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X ve Y Kuşağında Örgütsel Adalet ve Örgütsel Bağlılık Düzeylerinin

4.8. Araştırmanın Bulguları

4.8.4. Araştırma Değişkenleri Arasındaki İlişkilerin Kuşaklara Göre İncelenmesine

4.8.4.1. X ve Y Kuşağında Örgütsel Adalet ve Örgütsel Bağlılık Düzeylerinin

Conforme o exposto acima, os fundamentos da democracia deliberativa envolvem o confronto com a noção de agregação de preferências e com a conexão dessas preferências com interesses particulares e egoístas. Esse embate é inevitável na medida em que tal concepção supõe a possibilidade de realização da noção de bem comum e mantém o objetivo inaugurado pela perspectiva habermasiana de resgatar a soberania popular – supostamente usurpada - por meio de um procedimentalismo que asseguraria a formação de vontades coletivas. Apesar de toda a confiança depositada na possibilidade da troca livre e pública de argumentos e na suposição de que esse seria o único procedimento que asseguraria a legitimidade de decisões democráticas, são várias as dificuldades localizadas em tais argumentos.

A primeira diz respeito à redução da democracia à sua dimensão eleitoral. Nessa simplificação, a eleição e a representação figuram como mecanismos que desvirtuariam a noção de soberania popular pelo fato de dependerem de mecanismos de agregação de preferências. A segunda dificuldade diz respeito à dependência da teoria deliberativa do arranjo macroinstitucional da democracia contemporânea. Ou seja, ao mesmo tempo em que os autores falam de uma superação da lógica da agregação de preferências eles demarcam a democracia deliberativa como uma vertente complementar e dependente daquilo que denominam de democracia eleitoral. A terceira dificuldade refere-se ao acréscimo da regra da maioria ao critério de troca livre e pública de argumentos como um procedimento para a tomada de decisão coletiva no caso de não ser possível o consenso. A partir disso, e considerando o caráter deliberativo dado por Cohen à esfera pública, é muito difícil aceitar a troca de razões como um mecanismo suficiente para assegurar uma tomada de decisão coletiva, mesmo levando em consideração a suposta força da ideia de bem comum. Essa questão está diretamente relacionada com o quarto problema: a aposta na plena adesão dos cidadãos à participação ou em uma espécie de ímpeto deliberativo de todos os cidadãos.

Confrontando tais questões com os fundamentos da democracia deliberativa deve- se perguntar: quais cidadãos são chamados para deliberar? Se forem todos os cidadãos de uma determinada comunidade, como garantir a legitimidade das decisões na ausência de uma parte dessa população no momento da deliberação? Como assegurar que o talento excepcional de alguns cidadãos para a comunicação não irá interferir nos resultados? Quais os mecanismos de controle sobre a execução das decisões tomadas? Não há aqui nenhuma pretensão de dar

respostas para tais questões. Elas foram feitas apenas para exemplificar um conjunto de elementos que não podem ser regulados apenas pela força de razões trocadas em público.

Alguns desses limites teóricos e práticos da teoria da democracia deliberativa foram discutidos com bastante propriedade por Diana Mutz (2007). Segundo a autora, os estudos sobre redes sociais sugerem que as pessoas costumam ser seletivas quando se expõem àqueles que desafiam seus pontos de vista, por isso, embora a exposição de opiniões seja defendida em teoria, ela seria pouco comum na prática. Isso seria demonstrado pelo comportamento dos indivíduos nas associações voluntárias e de vizinhança em contraste com o ambiente de trabalho. Os primeiros espaços, pelo fato de abrigarem pessoas com ideias e interesse similares, não seriam muito ilustrativos em termos do desacordo político se comparados aos locais de trabalho, nos quais, seriam mais promissoras as chances de se encontrar opositores em conversas sobre pontos de vistas distintos. Isso decorre do fato de que os mais envolvidos com a política serem os menos dispostos a realmente ouvirem e a fazerem concessões a perspectivas políticas diferentes da sua. No caso específico dos Estados Unidos, demonstra a autora que os indivíduos que se consideram liberais ou conservadores no espectro político são os menos prováveis de se exporem a conversações que envolvem opiniões contrárias. Levando tais elementos em consideração a autora ressalta um paradoxo colocado pelos ambientes muito partidarizados, o qual, pode ser ilustrativo do que acontece em qualquer espaço voltado para o ativismo político e/ou social. Trata-se do seguinte:

