Outra matriz religiosa é a africana, sobre a qual nossa sociedade tem diferentes olhares. Em primeiro lugar, porque esse povo foi durante muitos séculos considerados como uma raça inferior. Por isso, justifica-se a condição de “escravo”, subserviente dos brancos. A cultura brasileira ao lado dos indígenas sofreu fortes influências. Enquanto os colonizadores europeus eram vistos como superiores, os negros sofriam uma dupla escravidão: humana e psicológica, pois, além de serem considerado como uma raça inferior, por causa da cor, também foram colocados pela força do tráfico de escravos, sendo vendidos, examinados, humilhados e tratados como mercadoria dos brancos. De acordo com Lobo (2000, p. 13) que cita: Os Orixás migrantes: nadando da África para o Brasil.
Os deuses tiveram que migrar juntamente com seus protegidos. Os povos africanos são um exemplo vivo desta „migração forçada‟ dos seres divinos. Não teriam suportado, resistido e reagido à infame escravidão em terra estrangeira sem o auxílio de seus fiéis orixás. [...], os orixás tiveram de dialogar com as cortes celestes estrangeiras e fazer algumas concessões. Primeiro tiveram que se entender com as divindades indígenas. [...], estavam todos no „mesmo barco‟ e isso deu à luz a riqueza das pajelanças e catimbós [...].
Para esse povo, vida e religião era uma coisa só, não havia separação entre vida sagrada e profana e não existiam ateus. Essa tradição criou uma visão de mundo, tudo era de caráter religioso. Deus é chamado de Olorum – Olodumare, o qual confere uma série de atributos aos seus adeptos e que também veneram esse Ser Supremo, como um ser de bondade e clemência. Por outro lado esse Ser para eles também é capaz de mostrar a sua ira, mandando catástrofes e inundações, eliminando assim muitas vidas. Seus cultos estão ligados aos seus antepassados e às suas divindades. Ele afirma (Ibidem, p. 7): “Nas tradições religiosas afro- brasileiras, o ser humano é dimensionado como parte integrante desta totalidade cosmológica. Homem-Orixá-Deus criador integram esta totalidade divina”.
Apesar da cristianização e ocidentalização, imposta a eles, essa cultura ainda surpreende enquanto religião tradicional, devido o apego à terra dos seus antepassados. Isso é uma inquietação para essas pessoas, quando têm como modelo cultural religioso a sua religião.
No início tudo era difícil para esta cultura em relação às suas crenças religiosas no século XVI, pois, para o negro realizar seus rituais tinha que se valer
dos Santos da Igreja Católica Romana, que serviam de sustentáculo para a realização dos seus ritos. Hoje não se tem mais esta necessidade, e alguns não admitem a presença de imagens dos Santos Católicos dentro de alguns terreiros de Nação Africana. Entretanto, ainda existem resquícios do cristianismo em relação aos santos em muitos terreiros. De qualquer forma este sincretismo religioso, envolvendo estas três culturas: Cristianismo católico, Indígenas e africanas, que cultuam o seu sagrado de forma diferente, até hoje perdura não só nos rituais, mas em toda a tradição cultural brasileira.
Com o surgimento do sincretismo religioso em que os escravos eram obrigados pelos jesuítas a adorarem as imagens dos santos, no imaginário deles faziam isto pensando em seus deuses orixás. A mistura de povos e culturas era onde os ritos católicos eram confundidos, com o intuito de resgatar o misticismo da cultura africana. O contato com a natureza atribuía toda forma de poder a ela e assim podiam se comunicar com as suas divindades.
Botas (2002, p.14) nos mostra quem é Deus para os africanos:
Deus é a força vital – o axé – que organiza e integra o homem e o mundo além das aparências. Não existe uma separação como no catolicismo, entre terra e céu. Existe o mundo visível – ayé – e o mundo invisível – orún. Por isto o Deus africano não é somente transcendente, mas imanente, pois está sempre presente na vida cotidiana. Ele não é um Deus puramente lógico ou racional, mas é o Deus do coração. É ativo, pai e mãe, é o Deus da vida. Não é um Deus abstrato e distante. É concreto, real e existente no seio da família e da comunidade. O Deus africano é um ser social, interessado na tensão cotidiana, na frustração, na desilusão e na bênção.
Esta tradição religiosa se apresenta com uma participação vital quando se relaciona com os poderes cósmicos através de sua relação com o sagrado, apesar destas diferenças em relação ao cristianismo, por não existirem escritos, e por isso ser considerada juntamente com a cultura indígena, entre outras, de religiões orais que se comunicam através de seus ritos, símbolos e até mesmos suas experiências concretas.
Mesmo assim, como observamos no sincretismo religioso, existe uma série de questionamentos, os quais requerem respostas, o que é próprio do ser humano. Outro aspecto é o fato de abertura deste ser humano, e por isso existir a possibilidade de “inventar e transformar” a natureza como respostas às suas exigências. Isso vem dificultar o entendimento e o relacionamento com as diferenças, pelo egocentrismo próprio do ser humano que apresenta na sua
individualidade, grupos ou sociedades, a sua forma de viver, onde se organizam, criam suas normas e, ao mesmo tempo, julgam ser melhor que o outro.
É interessante relatar e fundamentar sobre o fenômeno religioso dessas culturas porque originaram a tradição religiosa do nosso país, por isso se faz necessário buscar um aporte teórico, na intenção de conhecer sobre o fenômeno religioso, dessas culturas religiosas, tão relevantes para o povo brasileiro, bem como ser um conhecimento para ser estudado em sala de aula, pois esses povos muito contribuíram na formação do povo brasileiro.