• Sonuç bulunamadı

A edição de número 24 (“Fonte de sobrevivência”), publicada no bimestre fevereiro/março de 2011, trata de um elemento bastante presente no dia-a-dia de pessoas em situação de rua em Salvador: as fontes históricas instaladas em alguns bairros da capital baiana. A reportagem de capa tem como título “Fontes esquecidas” e traça paralelos peculiares entre a vida de gente identificada como ‘morador/a de rua’ e esses monumentos. O texto é iniciado, assim, de forma apresentar a atual condição das construções históricas:

(1) Elas estão por toda parte em Salvador, mas poucos as conhecem. Um dia foram monumentos preciosos. Hoje, esquecidas, tentam sobreviver aos desgastes do tempo. São as fontes de água natural que, redescobertas por moradores de rua, tornam-se pontos de encontros para atividades cotidianas e momentos de lazer.

especial: os chafarizes são descritos com traços humanos, como na ‘ação’ de ‘tentar sobreviver’. Assim, vemos duas ocorrências de metáfora (LAKOFF & JOHNSON, 2002) que têm o efeito de aproximar um patrimônio da história da cidade a um grupo social também parte da história (mas que não goza do mesmo prestígio), a população em situação de rua. As ocorrências metafóricas podem ser caracterizadas como a descrição, por parte do jornal, de uma ação animada desempenhada pelas fontes, no que Lakoff & Johnson (2002) chamam de personificação.

Em linhas gerais, ocorre a personificação quando entes inanimados desempenham ações, ou seja, passam a ser reconfigurados semanticamente como dotados de agência. A personificação é entendida dentro de uma classificação maior de metáfora, as classificadas como ‘ontológicas’. A metáfora ontológica opera um deslocamento de sentido no qual certas entidades passam a ser caracterizadas em termos de outras. É uma estratégia que destaca características de objetos ou entes com vistas a relacioná-los e (re)orientá-los a um contexto similar sobre o qual, de fato, deseja-se falar. As metáforas ontológicas não são simples efeitos de estilo em textos, visto que “servem a vários propósitos e as diferenças que existem entre elas refletem os diferentes fins” (LAKOFF & JOHNSON, 2002, p. 76). Desse modo, temos em ‘desgastes do tempo’ a entidade ‘tempo’ como substância – que, no caso, corrói, consome, arruína, destrói: Lakoff e Johnson (2002, p. 83) explicam que “eventos e ações são metaforicamente conceptualizados como objetos, atividades como substâncias, estados como recipientes”.

Ainda em (1), os atores sociais em situação de rua são identificados de maneira positiva. A identificação relacional – representações de identidades de atores sociais a partir das relações pessoais, de parentesco, de ocupação nas quais estão envolvidos e desenvolvem entre si (RESENDE, 2008; RAMALHO & RESENDE, 2011) – é uma importante ferramenta para a observação crítica de como estão representados atores sociais nos textos. No excerto, as fontes (caracterizadas como “monumentos preciosos”) têm o sentido positivo ativado, e as pessoas em situação de rua acabam recebendo semanticamente essa valoração, devido à ação que desempenham em relação às construções (em “redescobertas por moradores de rua, tornam-se pontos de encontros para atividades cotidianas e momentos de lazer”). Por meio dessa categoria analítica é possível observar construções discursivas diretamente ligadas a visões de mundo particulares, as quais demonstram o nível de envolvimento de produtores/as do texto com determinadas questões sociais por meio da representação que selecionam realizar; em outras palavras, podemos visualizar pontos referentes ao significado identificacional do discurso. Ramalho e Resende (2011, p. 130) argumentam que “o

significado identificacional está relacionado ao aspecto discursivo de identidades, à identificação de atores sociais em textos (...), isto é, a construção de modos particulares de identificação de atores sociais representados em textos”. Embora sejam classificadas como “monumentos preciosos”, as fontes são representadas de maneira negativa (como abandonadas), semantizando a negligência – estratégia já mencionada com o uso de metáforas –, que, logo, no texto, será combatida pela população em situação de rua. O uso do processo material ‘redescobrir’ (em “São as fontes de água natural que, redescobertas por moradores de rua...”) opera o sentido de agência por parte da população em situação de rua contra uma atitude não desejável: o de descaso em relação a importantes monumentos históricos.12 A exaltação da importância das fontes no contexto atual é relacionada à população em situação de rua:

(2) A rua foi inspirada em seu nome: Ladeira da Fonte. Mas quase todos desconhecem a existência da Fonte São Pedro, no bairro Campo Grande. Ela existe desde o século XIX e é responsável pela criação de uma comunidade ao seu redor. Joana, moradora de rua, ficou conhecida no local por alimentar os peixes da fonte com migalhas de pão. A presença diária dos moradores de rua cultiva laços sociais e afetivos que atribuem novos significados às fontes. “Parece que com a gente perto, ela tem força para continuar jorrando água”, destaca Alisson, que todos os dias retira a sujeira da Fonte da Preguiça. “No Carnaval é que é problema. Gente do interior vem tomar banho aqui e vira uma bagunça. Chega dá pena”, comenta. Se a sociedade negligencia a importância cultural e histórica das fontes, a luta diária da população de rua tenta resgatar os seus valores mais genuínos.

