• Sonuç bulunamadı

Nascer no Cariri – Ceará, me reconhecer e me sentir Caririense, inicialmente, me fez acreditar que não encontraria grandes desafios em apresentar, interpretar e significar o campo geográfico desta pesquisa. Afinal, estaria descrevendo e apresentando o espaço geográfico que também constituiu partes significativas dos cenários que trago nas minhas

lembranças crianceiras, nas minhas vivências subjetivas e nas minhas referências culturais.

Acrescento ainda outro expressivo dado que também justificava a existência desta crença inicial que me acometia, refiro-me ao fato de já ter estabelecido, em momentos anteriores ao da pesquisa de campo, o status de membro (CORSARO, 2005) com os sujeitos envolvidos diretamente com o objetivo desta pesquisa, configurando, assim, um dos aspectos essenciais para a realização de uma pesquisa de caráter etnográfico.

Porém, mesmo considerando a relevância dos dois aspectos já apresentados e reconhecendo o quanto ambos foram fundamentais nestes processos e trajetórias percorridas no momento da pesquisa de campo, confesso que estava equivocada em relação aos desafios neste trabalho. Conhecer a geografia e os aspectos culturais da região não significava compreendê-los a partir de um olhar crítico, etnográfico. E estabelecer o status de membro apenas configurava uma etapa fundamental na relação com os sujeitos da pesquisa, mas não a relação em si, a mesma que passei a entender neste processo, como os momentos destinados aos encontros, aos diálogos e principalmente à escuta e à observação.

Compreendi que o meu retorno ao Cariri, neste momento destinado à pesquisa de campo, deveria acontecer com outra postura, adotando outro olhar que fosse possível enxergar, reconhecer, interpretar e significar as respostas para esta pesquisa. Por este motivo, construí um espaço no meu diário de campo que nomeei, no processo, por CaririANDO, onde passei a registrar as minhas caminhadas e as minhas vivências com e entre as expressões culturais do Cariri,CE, neste período da pesquisa de campo.

Os primeiros registros deste espaço aconteceram logo após a etapa da qualificação do projeto de mestrado, onde retornei ao Cariri para participar da Romaria da Esperança que acontece no dia de finados – 02 de novembro – na cidade de Juazeiro do Norte, CE. Nesta ocasião, tinha dois propósitos, vivenciar a romaria, assim como fazem os romeiros, e exercitar o meu olhar do viajante etnográfico. Cheguei à igreja do Socorro às cinco horas da manhã, participei da missa, acendi velas, assisti à manifestação de São Gonçalo, acompanhei os penitentes aos rituais realizados no cemitério.

Após ter participado, observado e fotografado estas expressões culturais, procurei conversar e principalmente escutar estes heróis anônimos, e me surpreendi com as definições e explicações de um penitente: - Olha! (olhando para todos os lados) – Você não está vendo? Hoje é um dia fino! Enquanto as pessoas saem de suas casas para rezar pelos seus mortos, nós saímos para rezar por estas pessoas vivas, são elas que precisam de reza e proteção para que os seus atos se tornem mais humano. Neste momento percebi que estes anos todos

vividos no Cariri não significavam conhecer os penitentes em seus mundos e em seus significados religiosos, apenas conseguia reconhecê-los entre os demais romeiros.

Experienciar, tocar, escutar, sentir, dialogar, registrar e caminhar no Cariri, CE, e entre as suas expressões culturais e os seus heróis anônimos – incluindo os universos

simbólicos e culturais das contadoras de histórias, Griô – como uma estrangeira de mim, viajante e observadora, passou a mover os princípios norteadores do CaririANDO. Com este propósito, realizei trilhas na Chapada do Araripe, entre os pés de pequi, flores de maracujá do mato e os encontros com os cruzeiros68 que simbolizam as manifestações e crenças na proteção divina no século vinte no período das pestes.

Nas cidades e territórios caririenses, transitei nas feiras, nas praças, nas igrejas e nas ruas do Crato, Juazeiro do Norte, Barbalha, Jardim, Missão Velha, Milagres, Brejo Santo, Nova Olinda, Santana do Cariri, Potengi, Araripe, Campos Sales e Salitre. Visitei o Mestre Expedito Seleiro em Nova Olinda e em Jardim conversei com a Dona Julieta das rosas, escutei as histórias de Lampião do tradicional ferreiro da cidade, onde também comprei os tradicionais “picolés de Jardim”, e relembrei a festa dos caretas, uma expressão cultural que acontece no período da Semana Santa.