(...) de um lado, existe um grande número de pessoas com preferências políticas identificáveis, o que sugere uma cultura política vibrante e ativa. Por outro lado, muitos cidadãos em tal ambiente podem se isolar entre aqueles que compartilham as visões semelhantes, tornando difícil a conversação entre pessoas com discursos opostos (MUTZ, 2007, p. 53).23

Segundo Mutz, a tendência de muitos autores que trabalham com a noção de sociedade civil de misturarem os conceitos de democracia participativa e democracia deliberativa e considerarem a deliberação como uma etapa resultante de tal combinação seria um grande equívoco. Com base em suas pesquisas afirma que, incontestavelmente, uma cultura extremamente marcada pelo ativismo político não é a mesma que favoreceria o processo deliberativo. Isso ocorreria porque o melhor ambiente para cultivar o ativismo

23 (...)on the one hand, the existence of large numbers of people who hold readily identifiable political

preferences would tend to suggest a vibrant, active political culture. On the other hand, it appears that many citizens in such na environment will isolate themselves among those of largely like-minded views, thus making it difficult for cross-cutting political discourse to transpire.

político seria aquele em que as pessoas concordam com os pontos de vistas uma das outras. A reunião de pessoas que pensam de modo semelhante seria capaz de gerar de forma mais eficiente o entusiasmo e a paixão que são fundamentais para motivar a participação política. Em um ambiente social que inclui contato próximo entre pessoas com perspectivas diversas, ao contrário, seria possível promover ideias, mas provavelmente não levaria ao fervor político. Dessa forma, um ambiente constituído para facilitar encontros face a face poderia ser muito próspero para gerar processos deliberativos e ao mesmo tempo seria impróprio para promover o ativismo político (MUTZ, 2007, p.3).

A mesma autora discute qual seria o melhor tipo de rede política para maximizar os fins democráticos caso fosse possível controlar as características das pessoas no ambiente social. Afirma que o tipo de rede que encoraja uma sociedade aberta e tolerante não seria, necessariamente, aquele almejado para produzir uma participação entusiasmada. Ressalta, ainda, as contradições presentes no conjunto de itens que costumam ser elencados para caracterizar o cidadão ideal. Por exemplo, para atender às expectativas daqueles que defendem um permanente entusiasmo com a participação, os cidadãos deveriam ter as seguintes características: i) serem ativos politicamente, entusiasmados e fortemente partidários, mesmo quando não estejam cercados por pessoas que compartilham os mesmos ideais. Deveriam ser, também, ii) atentos às razões de todas as opiniões opostas em relação às suas sem se deixar paralisar pelas informações conflitantes e pelas pressões sofridas. Contudo, em uma sociedade aberta e tolerante os mesmos cidadãos deveriam, também, ser capazes de terem as seguintes atitudes: iii) estimular a existência de redes de confiança mútua e, ao mesmo tempo, querer que tal confiança ocorra entre indivíduos que frequentemente discordam do ponto de vista um do outro; iv) ensejar conversas freqüentes sobre temas que envolvem desacordo político e não deixar que tais discordâncias repercutam nas relações pessoais. Mas, conforme destaca Mutz é evidente que, em conjunto, tais características, mesmo sendo fundamentais para a participação política, nunca estarão presentes em todos os cidadãos e ao mesmo tempo. Por isso, conciliar identidades distintas e conviver com opiniões opostas é um problema de difícil equacionamento. Para tentar alcançar algum êxito seria razoável aceitar que a importância da política na vida cotidiana não deveria ser um elemento em constante crescimento, pois, em termos do convívio com a diversidade, a política deveria ser apenas mais uma entre as muitas dimensões da vida dos seres humanos (MUTZ, 2007, p. 125, 126).

Essas questões estão relacionadas com os frequentes equívocos gerados pelo embate entre as noções de participação e apatia política. Tais questões são evidenciadas por

Bruno Reis (2007) quando ele ressalta que é habitual em certas noções teóricas a suposição de que a apatia política poderia comprometer a realização do bem comum porque implicaria a difusão de atitudes egoístas – incompatíveis com a virtuosidade celebrada na perspectiva rousseauniana. Nesse tipo de compreensão residiria o argumento de que aqueles que não arcam com os custos da participação acabam explorando os cidadãos que intensificam a sua participação em busca de soluções para problemas coletivos. Segundo Bruno Reis, os defensores dessa ideia costumam desconsiderar que aqueles que arcam com os custos da participação detêm mais poder, pois, os indivíduos que se abstêm de participar renunciam a sua possível parcela de influência e delegam aos outros o poder de debater e decidir por eles. Além disso, faria parte do argumento que propala o possível egoísmo e individualismo dos chamados apáticos a ideia de que a omissão, resultante da apatia, poderia distorcer o resultado do processo político. Mas segundo Bruno Reis essa seria mais uma pressuposição problemática pelo fato de desconsiderar o risco idêntico de distorção no caso de haver a manifestação de todos. Portanto, nessa condenação moral da apatia política estaria implícita a pressuposição equivocada da existência de simetria informacional entre os cidadãos, bem como, a negação das dificuldades decorrentes da diferença na intensidade das preferências (REIS, B., 2007, p. 1-11).

