26 4.2. Vize Deresi Havzası
4.2.2. Vize deresi havzası taĢkın hidrografları
O questionamento acerca do que é a verdade é provavelmente uma das mais antigas perguntas da tradição filosófica.
Com a guinada hermenêutica e linguístico-pragmática102, que revolucionou o pensamento filosófico das últimas décadas, a reflexão prossegue com um instrumentário conceitual consideravelmente modificado.
Segundo Nietzsche, as verdades seriam possivelmente apenas equívocos de que necessitamos para sobreviver A visão cética, antes contraposta a uma filosofia da consciência, perde seus fundamentos ao ser contraposta ao paradigma filosófico hermenêutico e ao paradigma pragmático discursivo.
Habermas contrapõe à visão niilista a uma teoria da verdade afeta à sua teoria discursiva e à sua pragmática universal. O autor chega, desde de seu antigo artigo “Teorias da verdade”, de 1972, até “Facticidade e Validade”, de 1992, a um conceito de verdade através de uma teoria do consenso, ou seja, do discurso da verdade. Antes de analisarmos esta teoria, situemo-nos na história da filosofia acerca do problema da verdade.
O que é a verdade? O que é falso ou verdadeiro?
Até o século 19 o conceito de verdade teve suas bases na clássica teoria da verdade como correspondência. Nesta, um enunciado (ou juízo, proposição ou asserção) só pode ser chamado de verdadeiro se existe um estado de coisas que o enunciado expresse. Um estado de coisas que existe é um fato. A verdade seria a adequação entre o intelecto e o fato. Em São Tomás de Aquino, veritas est adaequatio intellectus et rei, verdade é a adequação entre intelecto e coisa.103
A verdade estaria, assim, nesta teoria, num fato do mundo. Teríamos, por sua vez, acesso a essa ontologia com a adequação de nosso intelecto à verdade. O encontro da verdade seria um reconhecer, um retratar um fato existente a priori através de uma adequação deste104. Porém, o que faz algo conferir ou não ao nosso intelecto, qual critério de decisão verdadeiro é este? O que é aquilo com que se deve corresponder o enunciado para ser verdadeiro?
102 Vemos a guinada hermenêutica como um momento preparador, que será complementado pela pragmática-
discursiva. Nesse sentido, nos valemos de Habermas:” No ensaio de abertura apresento a tradição hermenêutica, que vai de Humboldt e Schleirmacher a Heidegger e Gadamer, como manifestação de outra versão do viés linguístico. A mudança de paradigma, da filosofia mentalista para a linguística, realizou-se de duas maneiras bastantes diferentes mas complementares. Elas abordam a linguagem segundo aspectos opostos. Ao passo que Frege e a tradição analítica em geral se interessam antes de tudo pela função representativa da linguagem e pela estrutura propositiva de sentenças afirmativas simples, enfocando, assim a relação entre sentença e fato. Heidegger e os filósofos hermeneutas analisam a função por meio da qual a linguagem comum revela o mundo e procuram encontrar as visões de mundo inscritas nas características gramaticais da linguagem. Os dois partidos usam meios diferentes: os instrumentos da análise lógica, de um lado, e o método linguístico de conteúdo. Apesar disso, ambos –tanto a abordagem elementarista da semântica da forma quanto a abordagem holística da semântica de conteúdo-comentem a mesma falácia abstrativa: desconsideram os aspectos pragmáticos do diálogo que, para Humboldt, constituíam o próprio lugar da racionalidade comunicativa”. (HABERMAS, Jürgen. A ética
da discussão e a questão da verdade. São Paulo: Martins Fontes, 2013, p. 52)
103 ALEXY, Robert. Teoria da argumentação jurídica: a teoria do discurso racional como teoria da
fundamentação jurídica. Rio de Janeiro: Forense, 2013, p.108.
Não se encontrando a verdade no mundo dos objetos transcendentais, estaria ela nos fenômenos que o sujeito transcendental pode conhecer com sua razão? Ou a verdade simplesmente seria uma evasiva que utilizamos para nos enganar?
Passeando na história da filosofia sobre o questionamento acerca da verdade por uma ontologia, por uma filosofia da consciência, por um niilismo, chegamos, agora, a guinada linguística, hermenêutica e pragmática.
