4 BULGULAR VE YORUMLAR
4.2. Yöneticilerin Aksiyon Değerlerine Yönelik Bulgular
O acidente envolvendo aeronave da Transportes Aéreos Meridional-TAM ocorreu dia 17 de julho de 2007 no aeroporto de Congonhas, São Paulo, e serviu de marco para o início de ação jornalística enfática contra o governo Lula, como propusera, dia 26 de março daquele ano, em entrevista à FOLHA, o candidato derrotado à presidência no ano anterior, Geraldo Alckmin (PSDB). Então, dissera que a oposição “não deveria dar trégua ao governo Lula”. Na mesma matéria, recusava qualquer diálogo com o governante quando este propunha trégua de dois anos a fim de dialogar com os opositores. Dizia que o PT, quando oposição, atuara de forma “raivosa” e afirmava: “Quem ganha governa; quem perde, fiscaliza, propõe alternativas, cobra. Ele quer o quê? Um partido único por dois anos? É, de novo, o perfil autoritário do governo” (BOMBIG, 2007).
O acidente funcionou, como quisera Alckmin, para que não se desse trégua ao governo. O avião transportava, no vôo 3057, 176 pessoas entre passageiros e tripulantes. Antes de explodir colidiu contra prédio da TAM nas imediações do aeroporto, matando também funcionários que ali trabalhavam (FOLHA DE S. PAULO, 2007g). A politização do acidente teve início com a notícia “Serra afirma que acidente da TAM foi tragédia anunciada” (18/07/07).
O governador de São Paulo, José Serra (PSDB), esteve à noite no aeroporto de Congonhas após o acidente com o avião da TAM e afirmou que "todos têm muito o que lamentar, o que chorar", e que a cidade "está de luto". Apesar de afirmar que ainda era cedo para falar em causas, o governador disse que, para ele, o acidente foi uma tragédia anunciada. Segundo o governador, as últimas palavras que o piloto do Airbus disse, ouvidas pela torre de controle, foram: "Vira, vira".
[...]
Questionado se o acidente foi uma tragédia anunciada, afirmou: "Ouvi dizer que muita gente achava isso. Inclusive eu. Mas tem que investigar com serenidade. E trabalhar para que isso não aconteça de novo".
O governador também falou sobre os problemas dos aeroportos no Estado. "A questão aeroportuária tem que passar por um reexame. Essa não é uma responsabilidade nossa. É Federal. Mas, como governo, nós vamos dar nossa opinião" (FOLHA DE S. PAULO, 2007t).
Em vez de buscar ouvir representantes do governo federal, como fora feito com relação ao governo de São Paulo frente ao Metrô, partiu-se para registrar declaração de adversário. A partir daí estabelecia-se contencioso. A argumentação insinua culpa direta do governo federal ante “tragédia anunciada”. A opinião partia de autoridade formal, supostamente dotada de capacidade analítica mesmo não sendo especialista no assunto aeronáutica. O jornalismo trabalha sempre, em seu processo de apuração (saber de procedimento), a partir do referente “autoridade” entendido em sentido largo. Isso significa dizer que abrange o termo seja no sentido jurídico, seja como pessoa dotada de notável saber sobre um ou vários assuntos ou até mesmo aquele indivíduo que, por circunstâncias fortuitas, tornou-se detentor de informações de ocasião a respeito de acontecimento que presenciou. No caso, a figura do Governador revestia-se da condição de autoridade política e intelectual. Portanto, passível de ser incluída como fonte autorizada a emitir opinião.
Como ator interessado, Serra voltou-se para dar ao fato feição política, especialmente quando o jornalista o “indagou” quanto ao ocorrido na convicção de que obteria a resposta sugerida pela pergunta: que o acidente fora “uma tragédia anunciada”. De há muito prevista, passível de acontecer, mas a respeito da qual nada se fizera. Portanto, resultante de inação recriminável do governo federal.
