Por todos estes fatos, podemos ver que a Índia é um país que traz consigo alguns chavões, alguns deles ligados principalmente à questão da espiritualidade. Cabem aqui as palavras de Jean-Claude Carrière, que realizou mais de 30 viagens a este exótico país. Diz ele:
Se há muito tempo a maioria de nós abandonou a atitude de desprezo que era a dos viajantes e conquistadores (um povo bárbaro, idólatra, cruel, de uma ignorância obscura), devemos também desconfiar do clichê oposto, que há muito tempo se disseminou, de uma Índia serena, contemplativa e, como dizem alguns, “espiritual”. Os melhores espíritos são suscetíveis de sucumbir a esta utopia mística, que numerosos hindus astuciosamente alimentam. Eles falam de aventura interior, de harmonia cósmica, de samadhi e de chakra, chegando a fazer alardes a certos prodígios. Desconfiança em relação a tudo isso, bem entendido.(CARRIÉRE,2002:10) Carrière é bem realista neste texto e deve ter seus motivos para tal afirmação. Percebe-se, dentro do círculo dos adeptos do Yoga, uma certa fantasia, achando que na Índia se encontra um iogue em cada esquina, ou ainda que todos os indianos pratiquem ou se interessem pelo Yoga. Isto é de fato uma “utopia mística”. A grande maioria deles não sabe o que é, e não pratica. É muito comum, nos cursos de formação, na Índia, ou nas aulas regulares de Yoga (Hatha-Yoga melhor dizendo), encontrarmos quase 100% de estrangeiros, mesmo porque a maioria deles é extremamente cara para os bolsos indianos. Fala-se, também, que os preços são diferentes, um para estrangeiros e outro para indianos, o que é muito justo. Atualmente, algumas empresas estão oferecendo aulas de Hatha-Yoga para seus funcionários, na maior parte das vezes um trabalho leve de alongamento, que podemos talvez comparar com a ginástica postural que é realizada no Brasil. Também alguns hospitais fazem uso do Hatha-Yoga como parte da terapia.
É comum, também, o ocidental achar que todo indiano entenda de meditação ou de Yoga: o que é falso. Carrière, ao falar sobre o Yoga em seu livro Índia um olhar amoroso, relata:
É na Europa que “fazemos ioga”, não na Índia. Para nós, trata-se de uma espécie de ginástica respiratória, de um exercício popularizado há muito tempo, cujos benefícios podem ser percebidos – se soubermos nos proteger dos charlatães que o divulgam. (CARRIÈRE, 2002:179).
Para completar a afirmação do autor, observe-se que não é só na Europa que se pratica Yoga. No Brasil existem muitas pessoas que conhecem o Yoga na sua essência, uma Yoga que está muito além daquela que ele próprio descreve, pois ele se prende ao Yoga-sutra de Patanjali e aos darshanas, escolas filosóficas, mas o Yoga é muito mais antigo, como será esclarecido no capítulo terceiro.
Mestre Bohdan chegou a iniciar em Sorocaba vários indianos na prática da meditação. Na época, isto foi uma surpresa para muitos, pois, afinal de contas, eles vinham do país “berço do Yoga” e não a praticavam. Ao ler os livros sobre Yoga, de autores
indianos mais recentes, é preciso ter discernimento, pois, em muitos deles, encontramos afirmativas a respeito do tema que podem confundir o leitor inexperiente. As academias de Hatha-Yoga, freqüentadas por indianos, são poucas na Índia e são encontradas apenas em grandes centros. Outras podem ser vistas em locais que são muito freqüentados por turistas, como Dharamsala, ou em centros mais tradicionais e especializados como Rishkesh, Hardwar, Mysore, Lonavla, Pune, Chennai. Nestes locais, vamos encontrar pessoas que vivem o “espírito do Yoga” e outras que vivem “ às custas do Yoga”.
Conclusão
Procuramos neste capítulo situar o momento da pós-modernidade mostrando suas principais características na visão de alguns estudiosos como Baudrillard, Giddens, Canclini e Queiroz. Vimos que este período não ocorre como se estivéssemos em uma nova era da história, mas trata-se de temas novos e de uma fase heurística. Que existem neste período situações que são impactantes ligadas aos avanços tecnológicos. Assistimos no dia a dia uma mudança no comportamento social onde as pessoas se tornaram mais egocêntricas, narcisistas e com uma predileção para o modismo, o supérfluo, o efêmero. De outro lado, temos uma medicina avançada que proporciona mais saúde, longevidade e uma globalização cultural, onde qualquer pessoa pode ter as informações que desejar pois a comunicação se tornou global e a rapidez nas indústrias que se tornaram mecanizadas.
