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Paranapanema. Em setembro de 1995 foi criado o Plano de Ação Governamental para o Pontal do Paranapanema

pelo qual se promulgava pela legitimação das áreas devolutas inferiores a 100 ha e pela retomada judicial das áreas devolutas superiores a 500 ha, destinando-as ao assentamento de trabalhadores rurais sem terra, “pacificando” os conflitos que vinham se acirrando desde 1990. (ITESP, 1998d, p.04).

E assim, depois das fortes pressões dos movimentos socioterritoriais e da criação de condições legais, deu-se uma sequência de implantação de assentamentos no Pontal do Paranapanema, que é apresentada em ordem cronológica, no Gráfico 02 a seguir:

Gráfico 02 – Ordem cronológica da implantação dos Assentamentos rurais no Pontal do Paranapanema

É interessante observar a ordem cronológica de implantação destes assentamentos e tentar compreender os processos que a antecederam e que ainda a precedem a partir da pressão popular e pelas respostas que o Estado é forçado a dar. Entender cada ano como um processo diferente, com diferentes oportunidades políticas, agentes sociais e agências envolvidas, grupos de interesses a serem beneficiados ou prejudicados em face dos possíveis efeitos práticos da implantação de cada assentamento. Trata-se de processos permeados pelo conflito. Processos esses que levaram à criação do MST e também de outros movimentos dissidentes, lutando pelas mesmas causas e também à criação da UDR e de tantos outros grupos de interesses semelhantes ou contrários.

Observamos que fortes foram as pressões e lentas as respostas, de 1984 a 1994 foram implantados apenas 06 assentamentos. Nestes 10 anos a pressão por terra só aumentou, principalmente com a chegada do MST em 1990, considerando desta data até 1994 foram mais de 87 ocupações em sete municípios do Pontal, iniciando por Teodoro, seguido de Mirante, Presidente Epitácio, Euclides da Cunha, Martinópolis, Rancharia e Rosana.

Nos anos seguintes, de 1995 até 1998 construiu-se mecanismos políticos16 e físicos, para que as áreas reivindicadas fossem rapidamente negociadas e entregues para parcelamento. Foram implantados apenas em 4 anos a maioria de todos os assentamentos existentes na região atualmente: 68 dos 103 existentes. As razões desta oscilação já foi explicitada anteriormente quando apresentamos os diferentes projetos de reforma agrária nos diferentes períodos de governo e as estratégias que foram sendo montadas para tentar conter os avanço da luta pela terra.

Desse modo, pela impossibilidade de superação da questão agrária, por meio do paradigma adotado o governo FHC ajustou estrategicamente uma política de transferência e substituição dos elementos da questão agrária. Assim, os elementos em que os trabalhadores têm perspectiva de enfrentamento e resistência nos espaços políticos, são transferidos para o espaço econômico, onde a resistência é reduzida. E os elementos constituídos de identidade política e histórica são substituídos por novos elementos para produção de outra identidade e outra história. (FERNANDES, 2002, p.62).

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A região do Pontal do Paranapanema “...em razão desta situação (conflito), foi objeto de um Plano de Ação em que foram propostas ações reivindicatórias com pedido de Tutela Antecipada que permitiram, com o apoio do INCRA, a arrecadação de mais de 40 imóveis irregularmente ocupados, propiciando o assentamento de quase 2500 famílias até dezembro de 1997 (ITESP, 1998d, p.18).

Contrariando as estratégias de que implantando assentamentos rurais diminuiria a luta pela terra, as ocupações só intensificaram. Segundo levantamento feito pelo DATALUTA (2005) entre os anos de 1997 e 1998 existiam acampamentos em 21 dos 32 municípios que compõem a região, ocorrendo neste período o maior número de ocupações de terras por parte dos movimentos sociais já visto no Pontal do Paranapanema, foram 227 ocupações, de modo que

A luta pela terra acabou por eregir-se num dos principais selos de identidade do Pontal do Paranapanema. O fato de ser um foco de conflito permanente, no Estado de São Paulo, propiciou-lhe uma visibilidade midiática nacional e, até em certos momentos internacional – que acabou estabelecendo uma associação entre o Pontal do Paranapanema e a luta pela terra. (GÓMEZ, 2006, p.380)

Os anos de 1999 até os dias atuais (2007) revelam um recrudescimento na política de implantação dos assentamentos na região, revelando que

o poder político continua muito vinculado aos latifundiários, por meio do domínio das prefeituras, da mistura de interesses com o judiciário ou como grupo de pressão em torno da UDR. (GÓMEZ, 2006, p. 380).

Nos últimos 8 anos apenas 26 assentamentos foram implantados e se comparado ao número de famílias atendidas a ineficiência é ainda maior. Isto não significou diminuição na pressão dos movimentos, ocorreram aproximadamente 114 ocupações neste período e segundo dados da Assessoria de Mediação de Conflitos do ITESP (2006), existem mais de 3835 famílias acampadas.

