Nascido em Orsha, antiga União Soviética, hoje Bielorrússia, Lev Semenovitch Vygotsky (1896-1934) viveu em uma época marcada por conflitos sociais, intensa produção intelectual e forte demanda por mudanças. No campo da psicologia, as atenções todas voltadas à experimentação, Vygostsky é o responsável pela criação de uma corrente psicológica conhecida como histórico-cultural, que se atém às origens do comportamento do homem, ao meio cultural em que vive e às possibilidades de modificá-lo no processo de seu desenvolvimento.
Moll (2002) nos diz que quando ingressou na cena psicológica, em 1924, Vygotsky tinha em mente duas questões: identificar os problemas que a pesquisa psicológica deveria enfrentar e abordar essa pesquisa de forma radicalmente diferente e nova. Ele acreditava que o objeto da psicologia era a consciência e que a forma de abordar seu estudo era a pesquisa dos processos psicológicos superiores, a partir da filosofia marxista.
Suas pesquisas e escritos relativos à deficiência são encontrados principalmente no quinto volume de suas Obras Escogidas, ainda não traduzidas para o português. (Vygostky, 1997). Nesses estudos, denominados, à época, de Defectologia (estudo dos defeitos), Vygotsky já apontava como as deficiências eram determinadas por índices quantitativos, o modelo de escola segregada para alunos deficientes já era uma realidade, bem como a redução dos conteúdos educacionais e extensão do período de permanência na escola.
Vygotsky afirmava que a biologia humana constitui amplo potencial para a formação da personalidade, bem como da percepção, da expressão do sentimento, do uso de instrumentos, da comunicação social e da interação. Esse potencial, porém, não se concretiza naturalmente, seja porque o número de atividades humanas sob controle biológico é bastante reduzido, seja porque as poucas funções psicobiológicas endógenas humanas possuem caráter geral – cabendo à experiência proporcionar o específico. (Ratner, 1995). Em consequência, as necessidades psicobiológicas infantis compõem-se da regularidade de experiências, da oportunidade para a prática de habilidades, da exposição à linguagem e, ainda, do estímulo social para que se construa um sentimento de autoconfiança.
Essas características do desenvolvimento infantil são importantes para a compreensão da maneira como Vygotsky entende o desenvolvimento de crianças com deficiências. Segundo ele, os métodos psicológicos mais importantes e difundidos de investigação da criança com deficiência baseiam-se em uma concepção puramente quantitativa do
desenvolvimento infantil, determinando-se o grau de insuficiência ocasionado pela deficiência e não a estrutura interna da personalidade que ele mesmo cria.
Justamente em oposição a esse pensamento é que se desenvolvem os estudos de Vygotsky, que entende que uma criança cujo desenvolvimento está afetado por uma deficiência não é menos desenvolvida que seus colegas que não tenham deficiência; ela é somente desenvolvida de outro modo.
A criança, de acordo com a etapa do desenvolvimento, apresenta uma peculiaridade qualitativa, uma estrutura específica do organismo e da personalidade. Assim também, a personalidade de uma criança com deficiência intelectual é qualitativamente distinta da simples soma das funções e propriedades pouco desenvolvidas, apresentando desenvolvimento característico.
Vygotsky (1997) evidencia que a insuficiência orgânica desempenha duplo papel no desenvolvimento e na formação da personalidade da criança. De um lado, a deficiência é o menos, a limitação, a debilidade, a diminuição do desenvolvimento. De outro, precisamente porque cria dificuldades, estimula um avanço elevado e intensificado. Por isso, o estudo dinâmico da criança deficiente não pode se limitar a determinar o nível e a gravidade da insuficiência, devendo incluir obrigatoriamente a consideração dos processos compensatórios, quer dizer, substitutivos, sobreestruturados e niveladores do desenvolvimento e da sua conduta. “Assim, a reação do organismo e da personalidade da criança à deficiência é o fato central e básico, a única realidade com que opera a defectologia” (Vygotsky, 1997, p. 14).
As funções da personalidade não estão, para Vygotsky (1997), monopolizadas de tal modo que o desenvolvimento deficiente de alguma qualidade, forçosa e inevitavelmente, prejudique a tarefa que ela cumpre, pois graças à unidade orgânica da personalidade outra capacidade assume sua realização. Utilizando-se da descrição do que ocorreria em um cego, cuja diferenciação pelo tato ocorreria pelo aumento da excitabilidade nervosa provocada pelo exercício de observação, avaliação e reflexão das diferenças, Vygotsky afirma que, do mesmo modo, no campo das funções psíquicas a diminuição de uma capacidade é compensada, por completo ou em parte, pelo desenvolvimento de outra.