Focamos também algumas faces culturais da pós-modernidade, como o modismo, o hibridismo e a tradição, situações específicas que vêm acontecendo e nos mostram a fragilidade do termo pós-moderno, pois, se quisermos que o pós designe uma superação do moderno. Podemos identificar a moda convivendo com a tradição e realizando fusões, hibridando para poder harmonizar o velho e o novo, embora em muitas situações impere o conflito.
Apresentamos alguns artigos que, ao longo dos anos, foram colecionados e espero tenha podido dar uma visão ao leitor de como o nosso tema, o Yoga e a Meditação tem sido mostrado pela mídia escrita.
A primeira coisa que nos chama a atenção, nesta coleção, é que na sua maioria desvincularam o Yoga da Meditação. Quando os artigos citam o Yoga, o relacionam à prática física, ou seja, ao Hatha-Yoga. A Meditação passou a ser vista como uma técnica diferenciada, ou seja, desvinculada daquilo que se conheceu originalmente por Yoga. É
difícil identificar claramente quando este fato ocorreu, mas, podemos dizer que, de forma muito sutil, este distanciamento foi acontecendo ao longo dos anos. Em nosso ponto de vista, isto começou na Índia.
Percebe-se também que, embora haja esta cisão, os benefícios comprovados de pesquisas com meditação são mostrados ao público, muitas vezes, como se fossem pesquisas realizadas com o Hatha-Yoga, o que gera uma certa confusão.
Outro ponto a ser lembrado é que instrutores de Hatha-Yoga insistem em mostrar uma espiritualidade que estaria ligada a prática de posturas, o que não é verdadeiro. Isto é bastante criticado e vai contra o pensamento dos grandes mestres, como já vimos no capítulo primeiro. Muitos já deixaram bem claro que o Hatha-Yoga não leva à iluminação. Divulgar o Hatha-Yoga como algo que vai levar ao “nirvana” é um engodo.
Ficou evidente também o fato do Yoga ter se tornado um bem de consumo, típico da pós-modernidade, um modismo, uma ginástica “pop”. Um objeto onde os mais espertos conseguem transformar em dinheiro a boa fé de muitos. O culto ao corpo, típico dos nossos tempos, veio a facilitar este “boom” dos estilos mais modernos do Hatha-Yoga, como no caso do Power, do Yogilates e muitos outros. Aqui, o objetivo é, na maioria das vezes, mostrar um “corpo sarado”42, que se torna ainda mais admirado se for capaz de
realizar os mais difíceis contorcionismos da prática. É realmente muito bonito ver a capacidade que o corpo tem de se adaptar a posturas tão difíceis, complicadas e “fantásticas”. Este tipo de exibição, de yoga-show, que ainda hoje atrai público, inclusive na Índia, podemos ver também nas pausas dos congressos de Yoga, entre alguns professores de Hatha-Yoga ou com os artistas do Cirque du Soleil.
Mas, a procura pelas escolas de Yoga tem aumentado. Se, na década de 60 e 70, a procura foi maior pela meditação, na década de 80, com o “boom” das academias de ginástica e dos exercícios aeróbicos, o Yoga-Meditação foi deixado um pouco de lado. Ressurgiu com mais força nos anos 90, o Yoga do físico ou o Hatha-Yoga, e podemos ver pelos artigos, que os anos de 2003 até 2006, foram significativos. É comum, nos artigos, não identificar de qual tipo de Yoga está se falando e só aqueles que conhecem o assunto podem identificar tratar-se do Hatha-Yoga. Faltam estatísticas para constatar os avanços em número de adeptos e de centros de treinamento que formam os professores de Yoga no Brasil e no mundo. Os adeptos estão principalmente entre os intelectuais e nas profissões liberais, e as mulheres representam mais de 60% da clientela.
42 -“Corpo sarado” é uma expressão muito usada no mundo do fitness e simboliza um corpo que mostra uma musculatura bem definida e, esteticamente perfeito.
Muitos livros e artigos de revistas foram e continuam sendo publicados sobre vários aspectos do Yoga, que passam ao público idéias que não mostram seu verdadeiro objetivo. Na maioria das vezes, as informações permanecem na superfície, o que dá margem a concepções das mais diversas do que seja o Yoga.
O conceito geral divulgado pela mídia é que o Yoga uma atividade que desenvolve a força, a flexibilidade, previne (ou até cura) doenças, ajuda a combater o estresse, relaxa e teria como objetivo “trabalhar o físico, o emocional e o mental”. Ora, sabe-se que toda atividade física, de um modo geral, tem essa condição de melhorar as condições físicas de uma pessoa. Quanto ao aspecto emocional a atividade física pode ajudar, mas não resolve o problema totalmente, como veremos no próximo capítulo. Para alguns profissionais e adeptos do Hatha-Yoga, os “asanas” teriam a função de preparar e aliviar o corpo das tensões musculares para, depois de alguns anos ou meses, poder começar com a prática da meditação, considerada, por muitos, como uma prática difícil, mas esta pretensão acaba sendo esquecida. A questão das posturas, que a principio deveria ser um meio, passou a ser um fim em si mesmo. Essas práticas podem ajudar as pessoas a ter uma vida mais saudável, mas as famosas “asanas” (posturas) representam apenas uma etapa, como ensina Patanjali, que poderia levar o praticante a descobrir o caminho para o Yoga-Meditação. Inclusive, é uma etapa que, na visão de alguns mestres, pode ser dispensada. Os exercícios físicos conhecidos no Ocidente como Yoga não valorizam a idéia do verdadeiro Yoga.
