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Yönetim Modeli ve İdari Yapı

A. LİDERLİK, YÖNETİM VE KALİTE

A. 1. Liderlik ve Kalite

A.1.1. Yönetim Modeli ve İdari Yapı

Se o veleiro para perto do cais é questão de valentia se o veleiro para perto de ti é questão de valentia... (Valentia, Fernanda Cabral)

A pesca como atividade destinada ao consumo e comercialização entre as décadas de sessenta e oitenta pode ser compreendida como elemento chave para o entendimento da natureza das relações econômicas e o processo de baixa acumulação de capital pelos sujeitos envolvidos. Sem dúvida, a pesca e a relação estreita entre os comunitários e o rio originaram uma forma de organização social imbuída pela lógica das relações de proximidade, a saber, entre familiares e camaradas, tipologia também encontrada em outras pesquisas (KOTTAK, 1983; MALDONADO, 1993; DIEGUES, 1983). Em Barra do Cunhaú, centenas de famílias naquela época trabalhavam na pescaria ao longo do rio e do mar. E essa relação de comunhão entre os atores sociais locais e a natureza podia ser evidenciada pelas festas ocorridas próximas ao rio, principalmente na festa da padroeira local, Nossa Senhora dos Navegantes.

Sem dúvida, a pescaria nessa época já era sentida e encarada como atividade complementar a outra que se dedicava maior parte do tempo, como carpintaria, construção civil e salinicultura. No entanto, essa mesma pescaria servia de meio para a obtenção dos meios indispensáveis à reprodução social. É nesse sentido que argumento que a vulnerabilidade social a que estas comunidades costeiras como elemento historicamente dado enquanto processo de mudança social ocorre no presente (período em que a pesquisa foi realizada) somente reforça a tese de que a singularidade cultural dessas sociedades entra em conflito com a lógica – cada vez mais presente – do

ganho e do acúmulo de capital através do lucro e que, como apontarei ao longo do trabalho, somente aprofunda o quadro de vulnerabilidade já presente historicamente.

A pescaria em Barra do Cunhaú, entre as décadas de 60 e 80, era desenvolvida através de dois métodos de trabalho: uma, entendida como a pescaria feita por indivíduos na beira do mar ou rio, à espera da passagem de cardume para a captura com rede de arrasto ou linha (Figura 6). A segunda, e não menos importante, era a pescaria de grupo, composto por quatro ou mais pescadores que jogam uma rede de mais de vinte metros de largura no rio, principalmente, e esperam pela vazante da maré para realizar a despesca (retirada dos peixes capturados pela rede). Geralmente o pescador com linha ou rede fica à beira do mar ou na água com a rede empunhada com uma das mãos e aparada por um dos ombros. Ao perceber a passagem de um cardume de tainha – abundante nessa época – o pescador atira a rede na água e lentamente puxa-a para a terra. Caso se consiga capturar algum peixe, retira-os da rede e põe-nos num cesto (samburá) feito de cipó da mata próxima e torna a jogar a rede na água. Outra modalidade bastante peculiar nessa época é a pesca do peixe voador. Esse tipo de pescaria só se realiza à noite. Arma-se uma rede na parte da frente da canoa. Nessa tipo de captura de peixe, cerca de ... homens se revezam no trabalho nas águas do rio Cunhaú. Acende-se um candeeiro à frente do barco e, conforme sobe ou descem o rio, conforme a direção da maré, os peixes voadores, incomodados pela presença da luz, voam e caem na armadilha em forma de rede. Esse tipo de pesca ocorre na época da reprodução dessa espécie.

