Considerando a importância de refletir sobre o conhecimento acumulado na temática relacionada ao estudo, é possível estabelecer conclusões acerca das produções analisadas, de 2005 a 2013, disponíveis no Banco de Teses e Dissertações da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES), na Biblioteca Digital Brasileira de Teses e Dissertações (BDTD – IBICT) e no GT 15 da ANPED que trata da educação especial.
Houve um aumento do interesse de pesquisadores pelo tema da inclusão no Ensino Superior da pessoa com deficiência, ou seja, as pesquisas vêm tomando novo direcionamento, da Educação Básica para o Ensino Superior. Acredita-se que esse movimento é fruto do aumento do número de estudantes com deficiência nesse nível de ensino, conforme já foi apresentado, consequência das lutas históricas pela democratização do acesso ao ensino em todos os níveis. A Política Nacional de
Educação Especial Inclusiva, de 2008, entre outras medidas políticas, influencia a produção do conhecimento sobre inclusão educacional, uma vez que as ações políticas são constantemente objeto de análise de pesquisadores.
Os estudos realizados no período indicam que as instituições de Ensino Superior ainda não estão preparadas para receber alunos com deficiência, embora vários dispositivos legais disponham sobre o acesso, a permanência e a aprendizagem do estudante com deficiência. Em muitas instituições pesquisadas existe o Núcleo de Acessibilidade, mas as ações têm acontecido de forma isolada e desarticulada e muitos estudantes contam apenas com o apoio da família, dos colegas e de alguns professores para concluir o curso. Dessa forma, tudo indica que, em muitas, o Núcleo de Acessibilidade parece não estar regularizado ou não tem força política, havendo pouca implicação na gestão universitária. Os desafios estão relacionados ao investimento em recursos materiais e humanos e à adequação dos espaços físicos, visando à garantia de igualdade diante dos demais estudantes.
Foi possível observar que grande parte dos estudos realizados não faz distinção entre educação especial e educação inclusiva, ou seja, nas pesquisas, a distinção desses conceitos não aparece. Os resumos revelam certa fragilidade, com ausência de elementos essenciais que deem, ao leitor, condições de saber de que trata, efetivamente, o trabalho. Há escassez significativa de trabalhos que investigam o percurso escolar de estudantes surdos-cegos e autistas. Onde estão eles? Será que ainda não alcançaram a universidade? Se o desejável é a construção da educação para todos e a valorização da singularidade humana, é preciso que essas pessoas tenham acesso ao Ensino Superior. O fato é que continuam silenciadas nas pesquisas analisadas.
O estudo realizado possibilita, ainda, discutir outras cinco questões. A primeira diz respeito ao pequeno número de pesquisas que têm, como sujeitos da investigação, os próprios estudantes com deficiência. Considerou-se que a escuta deve ser o ponto de partida para a avaliação e o planejamento de atividades nas instituições. Com a escuta constante se torna possível avaliar se as ações de acessibilidade são, ou não, propositoras de inclusão e promover mudanças no sentido de fazer da instituição um lugar de bem-estar e aprendizagem com independência, na perspectiva da educação para todos.
Percebeu-se a importância de oportunizar espaços de escuta aos estudantes com deficiência, para que pudessem se sentir sujeitos no processo de inclusão e indicar
caminhos e possibilidades para garantir a permanência e a educação de qualidade. Portanto, não há meios de produzir pesquisa relevante sobre o aluno com deficiência, sem a sua participação ativa: “Nada sobre nós, sem nós”32. Mas as pesquisas revelam
certa fragilidade em considerar o estudante com deficiência como protagonista do processo de inclusão educacional. Ninguém melhor que ele sabe que estratégias e recursos são os mais adequados. As suas vivências devem ser consideradas.
A segunda questão trata da análise dos aportes teóricos das pesquisas desenvolvidas nas dissertações e teses no período pesquisado. Foi possível constatar que Sassaki, Glat e Mantoan aparecem como os principais clássicos da educação inclusiva no Brasil. Por outro lado, há também um conjunto de estudos, inicialmente, situados no campo das Ciências Sociais, da Filosofia e da Psicologia.
Quanto à terceira questão, trata-se da observação de certa fragilidade das pesquisas analisadas no que se refere à contextualização histórica e política. Poucos estudos dedicam um capítulo a essa contextualização. A educação especial inclusiva é uma prática social, não podendo estar desconectada.
O que pretendo destacar, com essa observação, é a importância da contextualização do objeto de estudo, para melhor análise da realidade, no caso, a inclusão na Educação Superior. Assim, o objeto de estudo não se constrói no vazio, pois tem estreita articulação com o contexto econômico, o sociopolítico e o cultural dos quais surge.
Outra questão, já apontada, diz respeito ao fato de estar no mestrado a maior concentração das produções analisadas no período de 2005 a 2013.
A quinta e última questão a considerar diz respeito ao impacto social que os estudos sobre a inclusão no Ensino Superior da pessoa com deficiência analisados no período de 2005 a 2013 podem ou poderiam ter. Para Santos e Azevedo (2009), nem sempre o impacto é preocupação do pesquisador ou da instituição a que ele se vincula, uma vez que a vida acadêmica, muitas vezes, se distancia da vida prática.
As considerações das autoras fazem surgir inquietações. As produções científicas sobre inclusão educacional do estudante com deficiência do período investigado têm impacto na política e na vida escolar dos estudantes com deficiência? As investigações desenvolvidas têm retornado às universidades como indicadores de
32 A frase “Nada sobre nós, sem nós” tem sido usada como um lema para promover os direitos das pessoas com deficiência.
soluções ou análises aprofundadas sobre os objetos que são focos de investigação? Para Gohn (2005, p. 271), esse retorno é fundamental, pois “só assim as pesquisas poderão ser ferramentas que promovam alterações qualitativas, que contribuam para a melhoria das escolas e das relações que lá se desenvolvem”.
São inquietações que aumentam ainda mais a minha responsabilidade com esta pesquisa. É preciso considerar que o retorno à universidade deve passar pela iniciativa de pesquisadores, mas, essencialmente, por gestores e prioridades governamentais.
O estudo realizado contribui para a compreensão de que a inclusão no Ensino Superior do estudante com deficiência é recente e requer discussões e estudos diante dos desafios enfrentados, com relação tanto ao acesso quanto à permanência na instituição e à conclusão de curso com qualidade. É preciso saber por que, apesar das produções existentes, ainda são tímidas as modificações. As pesquisas continuam mais denunciando problemas enfrentados do que propondo, por meio das análises, sugestões de intervenção. Somado a isso, é preciso questionar o aproveitamento que os poderes públicos fazem de análises e/ou sugestões presentes nessas pesquisas, utilizando-as como subsídios para a construção de uma universidade de fato para todos.
Fica evidente que as ações inclusivas precisam ser ampliadas na construção e efetivação de culturas e políticas institucionais educacionais inclusivas, que visam à formação e às práticas mais efetivas. Para que isso ocorra, as IES precisam assumir o compromisso de produzir conhecimentos, qualificar recursos humanos, envolver os protagonistas do processo, não deixando de considerar a importância da gestão universitária no compromisso de regularizar o Núcleo de Acessibilidade.
A reflexão coletiva sobre a prática inclusiva deve ser incentivada no ambiente acadêmico. Ao mesmo tempo que proporciona a formação em serviço, ela vai atribuindo sentidos subjetivos. É importante organizar momentos de formação nos quais os agentes educacionais são instigados a questionar concepções e a assumir eventuais preconceitos e estereótipos presentes na sua prática e na cultura universitária.