Ainda segundo Bruno Reis, a apatia, mais do que uma demonstração de ócio ou oportunismo da parte de quem não participa, pode ser considerada uma “variedade irônica de virtude cívica” na medida em que a renúncia de um determinado cidadão pode significar, também, o aumento da probabilidade de que seja tomada “uma decisão coletivamente superior ao abster-se de votar em matérias sobre as quais se considere relativamente desinformado, independentemente dos custos de participação” (REIS, B., 2007, p. 13).

As possíveis razões de tal negação dos problemas gerados pela diferença na intensidade das preferências e da aposta cega no consenso também são discutidas por B. Reis (2007) quando afirma que a presunção da participação política como um dever, mais do que um direito, é decorrente de premissas simplificadoras que afirmam que todas as pessoas teriam ou deveriam ter opinião sobre todos os temas relevantes publicamente ou consideram que todas as pessoas prezam as suas opiniões mais do que aquelas emitidas por qualquer outra pessoa. Para o autor, esse irrealismo pode ser claramente denunciado por uma simples conjectura a respeito de uma comunidade em que todos têm opiniões claras sobre todos os temas de grande importância. Nesse caso, ou se realizaria uma situação comunal opressiva – na qual a maioria tem a mesma opinião sobre os assuntos considerados relevantes – ou se constataria que se trata de uma comunidade a beira da guerra civil devido à ausência de

espaço para a negociação decorrente do embate entre preferências opostas e intensas (REIS, B., 2007, p. 9,10).

Quando confrontamos, muito simplificadamente, as máximas “Participarás”

e “Não participarás”, a primeira parece claramente mais universalizável que a segunda. Mas quando confrontamos a máxima incondicional “Participarás” com a máxima “Participarás quando tu te julgares informado e motivado

sobre o assunto em tela, caso contrário guardarás obsequioso silêncio”, é patentemente esta última fórmula, condicional, a que se apresenta como passível de converter-se, pela vontade daquele que age, em lei universal. É ela que envolve a operação mental de colocar-se na posição do outro ao avaliar a situação; é ela, portanto, a que encarna a moralidade e a justiça em grau superior de reflexividade, e presidirá a conduta política do homem justo

– e, se se quiser, virtuoso (REIS, B., 2007, p. 14. Aspas do autor).

Essa discussão sobre o suposto caráter virtuoso da apatia política coaduna-se com as afirmações de Diana Mutz (2007) sobre a inconveniência de defender uma crescente presença do ativismo político na vida cotidiana quando se trata da convivência de pessoas com ideias opostas. Nos termos de B. Reis isso se refere à importância de diminuir a quantidade de virtudes cívicas requeridas para a operação do sistema político, pois, frente ao desconhecimento sobre o quantum de virtude dos concidadãos, seria natural presumir a sua inexistência no processo de elaboração das leis (REIS, B., 2007, p. 8).

Mutz ressalta ainda, que aqueles que têm identidades políticas mais explícitas tendem a se juntar com pessoas com ideias semelhantes e tal convivência favoreceria uma participação fervorosa. Ao contrário desses, aqueles que não são ativistas políticos ou que não se identificam como porta vozes de um ideário partidário teriam maior possibilidade de ouvir opiniões divergentes. Contudo, esses indivíduos com múltiplas fidelidades, que recebem pressões opostas e que possuem posições mais moderadas, teriam menos possibilidade de envolver com o ativismo político. Por isso, o incentivo à participação em redes sociais que reforçam a troca de ideias e o envolvimento a partir de afinidades pessoais seria muito mais fecundo do que o encorajamento para participar de redes que demandam compromissos partidários ou que elevam os custos sociais do engajamento político. Nesse sentido, “paradoxalmente, as expectativas da democracia deliberativa mínguam quando as possibilidades da participação e do ativismo político intensificam-se.” (MUTZ, 2007, p. 127). A respeito das contradições da democracia deliberativa Mutz destaca, também, o fato de tal teoria sugerir que se os governos criassem oportunidades de participação no

processo político os cidadãos aproveitariam tais oportunidades para participar. A autora interroga sobre quem participaria em tal circunstância e responde que os estudos sugerem que as pessoas com mais chances de participar tendem a ser aquelas com visões mais extremas e, portanto, menos representativas da população em geral (MUTZ, 2007, p.135).