Citando Adler, Vygotsky defende haver um quadro complexo de influências positivas, como reação da personalidade à deficiência, que permitem o desenvolvimento. O mais importante, é que, junto com a deficiência orgânica, estão dadas as forças, as tendências, as aspirações. São precisamente elas que outorgam peculiaridades ao desenvolvimento da criança deficiente e criam formas de desenvolvimento criativas, infinitamente diversas, às vezes profundamente raras, iguais ou semelhantes às que se observam no desenvolvimento
típico de uma criança sem deficiência. A deficiência se converte, por conseguinte, no ponto de partida e principal força motriz do desenvolvimento psíquico da personalidade.
Não se deve acreditar, entretanto, que o processo de desenvolvimento termina sempre em êxito, conduzindo a criança a um talento, a partir do defeito. Como qualquer processo de superação e de luta, também a compensação pode ter dois desenlaces extremos: a vitória e a derrota, entre os quais se situam todos os graus possíveis de transição de um pólo a outro. Esse desenlace depende de muitas coisas, porém o fundamental é a correlação entre o grau da deficiência e a riqueza do processo compensatório. Seja qual for o desenlace, porém, é importante verificar que a deficiência constitui um processo orgânico e psicológico de criação e recriação da personalidade, sobre a base da reorganização das funções de adaptação, da formação de novos processos sobreestruturados, substitutos, niveladores, que são gerados pela deficiência, e da abertura de novos caminhos alternativos do desenvolvimento.
Para o autor, as causas orgânicas, inatas, não atuam por si mesmas, pois as crianças não sentem diretamente sua deficiência, mas de forma indireta pela redução da participação social que ela provoca. Através desta posição, e só através dela, a deficiência influi no desenvolvimento da criança.
Considera-se, portanto que, a criança com surdez, cegueira ou outra deficiência não é uma criança incapaz. O grau de sua deficiência é resultado da compensação social, quer dizer, da formação final de toda sua personalidade. A substituição e a compensação de funções não só se produzem, não só alcançam em algumas ocasiões enorme envergadura, criando talentos a partir da deficiência, como também surgem na forma de aspirações e tendências, ali onde está a deficiência.
Podemos assim compreender que os processos de desenvolvimento, em seu conjunto, dependem não só do caráter e da gravidade da deficiência, como também da realidade social, isto é, das dificuldades de inserção social dos deficientes. Nas crianças com deficiência, a compensação segue direções totalmente diferentes segundo a situação que foi criada; em que meios são educadas, quais dificuldades lhes são apresentadas por conta de sua deficiência. A compensação se fará então, a partir da vida coletiva da criança, da sociabilidade de sua conduta, nas quais encontra o material para construir as funções internas que se originam no processo de desenvolvimento compensatório.
Assim também, diz ele, não é somente importante saber qual enfermidade tem uma pessoa, mas qual pessoa tem a enfermidade; conhecer como se desenvolve, não o déficit, mas a reação que nasce na personalidade durante o desenvolvimento, em resposta à dificuldade com que tropeça e que deriva dessa deficiência.
Biazetto e Barroco (2007) comentam que o estudo do livro Fundamentos de Defectología, em que se encontra reunida a maior parte dos escritos de Vygotsky sobre deficiência, permite perceber que um de seus pontos principais está centrado no entendimento do autor de haver plena possibilidade de educação das pessoas comprometidas pela deficiência, não com o foco somente na reabilitação ou na educação profissional, mas promovendo-se compensações ou supercompensações das áreas ou funções afetadas, partindo do que se tinha de íntegro. Para essas autoras, é preciso que os professores de hoje vejam, em si mesmos, pessoas capazes de ensinaralunos com deficiências, e que estes sejam compreendidos como plenamente capazes de aprender.
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A obra dos três autores apresentados continua, ao nosso ver, a inspirar e influenciar muitos dos trabalhos que se desenvolvem no campo dos estudos sobre a deficiência, com a contribuição da psicologia. Mas há um autor, ainda, a quem devemos fazer menção. Sua obra, que não se atém especificamente ao campo de conhecimento da Psicologia, tem-na influenciado de maneira tão produtiva quanto capaz de desacomodar nossos saberes tradicionais e constitui uma referência importante em nosso modo de pensar a produção do conhecimento. Trata-se de Michel Foucault (1926-1984), cujo pensamento figura nos trabalhos de Guirado de modo destacado e compõe um dos pontos de articulação teórico- conceitual da sua original formulação de um método de análise, pesquisa e intervenção no campo da psicologia. Se, por um lado, é possível afirmar que Foucault, no desenvolvimento de seus estudos sobre a subjetividade, não a toma como subjetividade psíquica, por outro, entendemos que a demarcação dessa diferença será feita de modo muito preciso e esclarecedor pela autora. (GUIRADO, 2010). Nesse sentido, cabe também apontar como a clássica e sempre atual obra de Sigmund Freud pode ser lida por um ângulo de incidência capaz de movimentar conceitos dados por definitivos, como a transferência. (GUIRADO, 2000; GUIRADO & LERNER, 2007). Veremos como, em seus escritos, Guirado confere o merecido e esperado crédito a esses pensadores, mas segue sua própria trilha. Trataremos disso, a seguir, em detalhes.
3 O MÉTODO