No primeiro destaque do excerto (2), podemos observar a caracterização protagonista atribuída às fontes no texto (responsável pela aglomeração de uma comunidade a seu redor, e com ‘força’ para jorrar água). A reportagem identifica Joana como uma personagem “conhecida no local por alimentar os peixes da fonte com migalhas de pão”. Vemos, com isso, uma identificação positiva da mulher, que na representação exerce agência de modo simbiótico – dada a ênfase nas descrições relacionadas às fontes soteropolitanas da reportagem. No período seguinte (“A presença diária dos moradores de rua cultiva laços sociais e afetivos...”), vemos uma subversão do desenhado pela reportagem até aqui: o trecho em destaque coloca os atores em situação de rua em relação de ativação (VAN LEEUWEN, 2008) referente à fonte, representada como beneficiária dessa ação. Em “Parece que com a gente perto, ela tem força para continuar jorrando água, destaca Alisson, que todos os dias retira a sujeira da Fonte da Preguiça”, o ator social personifica a fonte, atribuindo força ao monumento, mas essa força é consequência da presença do ator social. A presença da

12 Em outros contextos, o processo ‘redescobrir’ poderia ser classificado como processo mental, sempre que a ênfase seja na redescoberta como cognição. No caso em análise, entretanto, a redescoberta é processo material, pois se refere a um redescobrir físico no mundo, da reutilização das fontes como estratégia de acesso à água e como local de encontro e lazer.

população em situação de rua como motivadora da ‘vida’ da fonte é modalizada pelo processo ‘parecer’. Essas escolhas para representar o grupo social em situação de rua apresentam características peculiares: aqui, mais uma vez, vemos que a voz do ator social não se coloca em evidência quando na relação com a fonte, pelo contrário, ela explica essa relação de forma proeminentemente metafórica.

No trecho “Se a sociedade negligencia a importância cultural e histórica das fontes, a luta diária da população de rua tenta resgatar os seus valores mais genuínos”, a voz da reportagem destaca positivamente a população de rua, já que, por meio de uma metáfora material de sentido contundente (‘resgatar’), situa o grupo social como verdadeiro ‘salvador’ desses monumentos linguisticamente construídos no texto como de grande importância (ainda que o processo seja modalizado com ‘tentar’). Há também que mencionar um posicionamento que opõe e diferencia os indivíduos em situação de rua ao grupo social mencionado como ‘sociedade’.

A “sociedade” é caracterizada por um processo mental incisivo e de valor negativo (‘negligenciar’), que denota conhecimento do problema e anuência relativa a sua continuidade. De qualquer forma, é de se notar que a população em situação de rua, nessa relação, é representada como à margem dessa mesma ‘sociedade’. A escolha por ‘sociedade’ pode ser explicada como um exemplo do que van Leeuwen (2008) chama de ‘associação’. Segundo o autor, essa categoria de representação “refere-se a grupos formados por atores sociais e/ou grupos de atores sociais (referidos de forma genérica ou específica) que nunca são identificados no texto” (VAN LEEUWEN, 2008, p. 38). Desse modo, o item lexical é utilizado para ser o contraponto do grupo social em situação de rua, que, representado em oposição a uma (grande) parcela da população, encontra nas fontes uma espécie de símbolo de luta pela visibilidade. Por outro lado, cabe destacar que essa oposição tem por efeito colocar, na representação, a população em situação de rua fora da sociedade, e não como parte dela.

Uma analogia, então, passa a ser traçada pela voz autoral da reportagem, conforme podemos ver no próximo excerto:

(3) Entretanto, as fontes já nasceram como um lugar marginalizado porque representava o espaço de convivência social dos escravos que buscavam água para os seus senhores. Como reflexo, hoje grande parte da população ignora a água das fontes como se o seu uso fosse destinado apenas a pessoas sem moradia ou sem água encanada. Assim, o descarte humano sofrido pela população de rua se une com o descarte social e político das fontes. Ambos lutando pela sobrevivência.

O excerto (3) inicia-se com o operador argumentativo “entretanto”, que estabelece uma relação de oposição entre todo o trecho e o que vinha sendo dito anteriormente. Ainda em

termos de coesão textual, existe uma relação semântica, promovida pela presença do grupo conjuncional ‘porque’, cuja posição opera o sentido de causa em “as fontes já nasceram como um lugar marginalizado porque representava o espaço de convivência social dos escravos que buscavam água para os seus senhores”. A união das duas orações paratáticas (unidas pelo grupo conjuncional ‘porque’) revela uma lógica explanatória, em que podemos observar uma relação elaborada de forma lógica, a qual explica a afirmação que a precede. A reportagem, dessa feita, passa a estruturar semanticamente a realidade de exclusão da população em situação de rua ao exprimir a correlação entre as fontes e o público que historicamente as frequentava – a saber, os escravos, grupo social criado, desprestigiado e excluído na história das colonizações. Então, passa-se à construção de uma espécie de metonímia social, em que as fontes são avaliadas de acordo com o público que as frequenta, e a população em situação de rua é posta ao lado das populações escravizadas no passado.

A analogia tem o efeito de aproximar o preconceito direcionado às fontes ao preconceito contra a população escravizada de outrora e a população em situação de rua do presente; a reportagem vai traçando, assim, um percurso semântico que atrela as realidades dos monumentos às da população em situação de rua, de forma explícita com o uso do conclusivo ‘Assim’ (em “Assim, o descarte humano sofrido pela população de rua se une com o descarte social e político das fontes”) e por meio da nominalização ‘descarte humano’, que classifica a população em situação de rua em sua relação com a “sociedade” evidenciada no excerto anterior (que descarta tanto as fontes quanto as pessoas). No entanto, em “hoje grande parte da população ignora a água das fontes como se o seu uso fosse destinado apenas a pessoas sem moradia ou sem água encanada”, a reportagem marca a população em situação de rua (relexicalizada como ‘pessoas sem moradia’) de modo a representá-la numa diferenciação negativa; não no sentido de protesto – como vinha fazendo até então –, mas como uma característica que não é desejável para a fonte, ou seja, a avaliação negativa das fontes em decorrência de sua associação a populações marginalizadas é tida como natural, uma vez que não é problematizada.

Benzer Belgeler