Vimos, no capítulo primeiro, que muitos mestres indianos já faziam criticas com relação à importância dada às posturas, sempre alertando para o fato de que estas práticas “não eram o verdadeiro Yoga”. Ao que parece, este alerta de alguns mestres, tais como Vivekananda, Ramakrisha, Yogananda, Yukteswar, Krishnamurti, Brunton, Maharishi,e como veremos ainda, Ramana Maharshi e Mestre Bohdan, não foi suficiente para convencer os adeptos para que não dessem tanta importância ao terceiro passo do Yoga- Sutra de Patanjali, pois o objetivo era chegar ao oitavo passo: o Samadhi. Ao invés de valorizar a técnica do Yoga, no seu aspecto mais elevado e levar seus alunos a atingir o topo dos oito passos de Patanjali, já ficaram satisfeitos, na sua grande maioria, com o terceiro passo, que são os “asanas”, esquecendo-se que este passo nada mais é que uma mera preparação para os demais. Swami Satchidananda , ao comentar os Yoga-Sutras de Patanjali , esclarece:
Quando a palavra Yoga é mencionada, muitas pessoas pensam imediatamente em algumas posturas físicas para relaxar e tornar flexível o corpo. Este é um dos aspectos
da ciência yogi, mas na verdade é só uma pequena parte e relativamente recente em seu desenvolvimento. O Yoga físico, ou Hatha Yoga, foi inicialmente concebido para facilitar a verdadeira prática do Yoga, a saber, a compreensão e o domínio completo da mente. Portanto, o verdadeiro significado de Yoga é a ciência da mente. (SATCHIDANANDA, 2000:XV). (O grifo é meu).
O autor, no texto acima, expressa claramente que o Yoga físico foi concebido numa época relativamente recente se compararmos com a origem do Yoga, para que se pudesse, como diz Satchidananda “facilitar a verdadeira prática do Yoga”, que é a busca do controle da mente. Mas houve uma distorção e, com o passar dos anos, o que seria uma “preparação” passou a ser o principal. Na opinião do autor, o verdadeiro significado do Yoga é a “ciência da mente”, ou seja, atividades que tenham como objetivo atingir o controle da mente.
Valorizando apenas o físico e deixando de lado a prática principal, que é a meditação, não estamos ajudando o aluno a realizar o verdadeiro ato de “Yoga”. Está claro que este Yoga, que usa da técnica da meditação, pressupõe uma longa dedicação e disciplina para que ocorra a purificação até que aconteça o “yuj”-“união”.
No Kula-Arnava-Tantra, encontramos a seguinte observação:
O Yoga não é [realizado] nem pelo sentar-se na postura do lótus nem por fixar-se na ponta do nariz. O Yoga, segundo os especialistas em Yoga, é a identidade da psique (jiva) com o Si Mesmo [transcendente]. (FEUERSTEIN,2006:474).
O texto é claro: o sentar-se com os olhos fixos na ponta do nariz, e talvez repetindo uma palavra (mantra) serve como um instrumento para tranqüilizar a mente, mas isto ainda não é o Yoga. É apenas uma técnica que pode levar ao Yoga propriamente dito.
Ao final do capítulo mostramos a Índia, na sua situação atual, com toda sua complexidade, problemas e avanços, para dissipar muitas ilusões sobre o berço do Yoga.
Todos os tópicos constituem um preâmbulo para situar o Yoga no contexto atual. Ele veio da Índia mas se situa, hoje, numa fase de transição e de busca, chamada de pós- moderna, que o afeta. Por isso, corre o risco de se tornar um modismo, como a grande parte da mídia o apresenta. Sem descartar a positividade da hibridação cultural do Hatha- Yoga, no Ocidente e também na Índia, a tese, ao fixar seus olhares sobre a pessoa e o pensamento de Mestre Bohdan, pretende enfatizar o seu pioneirismo em apontar os aspectos científicos do Yoga-Meditação, penetrando nos meandros mais avançados da neurociência. Ao mesmo tempo, a tese quer mostrar que o Mestre, como representante de
uma linhagem que privilegia a unidade inseparável entre Yoga-meditação-silêncio e busca da iluminação, se coloca entre os grandes mestres que preservam uma tradição milenar no borburinho da pós-modernidade.