Porque a tolerância e a participação são altamente valorizadas no sistema democrático, não há uma resposta fácil para o quanto de inatividade política deve ser aceita em nome de maior tolerância, ou o contrário, o quanto de intolerância em relação às visões opostas deve ser aceitável com o objetivo de encorajar a atividade política. Os resultados da pesquisa sugerem que a participação entusiasmada raramente coexiste com um processo de exposição a pontos de vista políticos diversos e a consideração cuidadosa das alternativas políticas (MUTZ, p. 133, 2007).24

A autora reconhece que o tema é complexo e para ilustrar o dilema que estaria em questão destaca o seguinte problema: a proliferação de grupos homogêneos de cidadãos aprofunda clivagens sociais – como ocorreu no ambiente do nazismo – mas, por outro lado, as redes homogêneas podem ser úteis para encorajar posturas mais fortes entre os cidadãos em termos da busca por maior justiça social – como ocorreu, por exemplo, na luta por direitos civis nos EUA (MUTZ, 2007, p.134).

Frente às considerações dos autores mencionados nesta seção, é necessário ressaltar que a discussão sobre apatia política, participação e tolerância remete aos fundamentos normativos da democracia contemporânea e que esses temas costumam ser distorcidos por premissas de cunho moral. A esse respeito são muito esclarecedoras as observações de Bruno Reis sobre a virtude caracterizadora da política moderna: “Admitir-se-á como requisito moral aceitável uma única virtude, largamente procedimental, e requisito do exercício da liberdade pessoal: a tolerância.” (REIS, B., 2007, p. 14). A relação dessa virtude com o legado liberal e os fundamentos da democracia está sintetizada na seguinte passagem do mesmo autor:

... Weber já nos chamou a atenção para o papel insubstituível do mercado como veículo de socialização entre estranhos – e é preciso não minimizar a relevância do vínculo entre a legitimidade dessa autodeterminação individualística de nossas prioridades pessoais e muitos de nossos mais

24 Because both participation and tolerance are highly valued in democratic systems, there is no easy answer to

the question of how much political inactivity should be accepted in the name of greater tolerance, nor, conversely, of how much intolerance of oppositional views should be accepted in the name of encouraging political activism. My results suggest that within any given individual, enthusiastic participation rarely coexists with ongoing exposure to diverse political viewpoints and careful consideration of the political alternatives.

cultivados valores humanísticos. A legitimação do auto-interesse sanciona a conduta do burguês no mercado, mas também – num marcante contraste – a do espírito livre que não se conforma a tradições e busca exprimir-se em grandes feitos. A mesma lógica do raciocínio que quer obrigar a todos ao dever cívico de comparecer e atuar em deliberações políticas em que não estão interessados exigirá do artista de vanguarda que quer viver em Leningrado que cumpra seu dever junto à sociedade numa fábrica na Ásia Central. Pode ser verdade que, em contraste com a frieza desamparadora da sociedade mercantil, a vida numa comunidade com fortes padrões internos de conduta pareça muito reconfortante – mas isto desde que você não cultive hábitos exóticos. Viver em Salem terá sido uma experiência e tanto, desde que seus queridos vizinhos não resolvessem acreditar que você acreditava em bruxas (REIS, B., 2007, p. 9).

Frente a tais observações sobre o engodo que a expectativa exagerada em relação à virtude dos cidadãos pode gerar e às considerações sobre os limites do ativismo político apresentadas acima, é necessário destacar que a ênfase da democracia deliberativa na ideia de crise da representação e na defesa de um processo deliberativo complementar ao funcionamento das instituições formais impede a compreensão dos dilemas característicos da democracia contemporânea. Dessa forma, a denúncia das limitações da democracia eleitoral e do desinteresse dos cidadãos pela participação política pode estar protelando uma discussão que diz respeito à qualidade da democracia. Parece razoável considerar que a crise ressaltada pela literatura sobre democracia deliberativa e participativa pode ser interpretada como um déficit de qualidade da democracia devido à existência de governos que não são responsivos às preferências da maioria dos cidadãos.

Para evidenciar essa questão serão apresentadas na próxima seção algumas considerações sobre a qualidade da democracia. A partir disso será possível retomar a discussão da relação entre democracia e instituições.

Benzer Belgeler