A história da filosofia do conhecimento é marcada por três grandes paradigmas representantes de três grandes fases do pensamento filosófico. Na primeira fase, o pensamento gira em torno da ontologia das coisas, tendo como seus maiores representantes deste paradigma o pensamento de Platão e Aristóteles. Na segunda fase, ingressamos no paradigma da filosofia da consciência, deslocando-se o questionamento antes focalizado no objeto para o sujeito. Kant, com sua crítica radical da razão, teve importância fundamental nessa mudança de paradigma. Em suas análises, desloca-se o paradigma da ontologia das coisas para o sujeito que tem acesso a ela por meio de sua consciência, buscando-se, neste momento, um conhecimento seguro não mais nas coisas ou objetos, mas concentrando-se nas condições sob as quais um sujeito tem acesso a elas. A terceira grande mudança de paradigma ocorre com a guinada linguística: todo nosso acesso ao mundo ocorre por meio da linguagem e quando nascemos e crescemos já nos encontramos em um mundo permeado por ela. Com a guinada hermenêutica, perceber-se a circularidade sujeito e objeto, que conhece por meio de pré- compreensões linguísticas num mundo permeado de linguagem. Chegamos, agora, a um ser hermenêutico que ao tentar conhecer algo gira em torno de outros sujeitos, interagindo com eles e buscando em mundo sócio-linguístico compartilhado o conhecimento racional resultante do intercâmbio linguístico-pragmático105.
105 Segundo SIEBENEICHLER, Flávio Beno :“O zelo por um filosofia inteiramente esclarecida sobre si mesma
e apoiada sobre um conhecimento seguro levou Kant a pensar num “revolução copernicana”, a ser deflagrada no âmago da teoria do conhecimento. Nesta nova perspectiva, o pensamento já não gira em torno das coisas; estas é que giram em torno daquele, visto que o acesso a elas somente é possível graças a formas de representação da consciência transcendental. Como consequência, a busca para um conhecimento seguro não visa mais, em primeiro lugar, às coisas ou objetos, concentrando-se nas condições sob as quais um sujeito tem acesso a elas. De sua parte, Habermas compartilha com Kant a necessidade de encontrar um caminho seguro para manter a filosofia no nível das ciências. Discorda, porém, quanto ao caminho a ser trilhado e toma a decisão, audaz, de colocar nos trilhos da ciência uma nova teoria da sociedade, em geral tecida com elementos da prática comunicativa cotidiana. É interessante notar que a teoria do agir comunicativo submete o próprio método kantiano a uma espécie de guinada copernicana, pois sugere que, em vez de abordar o conhecimento segundo uma razão centrada em um sujeito singular ou numa consciência transcendental, devemos pensar que o sujeito, ao tentar conhecer algo, gira em torno de outros sujeitos, uma vez que o conhecimento racional resulta de um intercâmbio linguístico entre eles” (SIEBENEICHLER, Flávio Beno. Apresentação à edição brasileira. In HABERMAS, Jürgen. Teoria do agir comunicativo: racionalidade da ação e racionalização social. vol I. São Paulo: Martins Fontes, 2012, p.VIII e IX.). Walter Reese Schäfer traz em sua obra “Compreender Habermas”,
uma tabela que nos auxilia a compreender estas mudanças de paradigmas na história da filosofia. Segundo
Nossa compreensão de mundo é sempre retratada através da linguagem. Mesmo na ciência empírica, voltamo-nos a argumentações e justificações calcadas em teorias e aceitações intersubjetivamente compartilhadas. Da mesma forma, nossa interação com o objeto que queremos conhecer ocorre circularmente. As discussões acerca do que é empiricamente verdadeiro ocorrem pela linguagem compartilhada por sujeitos que interpretam o mundo à sua volta e que solucionam suas divergências acerca da verdade argumentativamente, através da aceitação de paradigmas, conceitos, teorias compartilhadas em níveis mais abstratos. Fatos não são, tal como os objetos, algo no mundo, dependendo essencialmente da linguagem106.
Em uma abstração de um empreendimento comunicativo comungado por todos os participantes de uma comunidade ilimitadas de seres racionais, em condições ideias de fala, a verdade preserva seu momento contrafactual transcendental de absoluto. Neste contexto, o juízo verdadeiro e o juízo falso encontram sua validez num consenso geral dos racionais que, em caso extremo, inclui também a comunidade científica ilimitada no futuro. Nesta abstração, seria possível o encontro “da verdade”. No âmbito factual, ao nos comunicarmos, pressupomos a verdade das proposições que emitimos e que aceitamos e modificamos nosso juízo através de argumentos. A modificação ocorre quando, através da linguagem, são nos evidenciadas certezas que comungamos no nosso mundo social de experiência linguística compartilhada.
Habermas elabora uma teoria- consensual da verdade discursiva – apta a preservar esses dois momentos da verdade e a tensão permanente entre facticidade e validade presente na linguagem.
