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As transformações ocorridas a partir da década de 1970, em sua grande maioria, imputadas à crise do modo fordista128 de acumulação e, por isso mesmo amplificada pelo colapso do welfare state, engendrou alterações não apenas na própria reconfiguração espacial do globo terrestre mas também foi responsável pela emergência de novos atores sociais. A fim de apreender melhor tais transformações assiste-se a alterações substanciais não apenas no referencial metodológico de apreensão da realidade concreta, mas também nas próprias considerações políticas acerca da economia.

Da mesma maneira, as transformações da base produtiva, responsável por uma reconfiguração economico espacial trouxeram a tona novas formas de organização da produção e com isso suscitou a necessidade de se compreender as novas dinâmicas de desenvolvimento. Por isso mesmo, a principal questão que guia o estudo do desenvolvimento não mais repousa em perguntar porque algumas nações são ricas e outras pobres, tal qual preconizava a Teoria do Desenvolvimento Econômico, e sim

128 Convém ressaltar que estamos cientes do perigo em se afirmar a crise do modo fordista, visto que para

um grande conjunto de autores, o que se assiste não é outra coisa senão um aprofundamento do modelo anterior. No entanto, optamos por esta afirmação visto que para os propósitos do presente trabalho, não é crucial compreender a natureza da acumulação e sim sua influência sobre o modo concreto.

porque localidades com dotação de recursos semelhantes possuem trajetórias de desenvolvimento distintas.

Decerto, as novas dinâmicas de desenvolvimento favorecem a emergência de novos atores sociais, que passam então a exigir representatividade e participação política. Assiste-se assim a uma nova metodologia de planejamento do desenvolvimento conhecido como modelo “bottom-up”. Tal estratégia exige que se compreenda de antemão, a natureza cooperativa dos atores. Conforme exposto, a noção de capital social converge a uma polissemia. Apesar das contribuições de Woolcock (1988) não está claro como se cria o capital social, por isso mesmo, não podemos afirmar categoricamente como, porque e se de fato ocorre a natureza cooperativa entre os diferentes atores em condições distintas.

Nesse sentido é que surgem propostas teóricas oriundas dos mais distintos ramos da ciência, como é o caso da economia, sociologia e geografia. É sob esse conjunto de propostas teóricas dispersas, que se inagura a seara do Desenvolvimento Territorial Rural.

Contribuições como a de Haesbaert (2006), Putnam (2000), Reis (2000) constituem a base conceitual daquilo que podemos entender como estratégia de desenvolvimento territorial. Denotar que tal base repousa na articulação conceitual entre território e capital social.

Apoiado na discussão acerca da natureza e papel do capital social, assim como na própria dificuldade em se compreender a natureza do territorio, argumentamos que a noção de capital social poderá ser complementada com a idéia de sitios, ainda pouco divulgada na literatura sobre o assunto. A justificativa para tal repousa na idéia que face a interdisciplinaridade que constitui o objeto de estudo, “desenvolvimento territorial”, a idéia de sitios quando utilizada em suporte a de capital social permite uma

melhor compreensão da natureza de um território, favorecendo com isso um diálogo entre os diversos ramos da ciência que dão conta desta problemática.

Uma vez apresentada a articulação conceitual entre território, capital social e sitio, avançamos então rumo a compreensão da segunda dimensão da estratégia de desenvolvimento territorial, qual seja a dimensão rural. Nesta, estamos interessados em compreender de que maneira as transformações contemporâneas afetaram a natureza e papel do rural. A justificativa para tal, repousa na própria importância que o rural sempre desempenhou como elemento de suporte ao desenvolvimento capitalista.

Dessa maneira, o que se verifica é uma profunda alteração na natureza e papel do rural, pois se no passado, a indústria tensionava com a agricultura no sentido de retirar-lhe as condições de sua acumulação, hoje se funde a ela no sentido de acumular numa nova base.

Da mesma forma , o rural que antes era tratado pelos sociólogos como o lugar do atraso – haja vista as considerações de Marx e Weber – e pelos economistas como resíduo do urbano – haja vista as considerações de Von Thunen e Alonso – hoje é entendido como um espaço cuja demanda maior provém de atores do assim entendido meio urbano, nesse sentido, justifica-se o argumento do surgimento de uma nova ruralidade, não oposta a urbana e não resumida a uma classe social, mas sim a um conjunto delas.

Face a tais manifestações, diversas políticas públicas de combate a pobreza rural foram formuladas levando em consideração tais transformações. Nesse aspecto, assiste-se no Brasil a um instigante debate com grandes contribuições acerca do entendimento deste novo rural ou desta nova ruralidade, conforme se pôde constatar nas linhas de pesquisa do Rurbano, Abramovay e José Eli da Veiga.

Decerto, o desenho de uma política pública destinada a combater a pobreza rural e que leve em consideração apenas o aspecto espacial não constitui grande valia senão considerar presente em tais espaços, o elemento humano – conforme fizeram os geógrafos ao tratar do território129. Nesse contexto, a partir do entendimento que a organização dos atores favorece a emancipação dos mesmos e levando em consideração as novas especificidades do rural, é que surgem no Brasil a partir da segunda metade da década de 1990 políticas publicas de recorte territorial. Assim, registram-se políticas tais como o PRONAF, Territórios Rurais, CONSADS, Consórcios Intermunicipais, Programas de Integração.

Apesar de tais políticas fundamentarem suas ações num referencial teórico articulado entre território e capital social, algumas dificuldades de êxito puderam ser identificadas na literatura acerca do assunto, pois a heterogeneidade dos atores assim como o próprio contexto em que se implementam tais políticas parece responder crucialmente para os resultados obtidos. A esse ponto, a justificativa teórica do capítulo I já começa a ser percebida.

Por isso mesmo, uma vez apresentado o papel e propósito do rural avançamos então rumo a o estudo de caso concreto, que se estabeleceu no Território Rural dos Lençois Maranhenses/Munim, caracterizado como um território deprimido. Em entrevista colhida junto a distintos atores beneficiados diretamente com as políticas do MDA/SDT, podemos constatar que apesar das reivindicações estabelecidas pelos distintos atores junto ao Estado serem atendidas, as mesmas não vêm se transformando em oportunidades de melhoria das condições materiais. Neste aspecto, parece estar claro que a noção de capital social da forma como vem sendo trabalhada pela SDT no

Território Rural dos Lençois Maranhenses/Munim não constitui elemento suficiente para a emancipação dos atores.

Argumentamos que a fragilidade do capital social, para o caso em questão, encontra-se no próprio sentido de pertencimento, que ainda não está fortemente estabelecido entre aqueles atores. A nosso ver e apoiados na teoria dos sitios, a justificativa para tal repousa na idéia que o sentimento de inclusão e com isso de pertencimento, para o caso em estudo, ocorrre mediante a participação nas atividades de turismo.

Dessa forma, a emancipação do território em questão poderá ser favorecida por uma participação direta e contínua do Estado, respeitando o sentimento de inclusão, que para este caso passa pela exploração da idéia guia da atividade turística.

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