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Em 29 de setembro de 1995, foi promulgada a Lei nº 9.100/1995, que estabeleceu as normas para a realização das eleições municipais de 3 de outubro de 1996, assegurando, em seu art. 11, § 3º, que 20% (vinte por cento), no mínimo, das vagas de cada partido ou coligação deverão ser preenchidas por candidaturas de mulheres.
O texto normativo tratava expressamente de uma reserva de vagas para mulheres. Em 1997 sobreveio a Lei nº 9.504 (Lei Geral das Eleições)120, diploma legal instituído para
regulamentar o processo eleitoral brasileiro, ao lado de outros como o Código Eleitoral, a Lei Complementar nº 64/1990 e a Lei nº 9.096/1995.
A Lei nº 9.504/1997 promoveu uma mudança na sistemática de reserva de vagas de candidaturas, tendo aumentado a porcentagem de 20% (vinte por cento) para 30% (trinta por cento), assim como alterado o texto legal substituindo a expressão “mulheres” por “sexo”. A mudança aconteceu após críticas a suposta (in)constitucionalidade ao art. 11, §3º da Lei nº 9.100/1995, que estabeleceu uma reserva de vagas expressamente para um sexo (feminino/mulheres), instituindo-se, assim, supostos “privilégios” (ALVES; CAVENAGHI, 2008, p. 3).
Essa crítica foi realizada por Jardim (1996, p. 103-104), na edição do seu manual de Direito Eleitoral Positivo de 1996, o qual questiona por que só mulheres, e não outros grupos sub-representados, como a comunidade negra, é que seriam beneficiárias dessa política afirmativa, colocando em dúvidas a (in)constitucionalidade da ação afirmativa prevista art. 11, § 3º da Lei nº 9.100/1995.
Com vistas a superar essa crítica, embora a questão não tenha chegado ao Supremo Tribunal Federal para fins de controle de constitucionalidade da norma, e eliminar a problematização em torno dessa reserva de vagas, o texto legal foi alterado para garantir uma proporção mínima para cada sexo (homens/mulheres).
A justificativa é que essa medida garantiria a diversidade dos sexos nas candidaturas lançadas e não haveria o risco de um sexo se sobrepor ao outro. Ou seja, se algum dia as mulheres passassem a ser a maioria dos postulantes a candidaturas, a norma garantiria, no futuro, de igual maneira, um mínimo de vagas para os homens, protegendo também sua participação política.
120 Destaque-se ainda que a Lei nº 9.504/1997, quando aumentou de 20% (vinte por cento) para 30% (trinta por
cento) as cotas de candidaturas, também aumentou em 30% (trinta por cento) a quantidade de candidatos que cada partido ou coligação poderiam lançar (MARTINS, 2007, p. 21).
Logo, a justiça da medida estaria em garantir espaços de participação minimamente paritária para ambos os sexos, numa proporção que não atrapalharia a livre concorrência que rege o processo eleitoral, o qual se funda na liberdade de voto do eleitor e em um amplo debate e apresentação de ideias e propostas para captação, pelos candidatos, de preferências políticas, em um mínimo patamar de igualdade uns com outros.
A Lei nº 12.034, de 29 de setembro de 2009, destacada pelo VII relatório brasileiro ao Comitê da CEDAW121, ampliou a proteção à participação política feminina ao
instituir novas medidas afirmativas em prol da inclusão de mulheres nos espaços de poder, como partidos e parlamentos, e ao fortalecer o sistema de reserva de vagas de candidaturas ao estabelecer a obrigatoriedade de os partidos políticos obedeceram a proporção de 30% (trinta por cento) e 70% (setenta por cento), no mínimo, para cada sexo, do número total de candidaturas lançadas.
Antes da citada lei, esse percentual era calculado em cima do total de vagas que o partido/coligação tinha o direito de lançar. Porém, o que ocorria era que os partidos não se empenhavam em lançar as candidaturas femininas e preocupavam-se, basicamente, em preencher os 70% (setenta por cento) das candidaturas masculinas.
Com a alteração, esse percentual passa a ser contabilizado e exigido em cima do número das candidaturas efetivamente requeridas pelos partidos (GOMES, 2016, p. 365), motivando-os, junto com as demais ações afirmativas instituídas pela citada lei, a promover e difundir a participação política feminina.
Assim, como toda agremiação que deseje concorrer no processo eleitoral deve requerer, até o dia 15 de agosto do ano eleitoral, o registro, na Justiça Eleitoral, dos seus candidatos aprovados em convenção, o que se dá mediante um documento intitulado de “Demonstrativo de Regularidade de Atos Partidários” (DRAP)122, caso não cumpram essa
121 A Lei nº 12.034/2009 foi promulgada entre as recomendações do VI relatório e a elaboração do VII relatório
ao comitê da CEDAW, e foi fruto dos esforços principalmente da campanha “Mais Mulheres no Poder: Eu assumo este compromisso!”, que teve como objetivo de promover ações que pudessem transformar as próprias de estruturas de poder e das instituições, fundadas no patriarcado. Também decorreu da atuação de comissões e grupos de trabalhos cujo foco era revisar a legislação eleitoral com o espoco de se incluir novas disposições normativas que assegurassem, protegessem e fomentassem a participação política da mulher nos espaços formais de poder.