O factico, ancorado “nas certezas” do intersubjetivamente compartilhado, sempre em permanente tensão com a pretensão de sua validez, a qual submete o fáctico a ilimitada possibilidade de reconstrução por novos argumentos, estes fundados novamente no factico. Assim, “certezas do mundo da vida”- facticidade- acompanham a possibilidade sempre que são chamados de paradigmas, em referencia a Die Struktur wissenschaftlicher Revolutionen (A estrutura das revoluções científicas), de Thomas S. Kuhn. Nestes paradigmas, os temas centrais do pensamento são declinados de forma bem diferenciada. Para uma visão geral, confira a tabela abaixo:
PARADIGMA ONTOLÓGICO MENTALÍSTICO LINGUÍSTICO
Esfera Ser Consciência Linguagem
Conteúdo Ente Sujeito Proposições
Questão inicial O que é? O que posso saber? O que posso entender? Principal representante Platão, Aristóteles Descartes/Kant Wittgenstein
(SCHÄFER-REESE, Walter. Compreender Habermas. Petrópolis: Vozes, 2012, p.53).
106 ALEXY, Robert. Teoria da argumentação jurídica: a teoria do discurso racional como teoria da
presente de sua reconstrução verdadeira- validade.
A verdade e a falsidade de um juízo sempre encontram a sua justificação no âmbito pragmático da comunicação entre seres racionais, e este corre ilimitado em um aspecto universal, transcendente, pressuposto por nós ao nos comunicarmos. Em um nível, verdade é, então, uma ideia reguladora: a “ultimate opinin” nunca realmente existente em uma comunidade indefinida. Em outro nível, a representação da verdade ganha contornos pragmáticos, exigidos na prática comunicativa e orientador da exigência de “certeza”, de facticidade, inerente as nossas ações comunicativas e a todo emaranhado de práticas que efetuamos com a linguagem nas culturas especializadas.
Segundo Walter Reese-Schäfer:
Enfatizei tanto a natureza de dois níveis da teoria da verdade de Habermas porque ela permite distinguir entre o consenso momentâneo, talvez instável, se saber se algo é o caso ou não, e o consenso da comunidade do discurso ‘in the long run’. Com isso, retira-se dos críticos da teoria do consenso o argumento imediatamente tão evidente, tão plausível, de que ela declararia como verdadeiro mesmo qualquer equívoco sobre o qual exista consenso. O que acontece, porém, se a reflexão filosófica arrisca tudo e pergunta se também o consenso no segundo nível, o consenso sobre os critérios, portanto, a ‘ultimate opinion’ da comunidade científica não poderia estar incorreto. Neste caso, evidencia-se o ponto forte da teoria do consenso. Ela pode admitir isso com a possibilidade nunca totalmente descartável e, apesar disso, ater-se à verdade como conceito orientador no primeiro nível. (REESE-SCHÄFER, 2012, p. 28)
Através desses dois níveis supre-se a exigência imanente que o conceito de verdade traz em si e o caráter orientador da verdade em nossa comunicação.
O conteúdo de verdade e falsidade apenas pode ser aferido no interior da comunicação. Seja em seu aspecto transcendental e ordenador contrafactual- abstração de uma situação ilimitada e ideal de fala- seja na prática comunicativa do dia a dia, no momento atual pós-metafísico da filosofia, a problemática acerca da verdade e de sua teorização é obrigada a deslocar-se do aspecto material ao âmbito do procedimento discursivo. O conceito de verdade em Habermas envolve, assim, uma abstração procedimental de um empreendimento discursivo, no qual o saber, compartilhado linguisticamente pela comunidade ilimitada dos seres racionais, revela a verdade. Num plano imanente, assume os ares procedimentais de um discurso abstrato operado em uma situação ilimitada e ideal de fala.
A situação ideal de fala seria composta por quatro condições:
1) Todos os participantes potenciais em um discurso devem ter igual oportunidade de empregar atos de fala comunicativos, de modo que a qualquer momento possam tanto iniciar um discurso como perpetuá-lo mediante intervenções e réplicas, perguntas e respostas
2) Todos os participantes no discurso devem ter igual oportunidade de formular interpretações, afirmações, recomendações, dar explicações e justificativas, e de problematizar, fundamentar ou refutar sua pretensão de validade, de modo que nenhum prejulgamento se subtraia a longo prazo da tematização e da crítica
3) Para o discurso admitem-se apenas falantes que, como agentes, tenham oportunidades iguais de empregar atos de fala representativos, isto é, de expressar suas posições, sentimentos e desejos. Pois somente a concordância recíproca dos universos de expressão individual e a simetria complementar entre proximidade e distância nos contextos de ação garantem que os agentes, também como participantes no discurso, sejam também verídicos uns com os outros e tornem transparentes sua natureza interior
4) Para o discurso só se admitem falantes que, como agentes, tenham a mesma oportunidade de empregar atos de fala reguladores, isto é, de mandar e opor-se, de permitir e proibir, de fazer e retirar promessas, de prestar e pedir contas. (REESE- SCHÄFER, 2012, p. 24)
Veremos posteriormente em Alexy a sistematização e o incremento dessa situação ideal de fala.
A teoria do discurso da verdade nos traz uma abstração conceitual poderosa para a refutação do ceticismo acerca da fundamentação de proposições normativas.