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No tocante ao “ICMS ecológico”, não há de falar aqui em um instrumento tributário para a consecução de políticas públicas ambientais. Trata-se, na verdade, de um incentivo financeiro aos Municípios, como bem assevera Paulo Henrique do Amaral115, uma

vez que corresponde ao repasse de parcela das receitas oriundas do imposto sobre operações

113 Art. 2º, VI, “g”, da Lei nº 10.257/2001: “Art. 2o A política urbana tem por objetivo ordenar o pleno desenvolvimento das funções sociais da cidade e da propriedade urbana, mediante as seguintes diretrizes gerais: [...] ordenação e controle do uso do solo, de forma a evitar:[...] poluição e a degradação ambiental.”

114 Cf. art. 61, incisos I e V, da Lei nº. 691/84.

115

relativas à circulação de mercadorias e sobre prestações de serviços de transporte interestadual e intermunicipal e de comunicação - ICMS aos municípios que desenvolverem políticas de conservação ambiental e de melhoria na qualidade de vida para as presentes e as futuras gerações.

Ademais, a denominação desse instituto por “ICMS ecológico” formula-se equivocada, pois não se verifica na hipótese de incidência desse tributo situações relacionadas à proteção ambiental. Assim como não há de se confundir a distribuição de receitas decorrentes do ICMS já devidas aos municípios, por sua vez, conforme critérios ecológicos, com a vinculação do produto da arrecadação do imposto ao financiamento de políticas ambientais, o que se configuraria nitidamente inconstitucional.116

A Constituição Federal determina, em seu art. 158, inc. IV, que 25% da arrecadação do ICMS pelo Estado pertencem aos Municípios. Dentre esses 25%, um quarto das receitas é repassado conforme critérios estabelecidos pelo ente estatal. O “ICMS ecológico” constitui-se exatamente no critério ambiental para a redistribuição dessa parcela, de modo que os Municípios que realizarem políticas voltadas para a conservação das reservas florestais, assim como desenvolverem ações de saneamento básico, coleta e tratamento de resíduos, dentre outras ambientalmente orientadas, serão beneficiados com essa parcela do imposto.

Esse mecanismo financeiro foi criado, em princípio, como uma forma de compensar os Municípios que tinham o seu desenvolvimento econômico limitado em virtude das áreas de proteção ambiental que se encontravam dentro das suas fronteiras. Nas palavras de Scaff e Tupiassu,

“necessário fez-se aos Estados conciliarem os ditames constitucionais de modo a também incentivarem a conversação dos recursos naturais, proporcionando, ao menos, algum meio de compensação financeira aos municípios que sofrem limitações de ordem física para o desenvolvimento produtivo, em razão de seu comprometimento territorial com áreas ambientalmente protegidas”. 117

116

PIRES, Edérson. ICMS ecológico: aspectos pontuais, legislação comparada. Disponível em: <http://jus2.uol.com.br/doutrina/texto.asp?id=2328> Acesso em: 06 nov. 2008.

117

SCAFF, Fernando Facury; TUPIASSU, Lise Vieira da Costa. Tributação e Políticas Públicas: o ICMS ecológico. In: Revista de Direito Ambiental. V. 38. RT, p. 108, abr.-jun., 2005.

Por sua vez, o “ICMS ecológico” atingiu uma função incentivadora, resultando na adoção de políticas socioambientais por outros Municípios, interessados em se adequar aos critérios ecológicos e receber parcelas oriundas dessa forma de repartição do ICMS.118

Hodiernamente, dez estados da federação já adotaram o “ICMS ecológico”.119 O

Estado do Ceará encontra-se em fase de implementação desse instrumento econômico, criado pela Lei nº. 14.023, de 17 de dezembro de 2007, que modificou os critérios estipulados na Lei nº. 12. 612/96, para distribuição de parcela da arrecadação do ICMS pertencente aos municípios.

Conforme nova redação dada à Lei nº 12. 612/96, o art. 1º, inc. IV, dispõe que, da parcela de 25% do produto arrecadado com ICMS a ser distribuída entre os Municípios cearenses, 2% o será em função do Índice Municipal de Qualidade do Meio Ambiente de cada município, formado por indicadores de boa gestão ambiental, estipulados a cada 2 (dois) anos pelo órgão estadual competente em comum acordo com as entidades representativas dos municípios.

No decreto nº. 29.306, de 5 de junho de 2008, verificam-se as diretrizes que definem o Índice Municipal de Qualidade do Meio Ambiente – IQM. Esse índice é calculado a partir da existência no Município de um sistema de gerenciamento integrado de resíduos tóxicos sólidos urbanos, aprovado pelo Conselho de Políticas Públicas e Gestão do Meio Ambiente/SEMACE.

Cada estado, observando a realidade da sua região, criará critérios de conservação ecológica que estimulem à implantação de políticas ambientais eficientes na promoção de uma melhor qualidade de vida da coletividade.

118

Cf. ZEOLA, Senise Freire Chacha. ICMS – Instrumento de proteção e conservação do meio ambiente. In:

Revista de Direito Ambiental. V. 30. RT, p. 183, abr.-jun., 2003.