O jornal mobilizou seu potencial opinativo visando criar clima de repúdio. A colunista Eliane Catanhêde, na mesma edição, falava num “empurra-empurra” do governo para livrar-se de responsabilizações frente a fato que chocara todo o País (CATANHÊDE, 2007). No mesmo dia, Igor Gielow, secretário de Redação na sucursal de Brasília, afirmava no artigo “O pesadelo da aviação não acaba”, que houvera uma “inominável matança ontem em Congonhas” (GIELOW, 2007). Ao contrário de como procedera quando do acidente com o Metrô, recomendando prudência na apuração dos fatos, o jornal permitiu-se a publicação, dia 19 de julho, de artigo sob o título “O que acorreu não foi acidente, foi crime”, assinado pelo psicanalista Francisco Daudt.
Gostaria imensamente de ter minha dor amenizada por uma manchete que estampasse, em letras garrafais, "GOVERNO ASSASSINA MAIS DE 200 PESSOAS". O assassino não é só aquele que enfia a faca, mas o que, sabendo que o crime vai ocorrer, nada faz para impedi-lo. O que ocorreu não pode ser chamado de acidente, vamos dar o nome certo: crime.
Remeto-me ao livro de García Marquez, "Crônica de uma morte anunciada". Todos sabiam e ninguém fez nada. [...] Refiro-me às autoridades (in)competentes, inapetentes de trabalho gestor. Refiro- me ao presidente Lula, que, há quantos meses, ó Senhor, disse em uma de suas bazófias inconseqüentes que queria "data e hora para o apagão aéreo acabar", como se não dispusesse da devida autoridade para tal.
[...]
Qual de nós escapou do medo de voar desde o desastre da Gol HÁ NOVE MESES? Qual de nós assistiu confortável o jogo de empurra, "a culpa é dos controladores; "não, é do ministério da defesa; "a mídia também exagera tudo; "é do lobby das empreiteiras que só querem fazer obras inúteis e superfaturadas nos aeroportos". Qual de nós deixou de ficar perplexo com a falta de ação efetiva para que o problema se resolvesse?
Perdão, acho que a tal falta de ação geral de governo é de tamanho tão extenso e dura tanto tempo que muitos de nós a ela nos acostumamos. [...] Sei que falo por uma enorme quantidade de brasileiros trabalhadores que sustentam essa máquina de (des)governo, muitos mais que os 90 mil do Maracanã, para expressar o nojo e a raiva que esse acúmulo de barbaridades nos provoca. O governo sairá da inação, da omissão criminosa? Alguém será preso, punido por todas essas coisas? Infelizmente, duvido. Talvez condenem a mim, por ter deixado o coração explodir. Pagarei o preço alegremente, lembrando Graciliano Ramos, que, visitado no cárcere, travou com o amigo o seguinte diálogo:
- Puxa, Graça, você, aí dentro, de novo?
- E você, o que faz aí fora? Nestes tempos, lugar de homem honesto é na cadeia (DAUDT, 2007).
As palavras do articulista equivalem a editorial de pasquim. Sem que se tivesse qualquer explicação técnica plausível quanto ao fato, o governo, vale dizer o presidente da República, era inculpado. O texto passava visão catastrofista, como se o país estivesse à beira do caos. O discurso é eminentemente político e a FOLHA colocava-se como ator paritário aos oposicionistas, como proposto por Alckmin. Afirmava em notícia: “Presidente não telefonou para Serra ou Kassab” (19/07/07).
Vinte e quatro horas depois do maior acidente aéreo do país, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) ainda não tinha telefonado para o governador de São Paulo, José Serra (PSDB). Até a tarde, também não tinha conversado com o prefeito Gilberto Kassab (DEM). "Estou falando com o comando da Aeronáutica e da Infraero", disse Kassab. O gesto alimentou, no Palácio dos Bandeirantes, a desconfiança de que Lula pretende debitar na conta do tucanato um problema que é de responsabilidade federal: o sistema aéreo. "O governo federal está tirando o corpo fora, fazendo de conta que não é com eles. Não nos telefonou, não nos ofereceu qualquer apoio", queixou-se o vice-governador, Alberto Goldman (PSDB), após reunião no governo.
No contra-ataque, Serra repetiu que "o governo do Estado e a Prefeitura estão cumprindo suas funções" e lembrou que o sistema aéreo é federal.