Já nas festas do Dia de Reis – 06 de janeiro – tive a oportunidade de estar presente vivenciando o CaririANDO que me possibilitou ver a região acordar em festa. Logo no período da manhã, saí ao encontro dos grupos de Reisados (Figura 13), Mateus, Bois, Jaraguás e Bandas Cabaçais nos terreiros dos mestres, e iniciei o meu cortejo etnográfico no terreiro do Mestre Aldenir, na cidade do Crato, ao som dos Irmãos Aniceto.

Segui ao fim deste dia para a cidade de Juazeiro do Norte e tive a oportunidade de encontrar, alegrando, encantando, cantando, dançando e colorindo o terreiro do Serviço Social do Comércio - SESC, os grupos de Maneiro - Pau do Mestre Bigode, o reisado da Mestra Margarida Guerreira, a Banda Cabaçal do Mestre Miguel, o reisado dos Irmãos Discípulos de

68 No período das pestes, epidemias e seca que ocasionavam a morte de inúmeras pessoas na região do Cariri,

muitas procissões foram realizadas aos pontos mais altos da Chapada do Araripe, onde as pessoas fincavam um grande cruzeiro de madeira, acreditando que com este sacrifício estariam protegendo as suas localidades destas enfermidades.

Mestre Pedro, dentre muitos outros que proporcionaram um verdadeiro espetáculo de

expressões culturais caririenses até o os agradecimentos dos mestres aos seus santos de

devoção, por mais um ano de manifestações religiosas.

Figura 13 – Festa de reisado, no terreiro do Mestre Aldemir na cidade do Crato, em 06 de janeiro de 2010

Fonte: Arquivo pessoal da pesquisadora.

Figura 14 - Festa de reisado, no Sítio Coqueiro, na cidade do Crato, em 06 de janeiro de 2010

Fonte: Arquivo pessoal da pesquisadora.

Manifestações que também presenciei na renovação do Centro Cultural Mestre Noza, outra experiência deste CaririANDO que eu não poderia deixar de compartilhar, nesta nossa roda, principalmente porque este foi o primeiro ano em que fui convidada para esta festa religiosa que acontece sempre no dia 30 do mês de janeiro e tem como objetivo renovar

os votos religiosos e familiares dos artistas que constituem este espaço num grande encontro familiar. Como o espaço é uma referência cultural da cidade, a missa e os festejos contaram com a participação e os rituais de devoção realizados por vários grupos de Maneiro Pau, Bandas Cabaçais e Reisados da cidade. Neste dia, registrei no meu diário o sentimento de estrangeira, quando exercitei o olhar etnográfico e o status de membro por ter sido convidada e inserida naquele particular contexto.

A cidade naquele mesmo período já se encontrava em festa por consequência dos festejos da Romaria da Nossa Senhora das Candeias, romaria que representa o elemento fogo, referente ao fogo que encontramos presente nas chamas das velas e dos candeeiros, configurando o mar de luzes, descrito pela Dona Fanca em relação ao momento da procissão das candeias que acontece sempre no dia 02 de fevereiro. Nesta romaria, participei intensamente, fotografando, observando, conversando e até realizando um Making off de um projeto de pesquisa etnográfica69, fundamentado na antropologia visual, que desejava registrar o olhar desta romaria, a partir dos artistas do Centro Cultural Mestre Noza.

Estas experiências foram acrescidas com as caminhadas entre os milhares de romeiros nas ruas e calçadas da cidade, onde senti o calor na pele e na alma proporcionado pelas chamas das velas, dos candeeiros e dos cânticos dos benditos religiosos que me despertaram empatia, respeito, fé e uma emoção com a grandeza daquele evento com todas aquelas luzes, olhares e expressões de fé que constituíram um espaço vazio, por ser indescritível, nos registros destinados ao meu CaririANDO. Outros momentos e experiências também foram percorridos nesta pesquisa, dentre eles, destaco a colina e a ladeira do Horto e os espaços em que tive a oportunidade de encontrar, dialogar e escutar as contadoras de histórias Griôs, caririenses que vou seguir apresentando no próximo tópico do diário, reafirmando que todas estas vivências e caminhadas neste CaririANDO me proporcionaram ver e sentir um Cariri que eu ainda não conhecia.

69 Esse projeto desejava registrar o que o artista popular enxerga na romaria. Então a Rosilene Alves de Melo,

autora do projeto, convidou os artistas, ensinou a fotografar e colocou máquinas fotográficas em suas mãos. E no período da romaria saiamos acompanhando os artistas e fotografando quando eles paravam para fotografar ou registrar algo.

Benzer Belgeler