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“E não há melhor resposta que o espetáculo da vida: vê-la desfiar seu fio, que também se chama vida, ver a fábrica que ela mesma, teimosamente, se fabrica, vê-la brotar como há pouco em nova vida explodida mesmo quando é assim pequena a explosão, como a ocorrida como a de há pouco, franzina mesmo quando é a explosão de uma vida severina.”
João Cabral de Melo Neto (O carpina fala com o retirante que esteve de fora, sem tomar parte em nada/Morte e vida severina).
Este trabalho teve o intuito de refletir sobre a conflituosidade da organização camponesa a partir da sua resistência nas regiões de Cerrado do município de Balsas, principalmente, frente à expansão da moderna agricultura da soja. As permanências, avanços e retrocessos em sua organização indicam processos de modificação em suas estruturas. A forma de avanço da agricultura da soja atualmente nos faz pensar a partir da conflituosidade que existe na fronteira, ou seja, pensar esse conceito a partir de sua base concreta, o conflito entre os sujeitos sociais presentes nesse espaço.
A incorporação de áreas novas pela fronteira do agronegócio da soja desfaz territórios camponeses nas regiões de Cerrado e, atualmente, avançando pelas florestas densas da Amazônia. Essa fronteira se sobrepõe sobre antigas fronteiras que fizeram parte da ocupação do território maranhense, especialmente, do município de Balsas. As formas de organização do campesinato nas áreas de chapada nesse município que obedeciam a uma estrutura comunitária em fazendas e que não necessariamente diziam respeito à propriedade da terra ou ainda a demarcação de limites de terras, são rompidas pelos cercamentos dos topos de chapadas para o cultivo da soja.
Podemos nos referir a várias fronteiras no Maranhão, e em Balsas, da mesma forma, não na sua composição e nem em seus processos, mas sim dizer que há diversos
tempo-espaços na (re) produção desses espaços, que denominamos neste trabalho de
fronteiras. De início, a própria ocupação por parte da sociedade nacional, ou seja, o
colonizador branco que entra em conflito com os indígenas. Esse encontro, marcado por ter dizimado as tribos que existiam na região dos Pastos Bons, região que mais tarde deu origem a vários municípios, dentre ele Balsas. Outras fronteiras estão associadas ao próprio movimento de ocupação dessas áreas. Atualmente o choque entre essas povoações e a modernidade caracterizada pelos princípios de produtividade da Revolução Verde são a marca do contato e dos processos no interior da fronteira da moderna agricultura.
As formas diversas de desenvolvimento do campesinato no Maranhão imprimiram no espaço de Balsas grupos com características próprias. Essas características podem ser associadas a sua relação com a natureza de onde tiram diretamente a sua existência material a partir do trabalho familiar na agricultura, pecuária ou extrativismo. Esses grupos em Balsas criam nomenclaturas próprias para os terrenos onde desenvolvem atividades, criando tipologias para cada região de acordo com suas características climáticas, de solo e de geomorfologia, sem obedecer nenhum critério científico, mas sim da experiência do trato com a terra.
O projeto de desenvolvimento brasileiro em que o Maranhão se insere com áreas periféricas, porém com o aparecimento de pontos luminosos, caso de Balsas, segue princípios do neoliberalismo de reestruturação dos espaços, e de reprodução de pobreza para potencializar a acumulação capitalista. A atividade da agricultura da soja feita no município é um dos ‘cavalos de batalha’ desse projeto e significa a revalorização dos Cerrados brasileiros e maranhenses, áreas que eram tidas como não propícias a agricultura. Sua expansão pelo Cerrado brasileiro obedece a uma nova configuração da divisão internacional/territorial do trabalho, onde áreas periféricas ficam com o ônus ambiental e social das demandas criadas por uma necessidade virtual de produtos agressivos desse ponto de vista.
Os níveis tecnológicos que essa atividade vai requerer, bem como suas formas de organização que são estabelecidos de maneira exógena ao lugar, não são pressupostos do desenvolvimento na região, pois além de não agregar a mão de obra que é criada a partir dos processos de proletarização e semi-proletarização, ela desestrutura relações sociais dos vários grupos encontrados e já estabelecidos no município.
O processo de expansão da fronteira da moderna agricultura da soja encontra como barreira os grupos camponeses que estão estabelecidos há séculos na região. Esses grupos, a partir das necessidades de subsistência, da impossibilidade de se inserirem em outras atividades senão a agricultura familiar realizam ações de resistência contra o
agronegócio da soja, em que percebemos duas vertentes: o conflito que se dá de forma direta, ou seja, aquele em que o camponês se contrapõe de forma explícita ao grande produtor, havendo aí ocupações, acampamentos, e cujo resultado mais visível são as desapropriações de propriedades e os assentamentos de famílias na região.
Outra ação que se refere à ação de resistência desses grupos pode ser observada a partir da persistência na produção de culturas alimentares típicas da agricultura camponesa, como, por exemplo, a mandioca e o arroz. A essa resistência optamos por chamar de resistência velada, ou silenciosa, por ser uma resistência em que primeiro, o camponês não se coloca de frente a seu opositor. Dominado e dominante ficam implícitos nesse processo. Aqui retornamos a semi-proletarização dos trabalhadores rurais, em que estes ainda detêm a posse da terra, porém, mesmo assim não detém o poder sobre esta, já que necessitam colocar o produto de seu trabalho nos ramos da Produção Geral, na circulação e distribuição, sendo que o modo de produção capitalista domina todos os ramos da produção.
A organização do campesinato em Balsas não tem uma homogeneidade, com o aparecimento de sindicatos, de associações além de organizações que agem de forma indireta, ou seja, vêm a partir de outras entidades, como por exemplo, a CPT, ligada à igreja católica. Esses grupos se intitulam como camponeses, negando a alcunha de agricultor familiar apenas, já que alegam ser essa categoria generalista, podendo incluir inclusive os produtores de soja.
Percebemos que a fragmentação nas entidades de apoio a esses grupos de certa forma desestrutura a luta camponesa, fazendo com que a coesão de classe seja um fim difícil a ser alcançado.
A territorialização do capital a partir do movimento da fronteira desterritorializa os camponeses, mas esses resistem com o intuito de manter seus territórios. A reprodução da pobreza e suas várias formas e relações com o agronegócio, seja a partir de relações próximas ou distantes, também é importante nesse processo de acumulação de terras e de perda dos territórios camponeses, porém não foi objeto deste estudo, mas que pode ser elemento de reflexão futura.
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