Após visita a Serra, o deputado Wanderlei Macris (PSDB) disse que "Lula não pode fugir a sua responsabilidade". [...] (FOLHA DE S. PAULO, 2007h).
O ombudsman Marcelo Beraba contraditou a forma como a matéria fora redigida (22/07/07), com a nota:
Cadê Lula? Desequilíbrio
A reportagem "Presidente não telefonou para Serra e Kassab" (pág. C17) deveria ter ouvido pelo menos tentado - o Palácio do Planalto. Ela só traz versões dos governantes do Estado de São Paulo e de sua capital. Por outro lado, o jornal não esclarece por que o presidente sumiu - e não telefonou para o governador e o prefeito. Por causa de um terçol? É isso mesmo? Ou teme ter a imagem associada ao caos aéreo e à tragédia de Congonhas? Por que o ministro Waldir Pires não deu entrevista ontem? O que está por trás do silêncio? Falta apurar bastidores (BERABA, 2007c).
A omissão presidencial instilou desenvoltura a discurso típico de pequena política. Mas, se Lula se omitia, o mesmo fazia o jornal como dissera Beraba. De forma premunitiva Kassab e Serra “contra-atacavam”, antes mesmo que surgissem suposições ligando-os de alguma maneira ao fato. A notícia “Em meio à crise, Lula se recolhe em Brasília” (19/07/07) colocava-o como efetivamente em busca desvincular-se da “tragédia anunciada” (SANDER e LEITE, 2007c). A observação desse volume opinativo-noticioso aponta para um aspecto a ser relevado: a ênfase em pretensa responsabilidade pessoal, transformando o acidente em “matança”, em “crime”, tudo entrando em conexão com a presidência.
Torna-se explícita a ação jornalística em termos de guerra de posição. Recrudescia o enfrentamento com o governo; mais que isso, contra o ator político Lula em momento de comoção nacional. A situação ganhava conotações especialíssimas para a ocupação de espaços e isso foi percebido quando da omissão presidencial frente ao acontecimento. O noticiário não era em si “noticiário”, mas discurso de partido, ação de propaganda voltada para desestabilização de adversário. Toda essa produção emergia sob o argumento de objetividade informativa em aliança com a opinião racionalizada de intelectual orgânico coletivo.
Para chegar à abordagem do assunto, opiniões e reportagens louvavam-se em questão essencial aos valores/notícia: a falha.
A ocorrência de falha indicia incapacidade, insuficiência de função ou de atitude em alguém ou algo. Tal quadro, com suas conseqüências sociais indesejáveis, atraem o olhar jornalístico permitindo que sobre a falha se construa o noticiário (RODRIGUES, 1999). Havendo falha, cabia “encontrar o culpado”; e o jornal foi descobri-lo exatamente na pessoa do ator político Lula.
A construção midiática era fortalecida também em função de que, ao emergir perante o leitorado o noticiário assume por isso mesmo a condição de fato. O noticiário é “também acontecimento” e isso o faz ter condição e força de ser utilizado nesse sentido. Havia no espaço social mais que a narrativa do acidente: havia o acontecimento de o jornal ser portador de realidade sígnica politizada. Esta fora tornada fato novo, valorado e transformado em fato primário a partir de sua condição de fato de jornal. O fato não era exatamente o acidente. Era o fato-FOLHA e os seus enquadramentos.
É o próprio discurso do acontecimento que emerge como acontecimento notável a partir do momento em que se torna dispositivo de visibilidade universal, assegurando assim a identificação e a notoriedade, no mundo, das pessoas, das coisas, das instituições. [...] O que torna o discurso jornalístico fonte de acontecimentos notáveis é o facto de ele próprio ser dispositivo de notabilidade, verdadeiro deus ex machina, mundo da experiência autónoma das restantes experiências do mundo (RODRIGUES, 1999, p. 28).