Percebe-se claramente a tentativa de cortar pela raiz a territorialização da luta pela terra:

Foi assim que o governo tirou a questão agrária do território da política e adotou o Banco da Terra, essa política do Banco Munidal, que coloca a questão agrária no território do capital, limitado as negociações políticas à condições oferecidas pelos negócios do mercado. Dessa forma, o governo se alia aos latifundiários, entorpecendo a questão agrária. E para completar esse estratagema, abandona as famílias assentadas à própria sorte (...) (FERNANDES, 2000, p.63).

É o que percebemos pela tentativa velada de desmantelar instituições como a Fundação ITESP que poderia realizar de forma mais adequada a assistência técnica nos assentamentos rurais, estamos nos referindo ao fato dos funcionários do quadro funcional deste Instituto serem submetidos a pressões constantes, por ameaças de novos concursos e perda do posto de trabalho. Tal fato leva funcionários experientes e capacitados a deixarem a instituição diante de qualquer oportunidade que possa lhe oferecer maior segurança de trabalho. Falamos ainda, da inexistência de políticas agrícolas capazes de dar segurança também ao homem do campo e neste

caso não estamos falando apenas dos assentados, mas também de todos os pequenos produtores rurais, além dos preços mínimos faltam mecanismos que possam permitir o assentado inserir-se economicamente no mercado, já que está inserido nele, se ele não o contempla, natural a luta contra este modelo.

Assim, os sem-terra, por lutarem para serem eles mesmos, por lutarem contra o capital e o latifúndio são desterrados de seus espaços políticos e de seu tempo histórico. É fundamental reafirmar que esse novo momento é resultado da inexistência de uma política de reforma agrária, da extinção dos programas de escassas políticas públicas, destinadas ao desenvolvimento dos assentamentos, da criminalização das ocupações e da mercantilização da questão agrária. (FERNANDES, 2000, p.63).

Corroborando com Fernandes, percebemos que na sociedade capitalista, a questão agrária é resultado de seu modo de produção que se desenvolve por meio do mercado, onde se realiza a renda capitalizada da terra, que gera a desigualdade e a diferenciação social. Neste território é impossível minimizar o efeito devastador do problema agrário, justamente por optar pelo mercado para conduzir esta questão.

5.1 – As ocupações de terra

Percebemos que os acampamentos, tiveram e têm papel fundamental nas estratégias de luta e resistência no campo. Os meios legais de acesso à terra sempre foi a compra, impossível para esta parcela da população e, mais recentemente, o Crédito Fundiário ou o cadastro e a espera. Os acampamentos, no entanto, rompem com esta condição e demonstram a necessidade da emergência na tomada de decisão por parte do poder público.

Dentre as demais estratégias de luta pela terra e de direitos para permanecer nela Fernandes nos aponta os seguintes:

(...) protestos da mais diversas dimensões e formas, acampamentos e romarias, são bloqueios de estradas , são manifestações enfrente aos órgãos federais e estaduais ou ocupações de prédios públicos, manifestações realizadas nas datas comemorativas da luta pela terra; são lutas dos sem-terrinha, das mulheres e dos jovens. São sem-terra, são posseiros, são pequenos agricultores, são sindicalistas, são desempregados: são camponeses. Evidente que essas manifestações representam a resistência dos camponeses que vivem no mundo real: o mundo do capital. (FERNANDES, 2002, p. 64)

Devido à sua grande mobilidade, alguns acampamentos aparecem e desaparecem sem que nenhum registro documental seja feito. Desde o final da década de 1980 e início dos anos 90 que a Comissão Pastoral da Terra (CPT) e a Ouvidoria Agrária tem tentado registrar estes dados que têm sido sistematizados pelo NERA/UNESP/ Presidente Prudente, através da criação do banco de dados

DATALUTA, tais dados nos auxiliam a dimensionar uma das maiores manifestações populares do Brasil, capaz de articular e envolver pessoas em todos os Estados brasileiros.

Estes dados são importantes para demonstrar, também, a importância da pressão popular na implantação dos assentamentos rurais nos municípios estudados. Claro que outros fatores também interferem na realização da política de assentamentos rurais, como as diferentes orientações de política agrária dos sucessivos governos e a perspectiva dos latifundiários fazerem bons negócios fundiários ao negociar com o Estado as áreas devolutas. No entanto, o pivô de toda a alteração socioterritorial ainda é a pressão dos sujeitos coletivos e os acampamentos, ilustrado pela Foto 03, exercem papel fundamental nisto, uma vez que expõe (torna pública) a grave situação a que chegou o trabalhador rural e revela o lado mais triste da expropriação rural: na cidade não existem mais lugares para estas pessoas que, em sua maioria, estão desempregados, ou com subempregos com renda inferior ao necessário para pagar um aluguel ou tirá-lo desta condição de penúria.

Benzer Belgeler