Exatamente com base em garantias institucionais, funcionais e individuais, alguns magistrados intentam asseverar, ainda que de modo meio transverso, que a atuação do Conselho Nacional de Justiça cerceia essas garantias, ofendendo a independência do Judiciário. Há de certo que essas garantias devem ser respeitadas, porém não podem ser utilizadas indiscriminadamente a fim de tolher as atribuições conferidas ao Conselho.
Assim, levando em consideração a atribuição de expedir atos regulamentares, conferida ao CNJ pelo inciso II, do parágrafo 4º, do artigo 103-B, da Constituição, questiona-se quais os limites desses atos e que força normativa possuem.
Estabelecendo um comparativo entre leis e resoluções, cumpre frisar que aquelas, em sendo emanadas do poder legislativo, possuem caráter geral e abstrato, já as resoluções, que possuem caráter regulamentar21, são destinadas a situações concretas e individualizadas.
Em sendo a atuação dos magistrados regulada pela Lei Orgânica da Magistratura Nacional e pela Constituição, serão também estes os parâmetros balizadores da expedição de atos regulamentares pelo Conselho Nacional de Justiça.
Igualmente sustentando a necessidade de limites à expedição de resoluções, estão Clève, Sarlet e Streck (2005) ao afirmarem que:
O fato de a EC 45 estabelecer que os Conselhos [Nacional de Justiça e Nacional do Ministério Público] podem editar atos regulamentares não pode significar que estes tenham carta branca para tais regulamentações. Os Conselhos enfrentam, pois, duas limitações: uma, stricto sensu, pela qual não podem expedir regulamentos com caráter geral e abstrato, em face da reserva de lei; outra, lato sensu, que diz respeito à impossibilidade de ingerência nos direitos e garantias fundamentais dos cidadãos. Presente, aqui, a cláusula de proibição de restrição a direitos e garantias fundamentais, que se sustenta na reserva de lei, também garantia constitucional. Em outras palavras, não se concebe - e é nesse sentido a lição do direito alemão - regulamentos de substituição de leis (gesetzvertretende Rechtsverordnungen) e nem regulamentos de alteração das leis (gesetzändernde Rechtsverordnungen). É neste sentido que se fala, com razão, de uma evolução do princípio da reserva legal para o de reserva parlamentar. Assim, corroborando com os ensinamentos acima expendidos, entende-se ser inconcebível em um Estado Democrático de Direito que atos regulamentares possam avançar sobre garantias institucionais, funcionais e individuais asseguradas ao Poder Judiciário, aos magistrados e aos indivíduos em geral.
Assim, corroborando com os ensinamentos acima expendidos, entende-se ser inconcebível em um Estado Democrático de Direito que atos regulamentares possam violar garantias institucionais, funcionais e individuais asseguradas ao Poder Judiciário, aos magistrados e aos indivíduos em geral.
Além do questionamento acerca da atuação regulamentar do CNJ, foi veiculado na mídia22 escrita e televisiva que este órgão, supostamente, teria incorrido em quebra de sigilo
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A esse respeito, confira-se o artigo “A atribuição regulamentar do Conselho Nacional de Justiça e seus limites: alguns apontamentos sobre o ato administrativo regulamentar e a vinculação da Administração Pública ao
princípio da juridicidade” de Pedersoli (2009). Disponível em:
<http://ejef.tjmg.jus.br/home/files/publicacoes/artigos/0292009.pdf>, Acessado em 05 maio 2012.
22 Conferir, a propósito, as matérias relacionadas ao tema que foram publicadas nos Jornais Folha de São Paulo e O
Estado de São Paulo. Disponível em: <http://www1.folha.uol.com.br/poder/1033550-coaf-aponta-operacoes- atipicas-de-r-855-mi-de-juizes-e-servidores.shtml> e <http://www.estadao.com.br/noticias/nacional,coaf-mostra- movimentacoes-atipicas-de-r-855-mi-no-judiciario,821962,0.htm>. Acesso em: 28 maio 2012.
bancário de juízes e servidores. Com base em levantamento feito pelo Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf), o qual identificou que cerca de 3,4 mil servidores e juízes possuíam movimentações financeiras atípicas em suas contas, o CNJ começou uma investigação acerca dessas movimentações, as quais estavam em torno de R$ 855,7 milhões de 2000 a 2010.
Levando-se em consideração o pagamento retroativo referente ao auxílio-moradia pago a magistrados, no Tribunal de Justiça de São Paulo, 17 desembargadores receberam pagamentos individuais de uma só vez. Na maioria dos tribunais, o pagamento foi dividido em várias parcelas. O simples fato de alguns magistrados receberem o valor total do referido auxílio, enquanto outros o receberam parceladamente, já pode configurar uma violação ao princípio da impessoalidade. Nesse sentido, seria plenamente cabível a atuação do CNJ, embasado no inciso II, do parágrafo 4º, do artigo 103-B da Constituição Federal, a fim de zelar pela observância do disposto no artigo 37, caput, do mesmo diploma constitucional.