Os artigos “O lema do Brasil”, (ROSSI, 2007), e “Além do desastre”, (CONY, 2007), (19/07/07), mantinham a linha acusatória: o primeiro apontava Lula como “hipócrita” e “mentiroso”, enquanto o segundo acusava a ocorrência “criminosa” do acidente. Trata-se notoriamente de embate político. O processo justificava-se a partir de dois valores caros à democracia formal e à prática do jornalismo liberal: a objetividade e o direito à opinião. A argumentação trazia em seu subtexto sua própria validação e ocultava-se o viés do confronto ideológico: estava- se unicamente exercitando o “jornalismo objetivo e a liberdade opinativa”. Desta forma a apreensão do real, sua adequação a uma determinada matriz, transformou, para maquinação interna, o acidente em algo “além” do noticiário. Permitiu confronto de que se poderia tirar proveito político, ocultando-se paralelamente o oportunismo
tático. O jornal remetia-se à realidade imediata e esta, em sua aparência, assegurava fartamente o desembaraço à emissão acusatória. O acidente era apresentado a partir de sua forma fática, mas sob o prisma compreensivo do sujeito jornalista que o configurava como reflexo exato do real. Nessa reconfiguração fazia- se o ingresso da ideologia.
O jornalismo, que se define como reflexo tipicamente singularizado, está intimamente ligado à realidade imediata. Mas, se por um lado a margem da ideologia fica reduzida pela necessidade de manter os laços com o real imediato, por outro lado, o fato singular só adquire sentido num contexto particular e universal, que precisa ser posto, ou seja, apreendido subjetivamente por um processo que dá vasta margem à ideologia (GENRO FILHO, 2005, p.177).
Nas seções opinativas buscava-se apresentar a paradoxal e mencionada objetividade: os textos se remetiam à “realidade” de que Lula, “obviamente”, fora o “culpado pelo acidente”. Afirmar isso era ser objetivo, em função da angulação dada à cobertura. Os textos tinham a pretensão de equivalentes do real ao supostamente revelar incúria presidencial no tratamento da questão aeroportuária. A acusação era apresentada como sendo indiscutível, quando diversamente havia a intervenção direta do jornal com atitude meta-narrativa. “[...] a indiscutibilidade do real esconde a seleção temática, léxica e estilística inerente a qualquer processo de comunicação e justifica pelo óbvio [...] os acontecimentos” (BARROS FILHO e MARTINO, 2003, p. 180). O editorial “Para não ser em vão”, tratava desse óbvio (19/07/07):
Está para ser esclarecida a causa do maior acidente da aviação brasileira. É preciso esperar até que sejam concluídas as investigações, necessariamente complexas. Mas algumas conexões entre a tragédia - a segunda em dez meses - e o descalabro que tomou conta do setor aéreo nacional já podem ser estabelecidas. O Executivo federal não está em condições de apresentar-se diante do desastre com o vôo 3054 na posição de quem tenha tomado todas as medidas para maximizar a segurança em Congonhas. Acidentes acontecem, mas a Infraero cometeu a imprudência de liberar pousos e decolagens no asfalto novo antes de ele ser tratado com os sulcos ("grooving", ranhura em inglês) destinados a facilitar o escoamento da água e melhorar a frenagem. Um dia após uma derrapagem e sob chuva, mantiveram-se as operações com a pista escorregadia.
Acidentes acontecem, mas o Executivo permitiu o inchaço de Congonhas, atendendo a conveniências comerciais das companhias aéreas - e à incapacidade do próprio governo de viabilizar
investimentos para desafogar o tráfego crescente de aviões. A Anac, agência do setor, tem se portado como uma extensão dos interesses das empresas.
[...] Desde já, a Anac precisa impor às companhias aéreas uma redistribuição de seus vôos para os aeroportos de Guarulhos e Viracopos (Campinas), ainda que essa providência implique, na prática, restrição na oferta de vôos a usuários da capital. Outro passo necessário e emergencial para desafogar o tráfego aéreo na metrópole paulista é transferir pontos de conexão de viagens. Passageiros, por exemplo, que saem de Curitiba com destino a Belém não precisam fazer a troca de aviões na capital. A concentração em Congonhas dessas operações - bem como a permissão para partidas de vôos charter de suas pistas - é mais uma concessão feita pelas autoridades às conveniências comerciais das empresas.