De acordo com os relatos coletados ao longo da pesquisa de campo, a disponibilidade de peixes, mariscos e crustáceos era maior e a facilidade de vendê-los também. Parte do pescado capturado, do caranguejo e marisco era destinada ao consumo doméstico ou até mesmo partilhado com os vizinhos. O pescado de melhor qualidade era destinado à comercialização e abria-se a possibilidade de conseguir capital para a compra de cereais, vestuário e remédios. O quilo da tainha, por exemplo, custava cerca de 0,75 cruzeiros. Em muitos casos, a comercialização era intermediada pela figura do pombeiro. Ele geralmente é um pescador aposentado ou alguém que decidiu dedicar-se ao comércio pesqueiro. O pombeiro, dependendo da região de nosso país, também é conhecido como atravessador. O pescador de Barra do Cunhaú vendia ao pombeiro o quilo da tainha por 0,75 centavos de cruzeiro. O pombeiro revendia o quilo da tainha no mercado de Canguaretama ou Natal por 1,50 ou 2 cruzeiros, dependendo da época do ano. Por semana, cada pescador capturava cerca de vinte a trinta quilos do peixe. Os pescadores locais explicam que o aumento do valor da tainha deve-se ao fato de o pombeiro investir no setor com refrigeração e transporte, alternativas inviáveis para eles nas condições econômicas daquela época. Nesse contexto, há casos de resistência à ação dos pombeiros. É o caso de Dora, pescadora de linha: ela prefere vender diretamente o pescado às famílias que conhece em Canguaretama: “eles já eram clientes certos. Eu levava todos os sábados carapeba, camurim e pescada”. Sem a intermediação do pombeiro, Dora julga ter liberdade para ter seu capital independentemente dos interesses comerciais dele. Mas existe nas trocas estabelecidas por Dora uma vantagem econômica nas duas partes da relação: tanto ela quanto os compradores não são explorados pela intermediação do pombeiro. O caranguejo capturado pelos catadores em Barra do Cunhaú é envolvido por cipós de

capim em número de doze. Por semana cada catador de caranguejo conseguia produzir cerca de vinte a trinta “cordas” de caranguejo e cada uma custava 3 cruzeiros a corda. No mercado de Canguaretama chegava a alcançar o valor de 4 cruzeiros. A cata do marisco sempre foi feita no período de maré seca, geralmente nos bancos de areia que se formam ao longo do rio e são comumente chamados de “croa”. Geralmente os catadores dirigem-se às croas no período de maré vazante, em número de três pessoas por canoa. Se a maré estivesse em período de “pernilongo”, levava-se uma lata perfurada com brasa e madeira e fazendo fumaça o suficiente para afugentar os mosquitos, o chamado “boi de fogo”. Os mariscos eram removidos – e ainda o são assim – através de uma pequena enxada, lavados numa peneira nas águas do rio e reservados num saco de estopa ou náilon. Cerca de quarenta quilos ou mais de mariscos eram extraídos por dia de trabalho. Ao chegar a casa, os catadores prosseguiam no trabalho de retirada do marisco. Fazia-se um fogo com madeira do mangue, punha uma panela capaz de receber vinte quilos do marisco e os cozinhava por mais de meia hora. A etapa seguinte é a “escatembação” do marisco, que consiste na retirada do marisco da concha, que geralmente é facilitado pelo processo de cozimento demorado. Os mariscos são reservados e colocados, ou em pratos ou em pequenas sacolas plásticas, e vendidas nas ruas ou mercados. Nos anos sessenta, o marisco era vendido por 1 cruzeiro e no mercado, caso tivesse a presença do pombeiro, chegaria ao valor de um cruzeiro e cinqüenta centavos.

Seja na pescaria de tainha, carapeba, camurim ou de outros peixes, caranguejo ou marisco, vê-se que a produção era destinada em parte para o consumo doméstico; a outra parte era destinada à comercialização, efetuada pelo próprio produtor ou intermediada pelo pombeiro. Como os pescadores tinham pouco capital para investir em refrigeradores e gelo no bote, eles estabeleciam uma relação de dependência econômica com o pombeiro, peculiaridade encontrada em outros trabalhos sobre sociedades costeiras (TEIXEIRA, 1990; DIEGUES 1983). O pombeiro garantia uma relação de troca sem a necessidade de deslocamento espacial, o que demandava tempo e tecnologia apropriada. Como enfatizei anteriormente, havia estratégias de resistência como o estabelecimento de relação de amizade com os compradores, a fidelização das relações e a venda direta entre pescadores e aqueles.

Benzer Belgeler