122 “A lei não detalha a forma como deve ser realizado o pedido de registro de candidatura, sendo tal matéria
procedimental de concretização da lei geralmente disciplinada em Resolução TSE editada a cada eleição. Em regra, o pedido de registro de candidatura deve ser formulado em duas requisições: a) DRAP (Demonstrativo de Regularidade dos Atos Partidários) e b) RRC (Requerimento de Registro de Candidatura), dando origem a dois procedimentos diferenciados, mas que guardam relação entre si.” (MACHADO, 2016, p. 154). O julgamento do DRAP é prejudicial ao RRC. Segundo José Jairo Gomes (2016, p. 339) ele é “um processo principal – também chamado de ‘processo raiz’ ou geral. Esse processo é dotado de numeração própria. Seu objeto consiste em propiciar a análise de atos e situações pressupostos pelo registro de candidatura, tais como regularidade da agremiação e odos atos por ela praticados com vistas à disputa eleitoral. Nele são debatidos temas, como a
exigência legal – obediência do percentual de gênero –, o DRAP será indeferido pela Justiça Eleitoral.
Essa foi a interpretação fixada pelo Tribunal Superior Eleitoral123 após a
promulgação da Lei n.º 12.034, de 29 de setembro de 2009, com o qual se concorda, vez que o texto normativo do § 3º do art. 10 da Lei nº 9.504/1997 passou a prever que o partido/coligação “preencherá o mínimo de 30% (trinta por cento) e o máximo de 70% (setenta por cento) para candidaturas de cada” gênero.
O cumprimento das cotas de gênero é, pois, uma obrigação de registrabilidade eleitoral imposta pela legislação às agremiações partidárias/coligações e, muito embora não conste expressamente no rol do art. 11, §1º da Lei nº 9.504/1997124, acaso não preenchido,
acarreta o indeferimento do DRAP.
Denota-se que o texto normativo impôs uma obrigação à agremiação partidária/coligação a ser observada no momento da formalização do pedido de registro, sob pena de este não ser deferido.
Assim, analisando a evolução normativa e jurisprudencial sobre as cotas de candidaturas, tem-se, para fins de aplicação do art. 10, § 3º da Lei n.º Lei nº 9.504/1997, que o quadro jurídico-positivo atual é que: o termo “sexo” deve de entendido como “gênero”, para abarcar não apenas o sexo biológico, mas também o gênero, ou seja, o “feminino” e “masculino”, entendido como padrões socioculturais construídos com os quais as pessoas se identificam, independentemente, da biologia de nascença e da realização de cirurgia de transgenitalização (BUTLER, 2003); e que, caso o partido político/coligação não observe o percentual de 30% (trinta por cento), no mínimo, para cada gênero, sobre as candidaturas situação jurídico do partido na circunscrição do pleito, validade da convenção, deliberação sobre formação de coligação. O deferimento do registro do DRAP abre o caminho para a apreciação individualizada dos pedidos de registro dos pré-candidatos”. Em decorrência dessa prejudicialidade, uma “decisão, por exemplo, que indefira o registro do DRAP (porque concluiu pela invalidade da convenção) prejudica todos os pedidos parciais de registro que se lhe e encontrem ligados. Logo, os processos particulares só podem ser apreciados depois do julgamento do geral” (GOMES, 2016, p. 340).
123 "No caso de descumprimento dessa cota, o Tribunal Regional Eleitoral (TRE), ao analisar o Demonstrativo de
Regularidade de Atos Partidários (DRAP), pode intimar o partido ou a coligação para, em até 72 horas, sanar a irregularidade, apresentando novos candidatos que atendam à norma. Se não sanada a irregularidade, o DRAP será indeferido pelo TR." (BRASIL, 2014, online).
124 “Art. 11. Os partidos e coligações solicitarão à Justiça Eleitoral o registro de seus candidatos até às dezenove
horas do dia 15 de agosto do ano em que se realizarem as eleições. § 1º O pedido de registro deve ser instruído com os seguintes documentos: I - cópia da ata a que se refere o art. 8º; II - autorização do candidato, por escrito; III - prova de filiação partidária; IV - declaração de bens, assinada pelo candidato; V - cópia do título eleitoral ou certidão, fornecida pelo cartório eleitoral, de que o candidato é eleitor na circunscrição ou requereu sua inscrição ou transferência de domicílio no prazo previsto no art. 9º; VI - certidão de quitação eleitoral; VII - certidões criminais fornecidas pelos órgãos de distribuição da Justiça Eleitoral, Federal e Estadual; VIII - fotografia do candidato, nas dimensões estabelecidas em instrução da Justiça Eleitoral, para efeito do disposto no § 1º do art. 59. IX - propostas defendidas pelo candidato a Prefeito, a Governador de Estado e a Presidente da República”.
efetivamente lançadas, o DRAP não estará regular, não sendo passível de deferimento pela justiça eleitoral, o que acarretará a impossibilidade de o partido político/coligação participar da disputa eleitoral aos cargos proporcionais e, por via de consequência, prejuízo a todos os outros candidatos que desejam concorrer pela legenda.
4.2.1.2 Mas, afinal, as cotas de gênero são para a participação política das mulheres e por