contágio, devido a sua atividade ser desenvolvida na intimidade da família e em contato direto com roupas, comida e crianças.

O processo de discriminação se fortalece com a violência moral e a sexual no ambiente de trabalho doméstico. Mas este não é um fenômeno novo, sempre esteve presente no dia-a-dia dessa categoria. A negra escrava ou alforriada já era obrigada a se submeter à violência e à vontade sexual do senhor, mantendo subserviência para não perder seus favores.

É na internet, sob proteção do anonimato ou de identidades falsas, que o preconceito contra empregadas domésticas se manifesta de forma mais aberta. Nas quase 700 comunidades dedicadas a elas no site de relacionamento Orkut, internautas contam, em tom de piada, as situações de xingamento, de acusações mentirosas de roubo e de assédio sexual das quais suas empregadas já foram vítimas. 80

Mesmo em tempo recente, a empregada doméstica submetia-se à violência sexual do patrão e de seus filhos e a constrangimentos os mais diversos, aceitando as ofensas verbais e os vínculos empregatícios precários, temendo o desemprego.

“Não trabalho mais em casa de família!” As experiências negativas na vida de Silmara Alves de Souza, 35 anos, a fizeram desistir do trabalho doméstico. Hoje, como recepcionista, ela até admite ganhar menos que uma babá. Mas, para “casa de família”, ela não volta. Uma de suas ex-

79

MARTINS, Sérgio Pinto. Manual do trabalho doméstico. 6. ed. São Paulo: Atlas, 2002, p. 69.

80

COELHO, Sarita. Domésticas sem cidadania. Disponível em: < www.secon.unb.br>. Acesso em: 18 nov. 2007, às 19:17:00h.

patroas não a deixava pegar o filho pequeno. O motivo era simples: a empregada usava hospital público e poderia passar alguma infecção para o bebê.

Em outra casa, Silmara era xingada pelas crianças. A patroa não acreditava que seus filhos fizessem tais grosserias. A doméstica tinha uma jornada de 12 horas, só podia comer a sobra do almoço e era proibida de abrir a geladeira. Depois de oito meses de sofrimento, não pensou duas vezes: abandonou o emprego. 81

As leis que vieram tratar do assunto ajudaram a atenuar a existência do problema, mas não o solucionaram. É necessário que se resgate o respeito e a dignidade do trabalhador enquanto pessoa humana, identificando ações e atitudes que criem um ambiente de trabalho gratificante, digno e propício a uma convivência saudável e produtiva, coibindo que se perpetue a exploração do homem pelo homem na forma da escrava doméstica que troca o seu trabalho unicamente pela oferta de um teto e alimentação.

81

ASSÉDIO MORAL OU SEXUAL - DISTINÇÃO. Os atos reputados como de violência psicológica, porquanto praticados de forma permanente no ambiente de trabalho, somente ensejam a hipótese de assédio sexual, quando os danos morais dele provenientes decorrerem da prática de atos verbais e físicos praticados pelo assediador, com a finalidade de submetê- lo aos seus caprichos sexuais. Todavia, quando a resistência do autor às demandas sexuais do superior hierárquico desperta ressentimentos, que levam o preposto da ré a perseguir sua vítima, a hipótese então configurada é de assédio moral no trabalho. Ambas as formas de assédio, moral e sexual, dão direito à reparação do dano sofrido. (Ac. da 8ª T. do TRT da 3ª R., RO 01087-2006-020-03-00-4 / 2006, Rel. Juiz Cleube de Freitas Pereira, j. 16-5-2007, DJMG, 26-5-2007, p. 33)