Se tem faltado poder de regulação do Estado onde ele é mais necessário - no planejamento do setor e na imposição do interesse público às companhias aéreas -, sobra arcaísmo burocrático e ideológico quando se trata de alavancar os investimentos na infra- estrutura aeroportuária. O governo federal, como fartamente documentado, não teve fôlego financeiro para acompanhar as necessidades de gastos crescentes com o transporte aéreo.
As taxas aeroportuárias pagas pelos passageiros não redundaram na expansão nem na modernização do sistema no ritmo que seria adequado. O problema, no entanto, não foi o governo ter deixado de fazer tais investimentos com recursos próprios, a fim de cumprir metas de saneamento fiscal. A falta mais grave foi não ter permitido que outros agentes tomassem a iniciativa.
A construção de um aeroporto novo na Grande São Paulo poderia ser a contrapartida da concessão de Viracopos à iniciativa privada, por exemplo. Operação análoga em Cumbica poderia render a construção de seu terceiro terminal e a aquisição dos aparelhos mais atualizados para operar com segurança até sob a mais densa neblina. Outros investimentos necessários para o setor - como os trens rápidos ligando terminais distantes a grandes centros - seriam passíveis de ser realizados na base das privatizações e das PPPs (parcerias público-privadas). Mas, imobilizado, incompetente e confuso, o governo Lula nada fez. Para que as mortes não tenham sido de todo em vão, que o acidente de Congonhas ao menos sirva para compelir a uma profunda mudança de atitude (FOLHA DE S. PAULO, 2007i).
A aparente moderação do início do texto cede lugar a atitudes eminentemente acusatórias quando o governo federal é apontado como em estado de inação frente à necessidade de aumentar-se a segurança aérea. É colocado também como incapaz de se impor às empresas aéreas, ou seja, ao capital, cedendo ante seus interesses. As críticas denotam apoderamento da voz social. A
FOLHA coloca-se como seu representante, ao apresentar ligações antiéticas entre
iniciativa privada ente atentatório aos interesses sociais que deveria ser mais bem fiscalizado.
Com isso apresenta-se como ente distanciado da questão. Trata-se de artifício ideológico: para a visão liberal a origem da corrupção encontra-se no Estado, que extrapolaria suas atribuições e subtrairia os espaços que deveriam ser da “sociedade civil” – na verdade o capital, as empresas capitalistas e o mercado. Contudo, com a adoção desse discurso, dá impressão de que estaria a favor da sociedade via estabelecimento de contenda entre as empresas e o Estado. O que se defende, afinal, e isso fica bem claro, é o fortalecimento daquelas. Isso pode ser visto mais adiante com a desconstrução do próprio discurso, quando se acusa o “arcaísmo burocrático e ideológico” que impediria a presença mais forte do mercado no controle e investimentos na infra-estrutura aeroportuária.
O Estado deveria abrir espaços ao capital privado a fim de este implementar a modernização dos grandes terminais, uma vez que não disporia de condições financeiras para a empreitada. Defende a privatização de aeroportos e a criação de parcerias público-privadas que teriam capacidade de trabalhar com segurança e garantia. É parte do jargão das elites atribuir ao Estado40, sempre, a condição de entidade atrasada, cabendo ao capital missão inovadora e empreendedora. Todavia, se no editorial está dito que as empresas buscavam de forma ilegítima pressionar a Agência Nacional de Aviação Civil-Anac para a obtenção de vantagens operacionais, o que se poderia esperar de sua ação administrativa direta de aeroportos? Como visto, a pregação privatista, que aponta o capital como instância ética e moderna, por oposição a um Estado jurássico e falho, desmorona a partir da sua defesa uma vez que, historicamente, a iniciativa privada não leva em consideração interesses sociais e, ao lado disso, é partícipe contínuo da estrutura estatal em sua forma ampliada.
40 O maniqueísmo reducionista que opõe Estado e Sociedade é parte do repertório de argumentos de
que se utiliza a lógica burguesa. Com isso reifica o Estado como entidade que corporifica o atraso e o engessamento, por oposição à iniciativa privada. Esta seria, por decorrência inversa, legítimo representante dos interesses da “liberdade” e da “inovação” uma vez que, supostamente, assume os riscos de empreendimentos mercantis gerando emprego e renda com proatividade “inencontrável” na estrutura administrativa estatal.