119

HEMPEL, Wilca Barbosa. A importância do ICMS ecológico para a sustentabilidade ambiental no Ceará. In:

5 CONSIDERAÇÕES FINAIS

A conscientização da sociedade mundial de que se vive, na contemporaneidade, uma crise ecológica, impõe a adoção de medidas eficazes e imediatas aos Estados e organismos intergovernamentais, com o intuito de se atenuar as conseqüências do processo já evoluído de degradação ecológica.

Convenções e tratados internacionais buscam difundir o estado crítico em que a saúde do planeta se encontra, assim como, propor ações conjuntas entre os governos. Não há como se impor fronteiras à poluição ambiental. Ações destruidoras de um ecossistema na Ásia repercutem na qualidade dos ecossistemas do restante do planeta. Desde a Conferência de

Estocolmo, em 1972, pesquisadores vêm alertando o mundo de que o comportamento humano precisa ser reestruturado, alterando-se padrões de consumo e modelos de produção.

O Direito como uma ciência de transformação social vem ao longo dos tempos desenvolvendo técnicas jurídicas capazes de reorientar a conduta humana no sentido de proteger o meio ambiente e desenvolver a atividade econômica de forma sustentável, corrigindo-se as falhas de mercado, utilizando-se de forma racional os recursos naturais e alcançando valores constitucionalmente previstos.

A Tributação Ambiental surge nesse contexto como uma alternativa às normas de comando e controle ambientais, que determinam comportamentos antijurídicos de agressão ao meio ambiente, coibidos pelo Estado. Ocorre que essas normas não alcançam a eficiência desejada pela Administração Pública, seja pela dificuldade de fiscalização ou mesmo da aplicação das sanções previstas, resultando na impunidade. Os instrumentos tributários, por sua vez, incidem sobre comportamentos lícitos, estimulando condutas ecologicamente corretas através da diminuição da carga tributária suportada pelos contribuintes. Essa desoneração fiscal possibilita ao agente econômico o incremento de sua produção, de modo a aumentar a eficiência da atividade econômica, com ações sustentáveis.

A principal função da Tributação Ambiental corresponde à utilização dos tributos com a finalidade de incentivar comportamentos positivos à saúde ambiental, uma vez que possibilita a adoção de processos de produção mais adequados à conservação ecológica a um custo mais baixo. Além disso, a atividade tributária ambiental, ao visar à internalização dos custos socioambientais até então suportados pelos demais contribuintes, promove uma regulação do mercado, conforme os ditames do princípio do poluidor-pagador. Assim, os responsáveis pelas contaminações ao meio ambiente terão um acréscimo ao preço final dos seus produtos, com a incidência do tributo ambiental, resultando na perda de competitividade desse produto no mercado consumidor.

No tocante à eficiência dos instrumentos tributários na implantação das políticas públicas ambientais, a tributação ambiental viabiliza a aplicação de valores estabelecidos pelos princípios constitucionais e direitos fundamentais, tais como: a garantia de um meio ambiente ecologicamente equilibrado para as presentes e futuras gerações, da dignidade da pessoa humana que desfruta uma melhor qualidade de vida, da ordem econômica estabelecida conforme os ditames da justiça social.

Com a implementação da Tributação Ambiental, altera-se o comportamento predatório do contribuinte, que busca alternativas ecologicamente corretas para desenvolver sua atividade econômica, assim como o do consumidor que ao conhecer os produtos fabricados em desconformidade com os paradigmas ambientais, pode optar pelos produzidos segundo padrões de sustentabilidade ecológica, pagando-se menos por eles. A reeducação dos cidadãos promovida pela atividade tributária ambiental resulta em uma maior disponibilidade dos recursos do Estado para a efetivação de políticas ecológicas. Ademais, os tributos ambientais reduzem os gastos públicos com as ações de fiscalização e monitoramento de comportamentos ilícitos ao meio ambiente, assim como os destinados à recuperação de áreas ambientais degradadas, tendo em vista o caráter preventivo desses tributos.

Alguns estudiosos acenam no sentido de considerar a arrecadação decorrente da Tributação Ambiental como um dos seus objetivos. Todavia, a eficiência desses tributos ambientais se verifica no momento em que os recursos arrecadados tendem a zero. Isso ocorre porque quanto mais os contribuintes adotarem comportamentos ecologicamente corretos, menos o tributo incidirá, produzindo receitas cada vez menores. Desta sorte, não se pode avaliar a fiscalidade tributária como uma finalidade precípua da atividade tributária ambiental. Pode-se perceber que a Tributação Ambiental, apesar de um direito novo, já contribui com a implantação de políticas públicas, seja através da criação de tributos ecológicos, como a Taxa de Controle e Fiscalização Ambiental – TCFA, seja mediante incentivos fiscais, como o observado na isenção do IPVA no Estado do Ceará a veículos com motor elétrico.

Faz-se necessário a criação de uma legislação tributária voltada para a consecução das finalidades ambientais, levando-se em consideração as circunstâncias do caso concreto na instituição de tributos ecológicos e na concessão de benefícios fiscais, objetivando-se uma melhoria na qualidade de vida da coletividade, a proteção do meio ambiente e o desenvolvimento sustentável da atividade econômica.

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Benzer Belgeler