Conforme disposto na Lei nº 9.613/9823, o Coaf poderá requerer aos órgãos da Administração Pública as informações cadastrais bancárias e financeiras de pessoas envolvidas em atividades suspeitas, bem como deverá comunicar às autoridades competentes para a instauração dos procedimentos cabíveis, quando concluir pela existência de crimes previstos nesta Lei, de fundados indícios de sua prática, ou de qualquer outro ilícito. Assim, resta claro que a atuação do Conselho de Controle de Atividades Financeiras foi pautada na estrita legalidade.
Ressalte-se ainda que não foram veiculadas informações pessoais dos supostos envolvidos nestas movimentações consideradas atípicas. O CNJ, como órgão de controle do Judiciário, pode investigar dados que possam apontar a prática de algum ilícito administrativo. Tal atribuição pode ser deduzida da Emenda Constitucional nº 45, a qual prevê, em seu artigo 5º, parágrafo 2º, que, até a entrada em vigor o Estatuto da Magistratura, o Conselho Nacional de Justiça, mediante resolução, poderá disciplinar o seu funcionamento e definir as atribuições do Ministro-Corregedor. O artigo 8º, inciso V do Regimento Interno do CNJ dá poderes à Corregedoria Nacional de Justiça para que esta possa requisitar das autoridades fiscais, monetárias e de outras autoridades competentes informações, exames, perícias ou documentos, sigilosos ou não, imprescindíveis ao esclarecimento de processos ou procedimentos submetidos à sua apreciação, dando conhecimento ao Plenário.
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A lei nº 9.613/98 Dispõe sobre os crimes de "lavagem" ou ocultação de bens, direitos e valores; a prevenção da utilização do sistema financeiro para os ilícitos previstos nesta Lei; cria o Conselho de Controle de Atividades Financeiras – COAF e dá outras providências.
Apesar da fundamentação legal acima exposta, associações de magistrados buscaram obter provimento liminar no Mandado de Segurança nº 31.08524, a fim de suspender o poder da Corregedoria Nacional de Justiça de violar o sigilo bancário de funcionários do Judiciário sem autorização judicial. Deferida a liminar pelo, então plantonista, Ministro Ricardo Lewandowski25, foram suspensos os atos decorrentes dos Pedidos de Providências autuadas na Corregedoria Nacional de Justiça sob os números 0003245-34.2009.2.00.0000 e 0006288- 08.2011.2.00.0000, até o momento em que fossem prestadas as informações pela Corregedoria Nacional de Justiça.
Por determinação do então Presidente do Supremo, Cezar Peluso, os autos do referido processo foram redistribuídos ao Ministro Luiz Fux, tendo em vista que este havia sido sorteado, três dias antes, como relator do Mandado de Segurança nº 31. 083, o qual versa sobre o mesmo assunto26.
Tendo a Corregedora Nacional de Justiça, a Ministra Eliana Calmon, apresentando as suas informações, onde sustentou a validade dos atos atacados, bem como tendo sido determinada a intimação de associações de servidores e de associações de notários e registradores, o Ministro Luiz Fux determinou que a Corregedora poderia continuar nas inspeções que eram rotineiras antes da concessão da liminar.
Ressalte-se, por fim, que o Mandado de Segurança nº 31.085 segue o seu trâmite regular, aguardando a análise de seu mérito.
Em virtude de sua atribuição de guardião da Constituição Federal, o Supremo Tribunal Federal deverá analisar a referida ação com base nos garantias institucionais, funcionais e individuais asseguradas ao Poder Judiciário, aos magistrados e aos indivíduos em geral. Assim, não poderá furtar-se o dever de atender aos fins colimados ao Conselho Nacional de Justiça pela Constituição Federal, não podendo ser utilizado por alguns magistrados como instrumento interpretativo limitador dos poderes do CNJ.
24 Disponível em: < http://www.stf.jus.br/portal/processo/verProcessoAndamento.asp?incidente=4185365>. Acesso
em: 28 maio 2012.
25 A esse respeito confira-se a publicação do Diário da Justiça Eletrônico. Disponível em:
<https://www.stf.jus.br/arquivo/djEletronico/DJE_20120210_031.pdf>. Acesso em: 29 maio 2012.
26
Conforme notícia veiculada no site do Conselho Nacional de Justiça. Disponível em:
<http://cnj1.myclipp.inf.br/default.asp?smenu=noticias&dtlh=16961&iABA=Not%EDcias&exp=s>. Acesso em: 29 maio 2012.